3 REGIONALIZAÇÃO E DESENVOLVIMENTO
3.2 AS EXPERIÊNCIAS GOVERNAMENTAIS BRASILEIRAS E SUAS RELAÇÕES
3.2.3 A Agenda Desenvolvimentista da Ditadura Militar
Engana-se, todavia, quem atribui aos governos militares um governo liberal do ponto de vista econômico. Nele, a intervenção do Estado na economia ganhou um novo ritmo, reanimado pelo Plano de Ação Econômica do Governo – PAEG e depois o Plano Estratégico de Desenvolvimento - PED. O primeiro tinha um viés de recuperação do crescimento econômico e vigorou entre 1964 e 1966, já o segundo voltava-se para a valorização da empresa privada, a aceleração do desenvolvimento econômico, estabilização dos preços e do controle inflacionário. Este último vigeu de 1968 a 1970 (ibid., p. 105).
Ainda nos governos militares, ou a chamada Quinta República, a economia nacional reforçada pelo Estado brasileiro vê iniciar os anos 1970 sob as luzes do milagre econômico.
Assim, com o I Plano Nacional de Desenvolvimento Econômico – I PNDE (entre 1972 e 1974) o Brasil cresceu com forte apelo dos setores de construção civil, infraestrutura e indústria.
Todavia, segundo Souza (id.), a crise do petróleo em 1973 que fustigou a economia mundial, abalou as bases da economia brasileira, exigindo readequação dos países e de suas políticas econômicas.
Em 1975, conforme o mesmo autor, o governo brasileiro reagiu com o II PND (Plano Nacional de Desenvolvimento) que deveria ser implementado durante a segunda metade da década de 1970. Entretanto, as turbulências econômicas e sociais, a segunda crise do petróleo em 1979, o desequilíbrio nas contas públicas e o descontrole inflacionário acabaram por fazer o país mergulhar em uma crise econômica, não permitindo que os objetivos do plano fossem alcançados.
Isso fez com que os militares propusessem, já sob o comando de seu último presidente, o General João Batipsta Figueiredo o III PND, cuja principal missão era reequilibrar as contas públicas, reduzindo o déficit fiscal e a inflação galopante. Todavia, o ambiente econômico dos anos 1980 colocava o país em risco. O alto déficit fiscal, a inflação descontrolada, um ambiente social hostil ao regime militar, o descontentamento de empresários e investidores estrangeiros, minaram a plataforma política dos militares ao passo em que o Brasil percorria a chamada década perdida.
A Sexta República ou a Nova República inicia-se a partir da redemocratização do país. Tancredo Neves fora eleito pelo Congresso para o primeiro mandato depois dos 20 anos de ditadura, mas não chegou a assumir porque adoeceu e faleceu antes da posse. Em seguida, o maranhense José Sarney, vice de Tancredo assume o poder, tendo nas mãos os objetivos de viabilizar a redemocratização, uma ideia ainda verde e instável na política nacional, e recuperar a economia brasileira. Não logrou êxito. Planos econômicos de curta duração e baixa viabilidade afetaram ainda mais a já combalida estrutura economia e social do país.
Foi, no entanto, no governo de Fernando Collor de Mello, primeiro presidente eleito pelo voto direto depois da redemocratização que a agenda da política estatal brasileira muda o viés. Diferentemente do que fora feito ao longo de todo o século XX, o governo brasileiro passou a adotar uma postura neoliberal, típica das grandes potências Inglaterra e Estados Unidos da América nos anos 1980, com seus governos Margareth Thatcher e Ronald Reagan, respectivamente.
Ao herdar o país no final da chamada década perdida (anos 1980), tendo um governo lento, ineficiente e incompetente para dirimir os problemas econômico e sociais que assolavam o país; sendo este mesmo governo responsável pela manutenção de uma miríade de estatais que ineficientes não agregavam valor à economia nacional; estando a indústria nacional atrasada, pouco competitiva e fechada nas barreiras comerciais que a protegiam; não demorou para que o presidente Collor acenasse para uma política econômica liberal, ancorada na visão de Estado mínimo e abertura do país às regras da tão propalada à época, Globalização.
Todavia, breve, devido ao processo de impeachment sofrido ainda na primeira metade do mandato, pouco Collor conseguiu adiantar uma agenda nesse sentido. Mas, mesmo assim, foi o responsável por abrir o mercado brasileiro às importações, criando uma competição desenfreada na indústria interna, fazendo grandes empresas apressar o demandado processo de mudanças ou falir na esteira das mudanças. Ocorreram algumas importantes privatizações à época, como a Usiminas, para citar como exemplo, que foi vendida para o Grupo Gerdau.
Diante do quadro de turbulências, muitas empresas conseguiram sobreviver ao tsunami competitivo, mas outras desapareceram para sempre do mercado, submergidas pela invasão de produtos estrangeiros, mais modernos, inovadores, baratos e interessantes aos olhos do consumidor.
Com a saída de Fernando de Collor de Mello do governo em 1992, o vice-presidente à época, Itamar Franco, assume o mandato. Nomeado ministro da Fazenda, o senador Fernando Henrique Cardoso, juntamente com uma equipe de economistas, instituiu o Plano Real, um ousado programa de governo voltado para a estabilização econômica por meio de reformas e controle da inflação no Brasil. Itamar continuou o programa de privatizações e vendeu a Companhia Siderúrgica Nacional – CSN, a Embraer, a Aço Minas Gerais, Companhia Siderúrgica Paulista – COSIPA e a Embraer.
Liderar a implantação do Plano Real, rendeu capital político que permitiu em 1994 a eleição de Fernando Henrique Cardoso para o cargo de presidente da República. Ao assumir, o professor, sociólogo e político de extenso currículo acadêmico, continuou o processo de estabilização econômica e colocou em prática com mais fôlego o plano de privatizações e redução do Estado que não fora ainda efetivado pelos governos de Collor e Itamar. O Brasil cristalizava a política neoliberal por meio da venda de grandes empresas estatais, como a Vale do Rio Doce, a Telebrás e a Eletropaulo, por exemplo.
Ao passo em que o Estado brasileiro era reduzido a atividades exclusivamente públicas e que a economia ia sendo estabilizada, o governo se via desafiado a encarar outros desafios, antigos, que não estavam sendo sequer mitigados com a agenda neoliberal. Fala-se aqui, de problemas estruturais que acompanham o Brasil desde os primórdios de sua história, como por exemplo, a baixa competitividade, a venda de bens in natura e por isso de baixo valor agregado e desigualdade social manifestada na pobreza, que se por um lado degrada a dignidade das pessoas, por outro reduz o potencial de desenvolvimento da nação.
Não se quer dizer aqui que as estatais vendidas invertessem o processo explorador das economias centrais para as economias periféricas, mas davam o poder ao Estado de fazê-lo. É verdade também que quando ainda proprietário das estatais, o Estado não foi capaz de usá-las estrategicamente para promover o desenvolvimento industrial do Brasil.
O fato é que o país não abandonou a condição de subdesenvolvimento social, embora tenha mitigado significativamente a instabilidade econômica. Mas agora, passara a viver uma condição dependência econômica e, principalmente, financeira, dos grandes
operadores monetários globais. O fluxo perverso da especulação financeira capaz de derreter economias em poucos dias com a transação de títulos econômicos e financeiros entre países, tornou o Brasil um Estado financeiramente instável, ainda que economicamente mais estruturado.
Índices de desenvolvimento humano revelando um grande atraso nacional tanto no que tange à educação, à saúde, a segurança alimentar, a empregabilidade e a geração de renda, obrigou o governo brasileiro a desenvolver uma rede de assistência social capaz de reduzir os impactos da desigualdade social. Muito distante de ser universal e muito aquém das reais necessidades da população, o governo Fernando Henrique Cardoso inaugurou no Brasil programas de renda mínima para famílias carentes e à margem do desenvolvimento econômico.
Assim nasceram o Renda Mínima em 1998, o Auxílio Gás em 2000, o Bolsa Escola e o Bolsa Alimentação em 2001.
Devido ao ambiente altamente volátil da economia globalizada, o Brasil enfrentou no período do governo FHC (1995-2002) algumas crises econômicas derivada do comportamento dos mercados internacionais e, por ter apostado em recursos financeiros de investidores externos a um alto custo de juros, sofreu os influxos e refluxos do chamado hot-money (dinheiro movimentado por investidores e especuladores financeiros com o intuito de produzir ganhos rápidos. Geralmente essa classe de investidores apostam em altos juros e em especulação financeira, o que significa que pouco faz girar a economia real, baseada na produção e comercialização de bens, na geração de renda e na distribuição desses recursos).
Em 2002, a quarta eleição direta após a democratização do Brasil, conduziu ao governo o líder popular Luís Inácio Lula da Silva. O partido de Lula, o PT, uma das mais aguerridas agremiações da esquerda desde o início dos anos 1980 teve certa dificuldade em construir credibilidade junto ao mercado, mas ao prometer manter os pressupostos macroeconômicos que davam sustentação à política econômica do governo, ascendeu ao poder.
Deslizando suavemente sobre a popularidade, Lula conseguiu manter a estabilidade econômica, ao passo que durante seu primeiro mandato foi desenvolvendo uma política social mais ampla e integrada.
Com as commodities batendo recordes de preço, a gestão do PT à frente do Executivo nacional promoveu investimentos de recuperação de estradas, reformou, ampliou e criou universidades e escolas de ensino técnico. Investiu na pesquisa e desenvolvimento da Petrobrás, que acabou por descobrir um grande estoque de petróleo em águas profundas, na
chamada camada pré-sal. Tais conquistas, se aceleraram e se efetivaram no segundo mandato do presidente Lula, entre os anos 2007 e 2010 (BLACK, 2015).
Navegando em grande popularidade e tendo se transformado em um expoente político internacional, Luís Inácio Lula da Silva viabilizou a economista Dilma Roussef para o mandato de presidente da República em 2010. Eleita, Dilma aprofundou a abordagem social-democrática petista em sua gestão. A economia foi tomando sendo cuidada cada vez mais sob uma fórmula heterodoxa e a agenda intervencionista do Estado ganhando peso em sua gestão.
Paralelamente, o preço das commodities começaram a cair no mercado internacional, com destaque para o petróleo e o aço, dois produtos estratégicos da cesta de exportação brasileira.
A queda da receita com exportações gerou uma redução da atividade econômica no Brasil, ao passo que o governo manteve por muito tempo os gastos, inclusive investindo fortemente no incentivo tributário e no investimento público. O conjunto das atitudes governamentais agravaram a crise e levaram ao Brasil a uma recessão longa e duradoura.
A recessão econômica abalou a estabilidade política do país no início do segundo governo de Dilma Roussef. Depois de uma campanha política acirrada e de um clima de polarização que estava se instalando no país, o PT viu seu capital político derreter, principalmente, no Congresso Nacional. Concomitantemente a descoberta de um grande esquema de corrupção envolvendo grandes empreiteiras nacionais e a Petrobrás, na maior operação de investigação contra a corrupção já realizada no Brasil, prejudicava a credibilidade do governo petista, por afetar diretamente seus principais líderes.
O clima de instabilidade econômica, política e institucional (no Poder Executivo) acabou por fazer com que a Presidente Dilma Roussef fosse destituída do cargo em 2016, assumindo a presidência o vice-presidente Michel Temer.
Sob o apoio de um grupo de parlamentares de tendência centrista, Temer deu uma guinada à direita. Porém, sem cabedal político e tendo que tomar decisões estratégicas com vieses impopulares, patinou entre a aprovação de matérias polêmicas, a prática da política anacrônica baseada na negociação de cargos e interesses e pouco avanço na necessária mudança econômica no país. Em seus dois anos de governo não conseguiu livrar o país da crise, ainda que tenha conseguido estabilizar a inflação e frear os efeitos recessivos.
Os problemas da administração Temer, os efeitos colaterais da gestão Dilma e a má reputação impingida sistematicamente ao Partido dos Trabalhadores, acabou por criar um apelo forte de mudança sob um signo quase revolucionário. A associação do PT à esquerda e o
envolvimento na corrupção de grandes líderes sociais democratas acabaram por tornar a direita uma alternativa interessante para o povo brasileiro, historicamente passional e pouco afeito às discussões racionais nas escolhas políticas.
O contexto resumido acima promoveu a eleição de Jair Messias Bolsonaro, um ex-capitão do Exército brasileiro e político de carreira, cuja campanha, amplamente desenvolvida por meio das redes sociais, assentou-se numa propaganda conservadora, de extrema direita, nacionalista e com apelos muito próximos a argumentos fascistas. Tendo por base sua equipe econômica ainda sendo estruturada e o seu discurso, a tendência do governo Bolsonaro é reduzir o Estado brasileiro por meio de privatizações e controle de gastos, retirando a máquina pública de setores que o mercado pode assumir sozinho, bem como adotar uma agenda liberal ampla e irrestrita. Mas, como são tendências, apenas o tempo, as decisões administrativas e os efeitos das mesmas ratificarão ou retificará os rumos aqui apontados.
O que importa, a guisa de uma síntese sobre o que aqui foi discutido, é que quase 200 anos depois da independência política do Brasil em relação à Portugal, depois de 130 anos da instituição da República e mais de 30 anos após a redemocratização e aprovação da Constituição Cidadã, o Brasil ainda é um país em desenvolvimento. Ainda possui uma extensa camada da população que padece com baixos níveis de renda, de educação, com acesso a escassos e péssimos serviços de saúde básica, sobrevivendo cada vez mais em grandes cidades ou pequenos núcleos urbanos abarrotados de problemas sociais e econômicos, dentre eles o desemprego, a fome, a insegurança, a má distribuição de renda, a falta de saneamento básico dentre vários outros.
Ao sabor das ilusões e desilusões das lideranças momentâneas, o Estado brasileiro ainda tergiversa sobre o tema desenvolvimento, não tendo objetivos claros sobre o tema, não tendo discutido e pacificado sobre o papel do Estado nessa elaboração complexa, estratégica e de longo prazo (que por esse motivo não pode ser um ou dois governos, mas de muitos em uma longa escala de tempo).
Há, pois, que se discutir desenvolvimento. Não como um tema genérico, abstrato e pouco elucidativo no trato governamental, mas como algo complexo, objetivo e que requer a atuação estratégica em pontos chaves, como educação, saúde, saneamento, infraestrutura, qualificação institucional, segurança etc. Diante desse desafio, a seguir, tenta-se abordar o tema de modo didático, claro e sintético, de modo que permita uma análise crítica fundamentada sobre as abordagens.
4 REGIONALIZAÇÃO DO RIO GRANDE DO NORTE, ESTADO E