História de Portugal, I, Desde os tempos pré-históricos até à aclamação de D. João I (1385)
Coimbra, Edição do Autor, 1922
História da Igreja em Portugal, I
Coimbra, Ed. do Autor, 1910, pp. 389-422110
110 Cf., ALMEIDA, Fortunato de, História da Igreja em Portugal, tomo I, Coimbra, Ed. do Autor, 1910, pp. 389-
422. Neste trabalho o autor desenvolve o conjunto das relações entre o clero português e o rei num capítulo específico intitulado «O clero e a coroa no reinado de D. Sancho II», onde a análise incide particularmente sobre o comportamento da igreja portuguesa face à coroa. A questão da menoridade do rei, as primeiras concórdias assinadas com a igreja, as queixas dos principais representantes do clero sobre as incapacidades do rei e as acções violentas dos validos de D. Sancho II, as constantes intervenções da Santa Sé, a escolha pela Igreja do infante D. Afonso como futuro curador do reino e o processo de deposição de Sancho II são descritos e analisados nesta obra sob a perspectiva da Igreja. O processo de deposição do rei é interpretado como uma consequência natural e óbvia provocada pelo estado de anarquia em que o reino se encontra. Os desmandos praticados pelos funcionários régios e validos do rei sobre pessoas e bens eclesiásticos e que o rei não consegue controlar provocam um estado de reacção no clero português, que utiliza todos os meios para resolver a situação. Outros aspectos relacionados com este reinado não são aqui comentados. As campanhas nas terras alentejanas e algarvias, o esforço das ordens militares ou a capacidade de chefia militar do rei escapam a este texto. O objectivo é justificar a deposição régia através da demonstração de um contexto claro de oposição entre as acções da coroa e os interesses do clero português, mesmo quando os bispos portugueses são apresentados como concorrentes dos nobres em violências praticadas, ou quando os mesmos prelados são acusados de espoliarem e sujeitarem mosteiros, o que levou à pronta emissão pelo papa de bulas de protecção. Mas este desforço e vingança do clero secular sobre os institutos monásticos poderia ter sido contido e evitado se o reino fosse bem governado. A tónica é colocada sobre as acções do próprio rei contra as isenções, privilégios e direitos da Igreja na terra portuguesa, bem patentes nas queixas que o bispo olisiponense D. Soeiro vociferava sobre a usurpação que o rei fazia das igrejas vagas na diocese de Lisboa, retendo-as e aos seus rendimentos em seu poder de forma completamente discricionária e abusiva.
Sancho, infante do reino, tem treze anos de idade quando recebe a herança do trono «em condições bem pesadas»111. Inicia assim, o estudo deste reinado sem grandes comentários ao problema da menoridade do rei. A questão principal residia no estado em que o País se encontrava. O reino estava interdito, o falecido rei e a maioria dos seus correligionárias excomungados, a igreja portuguesa e muitos nobres estavam profundamente descontentes com os resultados das inquirições e confirmações sobre o seu património e existia uma grande divisão no seio da própria família real112.
Neste estado de coisas a coroa assume vários compromissos no sentido de solucionar os problemas. É a descrição das várias composições com o clero, onde o rei se compromete a reparar os estragos provocados por muitas intervenções «indevidas» sobre pessoas e bens eclesiásticos, quer procedendo a reparações nos edifícios destruídos, quer entregando indemnizações113, e comprometendo-se a punir nobres, magistrados e outros que tivessem prejudicado o Arcebispo de Braga e a sua Sé. Da mesma maneira, o rei perdoava ao bispo do Porto e a demais clérigos que o tivessem ofendido, ou a seu pai.
Cumprindo o rei aquelas disposições, o arcebispo bracarense levantaria o interdito sobre o defunto monarca e sobre todos os lugares e pessoas. Os excomungados entretanto falecidos seriam desenterrados e depositados em solo consagrado.
111 Cf., Idem, ibidem, p. 202.
112 Referência à questão com as infantas, protegidas de Afonso IX de Leão.
113 O rei disponibiliza de imediato, por intermédio de uma comissão arbitral, cerca de trinta mil morabitinos
para este efeito. Manda ainda guardar no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra mais vinte mil, como reserva para o mesmo fim. O primeiro pagamento vai para D. Estêvão Soares, arcebispo de Braga, que recebe, a título de indemnização pessoal, seis mil morabitinos.
Estava alcançada a concórdia, até porque o pequeno rei se comprometia, também, a preservar e garantir as imunidades e os privilégios dos eclesiásticos no seu reino, e ainda proceder à correcção dos resultados das inquirições mandadas fazer por seu pai e que em muito tinham prejudicado o clero.
A paz com a Igreja parecia ter sido alcançada. Conseguir a paz no seio da família real era agora o objectivo. Da mesma forma D. Sancho II consegue chegar a acordo com as suas tias. As três Senhoras passam a usufruir em comum do senhorio de Alenquer. Montemor e Esgueira ficavam com D. Teresa. Mais nenhuma referência é feita sobre este acordo, nem sobre as suas implicações no contexto político nacional.
Fortunato de Almeida, na sua História de Portugal, num curto parágrafo, analisa a guerra contra o Islão. As acções militares portuguesas enquadram-se num contexto alargado que envolve as dinâmicas de conquista de Afonso IX de Leão e Fernando III de Castela. Os avanços para sul das forças destes dois reis levam a que em 1226, D. Sancho II tome a resolução de conquistar Elvas. Refere a escassez de informações sobre o empreendimento, mas diz que o rei provou o seu valor pessoal, «livre das intrigas e lutas dos partidos que dividiam a corte, disputando primazias...»114.
Embora não fale de um desastre no primeiro assalto a Elvas, afirma que os portugueses não conseguiram manter a praça e que só a terão ocupado definitivamente três anos depois, juntamente com a captura de Juromenha. Sobre as grandes capacidades militares do rei, sobre as vantagens da guerra contra os Sarracenos no contexto político interno e sobre as relações com a Santa Sé a respeito da cruzada contra o Islão, nada refere.
114 Cf., Idem, ibidem, p. 205.
Mais à frente retoma o assunto para descrever, de forma sucinta, as campanhas dos anos trinta e princípios dos anos quarenta, onde são conquistadas diversas praças alentejanas e algarvias e onde sobressai a tomada de Silves. Estas conquistas são acompanhadas por uma política determinada de povoamento das novas regiões, especialmente a consolidação das estruturas humanas nas linhas fronteiriças. Introduz aqui breves referências à actividade dos cavaleiros espatários e hospitalários naquele processo.
Regressa aos negócios eclesiásticos. Todo o processo de pacificação levado a cabo nos primeiros tempos do reinado de D. Sancho II não oferece grandes garantias de se poder manter. Sucintamente, porque o rei é muito jovem, pouco experiente e sem energia para se impor ao reino e aos «[...] costumes bárbaros da época»115. Os abusos ressurgem, atingindo inclusivamente as casas monásticas, violentadas nos seus direitos e privilégios por nobres descontrolados e por membros do clero secular116. O bispo do Porto envia ao papa Honório III uma lista de agressões que os oficiais do rei vinham praticando dentro da sua jurisdição episcopal. Parece que o papa, entretanto falecido, não teria valorizado muito as queixas daquele bispo117. Este conflito prolonga-se o que acaba
115 Cf., Idem, ibidem, p. 205.
116 Diz Fortunato de Almeida que a violência praticada pelos clérigos seculares sobre os mosteiros resultava da
inveja que tinham pelo facto de os fiéis preferirem os monges (Cf., ALMEIDA, Fortunato de, História de
Portugal..., p. 205). O mosteiro de Alcobaça, por exemplo, queixava-se de interdições e extorsões de dizímos
sobre bens que lhes pertenciam e de que lhes retinham os legados deixados pelos fiéis.
117 O autor refere, que no caso dos dependentes do bispo obrigados a cumprir serviço militar nas hostes do rei,
esse agravo só teria acontecido uma vez, na expedição a Elvas em 1226, e que essa campanha estava integrada no movimento geral contra os mouros, de iniciativa da Santa Sé (Cf., ALMEIDA, Fortunato de, História de
por fazer o novo papa, Gregório IX, enviar D. João de Abbeville a Portugal com poderes especiais para resolver o diferendo entre os bispos portugueses e o rei.
Duraram pouco os efeitos desta «paz de Abbeville». As queixas de vários bispos, como o de Lisboa e o do Porto, sempre sobre as mesmas razões e as censuras fulminantes do bispo de Salamanca ao rei português, levam Gregório IX a confirmar as sentenças de interdito, proibindo que os bispos portugueses as anulassem e obrigando o rei a cumprir todas as disposições papais agora impostas contra a coroa. Tudo isto, acontece, em 1238 e D. Sancho II não tem alternativa.
Vêm as últimas dissenções do reinado que levam à sua deposição. Fortunato de Almeida, à semelhança do que Alexandre Herculano já tinha referido, indica existir muito pouca informação verosímil entre os finais dos anos trinta e o período que vai de 1241 a 1244, embora esteja persuadido que o estado de anarquia se mantinha. Atribui importância à crise papal, em especial aos acontecimentos que ocorreram entre a morte de Gregório IX e a eleição de Inocêncio IV, onde estiveram presentes bispos portugueses. Inocêncio IV tinha sido eleito em 1243 e, Fortunanto de Almeida, considera que os bispos portugueses, aproveitando o contexto da eleição, tenham aproveitado para falar mal do rei português, e descrito como caótica a situação política em Portugal. As queixas feitas contra o rei são de grande gravidade e às quais o papa não podia ficar indiferente
Dois anos depois (1245) Inocêncio IV ocupa-se do caso português. Numa bula dramática descreve o mau estado do reino, acusando o rei de ser descuidado118. Esta
118 «El-Rei deixava minguar a prosperidade das terras do reino, e permitia o homicídio de eclesiásticos e
seculares, sem distinção de sexo nem de idade; as rapinas, os incestos, os raptos de freiras e de mulheres do século, os vexames feitos aos lavradores, aos clérigos e aos mercadores com o intento de lhes extorquirem dinheiro; os incêndios, a profanação dos templos e cemitérios, as quebras de tréguas e outros crimes, conhecendo-os» (Cf., ALMEIDA, Fortunato de, História de Portugal..., pp. 207-208).
intervenção papal é ligada ao que se passou no Concílio de Lyon, onde bispos e nobres portugueses adversos a D. Sancho II compareceram, levando cartas de muitos outros e até de concelhos, onde era descrito o estado do reino. Na última sessão daquele Concílio (17 de Julho de 1245), o papa profere a sentença de deposição de Frederico II, imperador da Alemanha. Após o encerramento daquela assembleia eclesiástica, passados oito dias, foi decidido o caso do rei português.
Numa bula dirigida aos nobres, concelhos e a todos os cavaleiros e pessoas do reino, o papa, referindo-se à situação portuguesa considera que o trono deve ser entregue a «alguma pessoa activa e prudente». A missiva explica que só poderia ser D. Afonso, conde de Bolonha, irmão do rei e seu sucessor legítimo. Ordenava aos súbditos portugueses que obedecessem ao seu enviado e resistissem às ordens de D. Sancho. Em Setembro desse ano D. Afonso assina com o clero nacional, em Paris, as condições que o garantiam no trono português.
Destronado o rei procura resistir. Sobre as lutas entre os partidários do infante e os do rei, Fortunato de Almeida não se afasta do quadro da tradição. Refere o encarniçamento da luta e detém-se num dos mais conhecidos episódios do conflito: o rapto de D. Mécia Lopes de Haro119. A partir do texto fixado nos Portugaliae
119 Fortunato de Almeida dedica um sub-capítulo aos pormenores do casamento de D. Sancho II com a filha
do senhor de Biscaia. Afirma que este matrimónio está hoje provado, ao contrário do que muitos historiadores tinham afirmado, e que se terá realizado em data posterior a 1240. Associa-se à corrente principal que considera esta rainha como uma personagem sinistra e responsável por muitas das desgraças que aconteceram ao rei. Fala das tentativas do conde de Bolonha para evitar que esse casamento se mantivesse, já que um herdeiro deitaria por terra as pretensões do segundo filho de D. Afonso II. Em conluio com o clero português terá denunciado ao papa a existência de problemas de consanguinidade entre os dois esposos. Apurada a verdade sobre a existência de parentesco, Inocêncio IV encarrega o arcebispo de Compostela e o bispo de Astorga de decretarem a separação dos cônjuges (Cf., ALMEIDA, Fortunato de, História de Portugal..., pp. 213-214).
Monumenta Historica120 lança suspeitas sobre a tese do «rapto» e da posterior «prisão»
no castelo de Ourém. O rei teria liderado uma expedição de socorro que vai cercar aquela fortaleza mas sem conseguir «libertar» a rainha. E o que estranha é que depois do rei ter levantado arraiais e abandonado aquele lugar a rainha tenha aparentado grande tranquilidade vivendo sob o domínio do seu cunhado usurpador. D. Mécia terá fugido e não sido raptada, conclui Fortunato de Almeida.
A situação militar degrada-se e o rei deposto solicita o auxílio castelhano. Em 1247 um corpo de exército comandado pelo infante régio castelhano, D. Afonso, entra em Portugal, mas aparentemente sem sucesso. O conde de Bolonha agora é aclamado em quase todo o reino, o que leva D. Sancho e os seus escassos apoiantes a abandonar o País.
Aponta por fim a forma como a tradição tratou os últimos tempos do rei, desde a sua desesperada resistência até à sua morte. A imagem do rei generoso e bom, vítima dos tempos e dos maus conselhos transparece. O autor não se esquece de referir os episódios dos últimos alcaides de D. Sancho, como o daquele cavaleiro que «a alma do povo fixou...», chamado Martim de Freitas, alcaide do castelo de Coimbra, que só entregou a sua praça depois de confirmar com os próprios olhos a morte do seu rei.