NUTS II – U NIDADES T ERRITORIAIS PARA F INS E STATÍSTICOS DE N ÍVEL
6.2 T ÉCNICAS DE R ECOLHA DE D ADOS
6.2.1 T ÉCNICAS DE R ECOLHA DE D ADOS DE N ATUREZA Q UALITATIVA : A E NTREVISTA
A entrevista constitui porventura uma das técnicas de investigação qualitativa mais conhecidas e documentadas na literatura (Ibert, Baumard, Donada e Xuereb, 2001; Patton, 2002; Denzin e Lincoln, 2005; Creswell, 2007; Stake, 2010; Bryman, 2012; Costa, 2012; Ritchie, Lewis, Nicholls e Ormston, 2014), correspondendo a um processo de interação face-a-face ou por telefone que ocorre entre uma ou mais pessoas que desempenham o papel de entrevistador e uma pessoa ou um grupo de pessoas que cumprem a função de entrevistados, possibilitando assim adaptar as questões e/ou pedir informação adicional sempre que se revele importante (Ibert, et al., 2001; Creswell, 2007; Stake, 2010; Coutinho, 2011; Costa, 2012). As entrevistas são classificadas em função de vários critérios, como sejam o grau de estruturação, de profundidade ou o número de sujeitos envolvidos (Bryman, 2012; Coutinho, 2011; Costa; 2012). Atentando, em particular, ao critério referente ao grau de estruturação ou, por outras palavras, ao grau de liberdade concedido ao entrevistado (Coutinho, 2011), as entrevistas podem ser não-estruturadas (livres) ou estandardizadas (estruturadas ou diretivas), admitindo-se neste continuum graus intermédios, onde se situam as entrevistas semiestruturadas ou semidiretivas (Ibert, et al., 2001; Bryman, 2012, Costa, 2012). Neste último caso, estamos perante um tipo de entrevista que deve ser utilizado quando o interesse consiste em obter dados comparáveis de diferentes participantes (Coutinho, 2011), pelo que o entrevistador deve adotar uma atitude flexível na condução da entrevista e onde predominam perguntas que estimulam o entrevistado a apresentar o seu ponto de vista, exprimir a sua opinião ou justificar o seu comportamento (Costa, 2012).
38 Mediante a interferência do investigador no processo de recolha de dados, estes podem ser classificados como dados primários e dados secundários, consoante a
recolha seja processada e orientada direta ou indiretamente pelo investigador, respetivamente (Costa, 2012).
39 O inquérito é o “processo que visa a obtenção de respostas expressas pelos participantes num determinado estudo, podendo ser implementado com recurso a
No âmbito desta investigação as entrevistas realizadas assumem, precisamente, a forma de entrevistas semiestruturadas. Como o problema em análise constitui um tópico ainda pouco explorado pela comunidade científica, mas cujo estado da arte revela uma forte pertinência e abrangência contextual, foi-nos possível identificar um conjunto de perguntas-chave, relativamente abertas, para assim explorar a atuação dos municípios portugueses na mitigação das falhas de mercado resultantes da atividade turística, analisando os respetivos instrumentos utilizados para o efeito. A opção por este tipo de entrevista deve-se ao facto de acharmos importante que o entrevistador possa conduzir a entrevista através da sequência em que as questões são colocadas, permitindo ao entrevistado uma liberdade de resposta relativamente controlada (Ibert, et al., 2001; Costa, 2012). Face ao caráter complementar das entrevistas, definimos ainda que o inquérito por entrevista teria por base a seleção de uma amostra dos municípios portugueses. Estes municípios constituem a unidade de análise ou unidade básica de observação (Camões, 2012), estando inseridos num design de investigação do tipo estudo de caso. Um estudo de caso, como a própria expressão indica, traduz-se na observação aprofundada de um único caso ou de um pequeno número de casos (Coutinho, 2011; Yin, 2014), sendo usual a sua aplicação em temas relacionados com a área do turismo (Beeton, 2005). Prevemos, assim, que o estudo de caso possibilite, pela comparação, um conhecimento mais profundo das falhas de mercado acima identificadas e dos instrumentos de políticas públicas adotados pelos municípios. Num estudo de caso, o processo de seleção da amostra adquire um sentido muito peculiar (Creswell, 2007), sendo mesmo a sua essência metodológica (Coutinho, 2011). Quer isto dizer que a amostra é sempre intencional, visto que não há qualquer razão para que seja representativa da população (Coutinho, 2011). Stake (1995) refere, a este propósito, que se deve ter sempre presente que o estudo de caso não é uma investigação baseada em amostragem. Não se estuda um caso para compreender outros casos, mas para compreender o caso. Por isso, a constituição da amostra baseia-se em critérios pragmáticos e teóricos e não em critérios probabilísticos (Coutinho, 2011).
Nesse sentido, a seleção dos casos teve por base dois critérios: a localização geográfica e a dimensão. Em termos de localização geográfica, e considerando as cinco áreas regionais de turismo em Portugal Continental, que refletem as áreas abrangidas pelas unidades territoriais utilizadas para fins estatísticos NUTS II – Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve –, foram selecionadas, num primeiro momento, as regiões do Algarve, do Alentejo e do Norte do país, dada a sua importância em termos de diversidade da atividade turística em Portugal. Supletivamente, dentro de cada região, os municípios foram selecionados consoante a sua dimensão, definida pelo número de habitantes. Tal como indicam Carvalho et al. (2013) a população ainda se traduz no critério mais usado para classificar os municípios quanto à sua dimensão.
Assim, foram selecionados cinco municípios de pequena dimensão, cinco de média dimensão e dois municípios de grande dimensão, num total de 12 municípios (tabela 6.1). Esta diversidade, baseada em diferentes regiões de turismo, diferentes dimensões e diferentes perspetivas quanto à importância do turismo enquanto fator de desenvolvimento, intenta um conhecimento mais aprofundado dos vários aspetos inerentes aos municípios em análise, estando presente o princípio da saturação ou redundância, ou seja, a amostra só está concluída quando se esgotar toda a informação passível de ser obtida (Coutinho, 2011) ou, como refere Eisenhardt (1989), quando a informação de casos adicionais nada acrescentar ao conteúdo inicial.
Tabela 6.1
Critérios de Seleção dos Municípios Municípios Área regional de
turismo Dimensão*
Número de habitantes**
Número de entrevistados Albufeira Algarve Média 40.574 4 Alcoutim Algarve Pequena 2.873 2 Alijó Porto e Norte Pequena 11.901 2 Amares Porto e Norte Pequena 18.866 2 Braga Porto e Norte Grande 181.829 2 Bragança Porto e Norte Média 35.334 2 Chaves Porto e Norte Média 41.281 1
Évora Alentejo Média 56.436 1
Odemira Alentejo Média 26.067 2 Porto Porto e Norte Grande 235.554 2 Reguengos de Monsaraz Alentejo Pequena 10.815 1 Vila Real de Santo António Algarve Pequena 19.111 2 * Relembramos que o critério da dimensão classifica os municípios em três categorias distintas quanto ao número de habitantes: - Municípios pequenos – com população menor ou igual a 20 000 habitantes;
- Municípios médios – com população maior que 20 000 habitantes e menor ou igual a 100 000 habitantes; - Municípios grandes – com população maior que 100 000 habitantes.
** Informação obtida na PORDATA, Base de Dados de Portugal Contemporâneo. Censos 2011.
As entrevistas efetuadas foram sustentadas por um guião de entrevista composto por cinco partes distintas (Apêndice A), sendo que todas as perguntas formuladas foram desenvolvidas de acordo com o estado da arte previamente apresentado. Às cinco partes correspondem objetivos também eles distintos:
! 1.ª parte – explorar o conhecimento do município sobre os produtos turísticos definidos no PENT;
! 2.ª parte – Averiguar se a atividade turística do município possui características de bem público, mais concretamente, investigar se o município desempenha um papel ativo na promoção turística, no desenvolvimento de infraestruturas turísticas e na coordenação/planeamento da atividade turística; ! 3ª parte – investigar se o município tem em conta os impactos económicos, sociais ou ambientais
! 4.ª parte – explorar a perceção do município sobre as atrações turísticas de caráter único, ou seja, atrações caracterizadas pela escassez, unicidade, imobilidade e diferenças regionais e que implicam a exclusividade da existência dessas atrações turísticas no município em causa;
! 5.ª parte – Investigar se o município utiliza canais de divulgação de informação turística.
Considerando a pretensão da investigação qualitativa, entendemos que os entrevistados deveriam ser os responsáveis políticos – presidente/vereador com o pelouro do turismo – e os responsáveis técnicos da área do turismo. No total foram realizadas dezasseis entrevistas (23 entrevistados), entre dezembro de 2012 e fevereiro de 2013, dado que os responsáveis de alguns municípios apenas mostraram disponibilidade para serem entrevistados em conjunto. Todas as entrevistas foram gravadas em áudio e, posteriormente, transcritas para serem analisadas (capítulo 7).