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A administração dos corpos

No documento O animal humano e o corpo cênico (páginas 48-55)

ANDREAS VERSALIUS

I.4 A administração dos corpos

Considerando a reflexão de Debord sobre a construção de uma idéia de história na sociedade moderna que ele nomeia de “sociedade do espetáculo”; encarando o papel da história como principal produto de consumo de nossa sociedade e, por outro lado, como o autor ressalta, procurando fugir da idéia reducionista da história como história econômica das coisas, procurarei aprofundar-me nestas questões sob a ótica da obra de Foucault.

Para Foucault, a história “efetiva”62 se diferencia da história

tradicional porque não considera nenhuma constância, nenhuma espécie de sentido final ou absoluto, afinal, nada no homem é “bastante fixo para compreender outros homens e se reconhecer neles.”63 O autor rechaça o

entendimento sobre a idéia de história como uma verdade eterna, que teria a pretensão de reconhecer uma continuidade dos acontecimentos, que busca apreender dentro de uma totalidade toda uma diversidade inconstante e que tem como característica o descontínuo. Esta idéia de história tem como traço peculiar a busca de um sentido final, uma essência única. Esta história tradicional dissolve o acontecimento singular, considera o homem como algo fixo, acreditando ser possível estabelecer uma constância em seus sentimentos, em seus instintos. Segundo Foucault, a história “efetiva” é capaz de olhar para aquilo que está próximo: “o corpo, o sistema nervoso, os alimentos e a digestão, as energias; ela perscruta as decadências”64. Essa proximidade que seu

olhar busca nos acontecimentos acaba com a possibilidade de pretender para o animal humano uma unidade que organize e oriente seu olhar para o passado. Além disso, esse olhar deve saber tanto o que olha como de onde olha, saber que olha de um determinado ângulo, com um objetivo específico. Quando pensamos a história a partir dessas considerações de

62 Michel Foucault, Microfísica do Poder, ob. cit., p, 27. 63 Idem, ibidem.

Foucault, temos a oportunidade de desconstruir a história-produto de consumo, sobre a qual escreve Debord, que é reflexo do mundo mercadoria e pretende inaugurar, dentro de seus limites, o animal humano. A história “efetiva” não pretende descobrir uma identidade esquecida ou procurar um modelo nascido de “uma consciência sempre idêntica a si mesmo.”65 Foucault quer fazer aparecer as técnicas e os

métodos utilizados nas relações de poder, os procedimentos pelos quais se exerce o poder na vida cotidiana das pessoas. Debord afirma que a mais velha especialização é a especialização do poder e que ela se encontra na raiz do espetáculo, como uma “representação diplomática da sociedade hierárquica diante de si mesma, na qual toda outra fala é banida.”66 Na sociedade moderna podemos entender a máxima

especialização do poder como a racionalidade “que programa e orienta o conjunto da conduta humana”. Foucault afirma que seu objetivo é fazer uma história da racionalidade, “da racionalização da gestão do indivíduo.”67 Encontramos na obra de Foucault a idéia de que o saber é

um dispositivo político em que se articula a estrutura econômica, e ele está relacionado a um poder que distribui seus tentáculos por toda a sociedade. O autor desenvolve o estudo das formas locais deste poder e seus “procedimentos técnicos de poder que realizam um controle detalhado, minucioso do corpo – gestos, atitudes, comportamentos, hábitos, discursos.”68 É possível, que Foucault preencha alguns dos

requisitos que Debord afirma ser de um “etnólogo que voltou do tempo histórico”, que seria capaz de comprovar as práticas sociais, “com as quais todas as possibilidades humanas estão identificadas para sempre”69. Para o autor, não devemos procurar nas relações de produção

65 Idem, p. 26.

66 Idem, p. 20.

67 Michel Foucault, Ditos e escritos IV – Estratégia, poder-saber. Tradução Vera Lúcia Avellar Ribeiro, Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2003, p. 319

68 Michel Foucault, Microfísica do Poder. Tradução Roberto Machado, Rio de Janeiro, Editora Graal, 1979, p, XII.

69 Guy Debord, A sociedade do espetáculo – Comentários sobre a sociedade do espetáculo. Tradução Estela dos Santos Abreu, Rio de Janeiro, Contraponto, 2006, p. 90.

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“as condições de possibilidade históricas das ciências humanas”70.

Segundo Roberto Machado, por meio das análises genealógicas do poder, que Foucault elabora, o pensamento da ciência política, que costuma considerar o Estado como um aparelho central e exclusivo de poder, pode ser deslocado e revelar, dessa maneira, “formas de exercício do poder diferentes do Estado, a ele articuladas de maneiras variadas”71. O Estado

não poderia impor seu poder se não houvesse em volta do animal humano um conjunto de relações de poder ligando-o a seus pais, professores, patrões que disseminam idéias que compactuam com as dos aparelhos de Estado. “O poder não tem por função única reproduzir as relações de produção”72, em seu exercício, o poder, é ambíguo, pode ser

extremamente sutil, passa por cada um de nós que somos donos de um certo poder e, por isso, o propagamos. Esse poder que, em sua racionalização, busca gerir a vida social, se estabelece por meio do indivíduo, por meio do controle de sua sexualidade, de seus instintos, de seu tempo. A economia política surge ao mesmo tempo em que é urgido este novo objeto, a população. Gerir as populações tem um papel central na constituição de um saber de governo, na arte de governar. A problemática de como gerir a população73 passa a ser central na ação

governamental. A partir do momento em que surge este dado novo - a população - ela torna-se “o objeto da técnica de governo”.74 Inaugura-se,

70 Roberto Machado, “Introdução” in Michel Foucault, Microfísica do Poder, ob. cit., p. XXI.

71 Idem, p. XI.

72 Michel Foucault, Microfísica do Poder, ob. cit., p, 160.

73 Para Foucault, a problemática “população” surge no século XVIII, quando o poder se organizava através da estrutura da soberania, quando “o personagem central de todo o edifício jurídico ocidental é o rei.” O sistema jurídico organizava-se em torno do rei, o corpo vivo da soberania, elaborando uma teoria do direito com a qual o poder real atuava e se legitimava. Neste contexto, surgiu um saber jurídico que fez aparecer um direito legítimo da soberania e, também, a obrigação legal da obediência. Entretanto, foi justamente quando o problema da gestão da população nasceu que o poder real, a soberania, se vê em risco e, em resposta, iniciou o controle das massas, investindo em meios para administrá-las, e isso não se deu na forma de busca por resultados que poderiam ser encontrados numa coletividade, mas individualmente, no detalhe. Dessa maneira, a arte de governar tornou-se ciência política, o domínio das técnicas de governo. “A minha hipótese é que o tribunal não é a expressão natural da justiça popular mas, pelo contrário, tem por função histórica reduzi-la, dominá-la, sufocá-la, reinscrevendo-a no interior de instituições características do aparelho de Estado.” Idem, p. 39 e 290. 74 Idem, p. 291.

então, um movimento que torna a economia um departamento específico da realidade e, ao mesmo tempo, elabora-se a economia política como ciência e técnica de intervenção do governo. A relação histórica entre esses movimentos oferece-nos a oportunidade de perceber as estratégias das relações de saber e poder que organizam nossa sociedade. Para tanto, não podemos ignorar o alerta de Foucault, que escreve que devemos entender a historicidade por meio das relações de poder, e não por meio, das relações de sentido. Nas palavras de Foucault:

A história não tem “sentido”, o que não quer dizer que seja absurda ou incoerente. Ao contrário, é inteligível e deve poder ser analisada em seus menores detalhes, mas segundo a inteligibilidade das lutas, das estratégias, das táticas.75

Ao desistirmos de procurar um sentido para a história que dê conta do todo, de tal forma que remeta a uma origem primeira capaz de explicar e elaborar algo como uma essência representativa de nossa sociedade, uma verdade do animal humano que trace uma linha evolutiva contínua em direção ao progresso de suas capacidades, temos a oportunidade de perceber as forças que o atravessaram, alimentando suas conquistas, mas, também, suas derrotas. Quando procuramos enxergar as relações de poder enquanto um jogo que produz uma verdade em torno da qual se elaboram estratégias que organizam a vida do indivíduo, e, por sua vez, a própria vida social, é possível termos uma idéia de como as peças estão dispostas no tabuleiro da sociedade civilizada ocidental. Dentre essas peças, o corpo, o território corpo, tem função estratégica, pois é superfície de inscrição onde é possível analisar um “regime de práticas”. O território corpo é revelador dos traços, das marcas que o alvejam, das sujeições que ele reverbera e das resistências que cria. Temos a oportunidade de lançarmos um olhar para os regimes de técnicas que procuram controlar

75 Idem, p. 5.

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o corpo do animal humano, possibilitando-nos perceber as práticas “consideradas como lugar de encadeamento do que se diz e do que se faz, das regras que se impõem e das razões que se dão, dos projetos e das evidências.”76 O território do corpo é objeto de um saber que procura

delimitá-lo. Dessa maneira, o corpo é atravessado por essas forças que balizam seu espaço de ação, ao mesmo tempo em que, através da introjeção dessas forças, o corpo define os limites de seu próprio território. Por meio de uma consciência limitada, voltada para o desenvolvimento da capacidade de produção do corpo, este saber colocou- se entre a natureza e o homem, transformando a natureza em uma série de fenômenos comprovados em laboratório e encerrando o animal humano em cálculos que pretendem concluí-lo num movimento que, como vimos acima, Debord chamou de materialização de uma ideologia. Uma ideologia77 que representa da mesma maneira que elabora uma

forma de governar o animal humano.

76 Michel Foucault, Ditos e escritos IV, ob.cit., p. 338.

77 Proponho fazer uma aproximação entre as idéias de materialização da ideologia no campo das práticas, de Debord, e de razão governamental enquanto utilidade governamental, de Foucault. Como vimos antes, a materialização da ideologia pressupõe um congelamento das potencialidades transformadoras da ideologia, pois quando ela se materializa em mercadoria, na criação de uma vida privada para o animal humano, condena-o a viver na ilusão de uma experiência do real; afinal ele só alcança a sua cópia. A razão governamental enquanto utilidade governamental organiza-se de maneira a potencializar ao máximo o comércio, tendo como princípios fundamentais: “troca para as riquezas, utilidade para o poder público”, e para tanto, se esforça em resolver o problema das utilidades individuais e coletivas. Acredito que a utilidade governamental trabalha para a materialização da ideologia, que por sua vez, garante a utilidade governamental. Dessa maneira, mesmo quando Foucault escreve que a razão governamental em seu utilitarismo é uma tecnologia do governo, não uma ideologia, creio ser possível uma aproximação com a idéia de Debord de materialização da ideologia.

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No documento O animal humano e o corpo cênico (páginas 48-55)