3. Descumprimento de Condicionantes
3.1. Ações Civis Públicas n 0000968-19.2011.4.01.3900 e 0018026-35.2011.4.01.3900 –
O Ministério Público Federal propôs a ação civil pública n. 0000968- 19.2011.4.01.3900 contra a concessionária Norte Energia S.A.52, IBAMA e BNDES,
tendo por objetivo a declaração de nulidade da Licença de Instalação nº 770/201153, emitida pelo IBAMA para o Aproveitamento Hidrelétrico de Belo Monte, sem o cumprimento das condicionantes54 impostas na concessão da Licença Prévia nº 342/2010 e de sua consequente autorização para supressão de vegetação55.
51 Acórdão 1.869/2006-Plenário-TCU, item 2.2.2
52 Concessionária de Uso de Bem Público para exploração da UHE Belo Monte.
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Emitida em 26 de janeiro de 2011.
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Segundo o MPF, as condicionantes dessa licença prévia nada mais são do que a tentativa de incorporar, de forma equivocada, as próprias pendências do EIA que motivaram os técnicos do
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Segundo ação, a Licença Prévia 342/2010 impôs, como condição para o empreendimento, seis obrigações condicionantes gerais e quarenta específicas que deveriam ter sido cumpridas dentro dos prazos nela estabelecidos56, bem como nos
demais anexos constantes do processo de licenciamento57.
Contudo, mesmo sem o cumprimento das condicionantes estabelecidas, a Norte Energia S/A apresentou ao IBAMA58, requerimentos de Licença de Instalação
para o AHE Belo Monte. A equipe técnica do órgão licenciador, ao constatar que não haviam sido cumpridas as condicionantes estabelecidas na Licença Prévia, manifestou-se pela não emissão da Licença de Instalação requerida59. Apesar da
manifestação contrária da equipe técnica, o presidente interino da autarquia ambiental emitiu a Licença de Instalação n. 770, de 26/01/2011.
No entendimento do MPF, à luz da legislação de regência, sem o cumprimento das condicionantes estabelecidas na licença prévia, não há qualquer possibilidade de se conceder licença de instalação60. Em não sendo cumpridas as
IBAMA a não atestar a viabilidade ambiental da UHE Belo Monte e, por consequência, a negar a concessão da licença naquele momento, que já foi objeto de ação judicial.
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Autorização para Supressão de Vegetação – ASV n. 501/2011.
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Dentre as condicionantes não cumpridas estão: a) condicionante da qualidade da água; b) condicionante de construção de equipamentos de saúde, educação e saneamento; c) condicionante das ações antecipatórias; d) condicionante da navegabilidade do rio Xingu; e) condicionante do cadastro socioeconômico dos grupos domésticos existentes na área diretamente afetada pela construção do empreendimento; f) condicionante dos índios citadinos e moradores da volta grande do Xingu; g) condicionante da espeleologia; e h) condicionantes indígenas, tais como a demarcação de terras indígenas e retirada de não índios das áreas demarcadas.
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A licença ressalvou expressamente que o IBAMA, mediante decisão motivada, poderá modificar as condicionantes e as medidas de controle e adequação, suspender ou cancelar esta licença, quando ocorrer violação ou inadequação de quaisquer condicionantes ou normas legais.
58 Requerimento feitos em 20/09/2010, em 27/09/2010 e, posteriormente, em 05/10/2010.
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Notas Técnicas 36/2010, 88/2010 e 95/2010
60 O Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA), ao regulamentar o processo de licenciamento
ambiental, instituiu a Resolução 237/97, classificando as licenças ambientais em Licença Prévia, Licença de Instalação e Licença de Operação (art. 8º). A primeira é concedida na fase preliminar do planejamento do empreendimento ou atividade para aprovar sua localização e concepção, atestando a viabilidade ambiental e estabelecendo os requisitos básicos a serem observados e condicionantes a serem atendidas nas próximas fases de sua implementação. A segunda autoriza a instalação do empreendimento ou atividade de acordo com as especificações constantes dos planos, programas e projetos aprovados, incluindo as medidas de controle ambiental e demais condicionantes, da qual constituem motivo determinante. De acordo com o MPF, a Instrução Normativa n.º 184/2008 do próprio IBAMA, que dispôs sobre os procedimentos para o licenciamento desses empreendimentos, é condição para a concessão da Licença de Instalação a comprovação de cumprimento a todas as condicionantes da Licença Provisória: “Art. 27. A concessão da Licença de Instalação - LI é subsidiada pelo Projeto Básico Ambiental - PBA, Plano de Compensação Ambiental e quando couber o PRAD e Inventário Florestal para emissão de autorização de supressão de vegetação. § 1º O PBA, o Plano de Compensação Ambiental e o Inventário Florestal deverão ser elaborados em conformidade com os impactos identificados no EIA e com os critérios, metodologias, normas e padrões estabelecidos pelo Ibama, bem como aos fixados nas condicionantes da LP.”
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condicionantes da Licença Prévia, a autorização para a instalação do empreendimento é de tal modo ilegal que o artigo 19 da Resolução 237 do CONAMA arrola como causa de suspensão ou cancelamento da licença concedida a violação ou inadequação de quaisquer condicionantes61.
Foi concedida medida liminar suspendendo a eficácia da Licença de instalação n. 770/2011 e da Autorização de Supressão de Vegetação n. 501/2011, e determinando ao BNDES que se abstenha de transferir recursos à NESA, tudo até o advento da sentença ou até que, à vista da comprovação do cumprimento das condicionantes, esta decisão seja revogada. O juízo deferiu o pedido por entender que não foram atendidas condicionantes relativas à infraestrutura, saneamento, saúde e educação.
Em 03 de março de 2011, a medida liminar foi suspensa por decisão da presidência do TRF 1ª. Região, que considerou violada a ordem pública, uma vez que a liminar teria invadido a esfera de discricionariedade da administração e usurpa a competência privativa da administração pública de conceder licença de instalações iniciais específicas para implantação de trechos novos e melhorias nos trechos já existentes; realização de terraplanagem e instalação de estruturas de canteiro, nos sítios da obra do empreendimento62.
No curso da demanda, a Licença de Instalação 770/2011 foi substituída pela Licença de Instalação 795/2011.
O Juízo da 9ª. Vara Federal da seção judiciária do Estado do Pará, destacando a superveniente revogação da Licença de Instalação 770/2011, considerou ter ocorrido a perda de objeto, restando inexistente a utilidade da demanda, e extinguiu o processo sem resolução de mérito63.
61 “Art. 19. O órgão ambiental competente, mediante decisão motivada, poderá modificar os
condicionantes e as medidas de controle e adequação, suspender ou cancelar uma licença expedida, quando ocorrer: I - violação ou inadequação de quaisquer condicionantes ou normas legais; II - omissão ou falsa descrição de informações relevantes que subsidiaram a expedição da licença; III - superveniência de graves riscos ambientais e de saúde.”
62 Processo de suspensão de liminar ou antecipação de tutela n. 12208-65.2011.4.01.0000/PA.
Segundo a decisão suspensiva, material técnico juntado aos autos demonstra que o requerente tem monitorado e cobrado o cumprimento das diretrizes e exigências estabelecidas para proceder ao atendimento de requerimentos de licenças para a execução de novas etapas do empreendimento.
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O MPF interpôs recurso de apelação argumentando que a simples emissão de nova Licença de Instalação, sem que fossem cumpridas todas as condicionantes estipuladas na Licença Prévia, não tem o condão de esvaziar o objeto da demanda, tendo em vista que permanece a ilegalidade do licenciamento ambiental em referência, impondo-se, assim, a declaração de nulidade dessa nova licença, inclusive, no sentido de que o aludido órgão ambiental se abstenha de conceder novas licenças de instalação, enquanto não ultrapassadas todas as fases anteriores, nos termos da legislação.
A 5ª. Turma do TRF 1ª. Região deferiu medida liminar pleiteada no recurso determinando a imediata suspensão do licenciamento ambiental e das obras de execução do empreendimento hidrelétrico UHE Belo Monte, até o efetivo e integral cumprimento de todas as condicionantes estabelecidas na Licença Prévia n°. 342/2010, restando sem eficácia as Licenças de Instalação e as Autorizações de Supressão de Vegetação – ASV já emitidas ou que venham a ser emitidas antes do cumprimento de tais condicionantes, e ordenando ao BNDES que se abstenha de repassar qualquer tipo de recurso (ou celebrar qualquer pacto nesse sentido) enquanto não cumpridas as mencionadas condicionantes, sob pena de multa pecuniária.
Ao julgar definitivamente o recurso interposto, a 5ª. Turma do TRF 1ª. Região confirmou a liminar concedida, declarando a nulidade da Licença Parcial de Instalação 770/2011, bem assim das demais que lhe sucederam, especialmente, a Licença de Instalação n°. 795/2011, e, também, a Autorização de Supressão de Vegetação (ASV) 501/2011, emitidas pelo IBAMA, mantendo as proibições estabelecidas à NESA e ao BNDES.
Considerou-se, nos termos da jurisprudência do STF64, que a incolumidade
do meio ambiente não pode ser comprometida por interesses empresariais nem ficar dependente de motivações de índole meramente econômica, de modo a consagrar o princípio do desenvolvimento sustentável.
Além disso, utilizando-se dos termos constantes na Carta da França, ressaltou ser o meio ambiente um patrimônio comum dos seres humanos devendo
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sua preservação ser buscada, sob o mesmo título que os demais interesses fundamentais da nação, pois a diversidade biológica, o desenvolvimento da pessoa humana e o progresso das sociedades estão sendo afetados por certas modalidades de produção e consumo e pela exploração excessiva dos recursos naturais, a se exigir das autoridades públicas a aplicação dos princípios da precaução e da prevenção, nos limites de suas atribuições, em busca de um desenvolvimento durável.
Destacou ainda, no entendimento de que o órgão ambiental não poderá admitir a postergação de estudos de diagnóstico próprios da fase prévia para as fases posteriores sob a forma de condicionantes do licenciamento, consoante precedente do TCU65.
As entidades demandadas, e também a União, interpuseram recursos especiais e extraordinários, que ainda não foram julgados.
Com os mesmos fundamentos da primeira ação, o MPF propôs ação civil pública n. 18026-35.2011.4.01.3900 contra NESA e IBAMA pretendendo a declaração de nulidade da Licença de Instalação nº 795/201166, concedida pelo IBAMA para o Aproveitamento Hidrelétrico de Belo Monte, sem o cumprimento das mencionadas condicionantes impostas na concessão da Licença Prévia nº 342/2010.
Neste processo, as requeridas relataram todas as ações e medidas que vem sendo desenvolvidas em virtude do empreendimento. Afirmaram que o IBAMA analisou os impactos que irão ocorrer nas diferentes etapas da construção do empreendimento, determinando as medidas que necessariamente deverão ser cumpridas previamente para mitigação de tais efeitos, e rechaçaram a tese segundo a qual é necessário o cumprimento integral das condicionantes como pré-requisito para a emissão da licença de instalação do empreendimento67.
A Sentença, publicada em 10/06/2014, julgou improcedente a ação, considerando que as condicionantes referentes aos indígenas, à espeleologia e à
65 Acórdão 1.869/2006-Plenário-TCU, item 2.2.2
66 Emitida em 1° de junho 2011
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Tal argumento fundamentou-se no dinamismo do processo de licenciamento, o qual na se realiza em fases estanques, mas com previsão expressa para que a Administração Pública adapte as exigências às peculiaridades de cada projeto contemplando o princípio da eficiência.
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modelagem da qualidade da água e ao plano ambiental de construção, podem ser postergadas pelo órgão licenciador, uma vez que é a este quem cabe avaliar a necessidade de atendimento imediato ou não das exigências impostas na licença prévia, considerando o momento em que se verifica os impactos decorrentes do empreendimento.
No tocante às condicionantes antecipatórias relativas a equipamentos de saúde, educação e saneamento, a sentença ressaltou que todas encontram-se sendo desenvolvidas pelo empreendedor, não tendo o MPF se desincumbido do seu ônus de provar seus descumprimentos, tal como mencionado na ação.
Quanto à alegação de graves violações aos direitos humanos da população do município de Altamira-PA, especialmente no que se refere a condições sub- humanas de habitação e completa falta de saneamento básico, a sentença atribui tal situação ao descaso histórico nos três níveis federativos do Poder Público, não se podendo responsabilizar o empreendimento nesse aspecto68.
O MPF interpôs apelação que ainda não foi julgada.
3.2. Ação Civil Pública n. 0001618-57.2011.4.01.3903 – MPF versus UNIÃO e