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A PROPRIEDADE INDUSTRIAL E A PROPRIEDADE AUTORAL

No documento A função social das patentes de medicamentos (páginas 131-134)

4 A PROPRIEDADE INDUSTRIAL

4.3 A PROPRIEDADE INDUSTRIAL E A PROPRIEDADE AUTORAL

Conforme já noticiado, a propriedade industrial e a autoral são espécies que partem do mesmo tronco: a propriedade intelectual ou imaterial.

Cabe, neste ponto, fazer distinção mais profunda de tais espécies, enfocando a propriedade industrial, a qual abrange as patentes de medicamentos.

A diferenciação básica que pode ser feita em relação à propriedade industrial e a autoral é o fato daquela ser direcionada para o mundo exterior, utilitário das coisas (técnica), enquanto a autoral volta-se ao mundo interior, da subjetividade e percepção humana (senso estético). A propriedade industrial atua no mundo físico, palpável, enquanto a autoral no campo das subjetividades humanas (SILVEIRA, 1998, p.15):

É justamente por isto que a propriedade industrial, para a sua configuração, exige o requisito da novidade objetivamente considerado. Pressupõe que o seu objeto seja desconhecido da coletividade de forma fática. Já a propriedade autoral exige somente a originalidade, melhor dizendo, que a criação seja desconhecida na ordem subjetiva do autor

(uma espécie de novidade de ordem subjetiva). Cita-se Newton Silveira (1998, p.9):

Enquanto as obras protegidas pelo direito do autor têm como único requisito a originalidade, as criações no campo da propriedade industrial, tais como as invenções, modelos de utilidade e desenhos industriais, dependem do requisito novidade, objetivamente considerado.

A originalidade deve ser entendida em sentido subjetivo, em relação à esfera pessoal do autor. Já objetivamente nova é a criação ainda desconhecida como situação de fato. Assim, em sentido subjetivo, a novidade representa um novo conhecimento para o próprio sujeito, enquanto, em sentido objetivo, representa um novo conhecimento para toda a coletividade. Objetivamente novo é aquilo que ainda não existia; subjetivamente novo é aquilo que era ignorado pelo autor no momento do ato criativo.

Sistematizando as duas diferenças postas, Fabio Ulhoa Coelho (2004, p.144) enfatiza que a proteção conferida ao criador pelo direito industrial é diversa daquela do autoral, tanto em relação à sua origem, quanto à extensão da tutela.

Em relação à origem a diferença é clara. A exclusividade na exploração de um bem imaterial conferida pelo direito industrial é decorrente de um ato administrativo de natureza constitutiva, cuja competência é do Instituto Nacional da Propriedade Industrial – INPI167.

Caso seja invenção ou modelo de utilidade, o ato culminará na expedição de patente, documentada pela carta patente; se for marca ou desenho industrial, o ato culminará na expedição de registro, documentado pelo certificado.

Presume-se titular do direito industrial aquele que em primeiro lugar pleitear a patente ou o registro, pouco importando ser o real criador industrial (sistema atributivo). Caso o criador industrial não procure de logo o INPI para registrar ou patentear a sua criação, corre o risco de que outrem o faça, sendo conferido o direito industrial à pessoa diversa do seu criador, devido à prioridade do pedido.

O mesmo se diga para a hipótese de existirem dois criadores que, de forma independente, devido à publicidade do estado de técnica, cheguem ao mesmo engenho. Presume-se titular do direito industrial aquele que primeiro fizer o depósito do pedido de patente. Afirma Tavares Paes (2000, p.30):

Em hipótese de mais de um autor de invenção, tendo eles efetuado a mesma invenção, de forma independente, terá o direito de obter a patente aquele que levar o depósito mais antigo, independentemente das datas de invenção ou criação.

Vigora o sistema de first applicant.

167

Neste ponto cabe noticiar que há doutrina minoritária que considera ser o ato administrativo concessivo da carta patente de natureza declaratória. Nesse sentido posiciona-se a autora Carla Eugenia Caldas Barros (2004, p. 73).

Nada impede, porém, que o título proprietário seja concedido a mais de uma pessoa, na hipótese de atividade inventiva desenvolvida conjuntamente (PIMENTEL, 2005, p. 43).

A análise da prioridade do pedido não se limita ao território nacional. São considerados também os pedidos realizados em outros países que tenham tratado internacional com o Brasil (art. 16 da Lei 9.279/96), avultando-se a importância do PCT e IPC, tratados analisados neste capítulo em articulado específico.

Neste ponto, cabe abrir um parêntese. Em verdade, o que há na legislação nacional é uma presunção relativa no sentido de que é o inventor quem primeiro pleiteia a patente (art. 6º, §1º da Lei 9.279/96). Tal presunção pode ser elidida no prazo de trinta e seis meses da publicação do depósito, por terceiro que demonstre ser o real criador industrial e ter sido usurpado de seu engenho. A decisão caberá à autoridade competente do INPI (RIZZARDO, 2004, p.736).

A legislação interna que regula o tema propriedade industrial é a Lei 9.279/96: Lei da Propriedade Industrial - LPI.

Já no que tange aos bens que integram o direito autoral, ainda seguindo a diferenciação sistematizada por Fábio Ulhoa Coelho, o pensamento é diverso, bem como a legislação aplicável (Lei 9.610/96).

O direito de exclusividade do criador autoral não decorre de ato administrativo, mas sim da própria criação, sendo que é desta que advém a exclusividade da exploração econômica (monopólio de exploração da criação). O registro previsto na legislação autoral tem como único escopo a realização de futura prova da anterioridade da criação, caso seja necessário ao criador exercitar o seu direito.

O ato administrativo em comento é de natureza declaratória. É por isso que nos direitos autorais é cabível o pleito judicial de exploração exclusiva de obra não registrada. Observando a diferença acerca da natureza jurídica do ato do INPI para a propriedade industrial e autoral, enfatiza Denis Borges Barbosa (2003, p. 192-193) ao falar sobre os direitos autorais:

A primeira regra aqui, o da inexigência de qualquer formalidade para obter a proteção; para países, como o Brasil, onde se prevê o registro da obra, este é apenas ad probandum tantum, e completamente opcional. Assim, o resultado desse princípio é que – ao contrário do que ocorre, por exemplo, no tocante às patentes – o direito exclusivo nasce da criação, e não de qualquer declaração estatal.

Em relação à segunda diferença mencionada por Fábio Ulhoa Coelho, a extensão da tutela, esta também é de fácil percepção.

O direito industrial protege não somente a forma exterior do objeto, mas também a própria idéia inventiva. É justamente por isso que, se acaso alguém apresentar ao INPI pedido de patente que descreva, de maneira diversa, invenção ou modelo de utilidade já patenteado, a decisão de concessão de carta patente será negativa.

Em relação ao direito autoral, tutela-se apenas proteção à forma exterior do objeto, sendo vedado o plágio (cópia da obra). Porém, a idéia da qual decorreu o bem protegido, não é tutelada. Esse fato é de simples percepção, bastando para tanto observar ser possível cópia de enredos de um livro, filme ou peça teatral; apesar de vedada a cópia ipsis litteris.

Supostos triângulos amorosos como o genialmente descrito por Machado de Assis em Dom Casmurro (1991), bem como narrativas retratando as parcas condições dos nordestinos atingidos pela seca, como em Vidas Secas de Graciliano Ramos (1995), são encontrados em diversas obras nacionais, as quais, usualmente, não atingem a qualidade ímpar das citadas acima.

Esse fato não constitui plágio, pois não há a cópia da criação, mas sim da sua idéia, o que, na sistemática do direito autoral, não se inseri no contexto das ilicitudes.

Devido a tais fatos observados que a legislação responsável pela disciplina da propriedade industrial é muito mais rigorosa e formal do que aquela responsável pelos direitos autorais.

Na propriedade industrial a novidade há de ser analisada em relação à coletividade e ao estado atual de técnica (fase em que se encontra o avanço industrial da sociedade); enquanto na autoral se exige somente a originalidade: que seja novo para o seu criador. Infere-se que para o sistema proprietário industrial a novidade é objetiva, enquanto para o direito autoral é subjetiva.

Feita a diferenciação entre a propriedade industrial e a autoral, adentra o trabalho a propriedade industrial e sua proteção no Brasil, com o escopo de chegar até as patentes.

No documento A função social das patentes de medicamentos (páginas 131-134)