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A6: Aí ela endurece e tal 35 Profa.: Endurece e perde.

36. A6: É.

Após a questão “responda antes de prosseguir”, no turno três, os alunos fizeram 19 intervenções, respondendo a questão solicitada. No turno quatro, a professora repete a questão do livro, sinalizando claramente a sua identificação com a condução desse tipo de atividade, sugerida pelo livro. Geralmente, isso se repetia em questões desse tipo. Dessa forma, podemos dizer que a professora seguia a estratégia recomendada pelo livro e conseguia, com isso, interagir com os alunos, permitindo que eles expressassem as suas concepções. Essas intervenções ocorriam, em geral, com a participação de quatro a seis alunos – quase sempre os mesmos.

O propósito evidente do texto do livro é conduzir o aluno a identificar a importância de cálculos proporcionais. O desperdício de material proveniente da preparação de massa e o de cálculos prévios seriam os temas que estariam

vinculados ao texto em questão. Observa-se que quando os alunos se referiram a esses exemplos (turnos 5, 11, 12, 14, 16, 18 e 21), a professora deu prosseguimento à fala dos mesmos (turnos 6, 13, 15, 17, 20, 22 e 24). Os alunos sugeriram outros fatores que afetam o desperdício (turnos 5, 6, 7, 8, 9, 10, 25, 26 e 27) que não tiveram a mesma resposta da professora.

No turno 27, quando um aluno requisita a atenção da professora (“Professora, hein professora, mesmo assim que a pessoa compra o tanto certo, como o pessoal, de qualquer maneira muitas vezes é destruído, um certo pouco de material, um pouco. Então muitas pessoas previne no caso de acontecer já tem ali guardado, e outros compra a quantia acaba quebrando aquela pecinha, ele vai lá e tem que comprar mais”.) e apresenta um outro argumento, ela aceita a fala do aluno no turno 28, mas logo em seguida, nos turnos 30 e 32 (“Agora você citou a questão da massa. O que que você falou? Profa.: E aí?”), já redireciona a questão para o foco central do texto: cálculos proporcionais.

Esse episódio evidencia que a professora tinha conhecimento preciso das intenções do livro e que ela conduzia a participação dos alunos de maneira seletiva, de forma a privilegiar as idéias que seguiam o sentido do texto didático e a desconsiderar as demais. Um aspecto importante a ser ressaltado é que, nesses momentos, aumenta a interação da professora com os alunos, e a participação desses não mais se limita a completar lacunas deixadas na fala da professora, como vimos na estratégia de interação anterior.

Apesar de se tornarem mais interativas, essas seqüências ainda não poderiam ser caracterizadas como dialógicas (MORTIMER e SCOTT, em preparação), pois a função do texto, pelo menos o que está sendo elaborado pela

professora em conjunto com os estudantes, continua sendo unívoca. Isso é evidenciado pelo fato de a professora unicamente considerar as respostas que correspondem ao seu horizonte conceitual, que é na verdade definido pelos significados que são abordados no livro utilizado. Assim, quando as contribuições dos alunos são diferentes desse significado central (no caso, a importância das medidas para evitar o desperdício), a professora tende a simplesmente ignorá-las ou considerá-las rapidamente e voltar ao tema principal.

Nesse episódio os alunos trouxeram várias idéias, como contribuições que não correspondiam ao que estava planejado. Na seqüência representada pelas falas dos turnos cinco a dez, os alunos oferecem várias idéias que não são sequer consideradas pela professora, pois não coincidem com o que estava planejado (“tijolo quebra muito”; “se não colocar a cerâmica, se não souber cortar direito aí vai desperdiçar a mesma coisa”; “aprender o assentamento da cerâmica, né? [xxx]. Aí erra uma cerâmica errou tudo”; “a instalação, saber puxar o fio [xxx]”). A professora, na primeira oportunidade (turno 20), retoma a questão da necessidade de se fazerem medidas prévias antes de comprar os materiais de construção. Novamente, nos turnos 25 ao 36, os alunos trazem outra contribuição, de que é necessário comprar mais material para lidar com desperdícios que são inevitáveis. Nesse caso, a professora aceita os argumentos (turnos 28 e 30), mas não dá prosseguimento a essas falas.

Esses aspectos reforçam resultados relatados previamente na literatura (MORTIMER e MACHADO, 1996), que evidenciam o dilema vivido pelos professores que adotam metodologias mais interativas, entre “dar voz ao aluno” e seguir o planejamento prévio. No episódio analisado, a professora privilegia

claramente o planejamento, tendendo a não considerar as contribuições que estão fora dele na elaboração de seu “texto”. Isso conduz a produção de textos unívocos, onde um único horizonte conceitual – o do professor e do livro didático – é considerado. Isso pode ter resultado em que muitas das formas de pensar dos alunos, por não terem sido contempladas e/ou questionadas, permaneceram inalteradas. Dessa forma, muitas vezes não há estabelecimento de relações entre os ASC que estavam sendo discutidos e as concepções dos alunos.

É interessante notar que, apesar de não contemplar completamente as falas dos alunos que não estão de acordo com o planejado, a professora também não descarta totalmente essas contribuições. Isso parece ter um efeito sobre a dinâmica das interações, pois os alunos não deixam de oferecer suas contribuições, mesmo que a professora não as contemple no seu discurso.

Essa é uma característica dominante nas formas de interação “mais abertas” que a professora estabelece com seus alunos, e que vai se repetir em quase todas as ocasiões em que o livro propõe questões “responda antes de prosseguir”. Como veremos mais adiante, esse mesmo tipo de interação também aparece nos episódios que acontecem por ocasião das “questões para discussão” propostas pelo livro, apesar de nesses casos não serem a única forma de interação.

A seguir apresentamos um outro exemplo de interação em que a professora considera as idéias de forma seletiva, para mostrar que isso é predominante na discussão de questões “responda antes de prosseguir”. O episódio ocorreu durante a leitura do texto “Medidas: um processo racional de controle” (vide anexo 2.3). A análise desse episódio também permitirá a

visualização de outros aspectos da dinâmica de interações que a professora instaura com seus alunos que são relevantes para a análise que estamos empreendendo. O episódio inicia com a professora em pé, próxima ao primeiro aluno, com o livro na mão. Ela estava comentando o texto que os alunos ficaram de ler em casa e naquele momento, passa a ler uma questão “responda antes de prosseguir”.

Episódio 5 – Desperdício em restaurantes (aula 13, 27.09.1999, 20:17 h às 20:35 h)