3 REGIONALIZAÇÃO E DESENVOLVIMENTO
3.2 AS EXPERIÊNCIAS GOVERNAMENTAIS BRASILEIRAS E SUAS RELAÇÕES
3.2.2 A República e Consolidação do Estado Brasileiro
A República Velha ou Primeira República ou ainda a chamada República da Espada, foi um período que durou de 1889, quando foi instituída a República, até o ano de 1930, quando os governos militares depuseram Washington Luís da presidência, não deixando Júlio Prestes, presidente eleito assumir o cargo de chefe do Poder Executivo nacional. Nessa época, o Brasil era um país tipicamente agrário, maiormente rural e vivia, como nos tempos do império, as agruras de um governo centralizador, cujo maior desafio era integrar a nação.
Geograficamente gigante, regionalmente distinto, por vezes se assemelhava a um colchão de retalhos territoriais que se mantinha unido fragilmente pelas conveniências políticas de uma classe econômica que se alinhava e mantinha a frágil união em torno de interesses meramente econômicos e políticos.
Entretanto, há que se dizer que, embora muito aquém do necessário, os marechais e demais presidentes da época tentaram elaborar planos para o país, na tentativa de integrá-lo e promover o seu desenvolvimento.
Souza (2004, pp. 101-102), diz que por volta do final do século XIX, o governo brasileiro instituiu o chamado Plano de Viação e o Plano de Recuperação Econômico-Financeira. Entretanto, chama a atenção o autor, que esses planos são esforços isolados e não conseguiram ir além do que seus próprios objetivos localizados. Noutras palavras, ainda não se pode falar em políticas públicas de Estado voltadas para o desenvolvimento.
Os cafeicultores paulistas, os pecuaristas leiteiros mineiros e os políticos sediados no Rio de Janeiro mantiveram durante toda a Primeira República uma política oligárquica que se estruturava sobre os interesses empresariais da elite do sudeste do país. A chamada política do café-com-leite barrava a entrada de novos líderes no jogo político nacional, à medida que iam paulatinamente se reforçando em poder e riqueza em seus estados de origem.
Porém, foi durante esse período, que os estudos geográficos sobre o Brasil começaram a se transformar em posições oficiais, assumidas com o fim de entender, governar e reproduzir o ideário de Estado-nacional. Ressalta-se a divisão de Delgado de Carvalho feita
em 1913, adotada pelo governo e reproduzida nas escolas como a divisão “correta” do território brasileiro (IBGE, 2017).
Entretanto, foi a partir da Segunda República ou Estado Novo que o Brasil passou a experimentar uma mudança no curso de seus governos, no tocante ao objetivo de promover o desenvolvimento da nação. Sob o governo de Getúlio Vargas, que durou praticamente 15 anos, o Estado brasileiro desenvolveu-se burocraticamente e institucionalizou órgãos da Administração Pública que se especializaram em planejar e implementar políticas públicas para a nação.
Inclusive, Souza (2004, p. 102) afirma que:
(...) uma agenda de debates poderia ser apresentada a partir de dois grandes divisores de águas em relação à política, à economia e à definição do novo marco legal-institucional do país: um primeiro é o Estado Novo de 1930, momento em que se inicia a construção de um Estado capitalista de caráter nacional-desenvolvimentista, planejador e intervencionista; e um segundo marco é o Regime Militar de 1964, em que essas relações construídas no Estado capitalista se aprofundam e se internacionalizam, guiadas por uma racionalidade técnica e de eficiência econômica, articuladas com uma ideologia de segurança nacional.
Em termos gerais, a elite agrária do país, afetada fortemente pela Grande Depressão de 1929, não conseguindo mais dar sustentação política aos líderes do Sudeste, personagens típicos da República Velha, viram eclodir no país uma série de insatisfações que desaguaram em um golpe militar de significativas proporções para um território geográfico tão vasto e tão pouco integrado. Norte, Nordeste e Centro-Oeste mais forças do Sudeste e do Sul instalaram uma revolução que levou ao governo a figura histórica de Getúlio Vargas.
Porto (2009, p. 2), afirma que a alternativa do Estado desenvolvimentista feita nos anos 30 pelo governo Getúlio Vargas, deu-se pelo “esgotamento do antigo padrão agrário-exportador, centralizado na produção e na exportação de matérias-primas, caracterizando-se pela presença ativa do Estado na economia, além de possuir, no setor industrial, o núcleo impulsionador do processo de acumulação”.
Entre novembro de 1930 e julho de 1934, Getúlio governou por decreto, numa fase ditatorial e marcada por levantes, todavia, deve-se enfatizar que esse período foi marcado por uma intensa modernização do Estado brasileiro. Nele foram instituídas a Ordem dos Advogados do Brasil, o Correio Aéreo Nacional, a política de ensino superior nacional, o Conselho Nacional do Café (a principal riqueza do país, na época), o Departamento de Correios e
Telégrafos, a regulamentação de várias profissões (entre elas, medicina, medicina veterinária, odontologia, enfermagem e farmacêutica), a carteira de trabalho, o Instituto do Álcool e do Açúcar, o Código Floresta e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Esses órgãos e regulamentações apresentam significativa relevância para o desenvolvimento do país, marcando a história e estando presente, mesmo que com mudanças, ainda em nossos dias.
Depois de 1934, após uma Assembleia Constituinte eleita pelos cidadãos brasileiros em 1933, foi promulgada a Constituição de 1934. Esta, considerada progressista, tinha como objetivo a organização de um Estado democrático capaz de unir a nação, promover a liberdade e a justiça e criar as condições para o desenvolvimento do bem-estar e da economia. Inicia-se então a chamada Terceira República, que consolida a Era Vargas e ao passo que o país segue a vertente capitalista e anticomunista, nacionalista e autoritária, vai também sedimentando um Estado intervencionista, regulador e pouco liberal.
Nesse período, o Estado brasileiro institui o Conselho Nacional do Petróleo, o Departamento Administrativo do Serviço Público – DASP, a Companhia Nacional de Álcalis, a Companhia Vale do Rio Doce, o Instituto de Resseguros do Brasil, a Companhia Hidrelétrica do São Francisco, a Estrada de Ferro Central do Brasil, a Fábrica Nacional de Motores e a Companhia Siderúrgica Nacional, para citar algumas. Estatais e órgãos da Administração Pública direta foram sendo criados para dar conta de uma política nacionalista voltada para o desenvolvimento como resultante de um esforço conjunto da iniciativa privada, capitaneada pelo Estado.
Durante a Ditadura Vargas, o presidente criou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, fruto da união do Conselho Nacional de Estatística e o Conselho Nacional de Geografia. Estava claro para Getúlio Vargas e a sua equipe técnica, que manter o Brasil como uma República Federada unida exigia mais do que ação política ou gerencial, sobretudo era necessário compreender a fundo a complexidade do território nacional e desenvolvê-lo, sob a égide da industrialização que fizera crescer a Inglaterra, os Estados Unidos da América, entre outras nações europeias.
O Estado Novo foi uma era em que o governo brasileiro investiu na criação das condições para a industrialização do país. Para tanto, planos foram criados, estatais instituídas, regulamentações publicadas e a política assumiu ares nacionalistas, com o fim de preparar a sociedade para um novo patamar de desenvolvimento (SOUZA, 2004). Segundo o mesmo autor (2004, p. 103), “tais iniciativas tinham como objetivos construir um Estado capitalista brasileiro que fosse dotado de uma economia forte, com base nacional, e, desta forma, viabilizar as suas
relações de produção com maior ênfase na presença do setor estatal no processo de industrialização”.
Na chamada Quarta República ou República Populista, que vai de janeiro de 1946 a março de 1964, o Brasil foi governado por nove presidentes, sendo que se destacam nesse período os nomes de Eurico Gaspar Dutra (1946 a 1951), Getúlio Vargas (em sua fase democrática, foi eleito em 1951 e governou até 1954, quando suicidou-se no Palácio do Catete no Rio de Janeiro, envolvido em escândalos e acusações graves) e Juscelino Kubitschek (1956 a 1961), líderes de grande apelo popular. Nesse período, o Estado brasileiro continuou se expandindo estruturalmente e ganhando contornos cada vez mais intervencionistas. Todavia, há que se destacar o desenvolvimento do liberalismo econômico nessa era, principalmente com as políticas de aceleração da industrialização do país.
Durante o governo de Dutra, destaca-se o Plano SALTE, cujo viés estratégico para a nação era fomentar as áreas da saúde, alimentação, transporte e energia. O Plano teve sua elaboração e implementação a cargo do DASP.
Na década de 1950 foi instituída a Petrobrás S.A., sob o governo de Vargas; a capital federal foi migrada para a recém-construída Brasília e foi criada a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE, por Juscelino Kubitschek. Este último presidente também ficou conhecido pelo Plano de Metas Cinquenta Anos em Cinco. Fase em que o Estado brasileiro assumiu clara e definitivamente sua vocação desenvolvimentista. A crítica a este plano é de que ele se tratava mais de um programa do que propriamente de um plano; um programa que articulava o capital investidor privado tanto estrangeiro quanto nacional com os esforços feitos pelo Estado (SOUZA, 2004, p. 103).
No final da Quarta República, na primeira metade dos anos 1960, os governos Jânio Quadros e João Goulart empreenderam o Plano Trienal, na tentativa de resgatar o ritmo de crescimento econômico nacional experimentado no governo de Juscelino. Todavia, antes que pudessem colher os louros, a crise política e institucional e a instabilidade por ela gerada não permitiu sequer a articulação de peças importantes como a sociedade, o governo e a classe empresarial. A gestão de João Goulart terminou com o fatídico Golpe de 1964 e o Brasil passou mais de 20 anos sob governos ditatoriais dos militares.
Faz-se aqui um recorte. O Brasil começara como República no final do século XIX por meio de um golpe militar. Os militares perduraram por um tempo e a política oligárquica assumiu o poder do país com a finalidade de se manter no poder. Conseguiu até certo ponto,
mas não imprimiu nenhum projeto nacional e não empreendeu desenvolvimento em uma época em que a industrialização mudava a face de todo o mundo.
Um novo Golpe recriou o Estado brasileiro sob a alcunha de Estado Novo e esse sim, inseriu no DNA nacional uma política desenvolvimentista que desenrolou por mais de quatro décadas, inclusive quando a democracia perdeu forças e permitiu que um novo Golpe reinstalasse os militares no comando do país.
Durante esse período, o Brasil estava redesenhado. Tardiamente industrializado, chegara aos anos 1960 como um grande mercado produtor, mas também consumidor, embora as importações ainda desequilibrassem a balança comercial da economia nacional.