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4 As histórias sobre corridos

4.4 O corrido e o trickster

conhecíamos.

Dona Camélia, por sua vez, mostrou-se no início extremamente desconada e por duas vezes tentou conversar condencialmente comigo, insistindo em perguntar se o Antônio era mesmo brasileiro. Chegava bem perto de meu ouvido para perguntar e, dirigindo um olhar rápido e furtivo à Antônio, voltava a me olhar bem nos olhos  como que esperando uma conssão. Armava que eu, sim, parecia brasileira, mas que ele não. Frente a minha rearmação de que era, sim, brasileiro, disse, pensativa: Mas ele parece uma pessoa...Como é o nome mesmo do lugar, aquele da guerra!. Aos poucos, tendo tido a oportunidade de fazer todas as perguntas necessárias, sua desconança foi dissipada. O fato de seu esposo não levar a hipótese à sério também ajudou, certamente.

Vale notar que ao trazer para o centro de seu universo uma preocupação que mobili- zava o mundo inteiro, os Kadiwéu expõe uma outra característica marcante de seu ethos, fartamente documentada por praticamente todos que com eles estiveram: sua forte ten- dência etnocêntrica, como destacou Baldus (1975), sua mentalidade senhorial, segundo Ribeiro (1980), que destaca como tema central de sua mitologia a visão de predestinados ao domínio de outros povos.

Outro aspecto que despertou a atenção de alguns kadiwéu foi o fato de Antônio ser astrônomo. Embora alguns jovens tenham se interessado pelo tema, soubemos que o fato de andar se intrometendo em assuntos relacionados com estrelas e constelações incomodou profundamente outros. Seu Paulínio nos contou que um homem velho - que vivia mais retirado no interior da Reserva  havia lhe comentado sua preocupação: Quem este cara pensa que é? Pensa que é Deus? Que conhece o céu, as estrelas, tudo?. Outros, ainda, diziam que parecia com Jesus, por causa dos cabelos compridos.

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Todas as representações acima descritas, recorrentemente relacionadas com as idéias sobre os corridos, fornecem indícios eloqüentes sobre o imaginário kadiwéu. Remetem a temas presentes nos mitos, remarcam a fascinação com o tema da guerra, do disfarce, da troca de nomes, do fugitivo, do corrido, enm do Outro, do personagem que chega na aldeia para roubar-lhes, pregar-lhes peças, mas, sobretudo, para diverti-los. Um conjunto de histórias muito apreciadas pelos Kadiwéu versam justamente sobre uma gura, a do

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Gü-ê-krig - às vezes também chamado de bobo, e intimamente relacionado às crianças15.

Trata-se de um estrangeiro que chega na aldeia kadiwéu e acaba sempre sendo expulso das formas mais hilárias16.

Darcy Ribeiro o descreve como um herói bufão que encanta e diverte os Kadiwéu através de suas inúmeras aventuras cheias de humor picante. O próprio nome indica seu caráter. visto que Gü-ê-krig quer dizer o mentiroso (Gü-ê-krig) ou o ladrão (Oli-krig). Em suma, um personagem mentiroso e ladrão que percorre as aldeias atormentando e divertindo a todos com suas peripécias e cujas trapaças, embora reprovadas, são mais extravagantes que delituosas (1980:85).

Embora o autor saliente somente a dimensão lúdica destas histórias, que serviriam apenas para divertir, me parece impossível não associar estas narrativas com aquelas sobre os corridos, histórias que, além de divertir, expressam não apenas uma estética particular, como, sobretudo, e à esta relacionada, uma conguração sócio-cultural espe- cíca.

Embora tenha reconhecido que estas histórias tinham um grande impacto entre os Kadiwéu, sendo uma das preferidas em seu repertório, Ribeiro não enxergou nelas nada além de histórias que serviam para divertir, pois, explica ele, Gü-ê-krig não chega a ser um herói, já que as ações atribuídas a ele não trouxeram qualquer mudança para o grupo, nem têm o valor de alegorias que justiquem qualquer comportamento (1980:46).

Mas intrigado com o sucesso das narrativas, o autor sugere que embora Gü-ê-krig seja descrito ainda como desprovido de qualquer poder sobrenatural (...) engana e é enganado, apelando sempre para expedientes ardilosos, mas naturais. Nesse sentido, Gü- ê-krig poderia ser visto como uma expressão de certos ideais que, embora socialmente reprovados, inamam os mais recônditos desejos dos Kadiwéu, não poucos deles bem gostariam de se ver na pele deste truão(1980:85).

Embora Darcy Ribeiro não fale muito de eventuais diculdades que tenha experimen-

15Ribeiro nota que estes contos divertidos eram uma especialidade de João Príncipe (pai de nosso

antrião, quem primeiro nos interou das histórias em torno de Antônio). João Príncipe foi descrito como o mais `puro' kadiwéu, muito inteligente e bem ajustado, que aproveita-se das relações com os brancos e desfruta de grande respeito entre os seus companheiros. Ribeiro diz ainda que a ele se devem alguns dos documentos mais completos que colheu, devido ao seu domínio do português e à boa vontade em ouvir as lendas de seus companheiros e recontá-las (1980:36).

16Numa destas histórias, por exemplo, hospedado numa casa, tenta roubar o mel mas ena demais a

cabeça no pote e ca preso ali, desnorteado, correndo sem direção, tentando fugir e dando de cabeça nas coisas. Noutra, um grupo de moças (das quais ele havia trocado as roupas enquanto dormiam) preparou-lhe uma armadilha e seu corpo acabou arranhado por inteiro, até car em carne viva. Noutra vez, ainda, ele rouba as roupas de um grupo de crianças que se banhava no rio e arma uma cilada que também reverte contra ele.

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tado entre os Kadiwéu, é curioso que seus escritos sobre o grupo tenham sido publicados muitos anos depois de ter estado na aldeia, e que, terminada a pesquisa, não tenha nunca mais retornado, nem mesmo para visitá-los. Fato até hoje lembrado por algumas pessoas mais velhas. Acredito que se não tivesse enfrentado nenhuma resistência, se sua aceitação tivesse sido tão plena como parece, não teria sido necessário fazer-se passar por sobrinho de Boggiani, um parentesco que despertou fortes emoções, levando inclusive uma velha a cantar no momento da revelação.

Como ele próprio arma, este fato teve uma importância decisiva para a pesquisa e foi a razão principal da compreensão que consegui alcançar sobre seus modos de sentir e de pensar (...) Jamais me esforcei para esclarecer este assunto com os meus amigos Kadiwéu. Era cômodo o papel e o nome de cria do Betra (Boggiani) que me fazia ser recebido festivamente em cada aldeia, que permitia romper o formalismo das relações entre índios e funcionários ou doutores, substituindo-o por um convívio humano e cordial, ainda que, por vezes, exageradamente pessoal e protetor. Para os Kadiwéu, era como se eu fosse um kadiwéu bem sucedido no mundo dos brancos, mas completamente ignorante das coisas de seu povo, embora, felizmente, curioso de tudo que dizia respeito às suas tradições(1980: 9 e 12 respectivamente).

Esta inserção calorosa, de um parente que há muito não é visto e que à casa retorna, talvez tenha nublado os signicados contidos nas histórias daquele famoso personagem da literatura kadiwéu. No nosso caso, ao contrário, a experiência vivida entre os Kadiwéu foi radicalmente diferente, pois embora tivéssemos também nossos protetores, tínhamos igualmente nossos detratores.

Os relatos de Mônica Pechincha sobre sua experiência de campo também deixam en- trever situações de grande tensão. Sua estada foi caracterizada por uma instabilidade constante, a permanência na aldeia tendo sido inicialmente vetada e sua retirada deman- dada. Antes de partir para o Rio de Janeiro, onde participaria da Eco99, o capitão lhe advertiu que não queria encontrá-la na aldeia quando de seu retorno.

Como nós, chegaram na aldeia tarde da noite. No dia seguinte, assim como por todo o primeiro mês, seus esforços de comunicação foram frustrados e a diculdade lhe parecia instransponível. Pechincha escreve que naquele ambiente (...) estive como estrangeira e branca (...) Com poucas famílias conseguia estabelecer um diálogo que se estendesse mais que por breves minutos. Quando lhes participava de que minha intenção era permanecer por alguns meses na aldeia, encontrava como resposta uma expressão de dúvida e desconança (1994:4). O modo lacônico e distante dos Kadiwéu, diz ela,

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tomava o aspecto de um enorme incômodo com a minha presença. Eram os primeiros dias, pensava. Com o decorrer do tempo, porém, maior se tornava a diculdade de me aproximar de suas casas (idem ant.).

Sua sensação de isolamento é bem ilustrada na seguinte passagem: Ao contrário do que podia julgar por notícias dadas por muitas etnograas de índios do Brasil no que tange à diculdade de encontrar o etnógrafo um mínimo de privacidade, estava assustadoramente isolada no meio daquele povo. Nem os jovens e crianças que freqüentavam a escola ao lado de meu alojamento (o posto da FUNAI) ousavam dirigir-me a palavra (...) Persisti na procura de meus informantes, apesar do incômodo incomensurável que a situação provocava. E se perguntava se seria realmente possível escrever sobre um povo que demonstra total desinteresse em abrir o que lhe é próprio (1994:5).

Sua opção por residir no posto da FUNAI, ao mesmo tempo que lhe possibilitou uma inserção relativamente neutra no grupo (pelo menos no sentido de sua presença e pessoa não ser associada a nenhuma facção ou grupo familiar especíco), colocou-a numa posição de isolamento desconfortável, e aterrador, do ponto de vista antropológico.

Quando visitei os Kadiwéu pela primeira vez, ainda não tinha conhecimento dessa experiência de Pechincha. Embora tivesse sido fortemente aconselhada por Alain Moreau a car no posto da FUNAI, justamente para evitar que fosse identicada pelos índios como ligada à apenas uma família ou grupo político, acabei cedendo à insistência de Seu Paulínio e Dona Dorvalina para que aceitasse seu convite e casse hospedada em sua casa. Esta decisão não foi sem conseqüências, como vimos, mas muito pelo contrário.

Mas residir no posto da FUNAI não signicaria, necessariamente, uma posição de neutralidade dentro do grupo, visto que algumas famílias kadiwéu possuem uma relação mais estreita com esta instituição do que outras famílias. Além disso, a experiência de Pechincha revela pelo menos um ponto positivo na minha decisão de aceitar um ingresso menos neutro, pois assim tive a oportunidade de viver não apenas dentro de uma casa kadiwéu - o que por si só foi uma experiência extremamente enriquecedora do ponto de vista dos objetivos de minha pesquisa  como tive uma abertura bem maior à outras famílias próximas ao grupo com o qual me relacionava mais intimamente, podendo parti- cipar da rotina diária, convivendo com as pessoas e podendo observar de perto dinâmicas e momentos que se mostraram fundamentais para um melhor entendimento das relações familiares e de gênero que tanto me interessavam.