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Modelo de Parceria nos Cuidados de Anne Casey

No documento : PERSPETIVAS DOS ENFERMEIROS (páginas 30-35)

CAPÍTULO I – PEDIATRIA E SEUS CONCEITOS GERAIS

1.4 Modelo de Parceria nos Cuidados de Anne Casey

Cada vez mais os Enfermeiros de Saúde Infantil e Pediátrica valorizam que é essencial o reconhecimento dos pais como membros ativos e responsáveis da equipa de saúde pediátrica, enaltecendo o seu papel junto do seu filho, encarando-os como o elo de ligação e de comunicação entre o profissional de saúde e a criança e realizando um trabalho de parceria, que promova o seu papel parental e diminua a perceção de sentimentos de impotência e frustração.

O envolvimento dos pais ajuda a manter o lugar da criança na família, através da ligação com o ambiente familiar e a sua rotina, evitando que esta se sinta desligada dos acontecimentos familiares e envolvendo todos os intervenientes nas preocupações e no apoio à criança doente. Este tipo de ligação favorece uma intensificação dos afetos, conduzindo a um sentimento de utilidade e compreensão do que se está a fazer para ajudar na recuperação e bem-estar, podendo proporcionar uma redução da dor, da ansiedade e do sofrimento sentido pelos pais e pelas crianças.

A natureza da relação que os enfermeiros e sobretudo os que trabalham em Pediatria são capazes de estabelecer com a criança e com a sua família é determinante para a qualidade dos cuidados prestados. Assim, os enfermeiros desempenham um papel privilegiado na relação de ajuda que os pais necessitam em cada momento da doença do seu filho, devendo entender que para os pais, a situação que motivou a hospitalização é sempre geradora de ansiedade, que o problema que tem o seu filho é único, que os

Cláudia Reis – Faculdade de Medicina da Universidade do Porto 32 riscos que correm são sempre grandes e que esperam por parte da equipa de enfermagem uma atitude de esperança, empatia e disponibilidade.

A participação dos pais nos cuidados a prestar à criança doente, representa uma nova filosofia da enfermagem pediátrica e é o corolário do esforço efetuado para humanizar os serviços onde se encontram internadas crianças.

Anne Casey (1998), uma enfermeira de origem inglesa, criou um modelo a que chamou

“parceiros nos cuidados”, que tem por base o respeito e o valor da experiência dos pais no cuidado dos seus filhos.

As crenças e valores que sustentam este modelo pressupõem que os pais são os principais prestadores de cuidados de saúde à criança e que a equipa de enfermagem fornece os cuidados relacionados com as carências de saúde.

Este modelo, centrado na família como uma unidade tem por base a flexibilidade e a negociação dos cuidados partilhados enfermeiro/família tendo em conta: o reconhecimento das habilidades da família; o respeito pelos desejos da família; a avaliação do apoio das necessidades da família; o apoio contínuo e renegociação; o ensino e supervisão enquanto necessário; a avaliação dos cuidados, do apoio e do ensino; e a reflexão e a comunicação.

O modelo de Anne Casey (1998) engloba cinco conceitos principais: Criança, Saúde, Ambiente, Família e Enfermeiro Pediátrico.

Relativamente à criança, as suas necessidades estão desde o seu nascimento dependentes de outras pessoas, sendo a sua maioria satisfeita pelos seus pais ou outros familiares. Ao longo do seu crescimento, a criança desenvolve capacidades e adquire conhecimentos que a tornam capaz de dar resposta às suas próprias necessidades, tornando-se gradualmente menos dependente dos seus prestadores de cuidados, até atingir a maturidade.

Cláudia Reis – Faculdade de Medicina da Universidade do Porto 33 O conceito de família, segundo a autora é definido como uma unidade de indivíduos com maior responsabilidade pela prestação de cuidados à criança e que têm um forte peso no seu desenvolvimento. Estes cuidados prestados pelos pais ou outros familiares, são chamados de “cuidados familiares” e incluem os cuidados que dão resposta às necessidades quotidianas das crianças.

A saúde é o estado de ótimo bem-estar físico e mental que permite à criança desenvolver todas as suas potencialidades, pelo que se pretende que este estado seja permanente, no sentido de permitir o desenvolvimento físico, psicológico, intelectual, social e espiritual da criança.

O ambiente é o conjunto de estímulos que podem afetar o desenvolvimento da criança, pelo que a autora considera que estes devem ser repletos de amor e cuidados para que a criança se sinta segura e confiante.

Os enfermeiros pediátricos têm uma responsabilidade para com a criança e sua família, tidas como unidade de cuidados, com necessidades individuais, pelo que devem considerar as habilidades e competências da família como perita do conhecimento e das necessidades da sua criança. O papel e as ações do enfermeiro em pediatria descritos por Casey (1998), têm por base as intervenções de enfermagem descritas por Orem (aconselhamento, orientação, apoio físico e psicológico e ambiente propício ao desenvolvimento).

No modelo de “parceiros nos cuidados”, o enfermeiro tem como função complementar os cuidados prestados pelos pais à criança, ou seja prestar cuidados de enfermagem especializados quando a criança e família não têm vontade, capacidade e conhecimentos necessários para garantir os resultados positivos resultantes dos cuidados de saúde.

Compete ao enfermeiro orientar os cuidados de enfermagem e familiares com o objetivo de satisfazer as necessidades da criança de forma a que esta atinja um elevado potencial.

Para Casey (1998), os cuidados prestados pelos enfermeiros devem incluir a reavaliação da capacidade dos pais no envolvimento dos cuidados e a negociação da responsabilidade nos cuidados sempre que necessário.

Cláudia Reis – Faculdade de Medicina da Universidade do Porto 34 O modelo de parceria tem como filosofia orientar para um envolvimento dos familiares nos cuidados a prestar à criança doente, de forma a que estes se sintam envolvidos, seguros e confiantes, no sentido de cooperarem como membros da equipa na prestação de cuidados. Os pais deverão perceber que o seu contributo é importante como parceiros na prestação de cuidados, o que só é possível se existir um grande envolvimento e confiança entre enfermeiros, pais e crianças.

Um dos objetivos deste modelo é proporcionar à criança e aos seus familiares uma resposta adequada à satisfação das suas necessidades, com o apoio da equipa de enfermagem. Contudo, muitos problemas de saúde requerem uma intervenção técnica e conhecimentos específicos, pelo que os enfermeiros ao manterem uma posição de supervisão devem programar e promover processos de ensino, nos quais partilhem conhecimentos e as técnicas mais apropriadas aos membros da família, tendo em conta as características próprias de cada uma. As famílias devem ser orientadas e ensinadas sobre os cuidados à criança doente, para que possam decidir a extensão do seu próprio envolvimento nos mesmos.

Embora reconheça que os cuidados de enfermagem são únicos, o modelo de parceria preconiza que poderá haver necessidade de recorrer a outros profissionais, de forma a obter a reabilitação e recuperação da saúde da criança, com o apoio dos pais, pelo que o enfermeiro tem um papel crucial no encaminhamento para outros profissionais capazes de responder às necessidades identificadas numa perspetiva holística da criança.

A participação dos pais nos cuidados de saúde, implica uma relação de parceria entre estes e a equipa de saúde que cuida da criança, pelo que não devem existir fronteiras bem definidas, nem divisão de funções, mas devem sim ser desenvolvidas ações que têm como fim último, o máximo bem-estar da criança.

A adoção do modelo de parceria pelos enfermeiros pediátricos necessita de empatia, apoio e comunicação, o que resulta num benefício para todos os membros da equipa de saúde, na qual se incluem os pais como membros importantes na prestação de cuidados

de saúde.

Cláudia Reis – Faculdade de Medicina da Universidade do Porto 35 O modelo de parceria, constitui assim, uma filosofia de cuidados de enfermagem que reconhece e valoriza a importância da família para o bem-estar presente e futuro da criança.

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No documento : PERSPETIVAS DOS ENFERMEIROS (páginas 30-35)