3. Os desvios da fábula em Happy Days
3.1. As personagens como impersonagens dramáticas
3.1.3. A ambígua complementariedade entre Winnie e Willie
[...] Um personagem é sempre definido pela soma das réplicas reunidas sob a mesma sigla ou o mesmo patronímico que o constitui como tal. Mas como o personagem enunciador passou por um regime de emagrecimento a ponto de sua silhueta apagar-se, e como dela não podemos mais esperar discursos coincidentes com o suporte central, [...] todo idioleto conduz a um impasse (Ryngaert In Sarrazac, 2013 a., p. 114).
A protagonista de Happy Days fala profusa e difusamente, assumindo um discurso de feição monológica, que, sem buscar se ater a um assunto em específico, escapa à conformação de um relato íntimo capaz de conferir-lhe contornos propriamente nítidos.
A movimentação de Willie e suas poucas falas tornam essa personagem, cuja presença é em grande parte “citacional”, ainda mais enigmática.
Winnie e Willie são marido e mulher e compartilham a experiência de estarem entregues a um ambiente inóspito e insólito e a um tempo arbitrário. As personagens de Happy Days carecem de interação intersubjetiva, mas sua coabitação dramática implica, contudo, uma relação entre ambos.
refined versus coarse, loquacious versus taciturn, Winnie and Willie were compared by their creator to a bird and a turtle57 (Cohn, 2001 p. 265).
Martha Fehsenfeld, tendo acompanhado os ensaios da direção de Beckett de 1979 para Happy Days, produziu um diário acerca da preparação da montagem do autor para o Royal Court Theatre58. Em uma das passagens desse diário, ela registra o que Beckett disse à atriz Billie Whitelaw acerca de Winnie: “She’s like a bird […] with oil on its feathers” (Fehsenfeld apud Knowlson, 1996, p. 580).
Winnie chega a dizer que se não estivesse presa no seu montículo provavelmente levantaria voo e se perderia no azul do céu, porque ela sente que uma força a puxa para o alto.
Don’t you ever have that feeling, Willie, of being sucked up? […] Up to the blue, like gossamer. [Pause.] No? [Pause.] You don’t? [Pause.] Ah, well, natural laws, I suppose it’s like everything else, it all depends on the creature you happen to be (Beckett, 2006, p. 152)59.
Haveria, então, uma oposição complementar entre as figuras de Winnie e Willie: ela é o animal aéreo que, impossibilitado de voar, apoia-se na sua capacidade vocal e anseia por cantar, enquanto ele é o bicho terrestre, quase todo o tempo mudo, que se desloca horizontalmente no espaço.
Eastman (1964) verifica o paralelismo entre a coabitação do casal Winnie e Willie e a relação estabelecida entre Hamm e Clov em Endgame:
Winnie locked in dead center of the mound seems the feminine counterpart of Hamm locked in his wheelchair in dead center of his room in Endgame. Willie
57 Segundo Fehsenfeld, tal comparação já teria sido transmitida a Alfred Hübner durante os ensaios da montagem de Beckett para Happy Days, em 1971, para o Schiller-Theater Werkstatt de Berlim
(Fehsenfeld In Ben-Zvi, 1990, p. 55).
58 Apesar de Knowlson (1996) indicar que esse diário estaria prestes a ser publicado, esse material jamais recebeu uma publicação.
59 Negrito aqui inserido. Para o espetáculo de 1979 Beckett acrescentou, na mesma didascália, após a pausa aqui destacada: “Back front.” (Beckett; Knowlson, 1985, p. 194).
resembles Clov of the same play: the unwilling partner in misery (Eastman, 1964, p. 419).
Hamm é cego e paralítico, enquanto Clov, de quem Hamm para tudo depende, padece por não poder se sentar e não sabe por que não consegue deixar de atender ao mestre incapacitado. A complementaridade simbiótica das personagens ganha outra forma em Happy Days. Diz Winnie ao esposo: “Well I don’t blame you, no, it would ill become me, who cannot move, to blame my Willie because he cannot speak” (Beckett, 2006, p. 153).
Observa Gontarski: “Winnie remains in the dignified vertical position, a thinking animal;
Willie, a beast on all fours, leering over a pornographic postcard” (Gontarski, 2017 p.
23).
Tal é a importância de Willie continuar a entreter-se com o postal pornográfico que Beckett, no seu caderno de encenação, indica que o ator que representava essa personagem deveria ter dois postais, para o caso de não conseguir alcançar o que seria descartado por Winnie (Beckett; Knowlson, 1985, p. 38, p. 167).
Willie passa vaselina para proteger-se do sol e rasteja ora para dentro, ora para fora de um buraco. Uma das poucas palavras ditas por Willie, cujo nome também é sinônimo de uma gíria inglesa para pênis e tem como shortname Will, é “formication” – sua anedota sobre uma formiga carregando um pequenino ovo. Ele repete a leitura de dois anúncios do jornal que parecem dizer respeito à virilidade: “Opening for smart youth” (Beckett, 2006, p. 142, p. 159). “Wanted bright boy” (Ibidem, p. 143, p. 159).
Sarrazac descreve como uma das formas da impersonagem a “personagem criatura”, que, conduzida até as fronteiras da bestialidade, quando chega a falar manifesta a desarmonia entre a linguagem e a sua plasticidade corporal monstruosa, e expressa o que foi socialmente interdito (Sarrazac, 2002, p. 97-103). Sarrazac, todavia, afirma que personagens de Beckett constituem-se no limiar instável entre a impersonagem criatura e a figuração humana, o que, distendendo a incompletude da caracterização dramática, remete ao inacabado do homem (Ibidem, p. 104-105).
Beckett, contudo, indica que Willie está cônscio acerca das circunstâncias em que se encontra quando, em uma missiva para Alan Schneider, de 17 de agosto de 1961, o autor
trata da indagação de Willie “Sucked up?” – quando a este é perguntado se se sente sugado para cima –: “Willie feels ‘fucked up’, not ‘sucked up’. His surprise is at these”
(Beckett, 2014, vol. III, p. 429).
Happy Days traz controvérsias quanto à compreensão de Winnie como uma representante do pensamento racional e de Willie como uma criatura selvagem movida pela pulsão sexual.
A comparação da personagem masculina com uma tartaruga pode concernir ao fato de ele se manter a maior parte do tempo retraído em um buraco, além de parecer dizer respeito a lentidão, passividade e resiliência, também à extenuação do vigor físico pela longevidade.
Paradoxalmente à movimentação animalesca de Willie, as réplicas que este dá quando é questionado se está ouvindo a esposa e ainda algumas das poucas atitudes dele parecem, amiúde, ser mais racionais do que a maior parte do discurso e da conduta de Winnie.
Observa Cohn:
If Willie is a turtle, however, he is quite accommodating under his carapace. His very first gesture is to return Winnie’s dropped parasol. He lends is cherished pornographic postcard; he solves her grammatical problem about hair; he responds five times with Yes to her questions, and for her he repeats: “Fear no more”. He identifies the burden and the motion of the emmet, and he joins Winnie in laughter. Although he occasionally expresses irritation, he never reproaches Winnie for the injuries he suffers (Cohn, 2001, p. 265).
Winnie golpeia duas vezes o esposo com uma sombrinha, que acaba escorregando das mãos dela para ser-lhe depois devolvida por ele (Beckett, 2006, p. 141). No texto publicado, Willie não expressa nenhuma reação aos golpes impingidos, mas Beckett explicita a crueldade de Winnie na montagem para Royal Court Theatre de Londres, conforme atesta o caderno de direção do autor:
After ‘She strikes down at him’. The blows were vigorous thumps. The first was followed by a cry from Willie, the second by an ‘Oh’ from Winnie, as she loses her grip the parasol (Beckett; Knowlson, 1985, p. 191).
A protagonista, antes disso, também atira o frasco vazio de remédio na direção de Willie, atingindo-o na cabeça. No texto aqui analisado, da careca de Willie, atingida pelo frasco, escorre um fio de sangue (Beckett, 2006, p. 141). Já no seu caderno de direção Beckett retira a imagem da cabeça sangrando para inserir o choro de Willie logo após a rubrica:
“Sound of breaking glass” (Beckett; Knowlson, 1985, p. 191).
O fato de Beckett, na montagem do espetáculo de 1979, ter buscado evidenciar a crueldade física de Winnie para com Willie obstaria, mais veementemente, a identificação do esposo como o contraponto da protagonista enquanto um elemento racional do drama.
Pouco é possível saber de Willie, que passa a maior parte do texto oculto e calado, de forma que essa personagem, grosso modo, é constituída como um dos repositórios que sustentam o discurso monológico da protagonista.