ANDREAS VERSALIUS
I.2 O corpo e a vida-mercadoria
No mundo hoje, estamos à mercê de uma quantidade enorme de informações e de estímulos que a todo instante se alternam num movimento de reafirmação de saberes e poderes que, repetidamente, insistem em alvejar-nos. Investido de poder, este saber limita o campo de ação do corpo na sua interação com o ambiente, ao mesmo tempo em que, limita as possibilidades do corpo construir um conhecimento advindo da experiência de ser humano único, pois organiza as sociedades através de uma homogeneização da experiência da vida. Entretanto, para persuadir o corpo e seu amplo território de saber sensível a seguirem esta homogeneização, este saber edificou-se, imbuído de poder por meio do Estado e suas instituições, criando um novo território onde a experiência da vida seria reavaliada. Esta reavaliação tem como objetivo o progresso e como objeto o território do corpo. A ação desta reavaliação constrói um novo saber sobre a experiência da vida, ao mesmo tempo em que desqualifica a experiência de vida do território do corpo, antes, único território capaz de produzir tal saber. Esse novo saber foi erigido no espaço da ciência, concebido como saber totalizante, edificando uma espécie de ciência da verdade do corpo. O território da ciência caracteriza- se por reafirmar seu monopólio sobre a experiência da vida e, por meio das instituições de controle, estende-se para vida privada do indivíduo.
Esta ciência, que passa a construir um saber sobre o corpo, passa a ser, segundo Guy Debord, a ferramenta única para explicar toda a vida e para fundamentar a própria história. Fundamentada dessa forma, a história passa, por sua vez, a justificar a vida vivida pela ciência, experiência de vida mediada pelos saberes da ciência da razão. Um pensamento científico que pretende revelar uma “identidade ainda preservada da origem”38, que procura na figura de um sujeito justificar
acontecimentos e tragédias, e que postula ser o lugar da verdade. É
38 Idem, p. 18.
importante lembrar que esta ciência foi “fundamentada historicamente na economia”, e não na “compreensão racional das forças que se exercem na sociedade”39. Debord afirma que, essa compreensão deve ir além do
pensamento científico, pois devemos compreender as forças, a luta e não a lei. Ainda segundo o autor, a tentativa de superar a economia para nos aproximarmos da história deveria levar em consideração uma espécie de ciência da sociedade, mas esta não poderia ser em si científica. No entanto, esta ciência da sociedade é erguida por uma sociedade burguesa que rejeita “toda vida histórica que não seja sua redução à história econômica das coisas”40. Ancorada numa economia que desde seu
desenvolvimento foi causa e conseqüência de seu domínio, a burguesia construiu a vitória de sua revolução, de seus valores. Essa vitória foi alimentada por um poder que ganhou força com o declínio do feudalismo e das estruturas do Estado de então. Este poder começa a redefinir o papel do Estado, que apoiou a burguesia por meio do mercantilismo e que, depois, torna-se o Estado da burguesia.41 Com o estabelecimento
desse poder, surge, com sua visão de mundo, uma nova verdade, novos discursos verdadeiros. Estabelecem-se regras que diferenciam o verdadeiro do falso e que atribuem ao verdadeiro um poder específico e o papel econômico-político que ele desempenhará.42 Segundo Foucault, esta
nova realidade oferece uma economia política da verdade que possui um discurso científico com instituições que o produzem, para fornecerem as verdades que estimulem a produção econômica e façam a manutenção do poder político. É esta economia política da verdade que, como conceitua Debord, organiza, elabora, fabrica a “sociedade do espetáculo” e seu objetivo: o grande comércio e a acumulação de capitais; a economia realizando o potencial da mercadoria, o processo de desenvolvimento quantitativo. Essa nova organização transformou o trabalho humano em trabalho-mercadoria; na revolução industrial, a produção em massa para
39 Guy Debord, A sociedade do espetáculo – Comentários sobre a sociedade do espetáculo. Tradução Estela dos Santos Abreu, Rio de Janeiro, Contraponto, 2006, p. 53.
40 Idem, p. 58. 41 Idem, p. 57.
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o mercado mundial passa a dominar a vida social. “É então que se constitui a economia política, como ciência dominante e como ciência da dominação.”43 Esta dominação se dá por meio de uma organização do
tempo e do espaço usado pelo animal humano, mas, para além disso, se dá através de uma organização imagética do mundo, estimulada por uma satisfação que a mercadoria abundante oferece. Debord afirma que, mediante a falsa escolha que a abundância espetacular oferece, o animal humano fica absorvido, procurando escolher entre espetáculos concorrentes e solidários, numa “luta de qualidades fantasmáticas destinadas a açular a adesão à banalidade quantitativa.”44 Entretanto,
quando a mercadoria não satisfaz mais o animal humano enquanto ferramenta realmente necessária para o seu cotidiano, ele passa a lhe atribuir um valor em si e, assim, inicia-se a sagração da mercadoria, a adoração à sua liberdade soberana.45 É preciso atentar para o fato que
este espetáculo está ao mesmo tempo unido e dividido. Apresenta-se dividido como uma luta de poderes que aparentam preocupar-se em oferecer, cada qual com sua campanha publicitária inovadora, a melhor “vida privada” possível ao animal humano. No entanto, estes poderes protegem o mesmo sistema sócio-econômico; por isso, o animal humano está sempre diante de uma falsa escolha. Estes poderes - divididos em suas ações, mas unidos em seus objetivos sócio-econômicos - acometem o animal humano por meio de mecanismos espetaculares. Estes mecanismos substituem-se continuamente, alternando pseudo- acontecimentos feitos para estimular o consumo da vida privada que eles criam como mercadoria separada da vida real. O espetáculo ocupa-se da batalha entre as mercadorias, que lutam por si sem jamais reconhecerem umas às outras, numa realidade em que o animal humano fica relegado a um segundo plano perante o grande espetáculo da guerra apaixonada entre as mercadorias. O animal humano é condenado a uma experiência marginal de vida, à margem da existência, uma vez que sua própria vida é
43 Guy Debord, A sociedade do espetáculo, ob. cit., p. 30. 44 Idem, p. 41.
limitada “pela tela do espetáculo” que, ao mesmo tempo, é sua “imagem no espelho” e é o indício maior, segundo Debord, de sua “despossessão fundamental”46. Esta experiência caracteriza-se por afastar o animal
humano de sua existência, mediando sua relação com a vida por meio de mercadorias: “o devir-mundo da mercadoria, que também é o devir- mercadoria do mundo.”47 Debord reafirma seu ponto de vista:
O espetáculo confundiu-se com toda realidade, ao irradiá-la. Como era teoricamente previsível, a experiência prática da realização sem obstáculos dos desígnios da razão mercantil logo mostrou que, sem exceção, o devir-mundo da falsificação era também o devir-falsificação do mundo.48
É preciso compreender esta realidade na qual o animal humano está inserido, quando sua relação com o mundo é mediada por mercadorias que não param de oferecer novas possibilidades de dinamizar a sua interação com as próprias mercadorias, nas quais “as coisas concretas são automaticamente donas da vida social”49. Para Debord, um dos
alicerces da “sociedade do espetáculo” é a materialização da ideologia, que é provocada pelo êxito concreto da produção econômica autonomizada, num contexto em que a realidade social, em sua forma de espetáculo, confunde-se com a ideologia que foi capaz de manipular o real conforme seu modelo. A sociedade moderna legitima essa materialização da ideologia através de uma “abstração universal e pela ditadura efetiva da ilusão”50. Essa realidade espetacular de mediação entre as consciências,
“uma relação social entre pessoas, mediada por imagens”51, inserida na
sociedade da mercadoria abundante, impossibilita o desenvolvimento orgânico das necessidades sociais. A ideologia deixa de ser percebida em
46 Idem, p. 140 e 141. 47 Idem, ibidem. 48 Idem, p. 173. 49 Idem, p. 139. 50 Idem, p. 137. 51 Idem, p. 14.
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sua potência transformadora, como vontade abstrata do universal, e passa a afirmar-se como abstração universal: a idéia de um progresso infalível, o poder econômico como parâmetro de realização do animal humano. Essa realidade afasta o animal humano da força revolucionária da ilusão, que alimenta a busca por uma ideologia, que traz consigo a potência criativa do sonho, da utopia, tornando-se, ao contrário, o espaço da realização de uma ditadura que cria uma falsificação da vida, uma pseudo-vida. Dessa maneira, a força da ideologia deforma-se em virtude do sistema ideológico dominante, que se caracteriza por meio da sujeição do homem pela máquina-mercadoria, pela mercadoria espetacular, com seu habitat espetacular, sua cultura espetacular.
Nesse momento, a ideologia já não é uma arma, mas um fim. A mentira que não é desmentida torna-se loucura. A realidade tanto quanto o objetivo são dissolvidos na proclamação ideológica totalitária: tudo o que ela diz é o que é.52
52 Idem, p. 72.
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