• Nenhum resultado encontrado

INTELECTUAL”85

E DISTINTA

“(...) Logo, pode-se dizer que, em boa medida, a aproximação entre a cidade letrada (espaço de ação simbólica dos sujeitos que fazem uso da palavra escrita) e a cidade real (território das realizações materiais e institucionais), efetivou-se por conta desse seguimento dominante ter afirmado seus interesses no poder local, seja na administração pública, imprensa (...) ou em instituições de saber (...)” (Grifos nosso) Gleudson Passos Cardoso.

Sobral86, como foi apontado, é cidade letrada, intelectual e distinta, como quer fazer crer um discurso que se revigora sempre, e que tem como lugar de produção os mais diferentes sujeitos, tais como padres, memorialistas, jornalistas, historiadores, advogados, médicos, mas principalmente acadêmicos – acadêmicos das duas Academias da cidade de Sobral: a Academia Sobralense de Letras – ASL, fundada em 1922, hoje inativa, e a Academia Sobralense de Estudos e Letras – ASEL, essa em plena atividade. Assim, esse discurso o qual se enreda em outros discursos semelhantes, nos diz enfaticamente que “Sobral é um dos mais ricos mananciais de cultura do Estado do

Ceará”87, (Grifos nosso) ou que “a heráldica cidade e sua gente fidalga, acolhedora e

culta”88, (Grifos nosso) representam o ser sobralense, uma espécie entidade genérica e homogênea, o qual seria uma “unidade substantiva e imperativa”89, capaz de ser

85

É dessa forma que Domingos Olímpio Braga Cavalcante, nascido em Sobral a 18 de setembro de 1850, se refere a Sobral no início do primeiro capítulo de sua conhecida Obra Luzia Homem, romance que trata do drama da seca de 1877-79 na cidade e região. Essa colocação de Domingos Olímpio será consagrada como uma das mais “autorizadas expressões” sobre a identidade da cidade letrada. Em outras passagens de sua obra ele faz colocações semelhantes. O autor bacharelou-se em Direito na Faculdade de Recife em 1873. Faleceu no dia 6 de outubro de 1906.

86 Sobral localiza-se na Zona Noroeste do Ceará, a 225 km de Fortaleza. Até meados do século XIX

Sobral acumulava uma riqueza advinda especialmente da criação de gado e comércio de seus derivados, depois do algodão, sendo importante rota de entroncamento comercial para o Piauí e Maranhão, de modo que sua riqueza a situava em posição privilegiada em relação a Fortaleza, capital. Autônoma economicamente durante esse período, sem ligação direta com a capital, seu adensamento populacional superou aquela cidade. Foi somente no final do século XIX e início do século XX que Fortaleza consegue uma hegemonia econômica.

87 ARRUDA, Francisco de Assis V. Impressão. Impressão é um dos textos de apresentação da obra

Sobral em reminiscência. Humor e saudade, de autoria de João Barbosa de P.P. Cavalcante, publicada em 1999. O livro, que engrossa a vasta lista de livros memorialísticos sobre a cidade de Sobral, conta com 6 apresentadores, mais uma “mensagem do autor”. Arruda, é um dos mais conhecidos genealogistas da cidade. É escritor e membro da Academia Sobralense de Estudos e Letras.

88 Ramos, João Ribeiro. Amando Sobral nas páginas de um livro. O texto é a segunda apresentação do

livro Sobral em reminiscência. Humor e saudade.

preservada em sua generalidade, de modo que temos um discurso que pontifica uma possível tradição que encontra eco no que seriam as ações mais importantes da intelectualidade local. O que pretendemos neste item é analisar os discursos relativos à construção da cidade letrada, intelectual e distinta, procurando questionar o contexto de sua invenção e algumas narrativas que enfatizam com veemência essa “tradição intelectual e distinta” da cidade.

Temos então esse discurso, uma cidade intelectual, como espaço efetivo “de ação simbólica dos sujeitos que fazem uso da palavra escrita”, a converter a escrita em

escritura, no sentido de um “documento autêntico”, de um contrato, de um registro

memorável capaz de afiançar “a veracidade da letra” sob os saberes e fazeres da intelectualidade da cidade e de sua história, tentando representar assim, a ligação entre a “cidade letrada”, de fato “espaço de ação simbólica dos sujeitos que fazem uso da palavra escrita” e a “cidade real”, entendida aqui não apenas como “o território das realizações materiais e institucionais”, mas como a “cidade de passado nobre e distinto”, portanto a “cidade verdadeira”, “real”, heráldica; no entanto precisamos ressaltar com certa precisão, que “foi a distância entre a letra rígida e a fluída palavra falada, que fez da cidade letrada uma cidade escriturária, reservada a uma estrita minoria”90(Grifos do autor) . É exatamente na perspectiva de “uma cidade escriturária” e de “uma estrita minoria” que precisamos pensar nessa história de Sobral quando imaginamos a construção ou invenção de suas tradições letradas e intelectuais. Cidade como “a grande moradia dos homens”91

, mas fundamentalmente como a grande moradia da história, ou melhor, das histórias que impregnam suas ruas,alimentam seus devaneios e desejos, conjugam tempos e espaços, continuidades e rupturas.

Estamos tratando neste trabalho, de discursos superlativos, capazes de alçar a história da cidade a um patamar de distinção e diferença, como se não houvesse outra cidade no Ceará e até mesmo no Brasil, capaz de se igualar em seus feitos, por ser “a cidade central mais prospera e culta”92

. Portanto, são discursos superlativos, sedimentando certo passado, fazendo do mesmo o lugar por excelência da história de Sobral, dado que o que é exatamente o lugar de fluxo do que seriam as “origens excelsas” da cidade e de seus intelectuais. Sobre esse passado da história de Sobral,

90 RAMA, Angel. Cidade das Letras. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985. P. 54. 91 REZENDE, Antonio Paulo. Desencantos modernos. Op. Cit.p. 21.

92

MARTINS, Padre Vicente. Don José Tupynanbá. 1º Bispo de Sobral. Revista do Instituto do Ceará. ANNO XL – 1926. P 97.

pensado e repensado especialmente pelos intelectuais das duas Academias citadas, podemos dizer que ele se transforma em “um advento, uma captura do presente”93, pois o passado se transforma em instância visível das ações dos intelectuais, principalmente daqueles que se congregaram a princípio na Academia Sobralense de Letras.

Buscar o fio desse discurso passadista, dessa evasão, é caminhar por um emaranhado de textos que remontam por um lado à fundação da Vila Distinta e Real de

Sobral em 1773 com sede na povoação da Fazenda Caiçara, berço da cidade.

Consideramos esse fato político como o elemento catalisador e impulsionador de uma historiografia94 que se esmerou em determinar o lugar privilegiado de Sobral no cenário do Ceará. Assim, para esse discurso, a instalação da vila depois transformada em cidade em 1841, “era a afirmação de Sobral como centro urbano, difusor de cultura em todo o norte cearense”95

. Consideramos que Sobral exerceria uma espécie de centralismo urbano e cultural “em todo norte cearense”, o que significa dizer que além de sua suposta distinção e cultura, Sobral representaria uma liderança em toda a região, de modo que a construção de certa identidade intelectual se daria não apenas por ser “distinta e real”, mas também porque influenciaria toda a região com sua cultura e intelectualidade. São esses os postulados, os desejos desses intelectuais que, ao dignificarem a história da cidade, dignificavam a si mesmos.

Mas porque pensar a história daquilo que seria a fundação da Vila de Sobral no final do século XVIII, como um elemento capaz de alimentar as tradições consideradas distintas da cidade no âmbito da ASEL no começo do século XX, entre elas a suposta nobreza de seus moradores e, como consequência disso o enobrecimento da cidade em 1841? A resposta para essa questão reside no fato de que para os acadêmicos, há uma

continuidade entre a vila e a cidade, ou seja, sem o que seria a suposta nobreza de seus

primeiros moradores, não poderia haver suas tradições letradas e progressistas, ou seja,

93 SARLO, Beatriz. Tempo passado. Cultura da memória e guinada subjetiva. Belo Horizonte: Editora

UFMG. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 9.

94 Consideramos, nesse sentido, como já frisamos, o romance Luzia-Homem, de autoria de Domingos

Olímpio, publicado em 1903; a obra do Monsenhor Fortunato Alves Linhares, Notas Históricas da Cidade de Sobral – 1712-1922, publicada em 1945; Homens e vultos de Sobral, de autoria de Monsenhor Vicente Martins, publicada em 1941; História de Sobral, de Dom José Tupinambá da Frota, publicado em 1952, além da obra Notas de Viagem, de Antonio Bezerra, como os “marcos inaugurais” dos discursos superlativos sobre a história da cidade. Neste primeiro capítulo nossa escolha será analisar as duas primeiras obras citadas.

95GIRÃO, Glória Giovana S. Mont’Alverne. SOARES, Maria Norma Maia. Sobral, história e vida.

aquele passado era “destinado a servir de signo heráldico”96

para o presente dos acadêmicos e, consequentemente, da cidade de Sobral Entendemos que aVila é como uma miragem no horizonte da história funciona como um “começo, um princípio do coerência e os esboço de uma unidade futura”97

. Insistir na repetição do fato, portanto, era a tentativa de garantir uma história homogênea, capaz de ser recontada sempre da mesma forma e com os mesmos conteúdos.

A primeira informação de que dispomos sobre a fundação da Vila Distinta e Real de Sobral, organizada numa publicação consta de um texto escrito pelo acadêmico Monsenhor Fortunato Alves Linhares, que entre suas atividades de clérigo, somava-se a de político, tendo sido vereador e prefeito de Sobral de 1928 a 1930,texto publicado no Tomo LV, em abril de 1922 da Revista do Instituto do Ceará, intitulado Notas

Históricas da Cidade de Sobral98, nos informando que:

Com o nome de Villa Distincta e Real de Sobral o Ouvidor Carneiro de Sá erigiu, a 5 de Julho de 1773 em villa a primitiva povoação da Caiçara, que mais tarde foi elevada à cidade pela provincial nº 229, de 12 de janeiro de 1841, com o título de Fidelíssima Cidade de Januária do Acaraú, lei revogada pela de nº 244, de 25 de outubro de 1842, a qual restabeleceu a antiga denominação de Sobral.

Monsenhor Linhares, como lemos acima, é bastante lacônico com relação a fundação da vila, no sentido de explicar as razões de sua “distinção e realeza”, se limitando a, num parágrafo, falar da fundação da vila e da cidade. Essa lacuna, importante para o entendimento da “heráldica cidade e sua gente fidalga” só será resolvida com a publicação do livro Raízes Portuguesa do Vale do Acaraú publicado em 1ª edição em 1991, de autoria do Cônego Francisco Sadoc de Araújo, que nos relata o seguinte: “A nova vila, como sabemos, recebeu oficialmente o pomposo nome de “Vila Distinta e Real de Sobral”. Por que Distinta e porque Real?” E continua:

Distinta porque não tivera origem indígena, ou bárbara, como se dizia então. Nem fora sede de missões jesuíticas ou de outras congregações religiosas. Desde seus primórdios, fora colonizada por portugueses, ou seus descendentes diretos, e catequizados por padres seculares ou da Ordem de São Pedro, como eram então chamados (...). Vila criada de aldeias indígenas não recebia qualquer adjetivação. Era simplesmente vila ou vila nova, com o acréscimo do nome local. Vila mista,

96

ALBUQUERQUE JUNIOR, Durval Muniz de. De Amadores e Desapaixonados. Op. Cit. P. 59

97 FOUCAULT, Michel. Arqueologia do saber. Op. Cit. P. 26

98 Posteriormente Monsenhor Fortunato Alves Linhares, publicará um livro com o mesmo título, mas

acrescido de outros estudos, em março de 1945. Monsenhor Linhares é um dos fundadores da Academia Sobralense de Letras, em 1922 e também da Academia Sobralense de Estudos e Letras em 1943.

formada de habitantes simultaneamente brancos e índios, era real, mas não distinta. Vila formada de habitantes estritamente de origem portuguesa era distinta e real. Foi o caso de Sobral, exemplo único no Ceará99.

Araújo é mais enfático em seu texto e apresenta as explicações para o fato da vila ser distinta, já que o adjetivo real era comum no período. Para ele o caso de Sobral era “exemplo único no Ceará”, de modo que a distinção advinha do fato de que a vila havia sido “formada de habitantes estritamente de origem portuguesa”, sem origem indígena. Araújo se esmera ainda em explicar “por que motivo foi dado o nome de Sobral” a cidade, negando assim a versão conhecida até então100

, que ele afirmou tratar- se de “fruto da fantasia”, e que apontava a origem do nome como sendo uma homenagem ao Ouvidor João da Costa Carneiro e Sá autoridade que assinou o termo de levantamento do Pelourinho na povoação da Fazenda Caiçara, e que havia nascido numa cidade de mesmo nome em Portugal. Segundo Araújo, “foi a povoação de Sobral da Lagoa, freguesia do Concelho de Óbidos” que deu nome à cidade, sendo isto sim, “a terra natal do sargento-mor Antônio Marques Leitão, pai de Quitéria Marques de Jesus, que foi mulher do capitão Antonio Rodrigues Magalhães, casal proprietário da fazenda Caiçara”101

. O casal em questão doou 100 braças de terra em 1756 para a construção da Igreja Matriz da povoação, sendo desde então Antonio Rodrigues Magalhães considerado o fundador de Sobral. A historiografia da cidade passou a aceitar as explicações de Araújo como as mais razoáveis com relação a essas questões. Mas sabemos que

A criação da vila dos “brancos” foi regulamentada pela “Carta Real” de 27 de julho de 1766. A “Carta de Lisboa” estimulou a organização dessas vilas com vistas a vigiar os malfeitores que roubavam as vacas das fazendas da região102.

Assim, temos que a criação da Vila Distinta e Real de Sobral resvala da “narrativa grandiosa” e apaziguadora de Araújo para uma realidade digamos mais concreta, qual seja a vigilância aos malfeitores nem um pouco nobres que roubavam vacas pelas fazendas do sertão. Sobre esse dado Studart foi ainda mais preciso:

99 ARAÚJO, Cônego Francisco Sadoc de. Raízes portuguesas do Vale do Acaraú. Op. Cit. p. 29.

100 Essa versão, de que o nome Sobral foi uma homenagem ao Ouvidor João da Costa Carneiro e Sá,

nascido em Portugal numa cidade do mesmo nome, foi defendida especialmente por Monsenhor Linhares em sua obra Notas Historicas para a Cidade de Sobral e por Dom José Tupinambá da Frota, em seu livro História de Sobral.

101

ARAÚJO, Cônego Francisco Sadoc de. Raízes portuguesas do Vale do Acaraú. Op. Cit. P. 26.

Satisfazer uma urgente necessidade qual a de incubir a gentes de confiança a immediata execução das ordens emanadas do Capitão mor em regiões infestadas por bandos de malfeitores e ociosos, que, sem domicilio certo, escapavam a toda espécie de justiça e, portanto, de correcção; como complemento della foi endereçada em data de 22 de julho de 1766 uma Ordem Regia ao Governador de Pernambuco estatuindo que os vadios e faccinorosos, que vivião a vagabundear pela Capitania, se ajuntassem em povoações cíveis com mais de 50 fogos, repartindo-se entre elles com justa proporção as terras adjacentes, sob de refractarios serem considerados salteradores e inimingos communs e como taes severamente punidos. Em virtude das disposições contidas nessa Ordem foi que se crearam as villas de Sobral, Quixeramobim, S. Bernardo de Russas, S. João do Principe103. (Grifos nosso)

Portanto, a criação da Vila de Sobral, bem como a de outras vilas, pretendia disciplinar “os vadios e faccinorosos, que vivião a vagabundear pela Capitania”, e assim, mesmo sendo “distinta”, a vila havia sido emanada de uma Ordem Regia e não era muito distinta na perspectiva de sua execução, ou seja, pretendia no fundo “igualar” a Capitania no sentido de execução da justiça, de modo que a perspectiva de que a vila foi “colonizada totalmente por brancos portugueses ou seus descendentes com ares de nobreza”104

sofre um revés, uma vez que a criação da vila se deu com a intenção clara de deflagrar a justiça real. Esse dado importante é sintomaticamente silenciado por todos os “historiadores oficiais” que estamos analisando nesta pesquisa, os quais escolhem silenciar essa questão deslocando-se “no terreno movediço das gêneses”, preferindo a versão mais “enobrecida” sobre a fundação da vila porquanto éuma forma de se enquadrarem também num contexto de distinção, de modo que, aquela origem, aquele passado, “estudado e sobretudo transladado ao presente, para ser filtrado, diferido e transformado em força”105

, fosse o modo de inserção desses autores numa “tradição distinta”, fazendo dos mesmos, membros das “famílias ilustres” e da intelectualidade da cidade. Outro exemplo é Dom José Tupinambá da Frota, que em sua obra História de Sobral, procura contradizer a informação de Guilherme Studart,

103 STUDART, Dr. Guilherme. Notas para a História do Ceará (segunda metade do século XVIII).

Lisboa: TYPOGRAPHIA DO “RECREIO”, 1892. p. 254.

104 JUNIOR, Agenor Soares Silva e. “Cidades sagradas”: A Igreja Católica e as transformações urbanas

no Ceará (1870-1920). Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense em 2009. p. 176.

105 RAMOS, Regis Lopes. Passado sedutor: a história do Ceará entre o fato e a fábula. In: FILHO, João

Ernani Furtado. RIOS, Kenia Sousa. (Orgs.) Em tempo. História, memória, educação. Fortaleza: Imprensa Universitária -UFC, 2008. p. 281.

querendo fazer crer que as famílias que haviam fundado a Vila “seriam todas de boa linhagem, não descendendo desses malfeitores”106

.

Estamos analisando a construção e invenção do que seria a “fulgente auréola de cidade intelectual”107

e distinta, procurando problematizar os seus discursos de distinção, a partir das ações, atividades, sociabilidades e escritura de um “pequeno mundo intelectual” a verter sua narrativa na “república das letras” em sua grande maioria sob a perspectiva de uma escrita ligada à história da cidade de Sobral e que se inspira, em parte, no romance Luzia-Homem. Aqui, os intelectuais que lavraram a história local, que tentaram impor a cidade por escrito, não se congregaram em um Instituto Histórico, com exceção de Monsenhor Fortunato Alves Linhares e Monsenhor Vicente Martins108, estes sócios correspondentes do Instituto do Ceará, publicaram alguns artigos na revista daquela instituição, mas tiveram sua vida intelectual praticamente centrada na Academia Sobralense de Letras e na Academia Sobralense de

Estudos e Letras a partir de 1922, caso do Monsenhor Linhares, e na Academia Sobralense de Estudos e Letras, caso do Monsenhor Vicente Martins, a partir de 1943.

Estamos tratando de um discurso, de uma tessitura, daquilo que seria uma memória épica, na verdade de uma ampla rede que cobre uma acanhada produção literária e ainda historiográfica sobre a cidade de Sobral, essa mais alentada, e que a coloca num cenário de distinção social, civilizatória e intelectual, de acordo com esse discurso fabulador. Esse discurso é bom que se diga não parte apenas dos intelectuais locais. Em discurso proferido na Câmara de Vereadores de Sobral, quando recebia o título de Cidadão Sobralense, José Bonifácio Câmara, intelectual fortalezense reconhecido, faz a seguinte assertiva, que dá conta de como o “discurso da distinção” se disseminou de certa forma intensiva no cenário intelectual cearense, e desse modo era repetido geralmente em ocasiões solenes locais:

Conhecer é amar e foi prospectando vossa História que me capacitei da valia dos homens que estabeleceram, às margens do Acaraú, uma

106 Ver: FROTA, D. José Tupinambá da. História de Sobral. Fortaleza: Imprensa Oficial do Ceará -

IOCE, 1995. Ver ainda: COSTA, Elza Marinho Lustosa da. Sociabilidades e cultura das elites sobralenses. 1880-1930. Fortaleza: Secretaria da Cultura do Estado, 2011.

107 Esse é o tom que o escritor Domingos Olímpio Braga Cavalcante dá a cidade em seu mais conhecido

romance, Luzia-Homem, publicado em 1903.

108 Monsenhor Vicente Martins da Costa chegou a Sobral em 1938. Foi um dos mais influentes padres da

Igreja Católica em Sobral, tendo publicado importantes obras sobre a História de Sobral e seus “vultos mais importantes”. Seu livro Homens e Vultos de Sobral, publicado em 1941 representou um grande esforço do autor para marcar a “identidade da cidade letrada”.

rica e progressista civilização, fundada na pecuária e no algodão, que forneceu ao País tantos luminares das letras jurídicas, da literatura, da vida política e eclesiástica. Deve ser um “gens” privilegiado este que veio para Sobral e aqui, já no século passado, fazia surgir uma intensa vida cultural que encantava os viajantes (...)109 (Grifos nosso) José Bonifácio Câmara, em sua fala, assumia assim o que seria o “ser sobralense”, garantido por um “gens” especial, no momento em que era laureado na câmara. Para ele Sobral seria uma cidade diferente vista em sua perspectiva como incomparável, sendo um caso à parte, porque progressista. O que está em questão na