CONTINUIDADE E A INVENÇÃO
“(...) os peregrinos da Academia Sobralense de Estudos e Letras, que se envaidece de ser a Pioneira da Cultura, como entidade constituída e organizada, lá, em Sobral e na Zona Norte do Estado (...) Dr. João Ribeiro Ramos
A Academia Sobralense de Estudos e Letras é, possivelmente, o marco mais importante na organização e construção do arquivo da cidade letrada. A redundância é a marca desse arquivo, desse arrazoado de sentidos e signos que compõe o imaginário a respeito da cidade das letras. Mas para nós, “O arquivo, oferecendo sempre o mesmo, o outro e o distinto, complexifica a abordagem do problema, sublinha oposições, obriga a refletir de forma sustentada sobre o paradoxal”269
. Por isso, a busca pelo entendimento de como em que contexto se deu a invenção da fundação da Academia Sobralense de Estudos e Letras será valioso para o nosso trabalho. Que tensões e paradoxos ocorreram? Como alguns de seus acadêmicos apresentam e constituem um imaginário sobre essa fundação? Como arregimentou seus sócios e formou sua diretoria? Que sentidos sobre o passado da cidade foram produzidos no contexto de fundação da ASEL? A fundação da ASEL, nesse contexto de reflexão, nos animaa pensar que o que se funda é, muito mais do que uma academia de letras, sendo “a memória (...) a síntese fundamental do tempo que constitui o ser do passado (o que faz passar o presente)270.
De maneira geral, como já analisamos, alguns discursos acadêmicos que se referem a Academia Sobralense de Estudos e Letras estabelecem uma ligação direta, na verdade uma espécie de continuidade entre a ASL e a ASEL, de modo que a intenção é postular certa continuidade letrada na cidade, legitimando assim uma Academia pela outra, sendo a segunda uma espécie de influência direta da primeira, fundamentando uma dada tradição intelectual, que procura homogeneizar o tempo, apagar as diferenças, idealizando-se por isso que:
269
FARGE, Arlette. O sabor do arquivo. Op. Cit. p. 45.
A Academia Sobralense de Estudos e Letras era mais um elo da grande cadeia que unia os sobralenses na preservação de seu patrimônio histórico-cultural e na vontade de afirmar Sobral como cidade intelectual271.
Nesse sentido a ASEL foi e continua a ser lugar de escrituração, invenção e reinvenção da História da cidade de Sobral, um elo entre o presente e o passado, lugar de preservação e confirmação do que seriama dada tradição da cidade, mas não foi “a Pioneira da Cultura”, como Dr. Ramos escreve. Mas foi ali, indicamos, na ASEL, sobre a qual temos muito mais dados do que a Academia de 1922, como lugar de confluência e organização de intelectuais, que Sobral foi transformada na cidade intelectualizada, a cidade das letras, numa “ilha de letrados”, conformada em seu passado sempre atualizado, sempre a emitir sinais para o presente, quando a história da cidade de Sobral se transfigurou em memória e praticamente se institucionalizou enquanto escritura dita verossímil sobre o que “um dia foi” e que poderia “voltar a ser” exatamente pelo ofício das letras, das virtudes cívicas e municipais, uma vez que ser membro da ASEL equivalia a ser investido de determinada identidade sobralense, identidade essa na verdade fluída e sem a solidez que o discurso acadêmico quer fazer crer. Em outras palavras, ser um peregrino da Academia Sobralense de Estudos e Letras, certamente significaria ser parte ativa das supostas tradições intelectuais da cidade, quer dizer, representaria assumir a sobralidade, e pertencer mesmo que fosse por filiação. A escrita, assim, assume seu peso conformador e consolador. Ela inscreve o destino de uma cidade numa condição atemporal em que o passado faz da História um lugar exponencial de lembrar, de modo que “(...) a evocação do passado parece conferir legitimidade e status às ações do presente”272. Assim, o passado em si é sempre o protagonista da história sobralense, é sempre o seu filão...
Apesar da intenção quase sempre recorrente para associar a ASL com a ASEL, a diferença entre as duas instituições era significativa. A ASL teve vida efêmera, como já vimos, criada em 1922, foi símbolo do momento de comemoração do centenário da independência e dos influxos da Semana de 1922, servindo muito mais para posicionar a cidade de Sobral nas trilhas da modernidade e daquela comemoração. Editou uma única revista para publicar textos dos acadêmicos todos, em sua grande maioria, em
271 LIRA, Padre João Mendes. Nossa História. A Academia Sobralense de Estudos e Letras. Correio da
Semana, 30 de abril de 1974. p. 7.
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ABREU, Regina. A fabricação do imortal. Memória, história e estratégia de consagração no Brasil. Op. Cit. p. 55.
sintonia com os simbolismos da data de 1922, nesse sentido, “approveitando o domínio das mais propicias disposições moraes, que o decorrer desta heroica data nos desperta, esforcemo-nos por cultivar sempre o verdadeiro e bem orientado patriotismo”273. Desse modo a ASL é inventada para comemorar a data da independência em Sobral, apostando no patriotismo como um elemento de identidade também sobralense. A sua inserção na cidade foi de certo modo muito limitada, apesar da presença dos intelectuais mais visíveis como seus membros, especialmente clérigos, e nesse ponto a semelhança com a ASEL era constatada. A ASEL, por outro lado, se diferencia da ASL em primeiro lugar pela longevidade, pois criada em 1943, continua em atividade até hoje, com um pequeno hiato na década de 1960. A motivação para a constituição da mesma foi de ordem mais local, pois nascida nos influxos das comemorações do centenário da cidade em 1941, apesar de ter sido instalada solenemente no dia 15 de novembro data simbólica da proclamação da República, sua intenção maior era manter “as suas mais valiosas tradições, o amor as letras”274
, questão muito mais reforçada na ASEL do que na ASL. Outra diferença básica é que a ASEL era “de Estudos e Letras”, ou seja, o acesso a essa Academia dependia dos estudos dos seus pretendentes, não necessariamente da publicação de alguma obra mais densa. Aqui os estudos eram entendidos como qualquer reflexão que envolvia algum tipo de erudição e que fosse de algum modo explicitado pelas páginas dos jornais ou mesmo que fosse lido em público.
Sobre a ASEL, a exemplo do que foi dito sobre a ASL, cuja informação mais antiga publicada por um membro da Academia, consta no livro do Monsenhor Linhares,
Notas históricas da cidade de Sobral, primeira obra histórica publicada a inventar os
arroubos sobre as tradições intelectuais da cidade, do mesmo modo a informação mais antiga sobre a ASEL consta na mesma obra. Mas para o Monsenhor, contrariamente a grande maioria dos autores que fizeram referência a ASEL, ele a considera outra Academia, que “por iniciativa de Mons. Vicente Martins da Costa e outros intelectuais, foi fundada nesta Cidade”.275
Acreditamos que a seu juízo o Monsenhor reconhecia que a ASL por ter sofrido grande paralisação, todos os seus membros foram dispersos, de forma que possivelmente nada tenha restado da mesma, a não ser sua revista. Monsenhor Vicente Martins foi o principal articulador da Academia, seu primeiro
273
Revista da Academia Sobralense de Letras. Ano I Número1. Sobral: Typ. Correio da Semana, 7 de setembro de 1922. p. 19.
274 BOLETIM da Academia Sobralense de Estudos e Letras. Ano I, Sobral-Ce, setembro de 1944, Nº 1. p
2.
presidente. De fato, com Monsenhor Vicente Martins a Academia ganhou certa ebulição e novos sócios, além do mesmo de certa maneira contribuir para facilitar a entrada dos novos membros, visto que não era mais necessária, como se comenta ainda hoje sobre a Academia de 1922, a publicação de nenhuma obra para ser candidato em potencial a uma cadeira na imortalidade daquele sodalício, bastava ter publicado uma crônica, um pequeno texto, uma poesia nas páginas dos muitos jornais em circulação na cidade. Mas é evidente que a questão não era apenas de “produção literária”. Assim, “(...) num espaço de articulação entre grupos sociais diversos, funcionando como uma instância que Bourdieu denominou mercado de bens simbólicos”276
, a ASEL se transformou num espaço agregador da elite de profissionais liberais da cidade.
A aproximação da ASEL com o poder local ocorre em duas frentes: A primeira procura se aproximar de Dom José, bispo da cidade e principal força da Igreja Católica, fazendo do mesmo “Presidente de Honra” da Academia, questão delicada na época, pois um dos membros fundadores da instituição, o Dr. José Sabóia era desafeto do bispo e já havia protagonizado com o mesmo desavenças grandiosas pelo jornal católico Correio da Semana, chegando às barras dos tribunais277. Por outro lado, o convite reiterado para que os gestores municipais se filiassem ou participassem das Sessões Extraordinárias da ASEL e presidissem a solenidade, era recorrente. Por isso a presença de prefeitos era uma tônica nas reuniões especialmente nas comemorativas. Essa relação entre os intelectuais da ASEL com gestores municipais e mesmo com deputados e governadores, foi possível porque algumas condições, digamos assim, preliminares, foram atendidas, no sentido em que
os intelectuais constituam ou creiam constituir, em determiando país, uma categoria à parte [e] que essa categoria de pessoas tenha ou creia ter uma função política própria, que se distinga de todas as outras categorias ou classes componentes daquela determinada sociedade278.
276 ABREU, Regina. A fabricação do imortal. Op. Cit. p. 186.
277 A desavença começou quando o então padre Jose Tupinambá da Frota decidiu fazer uma rifa para
obter recursos para a construção da Santa Casa de Misericórdia em 1913. A rifa foi impedida de correr pelo juiz, que argumentou que se tratava de uma infração penal, deixando à polícia a tarefa “de prevenir às transgressões da lei”, determinando “que sejam recolhidos os bilhetes já emitidos”. O clima entre os dois doutores tornou-se delicado, ao ponto de Dr. José Sabóia ter sido expulso da Irmandade do SS. Sacramento por Monsenhor Olavo Passos, então dirigente máximo da irmandade. A expulsão de Dr. José Sabóia repercutiu mal, tendo outros “membros ilustres” se desligado da entidade em solidariedade ao magistrado. Posteriormente o Monsenhor Olavo Passos foi afastado da direção da irmandade pelo próprio Dom José. Além dessa questão, outras ligadas a disputas políticas entre a UDN do magistrado e a Ação Católica do bispo, agravaram a situação entre os dois homens mais importantes e poderosos da cidade.
Portanto, a ASEL procurava se aproximar do poder “assim na terra como no céu”. Evidentemente que a ASEL, como já frisamos, é lugar por excelência de arregimentação da elite local, agregando os bens nascidos e os estrangeiros bem posicionados no contexto social, político e econômico da cidade, mas não podemos limitar a importância da Academia apenas a sua força política indiscutível. A ASEL é muito mais do que um “lugar de poder” porque “lugar de saber”. A Academia é lugar de “predominância de uma concepção ética da História. A Historia, como mestra da vida onde exemplos são retirados do passado com o objetivo de ensinar, transmitir ou afirmar valores no presente”279
. O que essa constatação faz da ASEL uma Academia diferente de outras? A transformação das academias em “templos da memória”, certamente não é novidade no intrincado mundo das academias literárias. A diferença da ASEL com relação a suas congêneres, é que a Academia sobralense produziu muito mais do que uma “obra literária”, uma “obra histórica” com características locais mais do que nacionais, alimentada por uma cuidadosa historiografia nascida especialmente nas lides eclesiásticas, como sabemos, e que no período de criação da ASEL, na década de 1940, estava sendo alimentada pelas obras de Monsenhor Linhares e de Monsenhor Vicente Martins, ambos grandes conhecedores da história local oficial e seus principais artífices no período. Acreditamos que exatamente por isso a ASEL ganhou força na década de 1940, isso porque os dois monsenhores produziram duas importantes obras, já mencionadas por nós, sobre a história da cidade. Enquanto Monsenhor Vicente Martins pensa a história, na perspectiva em que “A história toda – disse Emerson na sua
“Filosofia Americana” – se reduz por si mesma com facilidade à biografia de alguns
indivíduos fortes e apaixonados”280
(Grifos do autor), Monsenhor Linhares conclui que a história é a busca pelos “fatos memoráveis”, pela “origem insigne” de seus acontecimentos.
Sem o balizamento dessas duas obras que na cidade quando do lançamento das mesmas, e mesmo depois, chegando em alguns casos aos nossos dias, tiveram grande influência sobre a construção de determinadas memórias da cidade, a ASEL teria sido frágil e passageira. Por que pensamos assim? Porque de fato Sobral não tinha uma tradição letrada como era apregoado aos quatro cantos, mas sim uma tradição ligada a produção da história local, que começa a ser escrita em 1767, com Notícias da
279
ABREU, Regina. A fabricação do imortal. Op. Cit. p. 170.
Freguezia de N. S. da Conceição da Caissára, de autoria do padre Dr. João Ribeiro
Pessoa, e publicada na Revista do Instituto do Ceará, ano II, em 1888. Naquela obra o padre João Ribeiro passa em revista todas as capelas e fazendas que compõe a geografia do Vale do Acaraú em que está localizada a Fazenda Caiçara, considerada berço da cidade, ao mesmo tempo em que discorre sobre o cotidiano dos moradores das fazendas e seus costumes religiosos e culturais.
E continua Monsenhor Linhares a nos informar sobre os passos que levaram ao nascimento da ASEL. Esses dados são importantes para nós porque nos colocam em contato com os movimentos da Academia e os processos que esta construiu para fundamentar sua invenção como lugar intelectual:
A 5 de setembro de 1943, na residência do Revmo. Pe. Gonçalo Eufrásio, à Rua Menino Deus nesta cidade de Sobral, realizou-se a 1ª sessão preparatória de fundação dessa Agremiação que tomou a denominação de Academia Sobralense de Estudos e Letras; sendo nesta sessão organizada a comissão para elaborar os estatutos, composta dos Snrs. Dr. José Clodoveu de arruda Coelho, Dr. Tancredo Alcantara. Mons. Vicente Martins da Costa e Pe. José Gerardo Ferreira Gomes, e aclamada uma diretoria provisória assim constituída: Presidente – Mons. Vicente Martins da Costa; Secretario Professor Maurício M. Moreira e Tezoureiro Dr. João Ribeiro Ramos281.
A reunião ocorrida na casa do Pe. Gonçalo Eufrásio, localizada à rua Menino Deus, centro da cidade, para tratar da preparação da criação dessa agremiação, contou com a participação de outros sujeitos, além daqueles nomeados acima por Monsenhor, tais como Pe. José Aloísio Pinto, Antonio Joaquim Rodrigues de Almeida, Raimundo Aristides Ribeiro e Luiz Jácome Filho, “grupo (...) heterogêneo, quanto a origem dos mesmos, pois nem todos eram sobralenses”, de modo que aqueles intelectuais apontavam idealmente que “Sobral a esse tempo iluminava, aquecia e fecundava as inteligências”282
. Mas ao contrário do que escreve Monsenhor Linhares, a reunião não foi de tanta calmaria como seu texto sugere. O convite foi feito por um grupo “idealizador de um centro de estudos e letras”, e não de uma Academia literária. Já nessa reunião preparatória o professor Mauricio Mamede Moreira, futuro secretário da ASEL, e autor de 95 das 96 atas escritas entre 1943 a 1953, “leu um trabalho seu em que expôs a ideia de serem arregimentados os valores intelectuais da terra, formando
281
LINHARES, Monsenhor Fortunato. Notas históricas da cidade de Sobral. Op. Cit. p. 103.
uma atmosfera de estudos e letras”283. Depois das palavras de Maurício Mamede, “o
Rvemo. Pe. Gerardo Ferreira Gomes apresentou como primeiro ponto a ser discutido, a escolha de um nome que melhor se adaptasse à denominação dessa entidade”, pois
Se-bem-que já houvesse o projeto com a designação de centro, nesta ocasião, o Rvemo Mons. Vicente Martins da Costa solicitou que lhe fosse permitido fazer a leitura dos estatutos de um plano seu a respeito da fundação de uma academia, aqui, tendo sido isto concebido por ele, em anos anteriores, conforme se verificava pela cor esmaecida do papel e da tinta evanescente284. (Grifos do autor)
As atas escritas pelo professor e poeta Maurício Mamede Moreira representam para nós gotas d’água no imenso oceano da palavra. Ele não diz tudo, não poderia dizer tudo, é claro, numa ata, por isso somos levados a abrir flancos, investir contra a aparente dureza e imobilidade da palavra, pois a escrita ensejada por ela é motor-contínuo, queima a língua que roça suas estrias, cega os olhos que seguem sua pretensa linearidade. O professor Maurício escreve muitas atas “sem querer dizer”, a impressão que temos é que todas elas foram escritas longe do calor da hora, fora do campo de tensão, feitas de cabeça, juntando pedaços de lembranças, querendo encontrar ângulos, tessituras que foram ditas e vividas, ansiando harmonizar e naturalizar o evento. As atas, portanto, são caminhos tortuosos para o entendimento de parte da vida da Academia, mas por certo são também os documentos mais verossímeis da ASEL à medida em que são especialmente lugares de testemunhos diretos e involuntários. Nesse aspecto reside a força e a importância das atas, pois cabe “ao historiador (...) descobrir e detalhar com igual afinco tanto as condições de produção de uma página em livro de atas, ou de um depoimento em processo criminal (...), conto, crônica ou outra peça literária”285
. Cabe a nós, desse modo, detalhar o as condições de produção das atas escritas da Academia que eram sempre lidas a cada reunião, buscando acertar o passo com o “não dito”, sendo assinadas pelos presentes, cuidadosamente anotada em caderno rubricado pelo presidente da ASEL. Pelo que é narrado na passagem citada, já havia um projeto de criação de um centro. Maurício Mamede não diz a princípio de quem é a autoria do projeto, por isso somos tentados a princípio a imaginar que a proposta nasceu no lado secular dos idealizadores, ou seja, talvez entre Dr. Tancredo Halley Alcântara, Dr. João
283 ATA DA SESSÃO PREPARATÓRIA DE FUNDAÇÃO DA ACADEMIA SOBRALENSE DE
ESTUDOS E LETRAS – ASEL, NO DIA 5 de setembro de 1943.
284 ATA DA SESSÃO PREPARATÓRIA DE FUNDAÇÃO DA ACADEMIA SOBRALENSE DE
ESTUDOS E LETRAS – ASEL, NO DIA 5 de setembro de 1943.
285
CHALHOUB, Sidney. PEREIRA, Leonardo Affonso de M. (orgs) A história contada. Capítulos de História Social da Literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1998. P. 8.
Ribeiro Ramos e o próprio Maurício Mamede e quem sabe o professor Antonio Ferreira Porto, que tendo sido convidado, não compareceu a reunião, mas que era intelectualmente influente na cidade. Mas logo saberemos que a ideia do nome partiu do clero. Enfim, a princípio são apenas conjecturas, já que a ata é reticente com relação a isso. Mas um pouco adiante temos mais uma pista sobre a questão:
Após uma primeira votação, venceu nesse pleito a maioria dos que se batiam pelo termo centro, visto que este não só se harmonizava à sonoridade do título, porém ainda exprimia uma idéia mais ampla, enquanto que os epítetos de academia e instituto repugnavam porque o primeiro indicava escolha, seleção, e o segundo, embora sem restrição numérica, confundia-se com outros similares. Enfim, era o menos inclinado à feição que lhe pudesse proporcionar uma vitória286. (Grifos do autor)
Assim, houve votação para a escolha do nome para a instituição, vencendo o termo centro, com a justificativa de que “exprimia uma idéia mais ampla, enquanto que os epítetos de academia e instituto repugnavam porque o primeiro indicava escolha, seleção, e o segundo (...) embora sem restrição numérica, confundia-se com outros similiares”. Ficamos sabendo assim que foi cogitada a criação de algo como um
instituto. Também não sabemos de onde partiu essa ideia. Sabemos isto sim, que o
termo academia foi pensado pelo Monsenhor Vicente Martins, isto vai sendo esclarecido pouco a pouco na ata, pois como lemos, o mesmo solicitou permissão para “fazer a leitura dos estatutos de um plano seu a respeito da fundação de uma academia”, e que segundo Maurício Mamede, tratava-se de um documento antigo, pois isso era visível “pela cor esmaecida do papel e da tinta evanescente”. Não sabemos até onde Maurício Mamede idealiza essa questão, pois ao citar a cor do papel talvez estivesse querendo dar ao mesmo um valor que ele talvez não possuísse, ou seja, não sabemos até