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Ângelo Ribeiro (1928)

No documento Bonus Rex ou Rex Inutilis (páginas 103-117)

“A colisão entre a igreja e o trono”, in História de Portugal

dir. de Damião Peres, 7 vols., Porto-Barcelos, Portucalense Editora, 1928-1937. Suplemento I, Porto, 1954; Suplemento (Franco Nogueira), Porto, 1981

Conhecida comummente como «Edição de Barcelos», por ter sido publicada pela Portucalense Editora, intitula-se, no seu frontispício, como «Edição Monumental Comemorativa do 8º Centenário da Fundação da Nacionalidade». É considerada como o grande monumento institucional da historiografia portuguesa da Ditadura Militar e do início do Estado Novo.

É essencialmente uma historiografia «política» e «cultural» cuja concepção é a de uma história patriótica e heróica, bastante nacionalista, mas sem se inserir no modelo «tradicionalista». É uma obra desigual, feita por muitos autores, geralmente universitários, e cujos textos vão dos que são explicativos, relacionadores, inquisitivos e problematizantes, aos que são meramente descritivos e narrativos121.

121 Esta História tem sido alvo de bastante trabalhos críticos, que dela procuraram extrair influências, modelos,

conteúdos, acabando por ser referida como uma obra limitada pelo espaço político e ideológico totalmente fechado em que foi produzida. O estado salazarista e a censura imposta às ideias e modelos estrangeiros transformaram-na numa história incapaz de acompanhar e utilizar a dinâmica de crítica e mudança da maior parte da historiografia europeia do seu tempo.

A estrutura da obra, criticada por alguns autores122, apresenta-se dividida por dinastias e, sendo de grande sentido didáctico, é apoiada por trabalhos anteriores123.

O princípio do reinado de D. Sancho II encontra-se descrito no capítulo XIV, intitulado «A colisão entre a igreja e o trono» e que é escrito por Ângelo Ribeiro. Este capítulo, que de facto começa no reinado de D. Afonso II, desenvolve o conceito de crise existente entre as duas instituições. A fricção entre a Coroa e a Igreja é expressa através das inquirições que o rei lança sobre o território que governa. O excesso de zelo que D. Afonso II coloca nestes actos, bem como nas confirmações, procurava fortalecer o princípio de integridade do património do estado. Todo o processo governativo do pai de D. Sancho II parece escorar-se no pressuposto de que as mercês concedidas pela coroa têm um carácter transitório e, portanto, passíveis de serem confirmadas por todos os soberanos que lhe sucedam. Este processo das confirmações constitui uma inovação no quadro jurídico da época124, pela sua aplicação sistemática e pelo fortalecimento que estas acções trazem à soberania do rei.

Confirmações e inquirições são instrumentos fundamentais na contenção dos abusos mais comuns levados a cabo pelos privilegiados sobre o património público. Estas usurpações eram frequentes e representavam uma acentuada diminuição do poder régio e

122 Cf., GODINHO, Vitorino Magalhães, «A historiografia portuguesa do século XX. Orientações, problemas e

perspectivas», (1ª ed., 1955), in Ensaios, III: Sobre teoria da história e historiografia, Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora, 1971, pp. 227-247.

123 Como a História de Portugal de Fortunato de Almeida e a História de Portugal de Luís Gonzaga de Azevedo e,

sem dúvida, a História de Portugal de Paulo Merêa e Damião Peres, de grande carácter didáctico e que foi escrita para corresponder ao programa oficial das classes VI e VII do ensino secundário.

124 Não a sua existência, pois já constava do direito consuetudinário, mas a sua aplicação generalizada como

dos rendimentos da coroa. A aplicação daquelas medidas não foi pacífica e os grupos senhoriais laicos e eclesiásticos tentaram, por todos os meios, opor-se à nova situação que os impedia de adquirir, de forma ilícita, mais património e influência.

A este quadro juntam-se problemas específicos provocados pelo atrito entre as duas esferas de poder: a eclesiástica e a civil. O rei intromete-se em questões canónicas, o que leva a igreja portuguesa a reagir. É o que se passa com um conflito entre o bispo de Lisboa, D. Soeiro, e o rei de Portugal, por causa de supostos benefícios retirados ao deão, o famoso mestre Vicente. Segundo o autor, terá sido este último a provocar o dissídio, que resultou em luta aberta e «numa séria colisão entre o trono e a igreja»125. A situação precipita-se de tal forma que se assiste à formação de um partido preocupado com a resistência à intromissão do clero nos assuntos do Estado, e onde pontificam figuras importantes como o mordomo Pedro Anes e o chanceler Gonçalo Mendes, discípulo do famoso chanceler da cúria, mestre Julião.

A colisão do trono com o altar complica-se de tal forma126 que a pressão sobre a coroa aumenta. Situação, que se agrava mais, com a intromissão nos assuntos civis das novas ordens monásticas constituídas por monges pregadores, ávidos de impor à cristandade regras mais duras sobre os costumes e a moral da época, que consideravam, estarem desleixados e corrompidos.

São constantes as admoestações papais, enviadas ao rei em forma de Bula, que no entanto não desiste de afirmar a soberania do seu poder. A repressão sobre a igreja

125 Cf., RIBEIRO, Ângelo, “A colisão entre a igreja e o trono”, in História de Portugal, dir. de Damião Peres, vol.

II, p. 197.

126 Situação que se agrava mais com a intromissão nos assuntos civis das novas ordens monásticas constituídas

por monges pregadores, ávidos de impor à Cristandade regras mais duras sobre os costumes e a moral da época, que consideravam estarem desleixados e corrompidos.

portuguesa é constante, pelo menos enquanto o rei tem vigor. O declínio da saúde de D. Afonso II e as fortes pressões internas e externas, levam os seus principais validos a aconselhar prudência nas atitudes a ter para com o forte poder eclesiástico. E talvez tenham acabado por ajudar o espírito do rei que moribundo chega a entendimento com o clero do reino, representado pelo arcebispo de Braga. As negociações127 arrastam-se durante meses até á morte do rei no dia 25 de Março de 1223.

Muito importante é o testamento do rei que indica criteriosamente a ordem de sucessão à coroa portuguesa. O primogénito teria o reino. Se morresse sem herdeiros o trono passaria para o mais velho dos irmãos legítimos «integralmente e em paz». Faltando herdeiro varão o reino ficaria para D. Leonor, filha legítima do rei, e futura rainha da Dinamarca. O testamento assume uma importância significativa neste trabalho por causa da menoridade dos infantes e de quem assumiria a regência. A última vontade régia é de que os destinos de Portugal fiquem na mão dos seus curiais até á idade de róbora do primogénito real. A morte da rainha em Novembro de 1220 faz com que a última cláusula sucessória seja activada. A regência é confiada aos homens que o tinham rodeado.

São estes validos os responsáveis pela continuação das negociações entre a Coroa e a Igreja. Rodeando o jovem rei procuram a normalização das relações entre os dois poderes. Era imperioso que se procedesse a uma composição definitiva com o clero, pois o rei morrera excomungado e não fora sepultado em campo santo.

É estabelecida a concórdia com a igreja onde o novo rei se compromete a respeitar os privilégios eclesiásticos e a acabar com os «abusos» cometidos pelos homens

127 O plenipotenciário designado pelo rei para o representar naquelas negociações foi mestre Vicente, inimigo

de seu pai. É feita uma estimativa dos prejuízos sofridos pela Igreja e o rei deposita nas mãos dos dignitários eclesiásticos somas astronómicas que servem como penhor da sua boa fé. Outro problema que carece de resolução é o do conflito entre a coroa e as infantas reais, tias de D. Sancho II. Composição que também é estabelecida com a cedência por parte do rei de direitos e de dinheiro, através de pensões anuais, consignadas nos rendimentos de várias terras do reino que passam para as mãos daquelas damas.

Parece ser o fim do conflito entre o império e o papado e o autor enaltece a figura de D. Afonso II, como o primeiro rei português, que procurou «tenaz e conscientemente, a supremacia do poder civil na ordem política»128. Ao invés, Sancho é considerado como incapaz de manter a dinâmica do poder civil.

O capítulo XV faz a descrição de grande parte do período de governação de D. Sancho II, colocando em destaque as acções militares portuguesas, leonesas e castelhanas sobre o espaço peninsular dominado pelo Islão.

Se durante o reinado de Afonso, o Gordo, apenas está registada nos anais a conquista de Alcácer, a partir de 1226, e com o novo rei, parece iniciar-se uma fase diferente, onde os portugueses voltam a ter a iniciativa. Os anos de 1226 a 1238 são de grande dinâmica militar, onde o rei dirige, de novo, os cavaleiros portugueses, numa arremetida que atira os muçulmanos mais para Sul, para as prias algarvias.

Mas estas «glórias militares» terão repercussões negativas no interior do reino. Esta é a posição do autor, que acha que a administração do reino será desleixada já que todos estão demasiado envolvidos no esforço da Reconquista. A dinâmica imparável da guerra vai trazer às terras de origem ricos-homens e cavaleiros, arrogantes nas suas vitórias, e

128 Cf., RIBEIRO, Ângelo, “A colisão entre a igreja e o trono”, in História de Portugal, dir. de Damião Peres, vol.

incapazes de guardar as armas. A violência interna é provocada por estes soldados incontroláveis, que, mais tarde, organizados em dois bandos distintos, vão colocar o País a "ferro-e-fogo".

Este desequilíbrio insano dos militares e dos nobres é, para Ângelo Ribeiro, largamente aproveitado pelos bispos e restante clero, que insaciáveis de «influência na vida pública», instigam a anarquia e conspiram para arrancar o monarca do trono, substituindo-o por alguém que possam controlar. Mais os acusa pelo facto de serem os clérigos detentores de cultura literária e, por conseguinte, dos registos que «depois haviam de servir de fundamento à história»129. Como o rei era forte na guerra, os seus feitos não transpareceram para a história, ou foram desvalorizados, por aqueles que o consideraram um rei fraco na paz, na administração do reino, por muitas vezes ser contrário às pretensões civis da Igreja. Não levanta qualquer suspeita acerca da eventual manipulação da memória sobre o rei, feita depois da deposição e ao longo dos tempos.

Refere a escassez de fontes directas para o período da governação de D. Sancho II. O conhecimento científico possível radica em referências extraídas da análise das cartas de foral, de algumas doações régias e das inquirições de D. Afonso III130.

E na sequência do que é tradicional introduz a questão da menoridade do rei. Seria um «joguete de duas facções que se tinham formado na corte, substituindo-se uma à outra na posse dos primeiros cargos palatinos...»131.

129 Cf., Idem, ibidem, p. 212.

130 Atribui a Fr. António Brandão (séc. XVII) e a Alexandre Herculano (séc. XIX) o pioneirismo no estudo

deste reinado a partir daquelas fontes.

Indica também a «ilegalidade» da chancelaria régia, onde os documentos são produzidos fora dos cânones tradicionais, carecendo do formulário habitual, ou não indicando os confirmantes. Atribui este facto às constantes mudanças de titulares dos cargos curiais, em especial os de mordomo-mor e alferes-mor.

E, sobre as cartas que parecem corresponder aos formulários normais da chancelaria, aproveita a teoria132 de que nas cidades de Coimbra e de Santarém se manteve uma espécie de administração central controlada por mestre Vicente e outros antigos dignitários de D. Afonso II, cujos cargos eram respeitados pelas regiões a sul do Douro, não controladas pela facção chefiada pelos Sousas.

Outra das questões levantadas em torno do reinado de D. Sancho II é a da presença do rei nas operações militares contra os Sarracenos. Considera o rei um militar activo e responsável por grande parte dos êxitos militares. Agrega ao rei uma das facções palacianas, a controlada pelos Sousas133. Da guerra traz o prestígio de caudilho guerreiro e a vontade própria. Após a expedição de Elvas (que aqui não é referida como desastrosa) o rei dedica-se à administração do reino. A sua presença na corte parece destacar a vitória de um dos partidos. Curiosamente não é o dos Sousa. Nos documentos datados de 1229 já nenhum aparece como confirmante. É mestre Vicente que sucede no cargo de chanceler régio134 e, com Fernando Fernandes e Martim Anes, torna-se na personagem de maior

132 Segue, a ideia de Alexandre Herculano, sobre esta matéria.

133 Considera a hipótese de «rapto» do rei por esta facção. O jovem rei estaria «sequestrado» na sua própria

corte. Esta teoria servia para explicar, também, a desagradável sucessão de curiais.

influência junto do monarca, predominando, de novo, um forte pensamento, contrário à participação do clero nos negócios do estado.

A governação de mestre Vicente provoca reacções. O papa, informado das dificuldades da Igreja em Portugal, intromete-se e envia um legado apostólico135 que acaba por conseguir pacificar os grupos opostos. Da sua acção surge uma forte dinâmica sobre o povoamento das zonas fronteiriças, com fortes doações às Ordens Militares. A estas acções associa-se a continuação das operações militares contra os Sarracenos em coordenação com os reinos de Leão e de Castela. Ao autor não passa despercebida a potencial crise leonesa provocada pelo falecimento de Afonso IX. Parece que o rei não quer ver no trono de Leão o rei de Castela. Preferia uma das infantas nascidas do seu primeiro casamento com D. Teresa de Portugal. E neste contexto, introduz a famosa reunião de Valença entre as duas esposas de Afonso IX, onde D. Teresa decide, após negociação, apoiar as pretensões do rei castelhano ao trono leonês, contribuindo assim para ajudar a apaziguar o clima de guerra civil que se preparava em Leão. Próximo da fronteira, no Sabugal, Os reis de Portugal e Castela encontram-se e juram amizade.

Deste encontro resulta a restituição de Chaves a Portugal. Refere, as dúvidas, que existem em torno do momento exacto em que esta reunião terá ocorrido, se antes ou depois do encontro das duas rainhas em Valença. De qualquer modo Fernando III, à beira da revolta dos barões leoneses, desloca-se à fronteira portuguesa, onde se reúne com um rei de um País «mais fraco». Parece paradoxal, mas a paz com Portugal ou apoio eventual de forças portuguesas num futuro conflito civil em Leão, poderia ter motivado uma deslocação propositada ao Sabugal para se reunir com o seu primo português.

135 D. João de Abbeville.

É, pelo menos estranha, a posição do rei de Portugal em não querer o príncipe castelhano à frente de Leão. Na opinião do autor tal atitude fortaleceria ainda mais a oposição senhorial portuguesa. É provável que Mestre Vicente tivesse aconselhado D. Sancho a aproximar-se de D. Fernando de Castela e a assinar um acordo que neutralizasse as oposições portuguesa e leonesa.

1232 encontra a hoste régia do rei a ocupar os baluartes de Serpa e de Moura, enquanto por todo o Alentejo conquistado as Ordens Militares procedem à intensificação do povoamento. Os dois mestres, o de Santiago e o da Ordem de S. João do Hospital, são destacados, à frente das duas ordens, nas campanhas contra os Sarracenos e na reorganização do espaço adquirido. A década de trinta é-lhes vantajosa pois D. Sancho II distribui-lhes largas doações territoriais, compensando assim os esforços que vão durar até 1244, com a conquista de algumas praças algarvias.

Consideração que consideramos importante, diz respeito, à existência de operações navais portuguesas nas costas do Algarve e, até agora, pouco referidas. O autor suporta essas afirmações com excertos da bula de Gregório IX que concedia indulgências aos que fizessem guerra aos Sarracenos, «por terra e por mar» e por dois documentos coevos. Um refere a existência de uma máquina específica (debadoyra) para varar e pôr no mar alto navios de guerra de alto bordo, o segundo fala de marinheiros régios e barcos do rei no porto de Lisboa. As palavras do rei nessa carta dizem que multará severamente quem prejudicar os seus marinheiros, o que parece confirmar a existência de um corpo regular de tropas navais bem organizado. O autor considera a sua mais que provável utilização como apoio à ofensiva terrestre sobre os Sarracenos do Algarve.

No capítulo XVI, intitulado «a revolução do Bolonhês», o mesmo autor, continua a considerar D. Sancho II um guerreiro excepcional que, «[...] provava ser um excelente guerreiro, um digno bisneto de Afonso Henriques, podendo, sob esse ponto de vista, figurar brilhantemente a par do rei de Castela, Fernando III...»136, mas um fraco governante, a quem faltavam qualidades essenciais.

As acções de povoamento iniciadas no final da década de vinte pareciam indicar que o monarca sabia o que fazia e que os tempos da indisciplina interna tinham passado. Mas não era assim.

A incapacidade de controlar a forma como a clerezia adquiria benefícios, a pulverização dos serviços públicos, tão bem organizados nos tempos de D. Afonso II, as brutalidades e violências da fidalguia que pouco terá ganho com a guerra, as irritantes quezílias com os dignitários eclesiásticos, a intromissão constante do direito público nos assuntos do canónico, são factores perturbantes ao reinado de Sancho II. As lutas entre nobres e eclesiásticos são constantes e sempre pelo mesmo motivo: demarcação de propriedades, usurpação de direitos sobre terras coutadas e o não cumprimento dos legados pios137.

Não tem dúvida que a inabilidade política do rei contribui para o estado caótico em que o reino e a sua administração terão caído, mas que nas queixas da Igreja, as verdades existentes eram ampliadas e exageradas, ajudando a criar, a quem as ouvisse, uma imagem distorcida do que de facto ocorria em Portugal.

136 Cf., RIBEIRO, Ângelo, “A colisão entre a igreja e o trono”, in História de Portugal, dir. de Damião Peres, vol.

II, p. 225.

137 Refere ainda que os bispos investiam sobre as ordens monásticas e que até as Ordens Militares se

Intensamente informado Gregório IX envia uma Bula138 prescrevendo normas de conduta rigorosas para o rei. Nem mesmo a conduta militar de D. Sancho II que tanto embevecera o Santo Padre servia para contemporizar a vigorosa acção do clero português que não perdoava. Diz o autor que aproveitando a ausência do rei dos principais centros do País, já que guerreava os mouros no Sul, a igreja terá aproveitado alguns desmandos praticados pelo irmão mais novo do rei139, o senhor de Serpa, e envia ao papa mais um rol de queixas que forçam a Santa Sé a intervir, excomungando o dito infante e todos os seus cúmplices e interditando todas as suas terras. D. Sancho II não escapa incólume. Gregório IX lamenta que o monarca português não tivesse sido capaz de evitar as graves ocorrências na cidade de Lisboa, que começaram com uma eleição viciada destinada a eleger um novo bispo, tendo o infante D. Fernando procurado eleger um candidato alinhado com a corte, empregando meios extremos. Entra em Lisboa com os seus homens de armas pilhando e maltratando a pessoa e os bens do deão e de outros clérigos que se opunham a tal eleição.

O rei passa a ser acusado de oprimir a igreja, de lhe fazer as mais graves humilhações e acaba por ser atingido por censuras fulminantes e pelo interdito, proibindo o papa que os clérigos portugueses o levantassem. A bula Si quam horribile de Abril de 1238 faz com que o rei se humilhe e prometa à Santa Sé remediar todos os males e cumprir as disposições papais.

138 Ex speciali quem erga, dirigida aos bispos de Astorga e de Lugo e ao deão de Lugo a 20 de Outubro de 1231.

Nela se expressam as seis principais violências atribuídas ao rei sobre a Igreja e o seu povo.

139 Está a referir-se ao infante D. Fernando de Serpa, de quem a tradição historiográfica diz que era dado às

Este autor também associa a deposição do imperador Frederico II à de D. Sancho de Portugal. A resolução de depor o rei português enquadrava-se no projecto de monarquia pontifical, tão ambicionada por Inocêncio IV e pela Igreja:

«O decreto de deposição de um soberano, mesmo que se tratasse do rei de um pequeno País, era um acto de força que faria impressão sobre o poderoso rebelde que cingia a coroa imperial»140.

Surpreendentemente, Sancho II não é deposto em pleno Concílio da mesma forma que o imperador. A deposição de Frederico II dá ao papa prestígio suficiente, poder

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