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4 As histórias sobre corridos

4.5 A centralidade dos corridos.

4.5 A centralidade dos corridos.

Parece claro, por um lado, que ao contar as histórias sobre os corridos, os Kadiwéu evocam, exaltam e atualizam idéias e práticas fundamentais (e estruturantes) da sua cultura e dinâmica social, como a demonstração de coragem, orgulho de ser descendente de bravos guerreiros17 e a capacidade para hostilidade e guerra. Tudo isso contrasta, por

outro lado, com a paz que reina nas casas, as amenidades da vida entre parentes, a vertente cômica e performática sempre ali presente, onde ao invés de quererem mostrar que são brabos, nos fazem, sobretudo, rir, mostram o quanto podem ser pacícos, desejosos de harmonia, afetuosos e preocupados com o cuidado. Um olhar sobre o outro que, ao mesmo tempo em que o trás constantemente para dentro da sua sociedade e cultura, demarca bem seu lugar permanente de outro no interior do grupo (dado que de uma perspectiva interna, as distinções são sempre acionadas, num nível formal, mais que substancial). As histórias sobre os corridos, condensando bem está dinâmica, em desequilíbrio perpétuo, expressam, assim, não apenas modelos de realidade como também modelos para a realidade (Geertz 1973).

O Gü-ê-krig, assim como o Caracara, lembra muito a gura do trickster, um persona- gem central da mitologia ameríndia, justamente aquele que possibilita o estabelecimento de mediações cruciais ao pensamento ameríndio. O pensamento mítico, como observou Lévi-Strauss, procede da tomada de consciência de certas oposições e tende à sua me- diação progressiva (1996:259). O trickster é, pois, um mediador, e esta função explica porque ele retém qualquer coisa da dualidade que tem por função superar (1996:261). Seguindo o método de análise estrutural, o autor explica porque, em praticamente toda a América do Norte, esse papel foi destinado ao corvo e ao coiote. Estes animais seriam escolhidos como tricksters/mediadores dentro de uma estrutura determinada  no caso, herbívoros-carniceiros-predadores- cuja lógica implícita de raciocínio seria: os carniceiros são como os predadores (consomem alimento animal) mas são também como os produtores de alimento vegetal (eles não matam o que comem) (259). Ou seja, dois termos entre os quais a passagem pareça impossível são substituídos por outros dois termos equivalentes que admitem um outro como intermediário, que gerarão por sua vez uma nova tríade.

É o trickster que torna possível elaborar mediações entre diferentes esferas ou domínios

17A coragem de enfrentar situações desaadoras é vista como uma qualidade irrevogável: exemplos.

impacto positivo de meu retorno na aldeia após ter sido corrida; apoio total de SD (que disse que ia nos bancar pois vi que a senhora é como nós, se atiça o fogo sai faísca), depois que, não vendo mais futuro nas negociações, falei, perante um grupo de mulheres reunidas na casa do vereador, que os Kadiwéu não estavam cumprindo com a própria palavra, e que este não era o comportamento esperado de pessoas orgulhosas e nobres.

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- o bem e o mal, o interior e o exterior etc.- que, à princípio, parecem excludentes. O exemplo de Lévi-Strauss envolvendo o corvo e o coiote é particularmente interessante no caso aqui estudado, visto que para os Kadiwéu, o verdadeiro trickster, é uma ave negra e noturna  às vezes referida como corvo, às vezes como Caracara - um personagem central de sua mitologia, companheiro inseparável de Gô-noêno-hôdi (o Criador). É o Caracara que permite, através da mediação de esferas à princípio vistas como opostas, a criação de vários aspectos do mundo tal como se apresenta hoje aos Kadiwéu. Um exemplo sendo o mito que conta a origem do descanso em função da criação de um sol suavizado, que dá origem a noite (em oposição ao dia), momento de descanso, visto que é impossível trabalhar com pouca luz.

Minha sugestão é de que a força desta gura mítica está intimamente relacionada com a força das representações sobre os corridos, isto é, os corridos são uma forma viva e atualizada do trickster, pois divertem e possibilitam mediações: entre interior e exterior, o bem e o mal, o desejado e o repudiado, incorporação e rejeição do outro, que é engolido e vomitado, etc. Se levarmos em consideração outros aspectos que serão evidenciados nas análises que desenvolverei no próximo capítulo  como a ambigüidade em torno da gura das crianças (Outros e Mesmos potenciais), assim como do contraste parentes e não-parentes, Kadiwéu e não- Kadiwéu, nobres e cativos  talvez possamos, de certa forma, aproximar a categoria dos corridos à noção de terceiros incluídos, uma vez que, se entendo bem, ela é utilizada por Viveiros de Castro para explicitar posições que escapam ao dualismo consangüíneos/ans e parentes/estrangeiros, e que desempenham funções mediadoras fundamentais (1993:177 e 1986:434).

É importante lembrar que o poder se manifesta, nessas sociedades, sobretudo na destreza no manejo das relações, muito mais do que na possibilidade de se incorporar valores sociais em objetos, que abririam uma possibilidade de acumulação de riqueza e poder  como cou claro na rejeição do telescópio e do microscópio como objetos legítimos de negociação de nossa permanência na aldeia. Como no mundo amazônico, parece prevalecer um sistema de homo-substituição, no qual uma pessoa só pode ser substituída por outra - ou seja, cada sujeito equivale exclusivamente a outro sujeito  sobra pouco espaço para idéias hétero-substitutivas, a possibilidade de incorporar valores sociais em objetos, e portanto de acumular riqueza e poder18.

Chama a atenção na bibliograa sobre o grupo as referências, passadas e atuais, sobre

18As autas sagradas do Alto Rio Negro ou do Xingu contam entre os raros casos de hétero-substituição

nas culturas amazônicas, mas não por isso abrem o caminho para os sistemas de bridewealth, ou de construção de big men que caracterizam a Melanésia.

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a decadência do sentimento de soberania kadiwéu, muito menos orgulhosos de serem um povo valente do que pareciam ser no passado, como observou Darcy Ribeiro. Também Pechincha, mesmo referindo ao caráter complexado dos Kadiwéu frente à atual pobreza material, observa que no que se refere à guerra, o passado aparece sempre como referência orientadora do presente, as narrativas expressando sempre um paralelo entre a guerra contra outros índios, com a guerra presente, contra os brancos (1994:117).

Pudemos perceber bem este paralelo de que fala Pechincha. Cito a seguinte passagem, extraída de meu diário de campo, para ilustrar esta percepção:

Os kadiwéu gostam de falar que seus patrícios (sobretudo antepassados) têm muitas mortes nas costas. Ninguém, no entanto, reivindica explicitamente esta qualidade para si próprio, sendo mais comum referirem a seus parentes já mortos e episódios passados. Quando falam de pessoas vivas que têm muitas mortes nas costas, geralmente dizem que este comportamento foi suspenso pelo ingresso daquelas pessoas na religião. (...) Já encontramos várias vezes, pela aldeia, homens portando armas (facas na cintura, es- pingardas, revólveres, cintos com balas). Toda a tensão que temos vivido em torno da autorização para car na aldeia, aliada ao fato de viverem falando de matanças, dizendo que kadiwéu gosta de matar, conjugado ainda à prática sistemática, quase semanal, das carneações - sendo comum, por isso, nos depararmos com pessoas ensangüentadas  tudo isso tem sido motivo de uma crescente apreensão. Hoje de tarde, Antônio expressou esta mesma preocupação dizendo que não gostava da idéia de ir embora, como planejado, e me deixar ali sozinha com o Gabri. Começo a questionar minhas elucubrações sobre o gosto meramente performático dos Kadiwéu por instigar o medo, que até então vinha aliviando minhas preocupações. Fico pensando se não deveria considerar mais seriamente os riscos que podemos estar realmente correndo.

De qualquer forma, o gosto por criar suspense e impacto numa platéia é notável entre os Kadiwéu.Transcrevo apenas mais um trecho do diário:

É impressionante o gosto que têm pela provocação. Quando perguntei como tinha sido a conversa com o Capitão, Seu Miguel me disse: Não se preocupa, Não tem perigo!, e rindo, acrescentou: Eu falei perigo! Mas quero dizer não tem problema. Ontem, quando dei boa noite para o pessoal, antes de me recolher, Dona Dorvalina repetiu uma frase que sempre me soa estranha: Boa noite! Dorme bem. Pode car tranqüila! Não se preocupe com nada. Nada vai acontecer.Outro dia, entrando na roda de chimarrão, cedo da manhã, a primeira coisa que ouvi de Joca, que estava de visita na casa, foi: Bom dia, Lisiane! Então quer dizer que tu ainda tá viva? Ah! Isso é muito bom!, em meio a