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3 Os protagonistas do social

3.1 A aldeia Bodoquena

Os Kadiwéu vivem atualmente numa reserva na Serra da Bodoquena, localizada no sudoeste do Mato Grosso do Sul, na fronteira com o Paraguai.

A área  de acesso bastante difícil pela precariedade da estrada de terra que desce a serra  dista 48 km da cidade mais próxima, Bodoquena. Falam o kadiwéu, uma língua de raiz guaicuru e são os únicos representantes no Brasil da antiga nação Mbayá-Guaicuru1.

São descritos na literatura como tendo sido compostos por diversos sub-grupos nômades, tendo habitado ambas as margens do rio Paraguai2. José Sánchez-Labrador, missionário

jesuíta que viveu com os Mbayá entre 1770 e 1776, escreveu que, nesta época, dominavam uma ampla região que se estendia do início das serras que dividiam os rios Paraguai e Paraná em direção ao norte - em mais de cento e cinqüenta léguas - terminando, a oriente, numa região serrana chamada Guetiadiyadi, provavelmente a hoje denominada Serra da Bodoquena3.

Atualmente, sua população está em torno de 2000 habitantes, dos quais quase a metade vive na aldeia da Bodoquena, lócus deste trabalho. Neste censo, inclui-se membros de outras etnias que vivem entre os Kadiwéu e, muitas vezes, se auto-identicam como tal.

Embora a aldeia seja ocialmente denominada aldeia Alves de Barros, optei por referi- la como Bodoquena, neste trabalho, visto ser esta a denominação comumente usada pelos

1Os seguintes grupos do Chaco Paraguaio e Argentino também são classicados como falantes de

línguas de raiz Guaicuru: os Toba (no Paraguai e Argentina), os Emók, ou Toba-Mirí (Paraguai), os Mocoví (Argentina), os Pilagá (Argentina). Os Kadiwéu são os mais setentrionais dentre os grupos Guaicuru, e o único localizado a leste do rio Paraguai (Pechincha 1994: 14).

2Dobrizhofer (1822) refere-se aos Mbayá que moravam na margem oriental do rio Paraguai como

Eyiguayegis, e aos da margem ocidental como Quetiadegodis. Segundo as notícias de Felix de Azara que, como vimos, viveu na região entre 1781 e 1801 como comissário de Espanha, os Guaicuru ou Mbayá teriam se dividido num grande número de hordas, cujas quatro principais seriam a Catiguebó, a Tchiguebó, a Gueteadebó e a Beutuebó (Colini 1975 [1945]: 263)..

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Kadiwéu. Esta é a aldeia mais densamente povoada da Reserva  com cerca de 800 habitantes - e a que concentra o maior número de famílias kadiwéu. As outras aldeias  São João, Campina, Tomázia e Morraria com exceção da segunda (que ca a poucos quilômetros), situam-se a distâncias consideráveis (30 km ou mais) e, embora também ocupadas por famílias kadiwéu, são descritas como integradas principalmente por pessoas de outras etnias, sobretudo Terena, Kinikinawa, Chamakoko e Guarani. Além destas rela- ções intra-territoriais, os Kadiwéu também mantém relações estreitas com os paraguaios e os brasileiros.

As fazendas  que os proprietários arrendam para fazendeiros da região, sobretudo para criação de gado  foram formadas a partir de uma divisão das terras da Reserva entre algumas famílias4 e inúmeros núcleos familiares espalhados pelo território. A mobilidade

destes últimos é ainda maior do que a das pessoas que vivem nas aldeias, visto que membros destas famílias (ou famílias inteiras, em especial aquelas com crianças em idade escolar) se deslocam para as aldeias, sobretudo a da Bodoquena, onde está xada a única escola da Reserva5.

A maioria das casas da aldeia Bodoquena encontra-se bem dispersa. Enquanto algu- mas podem ser descritas como abrigando uma família de tipo nuclear  pois composta apenas pelo casal jovem e os lhos  outras reúnem, num mesmo espaço aproximado, mais de uma casa, onde vivem, além do casal mais velho, eventuais lhos/as ainda soltei- ros/as, lhos/as (netos, para nós) ainda crianças, lhos de criação, pessoas designadas como criados, as lhas casadas, os genros e as crianças do casal, bem como, embora menos comum, noras cujos maridos não moram na aldeia, e suas crianças, em geral bebês.

A aldeia da Bodoquena dispõe, à primeira vista, de uma infra-estrutura considerável. Ao chegar na aldeia logo se avista um consunto de construções de alvenaria, que reúne a escola (a única da Reserva), um posto de Saúde, um posto da FUNAI e uma caixa d'água equipada com motor, todas estas instalações desfrutando de energia elétrica, gerada por placas solares dispostas nas redondezas. Na época em estive na aldeia, uma toyota da FUNASA vinha periodicamente da pequena cidade vizinha (Bodoquena), e percorria os principais caminhos da aldeia, para entregar medicamentos e atender eventuais pacientes.

4Para detalhes ver Siqueira (1993) que estudou o tema. Nas sedes das Fazendas arrendadas é comum

encontrarmos famílias nucleares (em geral parentes dos proprietários) que, como nota Siqueira, se estabe- lecem a m de controlar melhor o número de cabeças de gado dos arrendatários, eventualmente cuidar de seu próprio gado e evitar invasões nos trechos mais isolados do território (1993:6).

5Referências a um hábitat disperso, assim como à mobilidade espacial, são freqüentemente anotadas

na literatura existente. Colini, por exemplo, observa que no m do século XIX as várias hordas dos Mbayá viviam ordinariamente separadas, mas se reuniam por vezes para proteger os interesses comuns (1975[1945]:278).

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O motor da casa da água é acionado diariamente, pela manhã e à tardinha por uma pessoa contratada  pela FUNASA  exclusivamente para esse m. A escola possui quatro salas de aula, dois banheiros para os alunos, uma dependência anexada para hos- pedar os professores que vêm de fora da aldeia  com um quarto, uma cozinha-sala e banheiro  diSpondo ainda de uma área de chão batido e grama onde realizam-se os jogos, sobretudo de vôlei. Na ocasião, a escola estava por receber alguns computadores que lhes haviam sido doados. O campo de futebol  com goleiras e gramado  não localiza-se neste aglomerado.

É interessante notar que havia apenas uma televisão, em toda a aldeia, localizada na casa de um dos professores kadiwéu, que tinha permissão para trazer energia até sua casa. Embora em geral reunisse, no cair da noite, um pequeno grupo de telespectadores, este não era um local muito freqüentado pelo fato de ser considerado um espaço privado  a casa onde o professor mora com sua família: somente os mais chegados se sentiam à vontade para freqüentar.

Ainda nas proximidades do pequeno centro localiza-se a casa do vereador e sua esposa (antiga casa de banhos)6, cujo pátio frontal constitui um lugar relativamente

público, onde podia-se ver freqüentemente mulheres sentadas numa grande roda, con- versando, recebidas pela antriã. O vereador em geral cava sentado fora desta roda, observando e eventualmente participando da conversa (o local de conversa grupal dos homens era no pavilhão em frente ao posto da FUNAI, bem próximo dali).

Os kadiwéu obtém sua subsistência da criação de gado e da agricultura (sobretudo da mandioca, comida básica diariamente consumida, ao lado da carne, do arroz, do feijão e da massa). A coleta (de palmitos, frutos de palmeiras, vários tipos de mel, frutas silvestres, etc.) é também amplamente praticada, podendo-se também encontrar pequenas hortas particulares (com cultivos variados: quiabo, milho, cenoura, vagem etc.) e pomares (públicos e privados) com uma variedade de frutas (acerola, abacaxi, manga, goiaba, cerigüela, banana etc.). Os outros itens básicos da dieta kadiwéu  feijão, arroz, massa, óleo, café, açúcar, sal etc. provém da cidade.

A extração de madeira, bem como o arrendamento de Fazendas, são também fonte de renda, sobretudo para aquelas famílias proprietárias de terras que, segundo Siqueira (1993), são geralmente as famílias nobres. Não são raros, também, os casos de homens (sobretudo mais jovens) que trabalham como peões tanto em fazendas vizinhas como nas

6Hoje desativada, mas para onde uía - canalizada através de calhas de madeira (hoje em ruínas), a

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fazendas arrendadas, dentro da reserva. A cerâmica produzida pelas mulheres também constitui parte importante da renda familiar. Assim como o Projeto de Parceria Pecuária  coordenado pelo advogado Alain Moreau, e que, na época, envolvia cinco famílias kadiwéu.

Vários animais são criados na aldeia. Toda casa possui pelo menos um ou dois ca- chorros, que são alimentados e relativamente cuidados pelas pessoas. De modo geral, têm uma aparência saudável, sem doenças visíveis nem marcas profundas de magreza. É comum, porém, apresentarem um dos olhos furados ou danicados em função de brigas empreendidas com outros animais, em geral outros cães7. Alguns possuem nomes e his-

tórias próprios, que identicam o animal e descrevem o tipo de apego que os residentes da casa possam eventualmente lhe ter. Um cachorro, vale lembrar, sempre acompanhava Onoenogodi, personagem divina (o Criador) da mitologia.

A aldeia é também repleta de galos, galinhas, gado e cavalos. Os cavalos são em geral fortes e saudáveis, pois bem tratados pelos donos. Como os cachorros, são nominados segundo eventos que participaram ou características próprias do animal8. Embora todos

os grupos residenciais disponham de uma criação razoavelmente grande de galinhas e galos, estes não parecem ser criados para o consumo da carne, mas dos ovos. A única vez em que comemos frango na aldeia, ele havia sido trazido congelado da cidade, por encomenda da dona da casa, preocupada com o fato de o estoque da carne de gado estar em vias de acabar9.

Frente à minha curiosidade por saber por que não comiam os animais que criavam, faziam as mais diversas observações: ora diziam que era porque não tinham muitos, ora que ainda não estavam grandes o suciente (ou então estavam muito velhos), ora explicavam que era porque as galinhas davam ovos ou, curiosamente, para os galos não brigarem - isto é, uma diminuição da população de galinhas aumentaria a disputa entre os galos.

Nos chamou a atenção o fato de as famílias terem, via de regra, vários galos num mesmo pátio. Um fato curioso, dado que cresci ouvindo minha avó, que criava galinhas,

7Guido Boggiani (1975 [1892]) descreveu a voracidade dos cães que, famintos, disputavam qualquer

comida disponível de tal forma a quase se devorarem entre si.

8Colini observa que, no nal do século XIX, as mulheres gostavam de domesticar várias espécies de

animais e de pássaros, que eram tratados com muita atenção. Possuíam muitos cavalos e a contragosto vendiam algum, tanto valor lhes davam. Tinham um cuidado especial por aqueles que destinavam à guerra e não teriam consentido em cedê-los ou vendê-los a nenhum preço (1975 [1945]: 274). Nota, por outro lado, que tinham poucos animais domésticos, isto é, galinhas, vacas e ovelhas, porque se roubam e matam mutuamente estes animais(idem ).