5 AS PATENTES DE MEDICAMENTOS
5.1 A ÉTICA, A VIDA E O DIREITO
Os diuturnos avanços técnicos e científicos acabam por gerar uma profunda necessidade do ser humano rever quais os seus posicionamentos éticos, questionando-se até aonde pode e deve caminhar sem violar os valores morais. A tecnociência ao mesmo tempo que seduz, assusta, trazendo inúmeras questões acerca dos seus imprevisíveis limites, como assevera Roberto Andorno(1998, p. 26):
De este modo, la tecnociencia es vista a menudo por el hombre contemporáneo como uma suerte de máquina incontrolable que nadia sabe manejar y que avanza de modo imprevisible. En tales casos, el científico presenta al público la imagem de um aprendiz de brujo que, al mismo tiempo que está dotado de poderes casi sobrenaturales, corre el riesgo permanente de verse submergido por los mismos poderes mágicos que él há
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Tradução livre feita pelo autor: A Lei deve assegurar o progresso da ciência, porém não deve perseguir o cientificismo de forma cega.
desencadenados202
A questão torna-se ainda mais tormentosa por ser difícil diferenciar o que escraviza o homem daquilo que o liberta, até mesmo por operar-se a tecnologia sobre o ser humano, e não de forma externa a este (ANDORNO, 1998, p. 27).
Cresce a preocupação com uma análise ética da vida, com uma bioética, com um campo de conhecimento responsável por verificar tais questões de cunho multidisciplinar.
5.1.1 A Bioética: Nascimento e Evolução203
O epicentro do nascimento mundial da bioética remonta o norte da América, em especial à produção de Van Rensselaer Potter e André Hellegers.
Potter é considerado o “pai” da bioética, sendo, os marcos de surgimento, o seu artigo “Bioética: A Ciência da Sobrevivência”, datado de 1970, e a sua obra “Bioética: uma Ponte para o Futuro”, de 1971 (DINIZ, GUILHERM, 2002, p. 10).
Possuidor de formação médica, Doutor em Bioquímica e atuando na seara relacionada ao câncer (oncologia), a principal preocupação de Potter ligava-se à sobrevivência ecológica do planeta, mediante a democratização do conhecimento científico. Malgrado ser norte americano, pioneiro no tema e criador da expressão ‘bioética’, Potter não teve grande aceitação no seu país de origem. Maior importância no continente norte-americano foi conferida a André Hellegers, autor de uma segunda produção cronológica sobre o tema.
Academicamente, o advento do estudo pode ser relacionado a dois centros de produção acadêmica: um ligado a Potter, na Universidade de Wisconsin, em Madison; e outro a Hellegers, na Universidade de Georgetown, em Washington (DINIZ, GUILHERM, 2002, p. 10).
Em 1974, surgiu, nos Estados Unidos da América, o National Research Act, criando uma comissão para a análise de questões éticas e confecção de futuros princípios que
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Tradução livre feita pelo autor: A tecnociência é vista pelo homem contemporâneo como uma máquina incontrolável que ele não sabe manejar e avança de modo imprevisível. Em tais casos o cientista representa ao público uma imagem de um aprendiz de bruxo que, ao mesmo tempo que está dotado de poderes sobrenaturais, corre o risco de ver-se submergido pelos mesmo poderes mágicos desencadeados.
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Neste ponto impende ressaltar, como recorte metodológico, que se busca apenas conferir notícia sobre a bioética, com o fito de demonstrar a interdisciplinaridade do conhecimento. Não se pretende confeccionar dissertação que aborde os princípios da bioética ou seus pilares, ao passo que remonta o trabalho em tela, primordialmente, construção permeada pelo direito. A pesquisa sobre tal seara do conhecimento neste trabalho tem o escopo construir as bases da interdisciplinaridade.
guiassem as pesquisas. Como conseqüência dos estudos, em 1978 divulgou-se o Belmont
Report, cunhando como princípios da bioética o respeito pelas pessoas (autonomia), a
beneficência e a justiça (FERRER, ALVAREZ, 2005, p. 119).
O relatório parte da noção de que as pessoas devem ser tratadas como agentes independentes, autônomos, recebendo proteção acaso e tão-somente possuam sua autonomia comprometida.
O autonomia pressupõe o respeito às pessoas e suas opiniões; a beneficência inclui fazer o bem e não-fazer o mal; e justiça resta entendida sob sua perspectiva distributiva (ATIENZA, 1999, p. 64)204.
Claramente influenciados pelo relatório de Belmont, Tom L. Beuchamp e James F. Childress (2002)205 desenvolveram seus estudos sobre os princípios da bioética em 1979, na sua obra “Princípios da Ética Biomédica”. Este trabalho acrescenta mais um princípio aos acima mencionados, desenvolvidos no relatório de Belmont, sendo, a partir de então, quatro os princípios morais e gerais que orientam as decisões na biomedicina: respeito pela autonomia; beneficência; não-maleficência e justiça. Surge, nesta obra, o princípio da não- maleficência, que significa não causar um dano (conduta omissiva), em complemento ao princípio da beneficência, que visava apenas o fazer o bem (conduta comissiva).
Malgrado Beuchamp e Childress não estabelecerem ordem preferencial entre os princípios, é induvidoso o papel elevado da autonomia, até mesmo por influência do paradigma individualista norte-americano na sua formação (FERRER, ALVAREZ, 2005, p. 123).
Assim, com um detido estudo dos princípios, nasceu o principialismo na bioética como vertente que estuda a ética da vida com base em princípios vetores de soluções de problemas concretos. Principialismo e bioética não são expressões sinônimas, sendo aquele apenas uma fração desta.
No cenário nacional, como pontuam Débora Diniz e Dirce Guilherm (2002, p. 7-8), não há muito publicado sobre a bioética. A partir de uma rápida consulta aos manuais existentes, em regra relacionados à área de saúde, percebe-se existir ao menos três linhas principais de abordagem: historicista, filosófica e temática.
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O estudo dos princípios da bioética é merecedor de produção acadêmica específica sobre o tema. O que busca esse trecho do trabalho é apenas verificar a interdisciplinaridade do tema-problema na pesquisa, não adentrando o recorte do trabalho maiores digressões sobre os princípios.
O estudo dos princípios forma importante capítulo da bioética, em sua vertente mais famosa, denominada de principialismo.
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Abordagem historicista seria a que remete o nascimento da bioética aos fatos e eventos passados que teriam contribuído para o seu surgimento – as pesquisas realizadas nos campos de concentração nazistas [...]. [...], a abordagem filosófica possui um número menor de adeptos, pois exige que seus representantes tenham certo domínio da história da filosofia, especialmente da filosofia moral, tarefa para qual nem todos estão preparados. Por outro lado, a abordagem temática é a mais utilizada [...] permite uma compreensão do fazer bioético a partir de casos e/ou situações de vida que, nos últimos tempos, foram considerados típicos dilemas bioéticos.
A estruturação tardia da disciplina no cenário nacional é a principal responsável pela reduzida produção acadêmica em relação ao assunto. Apenas em 1990 é que se inicia no país um movimento relacionado ao tema, sendo, em 1993, o lançamento do primeiro periódico, intitulado de “Bioética”206, pelo Conselho Federal de Medicina (CFM).
A bioética nacional sofre por certo atraso na sua abordagem crítica da teoria principialista, sendo, não rara, a hegemonia do principialismo, ou, até mesmo, confusão de toda a bioética com esta corrente de pensamento. Há nítidos avanços no cenário brasileiro, como a criação, em 1996, da Sociedade Brasileira de Bioética (SBB), do Conselho Nacional de Ética e Pesquisa (Conep) e de uma instância pós-reguladora dos Comitês de Ética e Pesquisa (CEPs).
O campo de atuação da bioética é de grande amplitude. Envolve questões macro, relacionadas à sustentação da vida humana e ecologia (macrobioética), e questões mais setoriais, relativas à ética na biomedicina (microbioética). Desde a sua gênese, o objeto de estudo da bioética vem sendo ampliado, como afirma Pedro Federico Hooft (2003, p. 499):
Na gênese da bioética foram inicialmente teólogos, filósofos e estudiosos do campo da medicina e do direito que, a partir de seus próprios e específicos âmbitos disciplinares, se ocuparam dos problemas éticos originados em virtude do desenvolvimento das ciências biomédicas no princípio, às quais não tardaram associar-se os questionamentos suscitados na área da genética molecular, e os referentes aos crescentes problemas do meio-ambiente. A maior amplitude do campo de conhecimento denota o maior caráter multidisciplinar da bioética, que transita em várias áreas do conhecimento, ora relacionado-se à medicina, à biologia, à ecologia, à política, ao direito etc... Ao realizar análise sobre o acesso das patentes de medicamentos pelos desprovidos de recursos materiais, necessária a noção acerca da bioética, com especial ênfase ao diálogo do direito com este campo do saber.
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5.1.2 O Direito: Constatação do Diálogo
O direito tem especial papel de participação na ética da vida, pois a ética não constitui freio social capaz, autonomamente, de gerar respeito à pessoa. Ela necessita de mais, precisa do direito com seu poder de coerção e possibilidade de sancionar, com o objetivo de sempre conferir ao ser humano o caráter de fim, e não de meio para enriquecimentos imorais (ANDORNO, 1998, p. 51).
No campo da regulação das conquistas tecnocientíficas, em atenção à ética da vida, o direito tem exacerbada a sua importância, sendo perceptível uma “jurisdicização da sociedade” e “crescente entrelaçamento entre ética, medicina e direito”, com a juridicização da bioética (HOOFT, 2003, p. 500-501).
O fio condutor ligando bioética e direito ganha mais força por conta do crescimento de importância da tutela do ser digno, sendo retirada a propriedade como centro do sistema normativo. O ordenamento jurídico nacional contém normas que contemplam temas éticos, compatíveis com esse “laço”, como o princípio da boa-fé objetiva, estudado no capítulo primeiro de desenvolvimento deste trabalho.
Direito, ética e vida (bioética) são temas extremamente interligados e que sofrem simbioses constantes207. A necessidade de respostas morais concretas, inclusive por decorrência do fenômeno da juridicização, faz esse diálogo crescer. Questionam-se, principalmente, os limites dos avanços (emancipação) e a necessidade de respeito ao ser humano (regramento). Menciona-se Stella Maris Martinez (1997, p. 221):
[...] Las necesidades simultáneas de dotar, a uma sociedad expectante, de respuestas morales y paradigmas éticos que sirvan de basamento para la elaboración de nuevas leyes, entran en colisión con la resistencia inicial de los científicos, temerosos de ver coartada su libertad de investigación, y con lá própria dificultad que se presente para hombres ajenos a estas complejas disciplinas cuando intentan aprendher, siquera minimamente, em qué consisten lãs nuevas técnicas y cuál es el perigo real que conllevan208.
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Neste particular há de ser pontuado que não defende o autor a adoção da expressão biodireito – ao invés de bioética - ou a uma preponderância do direito na bioética, em detrimento aos demais ramos do saber. De fato, em razão do caráter completamente interdisciplinar, bem como de ser o temo bioética consagrado no cenário do direito estrangeiro, não é salutar uma mudança dessa ordem. Apenas refletiria tal mudança um desrespeito à construção da disciplina (Potter e demais baluartes), bem como tentativa do operador do direito exacerbar a importância do seu campo de saber em área nitidamente múltipla. Adotar biodireito seria referendar a possibilidade do surgimento de várias bioéticas, como a bioenfermangem, biofilosofia, biosociologia, etc... Sobre o tema interessante consulta ao já multicitado Pedro Federico Hooft (2003).
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Tradução livre do autor: [...] As necessidades simultâneas de dotar, em uma sociedade em espera de respostas morais e paradigmas éticos que sirvam de embasamento para a elaboração de novas leis, entram em colisão com a resistência inicial dos cientistas, temerosos de ver cortada a sua liberdade de investigação e com a própria
Nesse dilema social de emancipar e regrar, permitir e proibir, é que se situa a problemática posta, tentando conferir balizas à proteção das patentes sem, ao mesmo tempo, negar o acesso dos medicamentos à importante gama da população. Visto o panorama interdisciplinar, a partir desse enfoque plural e bioético, é momento de ingressar no tema medicamentos.