CAPÍTULO III – TRANSIÇÃO DOS CUIDADOS CURATIVOS PARA OS
3. DO TRATAR PARA O CUIDAR
3.5 Morte e o Processo de Luto
3.5.2 Luto e Sofrimento
Com a morte da criança não termina a crise da perda. Infelizmente, a morte da criança marca o fim do contacto da família com os profissionais de saúde envolvidos no
Cláudia Reis – Faculdade de Medicina da Universidade do Porto 118 tratamento da criança, pelo que muitas destas famílias nunca recebem o apoio e orientação que poderiam ajudá-las a superar a perda do seu ente querido.
A família, sempre que tal seja possível deve estar presente nos últimos momentos, o que será benéfico quer para o doente, por se sentir mais tranquilo por estar acompanhado de todos os que lhe são queridos e por não ter sido abandonado a morrer sozinho, quer para a família, que pelo facto de estar presente sente-se com a consciência mais tranquila e prevenir sentimentos futuros que possam dificultar a vivência do luto. Contudo, nem sempre a família está com a pessoa quando ela morre, pelo que neste caso a notícia da morte é um momento ainda mais difícil para a família, pelo que o profissional de saúde deve dá-la com compreensão humana pelo sofrimento dos familiares.
Quando a morte é o final esperado de uma doença terminal, a criança e sua família experimentam as restrições comportamentais do luto antecipado, que se pode manifestar pela negação, raiva, depressão e outros sintomas psicológicos e somáticos (Hoekenberry, 2006). Quando a morte ocorre, uma dor aguda se instala, com sintomas psicológicos e somáticos que causam um sofrimento intenso. Uma orientação prévia por parte dos profissionais de saúde pode ajudar os membros da família em luto. Por outro lado, estes profissionais devem enfatizar que as reações de luto como escutar a voz da pessoa morta, sensação de distanciamento dos outros, procurar se assegurar de que tudo se fez pela criança morta são normais, necessárias e esperadas. Tais comportamentos significam que a família está a lidar com a dor aguda, que é algo necessário para uma resolução satisfatória da perda. Estas reações fazem parte de um processo de reestruturação de um papel significativo no seu ambiente social.
Após a morte, inicia-se o processo do luto que se estende por um período de adaptação à perda e cuja resolução pode levar anos. O tempo decorrido desde a morte da criança não é obrigatoriamente um fator determinante na redução do luto para as famílias (Davies, 2004). Uma orientação antecipatória relativamente ao processo de luto poderá ser benéfico para as famílias, pois poderão reconhecer a normalidade das suas experiências.
Cláudia Reis – Faculdade de Medicina da Universidade do Porto 119 Alguns membros da família poderão experimentar um luto complicado com sintomas como pensamentos confusos, crises emocionais graves, nostalgia, sensação de solidão intensa, níveis de inadaptação com perda de interesse em atividades de âmbito pessoal, pelo que deverão ser encaminhadas para um especialista e aconselhadas. Vários fatores podem influenciar a reação da família à morte da pessoa, como: a natureza da relação mantida com a pessoa falecida, o tipo de morte; a história pessoal; os mecanismos individuais utilizados para fazer frente aos problemas, ou seja, a sua capacidade para enfrentar situações de crise; e os antecedentes étnicos e culturais da família (Pacheco, 2004).
Não se devem fazer tentativas de abreviar ou reprimir o luto dos familiares, o que poderia comprometer o processo de recuperação, mas deve-se sim, dar tempo à família para sofrer, para recordar, para expressar abertamente os seus sentimentos e preocupações e para começar a planear o futuro. Assim, é crucial recuperar o sentido da naturalidade da morte, voltando a encará-la como um processo inerente à natureza humana e deixar de a pensar como um acontecimento que poderia ser evitado. Só quando renascer no homem, de hoje a ideia de que lhe será sempre impossível dominar a natureza, apesar de todos os avanços da ciência e do aperfeiçoamento tecnológico, ele será capaz de deixar que a morte siga o seu curso natural.
A morte de uma criança pode também alterar a relação conjugal de seus pais, pois dado as reações maternas e paternas frequentemente serem diferentes relativamente ao sofrimento sentido pelo casal, podem dificultar a comunicação e o apoio mútuo, conduzindo a um desgaste do casamento (Hoekenberry, 2006).
Por vezes os elementos da família podem necessitar de ajuda para enfrentar o luto. As mães particularmente sentem uma terrível solidão e muitas das vezes a forma que encontram para enfrentar o luto é encontrando um papel substituto gratificante e satisfatório. Os enfermeiros podem ser muito úteis neste processo ao preparar a mãe para antecipar os sentimentos de vazio, solidão e fracasso, normais nestas situações;
ajudar a mãe a reavaliar o seu papel como mãe e como esposa; estimulá-la a explorar outras atividades gratificantes onde utilize os seus interesses, talentos e qualificações;
Cláudia Reis – Faculdade de Medicina da Universidade do Porto 120 dar apoio à medida que o seu papel se vai modificando (Hoekenberry, 2006). Os enfermeiros também deverão ter especial atenção relativamente aos irmãos e aos seus comportamentos indicativos das dificuldades que sentem em lidar com a dor, tais como a culpa persistente, padrões de hiperatividade com crises agressivas e destrutivas, cuidados compulsivos, ansiedade persistente, ligação excessiva com os pais, dificuldade em estabelecer novas relações, problemas na escola ou delinquência. Proporcionar aos pais uma orientação relativamente aos comportamentos que devem ser observados poderá ser útil.
É essencial a comunicação com a família que vive o luto, no entanto frequentemente há um sentimento de não saber o que dizer ou como dizer palavras que confortem. A melhor abordagem é não fazer julgamentos das reações familiares ou oferecer concelhos ou racionalizações e concentrar-se nos sentimentos. A medida mais eficaz a tomar pelos enfermeiros, talvez seja apenas a de ouvir, pois nenhuma palavra vai aliviar a dor da família e tudo o que ela deseja é aceitação, compreensão e respeito pela sua dor. Um acompanhamento regular das famílias enlutadas poderá ser benéfico (Hoekenberry, 2006).
É fundamental que as famílias percebam que o luto é um processo muito demorado, silencioso e muitas vezes solitário. Muitas famílias nunca recebem orientação e apoio para ajudá-las a superar a perda. As famílias devem ser encaminhadas para grupos de autoajuda, programas de luto formal ou aconselhamento de luto.
É também fundamental que os profissionais de saúde e sobretudo aqueles que trabalham com doentes em fase terminal, nunca se esquecessem da nossa condição humana e da nossa finitude, pois desta forma não se recorreria mais a meios desproporcionados que só prolongam o sofrimento do doente e não mais se colocaria a hipótese de pôr fim a uma vida. Utilizar-se-iam apenas procedimentos proporcionados a cada situação e ser-se-ia capaz de passar a cuidar quando já não fosse possível tratar.
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