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A Administração de Bruno Lobo (1915-1922)

No documento Antropologia no Museu Nacional do (páginas 135-138)

CAPÍTULO III: A “Era de Prosperidade” da Antropologia no Museu Nacional do Rio de

1. A Antropologia e as mudanças institucionais (1912-1925)

1.1 A Administração de Bruno Lobo (1915-1922)

Durante este período a 1ª Guerra Mundial (1914-1918) se fez sentir no Brasil e na instituição, despertando a atenção para o papel da ciência e dos cientistas na unidade da nação. Esta situação repercutiu nas atividades da administração públicas, pois ocorreu a suspensão de correspondências, de trocas de livros e periódicos, interrompendo as relações com museus europeus307. Discursava-se muito sobre a importância da instituição e dos cientistas que, com competência e patriotismo, poderiam fornecer os elementos que o Brasil necessitava. Os estudos das ciências naturais, segundo o diretor, poderiam “tirar da terra o que ela encerra ou pode produzir”308.

No relatório de 1917 ao Ministério da Agricultura, Commercio e Obras Públicas, B.

Lobo lembra que:

no primeiro ano de guerra, foi o militar quem isoladamente sustentou o imperialismo alemão, ao passo que hoje é a ciência alemã que ainda consegue fornecer elementos de resistência aos embates dos exércitos em luta309.

306MN DR P 72 D.80 A. Relatório dos trabalhos efetuados durante o ano de 1914 apresentado ao sr. Ministro da Agricultura, Industria e Comercio pelo J. B. Lacerda Diretor do Museu Nacional. 10/03/1915.

307MN DR P. 77 D. 797. Relatório ao Ministério da Agricultura, Indústria e Commercio... 31/12/1917. p. 3.

308MN DR P. 77 D. 797. Relatório ao Ministério da Agricultura, Indústria e Commercio... 31/12/1917. p. 3 e 4.

309MN DR P. 77 D. 797. Relatório ao Ministério da Agricultura, Indústria e Commercio... 31/12/1917. p. 4.

No discurso do Centenário do Museu Nacional, em 1918, reafirma que a comemoração desta data foi contida para:

evitar que a atenção e esforços do povo brasileiro sejam desviados dessa luta que encerra mais do que a nossa vida, dessa guerra que é também a nossa e na qual entramos para ajudar a manter a liberdade das Pátrias e as conquistas liberais da Humanidade310.

Uma nova organização para o Museu Nacional foi adotada com o regulamento estabelecido pelo decreto nº 11896 de 14/01/1916, conforme a tabela abaixo:

Tabela 9 - Estrutura organizacional do Museu Nacional (1916)

Fonte: MUSEU NACIONAL (Brasil). Coleção dos atos administrativos referentes ao Museu Nacional.

(mimeo.).

O decreto manteve os quatro funcionários da seção de Antropologia e Etnografia311: o professor chefe, o professor substituto, um preparador e um conservador de arqueologia, já que as coleções de arqueologia ficariam a cargo da 4ª seção. Este mesmo regulamento concedia atribuições ao laboratório de antropologia. Aqueles que quisessem realizar exames e observações no Laboratório receberiam um certificado de identificação individual “que teria fé pública e seria entregue mediante requerimento ao diretor” 312. Esperava-se que com este instrumento houvesse maior colaboração na realização das mensurações.

310LOBO, B.. ‘O Museu Nacional de História Natural’. In:Archivos do Museu Nacional. (XXII). RJ: Imprensa Nacional, 1918.p. 26. p.15.

311Além da 4 ª seção, a seção de Zoologia apresentava o mesmo número de funcionários enquanto a seção de Botânica e a seção de Geologia, Mineralogia e Paleontologia constavam um número inferior. Ver: Relatório apresentado ao Exmo. Sr. Dr. Ildefonso S. Lopes, Ministro da Agricultura, Indústria e Commercio pelo Prof.

Bruno Lobo, Diretor do Museu Nacional. RJ: Imp. Nacional, 1920.p. 9.

312MNRJ. Regulamento do MN adotado pelo decreto nº 11896 em 14/01/1916. RJ: Imprensa Nacional, 1916 p.

3 e 5.

Lei Ano Diretor 1º Seção 2ª Seção 3ª Seção 4ª Seção

Decreto nº11896 1916 Bruno

Lobo Mineralogia, geologia e

paleontologia Botânica Zoologia Antropologia e Etnografia (Arqueologia)

O diretor, procurando aumentar as atividades das seções e não aumentar as despesas, incentivou a admissão de novos praticantes remunerados e gratuitos313, com intuito de formá-los nas ciências do Museu, promoveu a contratação de especialistas (como preparadores, assistentes e auxiliares) em determinadas pesquisas desenvolvidas no Museu e conseguiu a cessão de funcionários que pertenciam a outras dependências do Ministério da Agricultura para trabalhar no Museu como adidos.

Reforçando o papel pedagógico da instituição, B. Lobo preocupou-se em contribuir para o desenvolvimento do ensino das ciências naturais nos estabelecimentos de ensino superior e secundário, confeccionando mapas murais (como os de Zoologia e Antropologia314), montando coleções didáticas de história natural que eram distribuídas em institutos, faculdades, universidades, liceus, academias, ginásios e hospitais, no Brasil e no exterior315.

Na tentativa de introduzir no Brasil o ensino superior e especializado em Ciências Naturais foram realizadas conferências públicas, com o propósito de “constituir verdadeiros cursos de especialização” 316. Como exemplo, a pedido da Congregação, foi realizada uma série de conferências relativas aos trabalhos desempenhados pelos cientistas do Museu junto à

Em 1914 E. Roquette-Pinto apresentou em relatório um projeto de estabelecer um serviço de identificação civil.

Não encontramos informações sobre este funcionamento. Ver: MN DR P. 72. D. 22. Relatório da 4ª seção.20/01/1915.p.7.

Sobre os antigos laboratórios, o Museu perde o laboratório de fitopatologia para o Jardim Botânico em 1916 (decreto nº 11896. In: MNRJ. Regulamento do MN adotado pelo decreto nº 11896 de 14/01/1916. RJ: Imprensa Nacional, 1916. p. 3) e o laboratório de entomologia geral e aplicada, que passa a ser incorporado ao Instituto de Defesa Agrícola em 1920 (In: MNRJ. Relatório apresentado ao Exmo. Sr. Dr. Ildefonso S. Lopes pelo Diretor B.

Lobo. RJ: Imprensa Nacional, 1921. p.11).

313Segundo B. Lobo a admissão de praticantes gratuitos já aparecia em 1886 com três inscritos. Aponta que nos últimos anos, de 1915 a 1920 o Museu chegou a uma média de 8 praticantes inscritos por ano. Ver: Relatório apresentado ao Exmo. Sr. Dr. Ildefonso S. Lopes, Ministro da Agricultura, Indústria e Commercio pelo Prof.

Bruno Lobo, Diretor do Museu Nacional(1920). RJ: Imp. Nacional, 1921.p. 46 e 47.

314O primeiro mapa mural de Antropologia dirigido por E. Roquette-Pinto, tratava da Ordem dos Primatas contendo cinco ilustrações: uma do Homo-sapiens, outra do Gorilla, depois do Chimpanzé, do Orango e do Gibbon.Ver o mapa no capítulo Iconografia neste trabalho.

315Relatório apresentado ao Exmo. Sr. Dr. Ildefonso S. Lopes, Ministro da Agricultura, Indústria e Commercio pelo Prof. Bruno Lobo, Diretor do Museu Nacional(1919). RJ: Imp. Nacional, 1920.p. 48.

316MN DR P. 82 D. 627. Relatório da Secretaria do Museu Nacional referente ao ano de 1919: notas.fl.9

Comissão Rondon317. Lembremos que a Comissão Rondon ou Comissão de Linhas Telegráficas e Estratégicas de Mato-Grosso ao Amazonas estava, desde 1907, sob a chefia do Cel. Cândido Mariano da Silva Rondon (1865-1958). Em relatório de 1915, fazia-se menção

“ao benemérito incontestável do nosso instituto”, Cel. Rondon, pelo valioso material de História Natural doado ao Museu318. O conjunto de objetos coligidos nesta Comissão foi avaliado pelo diretor B. Lobo “como superior ao coletado pelo nosso instituto por mais de 50 anos”319 servindo para aumentar o intercâmbio com outros museus congêneres, como o Museu Paulista e o Goeldi e os museus norte-americanos, difundindo a instituição pelo Brasil e pela América320.

A publicação dos Archivos do Museu Nacional voltou a regularidade, depois do incêndio ocorrido na Imprensa Nacional em 1911. Foram publicados sete volumes dos Archivos do Museu Nacional durante sua administração (vols. 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23), juntamente com oGuia de Antropologiae oGuia de Arqueologia, distribuídos nos principais centros científicos, de forma a divulgar os trabalhos desenvolvidos na instituição.

No documento Antropologia no Museu Nacional do (páginas 135-138)