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Ética Relacional

No documento : PERSPETIVAS DOS ENFERMEIROS (páginas 142-147)

CAPÍTULO III – TRANSIÇÃO DOS CUIDADOS CURATIVOS PARA OS

3. DO TRATAR PARA O CUIDAR

3.9 Ética Relacional

O enfermeiro de todos os elementos da equipa de saúde é aquele que mantém uma relação mais íntima com o doente, por ser aquele que permanece por um período mais longo nos serviços de cuidados de saúde e porque é quem presta mais cuidados diretos.

É a pessoa que conhece melhor o doente como pessoa e todo o seu contexto familiar, económico e sócio-cultural, o que lhe permite detetar as necessidades específicas do doente e saber qual a melhor forma de lhes proporcionar a resposta mais adequada. É o elo de ligação entre o doente e restante equipa de saúde.

3.9.1 O Enfermeiro como “Advogado” do Doente

O enfermeiro desde sempre ocupou um lugar central na equipa de saúde, estabelecendo ligações entre os diferentes profissionais que participam nos cuidados aos doentes, no entanto a importância do seu papel e a sua autonomia na equipa de saúde têm vindo a transformar-se gradualmente.

Tradicionalmente a enfermagem encontrava-se muito ligada à medicina. Atualmente, e apesar da ligação entre a enfermagem e a medicina, tem-se vindo a verificar um aumento da autonomia do enfermeiro, que tem vindo lentamente a afirmar a importância do seu papel na equipa de saúde. Tal crescimento da enfermagem como profissão com a sua própria identidade, deve-se sobretudo a dois fatores: o aumento dos conhecimentos teóricos dos enfermeiros e, consequentemente, do seu espírito crítico e de observação; e uma maior consciencialização de que o enfermeiro tem funções muito

Cláudia Reis – Faculdade de Medicina da Universidade do Porto 144 singulares junto do doente e que se devem também à estreita relação que estabelecem com os doentes (Pacheco, 2004).

Uma das funções que tem sido atribuída ao enfermeiro é a de “advogado do doente”, pois é para muitos o elemento da equipe de saúde mais indicado para defender o doente, protegê-lo e ajudá-lo a manter a sua autonomia. É o enfermeiro que está mais próximo do doente e por isso é quem o conhece e compreende melhor como pessoa que é (Pacheco, 2004).

O enfermeiro apesar de não ser detentor de poder que lhe permita exercer em toda e qualquer situação a função de “advogado” do doente, tem responsabilidades no sentido de procurar que sejam respeitados os direitos do doente e deve agir de forma a dar resposta adaptada às suas necessidades. O enfermeiro deve informar o doente sempre que necessário e desde que não contrarie orientações de outros profissionais de saúde, ajudá-lo a tomar decisões conscientes e livres, velar para que lhes sejam assegurados cuidados adequados, aliviar os seus medos, dar-lhe atenção e oferecer-lhe apoio e acompanhamento (Pacheco, 2004).

3.9.2 A Ação do Enfermeiro no Âmbito dos Cuidados Paliativos

O enfermeiro tem um papel crucial perante o doente em fase terminal, dado que é o profissional da equipa de saúde que se encontra mais próximo deste e da sua família e o que os mais pode apoiar numa fase tão difícil, como é o fim da vida de alguém.

No entanto, na sua maioria os enfermeiros estão na sua generalidade muito mais vocacionados para cuidar de doentes em que a cura é possível, do que daqueles cuja esperança de recuperação é quase nula. Tal situação prende-se com o facto de muitos enfermeiros não estarem preparados para enfrentar a morte e de não terem ainda formação suficiente que lhes permita compreender a real importância de cuidar o doente em fase terminal.

Cláudia Reis – Faculdade de Medicina da Universidade do Porto 145 Contudo, mesmo tendo presente que os cuidados devem ser mantidos até o terminar da vida do doente, muitos profissionais de enfermagem sentem dificuldade em lidar tão de perto com o morrer e em comunicar com o doente e com a família. Muitas das vezes a atitude do enfermeiro é desligar-se do doente e da própria morte, desenvolvendo mecanismos de defesa e os mais variados comportamentos de fuga (Pacheco, 2004).

3.9.3 Relações Inter-Profissionais

As relações interprofissionais na equipa de saúde têm por base três vértices: a organização, a comunicação e o poder, sendo a partir destes que se geram conflitos ou se estabelece uma dinâmica eficaz que contribui para a eficiência da assistência nas unidades de saúde (Neves, 2004).

O trabalho em equipa exige que cada um compreenda o seu papel e todos percebam que trabalham para atingir uma determinada finalidade. Para funcionar com êxito, cada grupo necessita de desenvolver as suas próprias normas de funcionamento, estabelecendo padrões de conduta que determinam comportamentos tidos como aceitáveis. A comunicação é essencial para o trabalho na equipa de saúde, sendo essencial existir um sistema integrado que possibilite reunir informações, possibilitando o planeamento e a tomada de decisão.

3.9.4 Relações entre Enfermeiros e Outros Profissionais

A tradicional imagem do enfermeiro auxiliar do médico e prestador de cuidados de higiene e conforto tem vindo a sofrer alterações, juntamente com os avanços da tecnologia na área da saúde, e os enfermeiros têm assumido um papel cada vez mais interventivo na condução da assistência em saúde, questionando-a até em certas situações. Exemplos destas situações geram conflitos e estratégias de poder entre enfermeiros e médicos, o mesmo se passando com outras áreas profissionais. Apesar

Cláudia Reis – Faculdade de Medicina da Universidade do Porto 146 das rotinas, das normas, dos procedimentos e da própria organização institucional, é difícil delimitar onde começa a responsabilidade de uns e acaba a dos outros, sobretudo naqueles que visam o bem-estar bio-psico-social do doente ao nosso cuidado. Cada grupo de profissionais reivindica uma parte autónoma dos cuidados de saúde e só com diálogo e clarificação de papéis, se conseguirá atingir um patamar aceitável de relacionamento interprofissional (Neves, 2004).

Ao longo dos últimos anos tem havido alguma preocupação na obtenção de consensos, normas e códigos éticos que disciplinem as condutas dos profissionais de saúde. No entanto, a definição de competências para cada elemento da equipa de saúde e principalmente a atuação decorrente das mesmas e dos princípios que as orientam, originam muitas vezes conflitos, que são motivo de instabilidade e desmotivação nas equipas. Muita bibliografia refere como causas de stress e burnout em profissionais de saúde, nomeadamente enfermeiros, a constante adaptação aos desafios, às pessoas, às mudanças, às ordens, muitas vezes sem haver uma real participação na tomada de decisão ou um diálogo construtivo (Neves, 2004).

3.9.5 Relação Enfermeiro-Instituição

Para além do ambiente físico e do ambiente psicológico, é necessário investir e insistir num ambiente ético, e tal ideia baseia-se no argumento de que a racionalidade económica e a evolução tecnológica podem fazer ameaçar o valor da vida humana e outros valores sociais. Assim, ambiente ético é aquele que se caracteriza pela informação, pelo respeito recíproco, pelos valores éticos, no agir bem, no agir ético (Neves, 2004).

Um ambiente ético deve aplicar determinados princípios assentes em teorias éticas, no sentido de ajudar os indivíduos a tomar decisões autónomas em situações de conflito.

Os princípios são linhas gerais que orientam a conduta, constroem uma base de raciocínio e orientam as ações. Os princípios éticos são a autonomia, a beneficência, a não-maleficência e a justiça. Estes princípios fornecem diretrizes para os membros da

Cláudia Reis – Faculdade de Medicina da Universidade do Porto 147 equipa pensarem e agirem de forma moralmente aceitável, sobretudo em situações difíceis. Um ambiente ético é essencial para os enfermeiros terem a liberdade necessária para agir de modo autónomo e moral na promoção do bem-estar dos seus doentes (Neves, 2004).

Sendo o enfermeiro o elemento da equipa de saúde que mais tempo passa com o doente, encontra-se numa posição dentro da equipa que lhe permite criar com o doente maior intimidade, conhecer melhor o seu contexto familiar, social, económico e religioso.

Existe um certo compromisso enfermeiro-doente. O enfermeiro é ainda o elemento que serve de elo de ligação entre os restantes membros da equipa e a família. Os cuidados de enfermagem são chamados a considerar o indivíduo na sua realidade bio-psico-social e espiritual e na realidade económica e política em que vivemos.

3.9.6 Alteridades: Sentidos da Relação com o Outro

Toda a relação pressupõe a existência de um outro diferente de nós, com o qual estabelecemos um encontro, um diálogo. A alteridade, o ter consciência do existir de um outro, é a condição essencial de toda a relação e como tal uma condição da pessoa (Neves, 2004).

Em cuidados de saúde esta capacidade de simultaneamente sair “ao encontro de”, mantendo a unidade pessoal, torna-se mais necessária, conduzindo a uma verdadeira ética dos serviços de saúde. Isto acontece, porque o homem doente sofre a angústia de não conseguir ultrapassar a solidão do seu destino, com um sentimento de morte e sem esperança. Na resposta a este apelo, encontra-se um dos fundamentos da ética de todo o cuidar. Os enfermeiros são os profissionais que melhor do que ninguém, terão a oportunidade de experimentar o verdadeiro sentido desta realidade, pelo que devem exercitar e aperfeiçoar algumas das condições em que se radicam as relações humanas (Neves, 2004).

Cláudia Reis – Faculdade de Medicina da Universidade do Porto 148 Uma das primeiras e das mais importantes condições de desenvolver é a “capacidade de saber ouvir”. É um ouvir atento e participativo que passa pela disponibilidade do seu tempo, sem qualquer julgamento. Diálogo de atenção e solidariedade. Este ouvir é incompatível com a sobrecarga dos serviços e das horas de trabalho que originam cansaço e podem dificultar toda a disponibilidade.

Toda esta situação de “estar com” pelo ouvir, é tanto mais importante quanto o outro, devido à doença e ao sofrimento, muitas vezes pela mudança de vida, vive uma situação de angústia, de fragilidade, de solidão.

A relação entre o doente e a aquele que cuida, passa também por uma proximidade na qual, um tocar com solicitude é outra forma de interação e um dos mais importantes meios de comunicar, de estar presente. Esta proximidade exige um calor humano em que tanto as mãos como o olhar participam. Um olhar que significa presença (Neves, 2004).

Por outro lado, a interajuda relacional vive da verdade, pois numa relação nunca poderá existir falsidade ou fingimento, como também nunca se poderá realizar num serviço de saúde sem que as dúvidas sobre a doença, tenham uma resposta em clima de verdade.

Esta verdade deverá ser mais de que esclarecer um diagnóstico ou prognóstico. A sensibilidade e o cuidado das palavras são a medida que, sem mentir, permitirá a esperança que todos desejam ouvir.

No documento : PERSPETIVAS DOS ENFERMEIROS (páginas 142-147)