CAPÍTULO I: Os primórdios da Antropologia
2. O Museu Nacional enquanto ‘espaço de ciência’ e a implantação dos estudos
2.2. Os estudos sobre o Museu Nacional do Rio de Janeiro
Os trabalhos e estudos desenvolvidos nos anos 50 e 70 por F. Azevedo e S.
Schwartzman, respectivamente, pouca informação apresentaram sobre o Museu Nacional do Rio de Janeiro. De certa maneira, esses autores associavam a criação do Museu Nacional como ligado às propostas utilitaristas de Portugal em relação ao Brasil, além de apontar sua decadência com o fim do Império. O primeiro autor no seu livro, As ciências no Brasil, caracterizava o período colonial como um sistema fechado a quaisquer influências transformadoras, argumentando que as reformas pombalinas e as idéias iluministas quase não tiveram repercussão no Brasil84. O segundo em, A formação da Comunidade Científica, discutiu a inexistência de continuidade entre os fundadores da atividade científica, como Saint-Hilaire e Alexandre R. Ferreira e os pioneiros da ciência no Brasil nas áreas de botânica, zoologia e mineralogia no séc. XX85.
Os novos estudos da historiografia das ciências permitiram novas abordagens e novos referenciais para se pensar a ciência latino-americana86. Eles tiveram a preocupação de contextualizar a história local, privilegiando os homens, as instituições e as atividades científicas, articulando-a ao contexto internacional da ciência.
84AZEVEDO, F. As Ciências no Brasil. SP: Melhoramentos, 1963. pp. 19-28.
85SCHWARTZMAN, S. A Formação da comunidade científica. SP: Ed. Nacional,1979.p. 3-4.
86 SALDAÑA, J. J. “Teatro Científico Americano”. In: História Social de las Ciências en América Latina.
México: UNAM, 1996. p. 21.
Muitos estudos sobre museus científicos do Brasil têm sido desenvolvidos com esta perspectiva. Os motivos que os regem vão desde obras comemorativas encomendadas pelas próprias instituições, até livros, artigos e trabalhos acadêmicos. De uma forma geral os estudos acadêmicos sobre museus apresentam algumas características que foram remarcadas por Alves: ou são estudados em conjunto sem um aprofundamento sobre cada um deles, ou são apresentados em relação a alguma temática87.
Um dos estudos que tratam do Museu Nacional enquanto expressão institucional do desenvolvimento das ciências naturais no Brasil do século XIX, é o livro de Lopes, O Brasil descobre a pesquisa científica, que abarca alguns outros museus de história natural, como o Museu Goeldi, o Museu Paulista e o Museu Paranaense, alargando o Movimento dos Museus no Brasil. A autora ao tratar da trajetória da instituição mais importante do período, o Museu Nacional, resgata, de forma abrangente, a constituição de sua coleção.
As origens do Museu Nacional foram identificadas pela autora como ligadas à antiga
‘casa de história natural’, conhecida como ‘casa dos pássaros’, criada em 1784. Sua história remonta às reformas implementadas no final do séc. XVIII com o Marquês de Pombal, que, na conjuntura da Crise do Antigo Sistema Colonial buscavam desenvolver os estudos de história natural no Império Português, em que o Brasil estava inserido. Na tentativa de
‘desvendar o grande livro da natureza’88, o Estado Português promoveu uma série de iniciativas científicas que visavam o conhecimento e exploração de recursos naturais no mundo colonial, implantando Museus, Jardim Botânicos e Zoológicos, bem como Hortos Botânicos de forma a manter e consolidar uma atividade sistemática de remessas de produtos mineralógicos e zoológicos entre metrópole e colônia. A política portuguesa do final do XVIII
87A autora se refere aos estudos desenvolvidos por F. Azevedo e S. Schwartzman para o primeiro caso e os de L.M. Schwarcz, S. Figuerôa e M. M. Lopes para o segundo. Ver: ALVES, A. M. A. O Ipiranga apropriado:
ciência, política e poder – O Museu Paulista (1893-1922). SP: Humanitas, 2001. pp.23-28.
88SILVA, C. P. O desvendar o grande livro da natureza: um estudo da obra do mineralogista José Vieira Couto(1798-1805). SP: Annablume; 2000.
incentivou a articulação com outras possessões portuguesas, como também se preocupou em formar novos praticantes no Brasil criando o Seminário de Olinda em 1798, incentivando os estudos de história natural, organizando Academias Científicas Literárias e desenvolvendo uma produção científica própria.
Conforme apresentamos acima, as ciências naturais eram consideradas uma ciência moderna para sua época, apresentando, já no fim do XVIII, um desenvolvimento integrado à própria política portuguesa. Mesmo ressaltando as medidas modernizantes promovidas com a vinda da Família Real Portuguesa ao Rio de Janeiro, Lopes lembrou que isto levou os colonos ao processo de “tomada de consciência” não só de sua situação colonial, mas de uma idéia de Império e civilização que se pensava em promover nos trópicos. O crescimento e urbanização da cidade do Rio de Janeiro, atrelados à entrada de novos produtos, idéias e homens, seduziam os praticantes da história natural ao novo espírito científico89.
Nesta perspectiva criou-se no Rio de Janeiro, em 1818, o Museu Real de História Natural, que deixando de ser um mero ‘entreposto colonial’ tornou-se um museu metropolitano, de caráter universal, tal como seus congêneres criados na Europa e na América Latina90.
Na busca de aumentar suas coleções, o Museu Real depois Museu Nacional, conseguiu o apoio dos governos locais para o preparo de coleções de cada região, fez acordos com outras nações do Império Português para obtenção de novas espécies, incentivou a criação de gabinetes de história natural local e se relacionou com uma série de naturalistas que visitavam o Brasil.
89Ver estudos: MOTA, C. G. A Idéia de Revolução no Brasil (1789-1801); JANCSÓ, I.”A sedução da liberdade’
in: Novais, F. & Souza, L. M.(orgs). História da Vida Privada no Brasil vol. I. SP: Cia das Letras, 1997.
90LOPES, M.M. O Brasil descobre a pesquisa científica: os museus e as ciências naturais no séc. XIX. SP:
Hucitec, 1997 p. 45
Neste contexto, foi construindo suas coleções, que de gabinetes de curiosidades típicos do séc. XVIII passaram, aos poucos, a catalogar os antigos mostruários e expô-los numa linguagem própria de pôr “ordem nas coisas”. Praticando a ciência da sua época, foi produzindo e disseminando conhecimentos, com um programa de investigação, métodos de coleta, armazenamento e exposição de coleções, tal como uma das ‘Catedrais da Ciência’91.
2.3. O Museu Nacional, a etnografia e o aumento das coleções