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Alexandre Herculano (1847)

No documento Bonus Rex ou Rex Inutilis (páginas 43-77)

História de Portugal. Desde o começo da Monarquia até ao reinado de D. Afonso III

edição revista e anotada por José Mattoso, 4 vols., Lisboa, 1980-198426

Ainda hoje a História de Portugal de Alexandre Herculano pode ser considerada como o grande monumento historiográfico português do século XIX27. Profundamente influenciado por uma exigente e moderna historiografia europeia28 estava convicto de que a história só podia ser feita a partir de documentos autênticos. A necessidade de uma grande exigência crítica ao nível das fontes, requisito fundamental para uma verdadeira reconstrução dos acontecimentos, levava-o a demarcar-se dos modelos historiográficos

26 Utilizámos, para este trabalho, a edição com notas críticas de José Mattoso, HERCULANO, Alexandre,

História de Portugal. Desde o começo da Monarquia até ao reinado de D. Afonso III, revista e anotada por José Mattoso, 4

vols., Lisboa, 1980-1984.

27 Oliveira Marques, por exemplo, dividiu a sua obra sobre historiografia nacional em dois volumes: «das

Origens a Herculano» e «De Herculano aos nossos dias» (Cf., MARQUES, A. H. de Oliveira, Antologia da

Historiografia Portuguesa, 2 vols., Lisboa, Publicações Europa-América, 1974-75). Outras obras de grande importância para o estudo da historiografia nacional são as actas de dois colóquios realizados pela Academia Portuguesa da História em 1976 e 1977, onde a divisão das matérias segue o mesmo critério: «A historiografia portuguesa anterior a Herculano» e «A historiografia portuguesa de Herculano a 1950» (Cf., Historiografia, 1977 e 1978).

28 Particularmente a historiografia alemã e francesa do seu tempo, das quais se destacam, por exemplo, algumas

obras de Thierry e de Guizot, como a Histoire de la Civilization en Europe, os Essays sur l’Histoire de France ou os

Dix Ans d’Études Historiques. Dos autores alemães que o influenciaram, além de Heinrich Schaefer (Geschichte von Portugal), na vertente da história política podemos destacar Friedrich Dalmann e a Geschichte von Dänemark, ou

que o precederam e que não contemplavam a necessidade da crítica histórica, ou daqueles que se limitavam a produzir histórias genealógicas, biográficas ou narrativas de feitos heróicos onde os objectivos eram bem claros e pouco tinham a ver com a verdade histórica.

Nesta obra valoriza os aspectos político-militares dos reinados de D. Sancho I, D. Afonso II e D. Sancho II onde o modelo de análise político-institucional predomina e é muitas vezes acrescentado com outras perspectivas. Os fenómenos económicos, culturais e mentais, transparecem em muitos dos seus parágrafos e a observação sistemática dos acontecimentos passados durante a governação de D. Sancho II é prenhe desta conexão entre o modelo institucional e os outros contextos. Vale a pena recordar a observação de Vitorino Magalhães Godinho de que em Herculano:

«coexistem dois historiadores: o da parte social da história de Portugal, da história dos bens da Coroa [...] e o da parte narrativa, dos acontecimentos da História de Portugal...»29.

Lutava Herculano pela neutralidade do historiador em relação à época passada que queria estudar, mas ele próprio não ficou imune aos condicionalismos e tentações do seu tempo. Era inevitável que a história passasse a ser cada vez mais entendida (e produzida) como uma ciência aplicável, que explicava o presente de forma pedagógica a partir da reconstituição do passado.

29 Cf., GODINHO, Vitorino Magalhães, “Alexandre Herculano, historiador”, in Alexandre Herculano. Ciclo de

Historiador liberal, acreditava na observação objectiva do passado como modelo explicativo do presente e antecipador do futuro. O seu projecto historiográfico assentava na crítica das fontes disponíveis, aproveitando os esforços que nesse sentido os monges beneditinos do século XVIII tinham desenvolvido, e desvalorizava os modelos tradicionais que punham em evidência as vidas singulares dos monarcas e das suas famílias, em detrimento da reconstituição das mudanças sociais e políticas, como por exemplo, a evolução dos sistemas jurídicos, económicos e culturais. Lançava, desta forma o anátema contra a história dos reis e das genealogias. O seu projecto almejava a reconstituição da sociedade e não a história dos indivíduos, embora lhe fosse difícil negar a importância do indivíduo na história. É o que se passa com os dois filhos de D. Afonso II, que entre 1245 e 1248 disputam o trono de Portugal.

«Carregada e melancólica rompia a aurora do reinado de Sancho II»30.

A chegada ao poder do novo rei acontece num clima de grande perturbação em torno da coroa e do sistema político vigente. Com a morte de D. Afonso II, Herculano introduz uma questão no seio das preocupações da historiografia portuguesa: a

menoridade de D. Sancho II. Este tema já tinha sido apontado por António Brandão,

embora com incorrecções no que diz respeito a datas31. Herculano retoma-o, de forma crítica, construindo sobre a idade insuficiente do rei a ideia de que aí estava o início de

30 Cf., HERCULANO, Alexandre, História de Portugal... II, p. 347.

31 Herculano critica as contradições em que Brandão terá caído ao considerar que Afonso II se casara em 1208

(Cf., BRANDÃO, António, Monarquia Lusitana…, Livro 12, c. 30), e ao achar que Sancho II, em 1223, teria acabado de fazer vinte anos (Cf., BRANDÃO, António, Ibidem, Livro 14, c. 1). Veja-se o que diz o autor oitocentista na sua História de Portugal (Cf., HERCULANO, Alexandre, História de Portugal…II, p. 319).

alguns dos problemas que diminuiram a governação de Sancho, em especial aqueles que foram condicionados pela personalidade, vista como inconstante, do monarca. Com efeito, é com Alexandre Herculano, que esta questão ganha substãncia e assume personalidade própria na historiografia portuguesa.

Torna-se numa questão fundamental e incontornável na abordagem ao estudo deste reinado pela historiografia portuguesa posterior a este autor. Quer seguindo-lhe linearmente as interpretações, quer intervindo criticamente sobre as suas afirmações menos consistentes, ninguém mais se eximiu, ao falar deste reinado, a colocar a questão da menoridade de D. Sancho32.

A maioria dos autores que precederam Alexandre Herculano mostram-se incertos quanto à idade com que Sancho II herda a coroa, embora na generalidade atribuam ao novo monarca a idade de vinte e três anos. Herculano reconsidera a data precisa do nascimento do príncipe, afirmando que nunca poderia ter antecedido os meses finais do ano de 120933 e que certamente as datas dos documentos teriam sido mal lidas, pois considera erradas as leituras de Fr. António Brandão, em especial a contida no instrumento de doação de D. Estevaínha Soares ao mosteiro de Tarouca, onde teria sido lida a data de 1241, em vez da era de 1251 (1213), lida por Viterbo34.

32 No último caso é de grande relevância o artigo publicado por BRANCO, Maria João, “A menoridade de

Sancho II: breve estudo de um caso exemplar”, in Discursos. Língua, Cultura e Sociedade. III série, nº 3. Memória e

Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Históricos Interdisciplinares, Junho 2001, pp. 89-116, onde a autora

contesta, veementemente, a ideia de que os problemas do reinado de Sancho II, e o próprio processo de deposição, se devam em exclusivo ao facto de o rei ter assumido o trono ainda menor.

33 Cf., COSTA, A. D. Sousa, Mestre Silvestre e Mestre Vicente, juristas da contenda entre D. Afonso II e suas irmãs, Braga,

1963, pp. 436-437, nota 547; AZEVEDO, Rui; COSTA, Avelino Jesus da e PEREIRA, Marcelino, Documentos de D. Sancho I (1174-1211), vol. 1, Coimbra, Univ. de Coimbra, 1979, pp. 271-272).

Alexandre Herculano considera verosímil este casamento para o final de 1208 ou princípio de 1209, indicando que o nome da rainha D. Urraca passa a figurar ao lado do marido e do sogro, pelo menos a partir de Fevereiro de 1209. Recorda, na sua nota XIV, uma passagem de FLORES35, onde se refere que uma das causas directas que provocaram o conflito entre D. Sancho I e o bispo do Porto, D. Martinho Rodrigues, teria sido a maneira como o prelado portuense teria tratado os noivos ao entrarem naquela cidade. A utilização crítica de diversos documentos permite precisar melhor a idade do rei. Considera determinante o facto de na famosa composição com as tias se dizer que o príncipe ainda não tinha atingido os catorze anos de idade; ou as expressões papais contidas na bula Grandi non immerito que se referem ao infante como tendo herdado a coroa paterna na idade da puerícia.

Posteriormente, a publicação sistemática da documentação de Sancho I vem balizar com precisão a data daquele casamento, confirmando a opinião de Herculano. O primeiro documento onde D. Urraca figura como mulher de Afonso II é de Fevereiro de 1209. Como o último instrumento régio, sem aparecer referência à rainha é de Novembro de 1228, o casamento terá ocorrido entre aquelas duas datas.

A menoridade de D. Sancho serve de pretexto a Alexandre Herculano para acrescentar uma nova dimensão às tensões existentes entre os partidários do modelo centralizador e os seus opositores. A clarividência de D. Afonso II ao prever o seu desaparecimento precoce, já que era provável que tivesse consciência de que a morte se 34 Cf., VITERBO, J. S. Rosa, Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal se usaram e que hoje regularmente se

ignoram, ed. crítica baseada nos mss. de Viterbo por M. FIUZA, 2 vols., Porto, editora, 1983-1984, t. 2, p. 369;

FERNANDES, A. de Almeida, Esparsos de História, Porto, edição, 1970, pp. 183-184.

aproximava, também admitia que todo o seu labor em prol do fortalecimento do poder régio poderia ser posto em causa pela transmissão do poder para as mãos de uma criança. Os testamentos do rei definem claramente que o príncipe herdeiro, caso seja menor, deve ser aconselhado pelos seus validos, homens de confiança e a regência confiada a D. Urraca. No último testamento, posterior à morte da rainha, determina que essa regência passe aos ricos-homens que exerciam os mais altos cargos do estado que passarão a reger os destinos do reino em nome do príncipe.

Diz Herculano sobre a menoridade do rei que:

«os historiadores desprezaram ou controverteram um facto bem simples e que, todavia, é como o elo e origem da cadeia de acontecimentos que prepararam a queda do infeliz príncipe»36.

Os defeitos de leitura sobre a data de nascimento do herdeiro do trono terão levado a um fatal erro de interpretação sobre as capacidades do novo rei, pois era considerado adulto e responsável pelos seus actos. Mas não o era. Para Herculano, Sancho II, não era ainda adulto quando herda o trono, e esse facto será impossível de dissociar da imagem de mau governante que a história lhe dará.

À imagem de um rei infantil, ainda impreparado para a governação liga-se o estado em que Portugal se encontra. O rei morrera excomungado e os seus antigos privados assumiam-se plenos de autoridade como regentes do reino, mantendo a pressão sobre sectores do clero e da nobreza terratenente que durante todo o reinado anterior se

tinham oposto ao crescimento da autoridade régia. A maioria das questões estava por resolver. O reino estava interdito, o rei por sepultar em campo santo, as justiças do reino impedidas de funcionar. Necessariamente, era o momento para a composição entre as facções opostas. A «eterna» questão sobre os direitos das infantas tinha-se agravado com a intervenção de Afonso IX de Leão, fragilizando a posição dos «tutores» do rei. A insustentabilidade de um estado incapaz de agir e de impor a sua autoridade obrigava a que se iniciassem conversações. Herculano põe em evidência as dificuldades em que se encontravam os antigos conselheiros de D. Afonso II, e agora tutores do pequeno rei e a necessidade de sair do impasse político em que o reino se encontrava.

Segundo Alexandre Herculano, o clero português colocou sérios entraves ao modelo centralizador de Afonso II. A sua oposição, motivada pela aplicação violenta das determinações da coroa, acabou por provocar danos insuportáveis ao aparelho do estado e à autoridade dos validos do rei. A concórdia com o clero português era vital para a manutenção do estado e da sua auctoritas.

A concordata com o clero assinada em 1223 é considerada como um feliz aproveitamento por parte da Igreja das infelizes circunstâncias em que o reino se encontrava. Sendo verdadeiras as disposições contidas naquele documento37, estas

37 Composta por dez artigos é publicada pela primeira vez por CASTRO, Gabriel Pereira de, De manu regia

tractatus, Ulyssipone, apud Petrum Craesbeeck, 1622-1625 e por COSTA, Sousa, na Monomaquia sobre as Concordatas. Tinha já sido referida por BRANDÃO, Fr. António, na Monarquia Lusitana, mas nunca publicada.

Alexandre Herculano considera que o douto monge desconfiava da genuinidade do documento. Mesmo a referência à existência do original no arquivo do cabido bracarense (Cf., CUNHA, Rodrigo da, Historia

Ecclesiastica dos Arcebispos de Braga e dos Santos e Varões Illustres que floresceram neste Arcebispado, 2 vols., Braga, 1634-

1635 (edição facsim. com nota de apresentação por José Marques, Braga, 1989, P. 2, c. 23, § 7) não resolve a questão. Herculano desconfia que este autor terá usado o mesmo texto de Brandão ou de Gabriel Pereira de Castro, ou seja, uma cópia transmitida por Lousada. O facto de todos os autores que utilizam esta concordata não citarem, ou indicarem, os confirmantes de tão importante instrumento constitui o maior óbice à sua

abrangiam muito mais do que uma mera indemnização pecuniária, com efeito o que o arcebispo pretendia era garantir condições vantajosas nos capítulos da jurisdição e das imunidades eclesiásticas; a entrega de avultadas somas do tesouro real nos cofres da arquidiocese representaria o pagamento pelos danos causados pela perturbação que as medidas de D. Afonso II tinham causado sobre aqueles direitos da Igreja.

De seguida, comenta criticamente a ausência de informações sobre os três primeiros anos do reinado de D. Sancho II nos historiadores que o antecederam. Parece, afirma, «que não viram neles mais do que o movimento ordinário de um reino pacífico»38 e, contudo, nos documentos desse período está, bem visível, a existência de uma «grande agitação política». Sinónimo desta agitação é a constante mudança de grandes senhores da aristocracia portuguesa nos principais cargos da cúria. Essa acelerada sucessão de validos do rei naqueles cargos contrariava, para Herculano, o quadro tradicional observável em reinados anteriores, onde os «ministros» do rei se mantinham nos cargos durante muito tempo. A que se deve esta mudança na ocupação dos cargos públicos?

legitimidade. O mesmo se passa com as bulas Ex Speciali e Siquam horribile de Gregório IX ou a Grandi non

immerito, de Inocêncio IV, onde não existe qualquer referência à concordata entre o rei de Portugal e o clero

nacional. Existe, ainda, outro documento arquivado na Mitra de Braga, cópia datável do século XIII, e que tem anexado o documento do Apêndice 15 da parte 4 da Monarquia Lusitana, o que aumenta a veracidade sobre a existência de tal documento de composição. Contudo Alexandre Herculano na sua nota à concordata levanta a possibilidade de este documento ter sido forjado depois do desembarque em Lisboa do conde de Bolonha. José Mattoso acrescenta queSousa Costa publicou a concordata através de um exemplar existente nos Arquivos da Torre do Tombo (Cf., IANTT, Mitra de Braga, cx 1, nº 81), que supõe ser a cópia do séc XIII de que fala Herculano. Conferiu-a com a cópia do séc XVII dos Rerum Memorabilium, Livro II. Pode ainda ver-se o artigo de MADAHIL, A. G. da Rocha, "O Cartulário Seiscentista da Mitra de Braga «Rerum Memorabilium»", in

Boletim Cultural (da Câmara Municipal do Porto), 31 (1968), pp. 92-107, onde se vê que muitas das cópias não

pertencem a Lousada.

Herculano atribui-a aos factos ocorridos durante a menoridade do rei, onde o estado pueril do príncipe era causa dessa vertiginosa alternância de nobres em cargos públicos. Além do problema levantado pelo estado pueril de D. Sancho, o autor refere a existência de tensões e ódios entre a nobreza do reino e os antigos validos de D. Afonso II, agora tutores do pequeno rei.

A ausência de um poder forte, como tinha sido o de D. Afonso II, levava a que os senhores lançassem mão dos mais variados processos para alcançarem os seus objectivos, atirando o reino para um estado de desordem. As referências à turbulência social daqueles primeiros tempos do reinado e às causas que as precipitaram estão dificultadas pela escassez de documentação para aquele período, mas essa ausência, pode também ser demonstrativa de um estado fraco e desorganizado, onde os normais procedimentos da chancelaria são uma das principais vítimas39.

Para ele cabe ao clero, em especial aos seus notáveis, o principal papel na perturbação da ordem pública. É nesta estrutura eclesiástica que os «tutores» de D. Sancho e o próprio rei encontram as maiores resistências. As tentativas de pacificação que definem os inícios do reinado de D. Sancho II são alcançadas à custa de grandes concessões por parte da estrutura régia à Igreja e aos seus prelados e que acabam, num

39 Quer José Mattoso, nas suas notas críticas ao trabalho de Herculano (Cf., HERCULANO, Alexandre,

História de Portugal…, II, nota [1], p. 543), quer Maria João Violante Branco (Ibidem, p. 95) desmontam a tese

defendida por Herculano e seus seguidores de que teria existido uma tutoria institucionalizada. Nada na documentação disponível faz pressupor que existisse um conjunto de validos que rodeassem o rei e o influenciassem nas suas decisões, para além do que era comum na documentação dos reis que o antecederam e até daquele que lhe vai suceder. Tais posições vão ao encontro do que já havia sido enunciado por Luís Gonzaga de Azevedo (Cf., AZEVEDO, Luís Gonzaga de, História de Portugal, pref. e rev. de Domingos Maurício dos Santos, vol. 6, Lisboa, Ed. Biblíon, 1944) ao comentar de forma muito crítica esta posição de Alexandre Herculano.

prazo mais longo, por abrir novas frentes de colisão. A dinâmica de conflito que o clero apresenta face ao poder central, congrega em seu torno toda uma nobreza descontente, como Herculano bem expressa:

«Para se vingarem, os prelados não tinham só os raios de Roma, a que logo recorriam: tinham, também, os elementos de desordem que fermentavam no reino; tinham a poderosa alavanca de uma nobreza ambiciosa e descontente. À vista do carácter turbulento e audaz dos dois prelados40, sobretudo do arcebispo, é licito acreditar que foram

eles que deram impulso, ao menos em parte, à anarquia que se desenvolveu entre os barões do Norte e que, talvez por anos, afligiu o reino»41.

O quadro de perturbação política é evidente para o autor e o rei parece passar de mão em mão entre as duas facções, desejosas de assegurar através da influência praticada sobre ele o controlo do estado. É neste sentido que Herculano considera este encarniçamento sobre a «posse» do rei como um dos motivos mais evidentes da eclosão de conflitos civis. É apresentado como um «pobre mancebo», joguete dos principais senhores, incapaz sequer de discernir o que se passava no seu próprio reino, ao ponto de se considerar a possibilidade de que muitos documentos expedidos em nome de Sancho

40 Refere-se ao arcebispo de Braga, D. Estêvão Soares da Silva e a D. Soeiro, bispo de Lisboa.

II, serem de facto, documentos elaborados por aqueles que o dominavam, e dos quais o rei pouco conhecimento deveria ter.

Afirma Herculano que este jovem rei mais parecia neto de D. Sancho I do que filho de D. Afonso II. Após introduzir a questão da menoridade do rei como um dos aspectos provocadores da crise do reinado, aborda as capacidades de chefe militar de D. Sancho integradas no processo de expansão cristã sobre o espaço muçulmano. É o lançamento das campanhas ao Alentejo integradas numa conjuntura bem delineada, onde os problemas do complexo islâmico peninsular são enunciados e contextualizados em especial com os avanços no terreno das coroas castelhana e a leonesa, desde os anos de 1218 ou 1219. O padrão de conquista cristã parece caracterizar-se pela existência de concertação entre os vários reinos. O movimento de ocupação sistemática da Estremadura espanhola entre-os-rios Tejo e Guadiana parece, quase sempre, combinar-se com os objectivos das hostes portuguesas, dirigidas por D. Sancho II42.

Começa assim a análise da famosa expedição a Elvas. A confirmação feita pelo papa em 1225 de D. Sancho II como rei de Portugal inicia a transição do príncipe para a idade adulta; o comando dos exércitos régios permitir-lhe-ia ser rei de facto, ao mesmo tempo que se subtraía ao abraço asfixiador dos ricos-homens que o «tutelavam». A dinâmica de cruzada defendida pelo poder papal, que se traduz no envio de missivas

No documento Bonus Rex ou Rex Inutilis (páginas 43-77)