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CAPÍTULO 3 – COMPREENDENDO COMO PESQUISAR NA CHINA

3.1 REFLETINDO SOBRE O GAOKAO, 高考,A PARTIR DOS “LETRADOS”

3.1.1 O GaoKao e os letrados chineses

Na obra “Ensaios de Sociologia” (1982), organizada por H.H. Gerth e C. Wright Mills, com textos de Max Weber, encontramos o capítulo denominado “Os letrados Chineses”. A primeira observação importante é que existe um erro de tradução do termo “letrado”, já que originalmente Weber utilizou a expressão “Literaten” oriunda do latim litteratus59 (cf.

Weischenberg; Kaesler, 2015). Seria uma imprecisão descrevê-los por meio da terminologia “letrados”, visto que os chineses não usam letras em seu sistema de escrita. O sistema de escrita dos Hanzi (汉字) utiliza os caracteres para expressão gráfica da língua. Feita essa observação, o temo “letrados” continuará a ser usado ao longo do capítulo em respeito à tradução realizada do inglês para o português da referida obra, contudo, sempre considerando a ressalva da tradução imprecisa.

O entendimento do significado de “letrados” conforme utilizado por Weber, refere- se, de antemão, aos sujeitos iniciados na cultura tradicional chinesa, àqueles que conseguiram acesso aos clássicos da produção literária.

Na coletânea com escritos de Weber, o capítulo sobre a China é construído por recurso comparativo para, assim, refletir sobre a constituição do capitalismo europeu e a burocracia estatal, a fim de expor o questionamento sobre as razões do capitalismo não ter nascido na China, visto que essa nação foi por séculos uma grande potência.

Na concepção de Weber (1982), a China poderia ter gerado o capitalismo, mas não gerou. O motivo inferido seria que eles construíram uma administração burocrática efetiva, assim como a Alemanha, mas que não era racional. A instrução da elite burocrata estatal não era instrumental, lastreada nos princípios da razão científica, mas apenas literária, sustentada nos clássicos da literatura chinesa. Nesse sentido, afirma:

[…] o treinamento racional e especializado (dos literatos chineses) foi acrescentado a essa qualificação educacional honorífica […]. Os chineses não comprovavam habilitações especiais, como os nossos modernos e racionais exames burocráticos para juristas, médicos, técnicos. (WEBER, 1982, p. 483).

A ausência de uma racionalidade burocrática, instrumental e técnica não fez criar um terreno propício ao surgimento de um Estado nacional e moderno em território oriental, logo, também inviabilizou o capitalismo. Diante disso, vê-se que, ao se preparar para exercer cargos imperiais, as habilidades específicas não eram valoradas, ao contrário.

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Os exames da China comprovavam se a mente do candidato estava embebida de literatura e se ele possuía ou não os modos de pensar adequados a um homem culto e resultantes do conhecimento da literatura. (WEBER, 1982, p. 484).

Na China, a burocracia era um fim em si mesmo e os burocratas – oficiais do Estado – não estudavam técnicas específicas ou pressupostos específicos para o cumprimento de funções estatais no que concerne à gestão racional e eficiente da máquina nacional. Nesse sentido, produzia-se um saber estético, inútil e altamente ritualizado.

Esse mundo ritualizado, literato desvalorizava o saber técnico que, por sua vez, deveria conduzir à transformação e afastar-se da concepção mágica do mundo:

Significa principalmente, portanto, que não há forças misteriosas incalculáveis, mas que podemos, em princípio, dominar todas as coisas pelo cálculo. Isto significa que o mundo foi desencantado. Já não precisamos recorrer aos meios mágicos para dominar ou implorar aos espíritos, como fazia o selvagem, para quem esses poderes misteriosos existiam. Os meios técnicos e os cálculos realizam o serviço. (WEBER, 1982, p. 165).

A burocracia criada pelo Império Chinês preconizava um ritual, ou seja, a busca da perfeição estava na aproximação com os clássicos e não com a transformação. Ao se pautar na memorização e reprodução, a elite literata não professava valores caros ao desenvolvimento capitalista moderno, legando aos chineses o atraso da sociedade burocrática e irracional.

No entanto, de todas as conclusões e análises feitas por Weber (1982), a que se constitui mais importante para essa análise é a de que a formação dessa burocracia, que ele classificou como “irracional”, tem dois elementos que não são o centro das atenções do texto, mas emergem fulcrais nessa análise. Os dois itens são a formação de uma elite intelectual originária da população em geral, sem distinções preestabelecidas e a realização de exames para a conquista de cargos públicos.

Os exames imperiais, Keju 科举, configuravam-se como uma série de provas feitas pelos súditos do imperador ao longo da existência do Império Chinês, que habilitava os aprovados a pleitear o exercício da função pública, sendo essa tanto burocrática quanto militar. Os exames não eram uma porta de entrada para o mundo do serviço, mas uma habilitação que deixava o participante apto a concorrer por uma vaga. Quanto mais títulos o sujeito possuísse, maiores eram os seus cargos e seus rendimentos, “a pergunta habitualmente feita a um estranho, de posição social ignorada, era acerca de quantos exames ele havia realizado.” (WEBER, 1982, p. 478). Esses exames perduraram por mais de 1300 anos, tendo sido extintos, oficialmente em 1905 pela Dianstia Qing, 1644 – 1911, (WANG, 2013).

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A aprovação nesses exames era sinônimo de estar habilitado, assim: “Todas as categorias de servidores públicos chineses eram recrutadas entre eles, e sua qualificação para o cargo e a posição social dependia do número de exames em que eram aprovados (WEBER, 1982, p. 478).

Em geral, não havia restrição a quem pudesse realizar os exames, no entanto, é presumível que as famílias mais abastadas acabassem por ter mais acesso aos ensinamentos clássicos e à erudição, estando melhor preparadas para participarem das provas. Contudo, não era vedada aos mais pobres a participação: “A admissão às fileiras dos aspirantes estava aberta a todos os que provassem suas qualificações” (WEBER, 1982, p. 482).

Ao longo dos séculos em que prevaleceu o KejuZhidu (科舉制度), Sistema de Exames Imperiais, construiu-se na China uma perspectiva positiva em relação ao saber, evidenciando para os setores mais pobres que era possível acessar as prebendas e ascender socialmente por meio do esforço individual e da instrução.

Ao se preparar arduamente, dedicando-se, sustentado com o esforço familiar, era possível, por meio da educação, obter sucesso nos exames, alcançar o reconhecimento e o status de pertencer a uma elite literata. Com o fim dos exames imperiais, em 1905, foi reorganizado o GaoKao com uma nova roupagem em novos tempos republicanos em 195260.

Essa sucessão temporal entre o Keju e o GaoKao remete a uma comparação quase imediata entre os dois exames. Logo, provoca uma reflexão sobre como os sentidos sociais, antes atribuídos ao imperial Keju, parecem ter sido herdados pelo republicano GaoKao.

Além das diferenças temporais, outro antagonismo persiste nos objetivos. No Keju, os estudantes bem-sucedidos trilhavam um caminho com o objetivo de servir ao império, já no GaoKao, o intuito é propiciar o ingresso nas universidades chinesas, permitindo maiores oportunidades de escolhas profissionais. Mesmo diante dessas diferenças, um elemento sugere uma conexão entre os dois processos de seleção: a ascensão social por mérito.

Se, nos exames imperiais, Weber (1982) afirmou que, mesmo com todas as ressalvas sobre o privilégio de algumas famílias, o Keju era uma inspiração à ascensão social, no mesmo sentido o “GaoKao oferece a melhor chance para os jovens aspirantes em desvantagem subirem ascenderem socialmente em uma sociedade cada vez mais estratificada, com amplas desigualdades entre ricos-pobres e urbano-rural”61 (RUIQING, 2013, p. 15).

60 Importante destacar que, após a implementação, em 1952, ele foi suspenso por cerca de dez anos, ao longo da

Revolução cultural (1966 – 1976), sendo retomado em 1977 e realizado até a atualidade.

61 “Gaokao provides the best chance for the disadvantaged young aspirants to climb the social ladder in an

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Ao atribuir ao GaoKao, via noção social, o ideário de que é possível ascender por méritos próprios e que o esforço individual pode ser recompensado, acaba-se por conferir ao exame um sentido mais amplo que o real, pois ele não tem nenhuma outra função, sendo a única balizar o ingresso ao meio universitário.

Ao realizar essa conexão social e histórica, o GaoKao, realizado para ingresso no Ensino Superior, também se reveste da tradição e da nobreza social do exame imperial Keju. O resultado de ambos, apesar de individual e ao mesmo tempo coletivo, revela outro elemento importante para a compreensão da sociedade chinesa, a piedade filial (Xiào - 孝).