FAMILIAR 82 PRINCIPAIS FACTORES DE RISCO
2. A ABORDAGEM AO SOFRIMENTO PLANO DA METODOLOGIA
Neste estudo, a análise do problema configura-se num espaço e grupo popula- cional que contém especificidades. Se, de facto, apresentamos três aborda- gens metodológicas, pretendemos colocá-las face a uma mesma realidade so- cial - a com que se confrontam os trabalhadores do calçado.
Como veremos, trata-se de um sector com interesse particular, nomeadamente no que diz respeito ao seu desenvolvimento tecnológico: apesar duma evolu- ção significativa no processo da automação, a componente manual continua a ter um papel significativo mesmo nas tarefas mais mecanizadas.
Na verdade, a variedade de modelos de sapatos hoje imprescindível para as empresas do sector exige constantes mudanças de processo de fabrico obri- gando os trabalhadores a saber lidar mais do que antes com diferentes proce- dimentos: a polivalência constitui assim um imperativo das normas de produ- ção.
Contudo, o modelo taylorista de organização do trabalho ainda domina no sec- tor do calçado, com o conjunto de constrangimentos que são inerentes a este modelo de organização: o processo de fabrico do calçado possui muitas tarefas minuciosas, que exigem habilidades, umas com ciclos de produção muito cur- tos, repetitivos e exigindo frequentemente a adopção de posturas rígidas (p. ex. ortostática e permanentemente sentado).
O sector do calçado é assim um bom exemplo que demonstra que, se a meca- nização e a automação prometeram o desaparecimento de tarefas pesadas, acabaram na realidade por complexificar o trabalho humano e conduzir ao apa- recimento de novas patologias. Neste sentido as investigações epidemiológicas confrontam-nos com um aumento considerável de perturbações músculo- esqueléticas (PME) ligadas ao trabalho e veremos quanto este desequilibro na saúde do trabalhador acaba por ser preocupante nas empresas do calçado em Portugal onde um conjunto de esforços repetitivos provoca uma diversidade de afecções nos tecidos moles e periarticulares.
No entanto, a realidade é uma só (Sedas Nunes, 1994) e a sua abordagem pode assumir configurações variadas - conduzindo a conclusões também dife- renciadas. Assim optamos por guiar a nossa pesquisa sobre o sofrimento do trabalhador do calçado, pelo confronto de três estudos que correspondem a várias posturas de teor metodológico e epistemológico distintas - que acabare- mos por definir nas suas complementaridades.
3. POPULAÇÃO DO ESTUDO - Os TRABALHADORES, os OPERADORES, os ACTORES
O desenvolvimento da primeira pesquisa, que na realidade corresponde ao ponto de partida da nossa reflexão centrada numa abordagem ao stresse no trabalho, teve por pano de fundo a avaliação da saúde mental pretendendo-se
em simultâneo comparar indivíduos empregados com indivíduos desemprega- dos. Neste estudo elaboraram-se hipóteses para verificar se o desemprego influenciava a saúde mental do indivíduo e se existia relação entre o stresse no trabalho e a saúde mental. Para o efeito, criaram-se dois grupos de trabalhado- res, um de empregados e outro de desempregados. Os primeiros pertenciam a várias empresas do sector secundário mas uma boa parte da amostra provinha de uma empresa de calçado.
Os estudos de abordagem ao stresse costumam fazer apelo a métodos quanti- tativos e utilizam então escalas e questionários para quantificar variáveis procu- rando dar resposta a uma das exigências do método: a procura da objectivida- de.
Como teremos oportunidade de o realçar, neste quadro estamos perante um universo epistemológico que tem subjacente uma concepção de homem no trabalho que não é o dos estudos seguintes.
Do percurso investigativo realizado nesta primeira fase e dos resultados obti- dos surgiu, com efeito, a necessidade de se compreender o sofrimento dos tra- balhadores orientando-se a investigação para uma aproximação ao real do tra- balho. O facto de parte da amostra da primeira pesquisa pertencer a uma em- presa do sector do calçado onde tínhamos a possibilidade de conduzir outro estudo foi então determinante para o privilégio atribuído ao contexto específico dos trabalhadores do calçado.
Mas a aproximação ao real do trabalho realizada na segunda fase desta pes- quisa com um estudo de caso orientado para a análise da actividade não nos satisfez para a compreensão das vivências do trabalhador do processo de construção da sua saúde ou do seu sofrimento. Por conseguinte, a terceira op- ção metodológica incidiu na Análise Colectiva do Trabalho (ACT) definida por Leda Leal Ferreira, como sendo um método no qual trabalhadores falam sobre a sua própria actividade em situação de trabalho para outros trabalhadores e para pesquisadores (Ferreira, 1993): através do diálogo que se estabelece em cada sessão a actividade vai sendo descrita, explicada, interpretada e os traba- lhadores reflectem sobre a sua própria actividade tornando-os actores da sua própria transformação no trabalho.
Em colaboração com a organização sindical do respectivo sector, constituíram- se por isso dois grupos de trabalhadores do calçado, em locais de inserção geográfica diferentes da região norte do País, tendo-se respeitado os princípios do voluntariado e do anonimato.
Como veremos, nos capítulos correspondentes aos três estudos distinguimos as respectivas concepções de homem no trabalho reveladas, nomeadamente, através de inovações lexicais que não deixam de ser interessantes.
Assim no primeiro estudo (suportado em pressupostos epistemológicos de ca- riz positivista) o homem é um "trabalhador" considerado indiferentemente como assalariado, empregado, subordinado, também sindicalista ou grevista, desem- pregado ou explorado. Mas no paradigma do nosso segundo estudo, o homem é sobretudo um "operador", porque essencialmente, é visto como desempe- nhando uma actividade em situações determinadas. Quanto ao homem da ACT, este passa a ser um actor, imputando-lhe uma responsabilidade indivi- dual no acto do seu trabalho valorizando-lhe o seu papel na situação de traba- lho, (De Montmollin, cit. por Lacomblez, 2001, tradução livre). A metodologia utilizada permite aqui a tomada de consciência propulsora de transformações no e pelo trabalho. O homem é assim e nesta medida actor social e a metodo- logia que desenvolvemos assenta no paradigma compreensivo que conduz a uma interpretação construtivista, (Dejours, 1995a).