FAMILIAR 82 PRINCIPAIS FACTORES DE RISCO
1. SOBRE A RELAÇÃO DO HOMEM COM O TRABALHO
O que pretendemos reflectir e discutir neste capítulo introdutor é a circunstân- cia da relação do homem no trabalho que se reveste da particularidade de o trabalhador não ser um indivíduo isolado. A condição de operador conduz à necessidade de se relacionar com os outros: colegas, hierarquia e subordina- dos. Ora, o sofrimento encontra-se no seio destas relações e admitimos tal como Dejours (1995c) que o sofrimento é o vivido primordial da relação do ho- mem com o trabalho. No entanto o trabalho também gera prazer e a questão que se coloca é a da transformação desse sofrimento em prazer. Mas o prazer não pode acontecer senão pelo benefício obtido pelo trabalho no registo da construção da identidade do indivíduo e da realização pessoal (Dejours, 1995c).
Nas relações que o operador estabelece com os outros Dejours distingue a relação com os operadores que sofrem e que conduz à construção de estraté- gias de defesa colectivas; a relação com os pares donde emerge o reconheci- mento e a identidade de pertença a um colectivo; a relação com a hierarquia que pode fazer reconhecer a utilidade do operador; a relação com os subordi- nados donde pode emergir o reconhecimento da autoridade e das suas compe- tências.
Todos estes pressupostos se apoiam na teoria da psicodinâmica do trabalho e consubstanciam a ideia da intersubjectividade que remete para o modelo de homem em psicopatologia do trabalho e para o papel fundamental da organiza- ção do trabalho, que não é sobretudo técnica, embora basicamente o seja, mas passa também por uma integração humana que a modifica e lhe dá a for- ma concreta (Dejours e Abdoucheli, 1994).
Embora a questão central deste trabalho e motor das pesquisas que desenvol- vemos seja a análise do sofrimento no e pelo trabalho nas suas dimensões físi- ca, psíquica e moral, o percurso que fizemos foi também de descobrir o que a psicodinâmica do trabalho quis realçar quando assume como pressuposto fun- damental o da intersubjectividade.
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2 . D A P S I C O P A T O L O G I A D O T R A B A L H O À P S I C O D I N Â M I C A D O T R A B A L H O
O paradigma (Kuhn, 1983)1 da psicopatologia do trabalho, disciplina iniciada
nos anos 50/60, tem sido definido segundo Dejours (2000a) a partir dos contri- butos de autores, entre os quais os mais significativos são L. Le Guillant2, C.
Veil, P. Sivadon, A. Femandez-Zoila e J. Bégoin sendo preocupação central destes autores pôr em evidência as ligações entre trabalho e doenças mentais. As investigações desenvolvidas posteriormente por psiquiatras e investigado- res franceses, realçaram o quanto os constrangimentos do trabalho podiam provocar afecções psicopatológicas: o trabalho (sobretudo o industrial), era vis- to como "uma desgraça socialmente gerada, e desmoralizante para a saúde mental dos trabalhadores."(Dejours, 2000a:205, tradução livre).
A investigação clínica preocupava-se então em identificar doenças mentais es- pecíficas, influenciada pelo modelo que oferecia a patologia profissional. Al- guns síndromes, neuroses e outras formas psicopatológicas, foram evidencia- das, embora poucas foram as doenças mentais específicas coligidas pela no- sografia psiquiátrica.
Os trabalhos de Dejours publicados nos anos 70, inscreviam-se nesta tradição, embora, mais tarde (início dos anos 80), tenha renunciado a focalização da investigação nas doenças mentais e "transportado o olhar para cá da doença mental descompensada", (Dejours, 2000a:206, tradução livre) afastando-se do modelo psicopatológico causalista.
A opção de "psicopatologia" de Dejours é então de centrar a investigação na normalidade e não na patologia3. Daí que o termo não deva ser compreendido
De acordo com Kuhn (1983) utilizamos o conceito de paradigma na acepção de um conjunto articulado de postulados conceptuais, teóricos, instrumentais e metodológicos, que durante um certo tempo, proporciona problemas e modelos de soluções a uma comunidade cientifica.
O trabalho mais citado do autor foi feito em 1956 sobre a actividade das telefonistas em Paris no qual o autor diag- nosticou um distúrbio que nomeou como Síndrome Geral da Fadiga Nervosa. Tratava-se dum quadro polimórfico que incluía alterações do humor e de carácter, modificações do sono e manifestações somáticas variáveis.
No texto intitulado "itinerário teórico em psicopatologia do trabalho", Dejours & Abdoucheli (1994), justifica manter-se o termo, porque por um lado contém a raiz pathos que reenvia ao sofrimento e não somente à doença ou à loucura e por outro reenvia à psicopatologia da vida quotidiana na qualidade de referencia explícita ao funcionamento psíquico.
Capítulo I 37 Ò Sofrimento no cruzamento das relações complexas entre o Homem e a Organização do Trabalho
no sentido restritivo do mórbido. Dejours ousa mesmo falar numa psicopatolo- gia da normalidade, em oposição a uma "psicopatologia da doença".4
A esta evolução, que sustentou a definição progressiva da psicodinâmica do trabalho, voltaremos mais tarde, aquando da análise do sofrimento e da cons- trução das estratégias defensivas individuais e colectivas contra aquele, visto que aderimos a esta ideia de que os homens não são passivos face aos cons- trangimentos organizacionais e, portanto, são capazes de se proteger dos seus efeitos nocivos sobre a saúde mental. Mas o que importa sublinhar desde já é a opção "princeps" da psicodinâmica do trabalho em conseguir compreender como os trabalhadores alcançam manter um certo equilíbrio psíquico, mesmo estando submetidos a condições de trabalho desestruturantes (Dejours, 2000a).
Um olhar retrospectivo sobre a psicopatologia do trabalho revela um conflito central - o conflito entre a organização do trabalho e o funcionamento psíquico. É este núcleo, da clínica do trabalho, que conduz a que se tenha definido a psi- copatologia do trabalho como "a análise do sofrimento psíquico resultando da confrontação dos homens na organização do trabalho". Esta organização é en- tão considerada como um "conjunto de constrangimentos pesados, monolíticos,
inabaláveis, até mesmo inexoráveis (...)" (Dejours, 2000a:205, tradução livre). Trata-se de uma visão da organização do trabalho que se enquadra no que Maggi designa de lógica mecânica, em que a organização é compreendida como "uma entidade que é predeterminada em relação aos actores, ao seu ser no sistema e ao seu agir" (Maggi, 1996:155, tradução livre), onde predomina a ideia de racionalidade objectiva absoluta. A lógica desta organização com- preende a divisão de tarefas, de prescrições de realização rígidas, hierarquiza- ção de responsabilidades, segundo modos do tipo tayloristas ou fordistas. O trabalhador é também tido como uma parte "mecânica" do sistema e desse
No texto "Esboço de uma crítica à especulação no campo da saúde mental e do trabalho", Lima (2002) aponta a contribuição importante dos estudos de Dejours para a compreensão das estratégias de preservação da saúde (ou da normalidade) em situações menos sadias no trabalho e a explicitação que os seus estudos têm dado no campo da compreensão do medo, da fadiga, da ansiedade e da exploração do sofrimento nos contextos de trabalho. Deste modo Dejours tem frisado a flexibilização da organização do trabalho como a medida revelada importante na prevenção de diversos problemas de saúde ocupacional.
38 Capitulo I O Sofrimento no cruzamento cias relações complexas entre o Homem e a Organização do Trabalho
modo nele contribui através da prescrição e resposta a atribuições especificas sem no entanto o mudar.5
O sofrimento analisado é assim o de uma relação bloqueada entre o trabalha- dor e a organização do trabalho6. Considera-se que a energia de pulsão não
encontra descarga no exercício do trabalho e acumula-se no aparelho psíquico, ocasionando sentimento de desprazer e de tensão. Mas essa energia, não permanecendo aí muito tempo, vai desencadear perturbações no corpo, e daí, o aparecimento da fadiga que, embora resulte de uma carga psíquica excessi- va, tem uma tradução somática. Deste modo, para a psicopatologia do trabalho "a fadiga é uma testemunha não especifica da sobrecarga" (Dejours, 1994b:29), que afecta um ou outro sector do organismo psíquico e somático, parecendo de pouca utilidade procurar traços que caracterizem a fadiga psíqui- ca ou nervosa, em relação à fadiga física: o sofrimento físico, torna-se uma via alternativa de expressão do sofrimento psíquico, manifestado através de dis- túrbios psicossomáticos, vulgarmente observados na realidade das empresas. Como vimos, o campo da psicopatologia do trabalho define-se nas relações entre a organização do trabalho e o trabalhador na sua singularidade e sua his- tória (Dejours, 1987)7.
O domínio da psicopatologia do trabalho situa-se entre o dado conforto e bem- estar psíquico e o polo da doença mental, descompensada. Dejours designa o espaço clínico intermediário, sob o termo de "sofrimento" que "assinala, geral- mente, a evolução duma luta: luta entre funcionamento psíquico e mecanismos de defesa por um lado, constrangimentos organizacionais desestabilizantes, por outro, no desígnio de conjurar a descompensação e conservar (...) o equilí- brio." (Dejours 1987:735, tradução livre).
No início dos anos 90 operou-se esta mudança teórica que conduz à psicodi- nâmica do trabalho assumindo-se como a análise psicodinâmica dos processos
Maggi (1996) aponta que, nesta concepção mecânica de organização, os actores individuais podem mudar, entrar e sair da organização mas a identidade do sistema não muda sendo este independente da identidade dos actores.
Segundo Dejours (2000a) esse sofrimento, que é de natureza mental, resulta do facto de o homem, no trabalho, já não poder fazer nenhuma modificação da sua tarefa no sentido de a tornar mais de acordo com as suas necessidades fisiológicas e os seus desejos psicológicos.
Dejours (1987), refere que a denominação de psicopatologia do trabalho se torna um pouco imprópria na medida em que o que interessa a esta disciplina não é tanto o trabalho e o trabalhador mas o homem "que se esconde atrás do seu boné" (p.729, tradução livre). Contudo o trabalho também interessará à psicopatologia pelas consequências que produz no homem e no seu vivido, nomeadamente o impacto que tem na sua saúde.
Capitulo I 39 O Sofrimento no cruzamento das relações complexas entre o Homem e a Organização do Trabalho
intersubjectivos mobilizados pelas situações de trabalho: "«dinâmico» significa que a investigação toma como centro de gravidade os conflitos que surgem do encontro entre um sujeito (portador de uma história singular, preexistente a este encontro) e uma situação de trabalho, cujas características são, em gran- de parte, fixadas independentemente da vontade do sujeito." (Dejours e Ab- doucheli, 1994:120). Assim no campo da investigação clínica passou-se da análise das doenças mentais, isto é, da psicopatologia do trabalho à análise da "normalidade", entendida como uma situação de equilíbrio instável e precário, entre sofrimento e defesas contra o sofrimento.
Mas convém realçar que esta renovação da psicopatologia do trabalho inscre- ve-se num ambiente novo das ciências sociais, numa altura em que a "sufoca- ção das teorias estruturalistas restituem o direito de cidade ao actor, ao sujeito, ao sentido da experiência, no momento em que o indivíduo se emancipe, afir- me as suas aspirações pessoais e reivindique que o seu trabalho e a sua expe- riência têm um sentido." (Billiard, 2001:8, tradução livre). Mas, esta reorienta- ção da psicopatologia do trabalho opera também paralelamente às transforma- ções da organização produtiva: já no final dos anos oitenta generalizam-se no- vas formas de trabalho e estratégias de gestão que, valorizando o saber-ser, a iniciativa e a responsabilidade pessoais, trazem à luz a dimensão subjectiva requerida no trabalho. A subjectividade aparece cada vez mais "como consubs- tancial ao acto do trabalho com o mesmo valor que o estado das técnicas e o da organização das relações sociais." (Billiard, 2001:8, tradução livre).
E não deixa de ser interessante o quanto as formulações apontadas pela psi- codinâmica do trabalho ressaltam a defesa do primado duma "racionalidade subjectiva" das condutas e das acções dos trabalhadores que tem por horizon- te a "realização do eu no mundo social", também denominada "pathique", no sentido de se tratar de uma racionalidade das condutas que se organizam em resposta ao facto de ter de suportar as duas outras racionalidades: a instru- mental e a social (Dejours 1995c).
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3. A COMPREENSÃO DA DINÂMICA ENTRE O SUJEITO, O UNIVERSO DO TRABALHO E O