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A Comissão Científica do Ceará (1859-1861)

No documento Antropologia no Museu Nacional do (páginas 57-63)

CAPÍTULO I: Os primórdios da Antropologia

2. O Museu Nacional enquanto ‘espaço de ciência’ e a implantação dos estudos

2.4. A Comissão Científica do Ceará (1859-1861)

como objetos da antiguidade européia, mexicana, da ‘África inculta’, da Ásia, da Nova Zelândia, das ilhas Sandwich e das ilhas Aleutas101.

No Brasil, conforme vimos, o Estado Imperial e o Museu Nacional, difundindo as luzes da civilização, do progresso e do desenvolvimento da ciência, incentivaram viagens ao interior e, por meio de associações individuais ou coorporativas de viajantes e dos próprios cientistas, ampliavam as coleções. O intercâmbio entre museus congêneres e outras nações, era prática comum entre cientistas e instituições e era realizado pelo próprio Imperador.

Expressando a singularidade do Império do Brasil face às outras nações as coleções representavam as dimensões das riquezas da nação, numa imagem composta de:

grandiosidade e exotismo – das nossas riquezas naturais e de nossos índios - associados ao sonho do progresso. Além de exibir as riquezas naturais e os índios do Brasil, tarefa auxiliada pela etnografia, apresentavam outros objetos, como por exemplo, as múmias egípcias que integram a coleção do Museu Nacional, fruto da relação do nosso Imperador com outras nações.

Com a saída de Porto Alegre em 1857 para assumir o consulado geral do Brasil na Prússia a chefia da seção fica sob a responsabilidade do antigo preparador das seções de mineralogia e numismática Carlos Burlamaque e, depois, de Pedro Américo de Figueiredo Melo, pintor oficial do Império, como interino. O desenvolvimento de novas pesquisas e a ampliação das coleções de etnografia e, posteriormente, de antropologia, foram viabilizadas por Ladislau Netto, novo diretor do Museu nos anos 70.

na realização de uma expedição científica, com naturalistas brasileiros, para as regiões do Norte e Nordeste do Brasil. Este projeto, discutido desde os anos 40 no IHGB como revelam seus discursos e relatórios, só começou a tomar forma em 1856, quando o Imperador decidiu financiá-la. A Comissão Científica do Ceará ou, como ficou conhecida pejorativamente, Comissão das Borboletas, dividia-se em cinco sessões: botânica, chefiada por Francisco Freire Alemão (1797-1874); Geológica e Mineralógica, por Guilherme Süch Capanema (1824-1906); Zoológica, chefiada por Manuel Ferreira Lagos (1816-1871); Astronômica e Geográfica, por Giacomo Raja Gabaglia e Etnográfica, por Antônio Gonçalves Dias. A Comissão percorreu de 1859 a 1861, a província do Ceará, parte do Maranhão e da região amazônica, conforme trabalho realizado por alguns historiadores da ciência no Brasil102.

A seção de etnografia, foco de nossa atenção, teve suas instruções redigidas por Manuel de Araújo Porto Alegre, membro do IHGB, diretor da Academia de Belas Artes e diretor da seção correspondente do Museu Nacional. Foi ele também que instruiu A.

Gonçalves Dias na compra dos instrumentais e dos livros referentes à disciplina, especialmente na Alemanha e na França, já que este se encontrava na Europa aprofundando os conhecimentos lingüísticos.

Agregando interesses diversos entre seus membros, tais estudos objetivavam coletar plantas e animais, descrever ocorrências naturais e geográficas, e conhecer os mitos e costumes dos caboclos. A seção de etnografia tinha especificamente o seguinte propósito:

“descrição física, caráter intelectual e moral, as línguas e as tradições históricas de cada povo, principalmente os indígenas”103 que fossem úteis para determinar os elementos que os distinguiam como raças humanas. Receando o extermínio dos indígenas em estado primitivo,

102 Ver LOPES, M. M. & CORREA, M. “As aves que aqui gorjeiam”.(mimeo) 1995; FIGUERÔA, S. Op.

Cit.1997. p. 86 e 87; DOMINGUES, H. M. B.. “A geografia e o exótico brasileiro”. In: Terra Brasilis. RJ, 2000.

p. 97 e 98; PINHEIRO, R. “As histórias da Comissão Científica de Exploração (1856) na correspondência de Guilherme Schüch Capanema”(dissertação de mestrado).Campinas, IG:Unicamp, 2002.

103“Instruções a Comissão Científica”. In:RIHGB, t. 19, 1856. pp. 68-74.

era intenção da comissão, registrar tudo sobre eles. Por isso, recomendava-se também o uso de desenhos que deveriam ser feitos de forma a ilustrar as variações dos tipos físicos, a realização de medidas, a coleta de fósseis e o estudo da língua, para complementar o estudo dos caracteres físicos.

Atestando o conhecimento de medidas e o uso de instrumentos adotados na Europa, as instruções orientavam que:

Além destes estudos parciais, importa fazer muitos e variados grupos, porque neles melhor se compararam as formas e suas variedades, as atitudes, as fisionomias e as proporções gerais do corpo, e para mais segurança haverá o cuidado de medir grande número de indivíduos adultos, assim como os seus ângulos faciais, procurando por essa ocasião verificar se a maior abertura do ângulo atesta maior inteligência, como afirma Camper, e se a orelha inclinada para parte posterior dá o mesmo indício, como o querem muitos fisionomistas.

Convém igualmente coligir crânios de todas as raças dos naturais do país e moldar no vivo algumas cabeças, para à vista de certos dados morais poder verificar conjuntamente o que há de mais positivo no sistema de Gall: se há verdade nesta doutrina, a craneoscopia deverá encontrar notáveis modificações entre as diversas protuberâncias do crânio do índio selvagem e as do índio civilizado ou do mestiço, conforme a raça predominante.

Ao tomar a medida da altura do corpo, será bom avaliar sua força por meio do dinanômetro, ou de qualquer outra maneira aproximativa, se não houver este instrumento.104

Em uma das cartas trocadas com Capanema em 3 de setembro de 1857, Dias tratou das encomendas que seriam embarcadas de Viena. O material a que ele se referiu, eram: dois aparelhos fotográficos, quinino, benzina, e alguns livros. Sobre os instrumentos comentou:

Um cefalômetro, que vem na relação das compras, é para a minha comissão?

Comprei um craniômetro e creio que tudo vem a dar no mesmo pois que se nada podemediro cérebro senão por dedução. A capacidade do crânio deve estar em relação com a quantidade de matéria cerebral, nos indivíduos da mesma espécie, - ainda que há nisso muito que se lhe diga.

Não tenho achado um diabo de goniômetro facial, que Lagos me indicou:

também se não o achar, não é grande perda, pois que não creio muito no sistema. Seria preferível um dinamômetro para ver que o caboclo tem mais guzo.105

104“Seção ethnographica e narrativa de viagem”.In:RIHGB. t. 19, 1856.p. 69

105Carta de Dias para Capanema (nº 134). 3/09/1857. In:Anais da Biblioteca Nacional. (correspondência ativa de A. G. Dias). v. 84, 1964. Divisão de Publicações e Divulgação, 1971.

Dias demonstrava desconhecer o campo a que fora incumbido e não acreditava também no sistema de medidas, que pretendiam adotar na prática. Mas, como observou Blanckaert em seu estudo, os instrumentos referidos no texto eram os utilizados pela antropometria, métodos e técnicas desenvolvidos por volta de 1850.106

A língua foi outro aspecto bem detalhado nas Instruções. Pretendia-se construir gramáticas e dicionários de algumas línguas indígenas, pois serviriam de base nas investigações. As instruções demonstravam conhecimento de que ‘muitas de nossas tribos, como, por exemplo, a dos botocudos, tem uma língua muito pobre, que contrasta com a riqueza dos guaranys, possuidora de locuções para ambos os sexos’107. Este trabalho estava sendo feito por Dias na Europa antes de embarcar na Comissão, para ser entregue ao IHGB, onde era membro. Algumas correspondências trocadas com o Imperador atestam seu interesse pelas línguas108.

A prática desenvolvida pela Comissão de Exploração estava voltada para o conhecimento da história natural do homem, especialmente no seu ramo etnográfico, apesar de intitulá-la como etnografia. Mais que descrever os povos indígenas, as referências adotadas pela Comissão eram os estudos anatômicos de Camper, a frenologia de Gall e a lingüística para o entendimento da história da humanidade e das diversidades raciais.

As instruções recomendavam a coleta de todos os ornamentos, desde ferramentas, instrumentos musicais e de guerra, bem como tudo que demonstrasse as características de sua indústria, os usos e costumes dos indígenas, incluindo suas múmias e suas sepulturas. As coleções deveriam elaborar um diário e, se possível, incluir cópias dos documentos relativos a história e a geografia da região. Acrescentam ainda que era preciso estudar:

106BLANCKAERT, C. “Lógicas da Antropotecnia: mensuração do homem e bio-sociologia (1860-1920)”. In:

Revista Brasileira de História. 2001. p. 148.

107“Instruções a Comissão Científica”. In:RIHGB, t. 19. 1856.p. 71.

108Carta de Dias para D. Pedro II (nº 124). 25/05/1857. In:Anais da Biblioteca Nacional. (correspondência ativa de A. G. Dias). v. 84, 1964. Divisão de Publicações e Divulgação, 1971.

os costumes relativos ao indivíduo e à família, conhecimentos estratégicos de medicina, de cirurgia e de meteorologia, bem como os hábitos femininos, a planta e a forma das habitações, dos aldeamentos, o arranjo das fortificações e o sistema de segurança mútua, o comércio, meios que servem para contar o tempo, (...) deveriam conhecer a extensão da agricultura indígena, o modo de fazê-la, as plantas mais usuais de nutrição, as farinhas(...)109.

O acúmulo de material sobre organização física, lingüística e social eram procedimentos adotados nos trabalhos das Sociedades de Etnografia da Europa para entender como uma mesma espécie de homem tinha originado tribos e nações diferentes.

Conforme observou Lopes e Correa, o trabalho realizado por Dias estava em acordo com as pesquisas realizadas sobre a origem do homem americano, baseadas em referenciais teóricos de hierarquias raciais que predominavam então. Esses referenciais davam suporte para a idéia de decadência, muito divulgada em nosso meio intelectual por A. de Quatrefages de Bréau (1810-1892), amigo do Imperador, e a inevitável extinção dos primitivos no país agravada pelo contato com a civilização110.

A tarefa de Dias era ampla e complicada como atestou Manuel Ferreira Lagos, chefe da seção de zoologia da Comissão Científica do Ceará que justifica sua posição afirmando:

apesar do “homem ocupar a topo da sucessão da cadeia da criação humana”, ele estava

“dispensado de lidar com a Antropologia, pois isto era de exclusiva responsabilidade de outro membro da Comissão”, Gonçalves Dias111. Aqui apareceu pela primeira vez no Brasil, o termo antropologia, mas a prática adotada não era a mesma desenvolvida por P. Broca e a Sociedade de Antropologia de Paris que foi fundada no mesmo ano em que se iniciou a Comissão. Percebemos, porém, que apesar de direcionadas a uma seção nomeada como de

109“Instruções a Comissão Científica”. In:RIHGB, t. 19, 1856.p. 72

110 Quatrefages apresentava as idéias de Conde A. de Gobineau (1816-1882), que tratam da decadência, expressas em seu livro Essai sur l´ inegalité des races humaines publicados em 1853. Ver: LOPES, M. M. &

CORREA, M. “As aves que aqui gorjeiam”.(mimeo) 1995. p. 3

111“Instruções a Comissão Científica”. In:RIHGB, t. 19, 1856. p.51.

etnografia, todos os ramos da história natural do homem eram abordados nessas Instruções: a antropologia, a etnologia e a etnografia.

Apesar dos contratempos e controvérsias que foram geradas nos anos da expedição entre seus membros e com a imprensa na Corte e do suposto naufrágio das amostras coletadas e anotações de viagens, o Museu Nacional foi a instituição que mais se aproveitou dos subsídios gerados pela Comissão Científica do Ceará, cujos livros, instrumentos e materiais aumentaram largamente seu acervo científico no país.

O debate de construção da nação e da identidade nacional estava implícito no trabalho desenvolvido pela Comissão que ao promover o progresso de um Império moderno e civilizado, baseado em mão-de-obra escrava, buscava também reconhecer o lugar do índio neste contexto.

O inventário dessa coleção dentro do Museu Nacional, realizado por viajantes e praticantes, enviados por presidentes de províncias, doados por familiares ou pelo Imperador ajudaram a constituir este acervo e arquivo científico, tornando o Museu Nacional, que de

‘templo’ e ‘catedral’ converteu-se em vitrine do conhecimento. As mudanças tomadas pelos novos diretores a partir de 1870 apontam para os novos interesses e novos estudos desenvolvidos dentro do Museu Nacional pelos ramos da história natural do homem.

CAPÍTULO II: A atividade científica da Antropologia no

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