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A ameaça normanda e a Batalha de Dirráquio (1081)

Foram os Normandos que constituíram a mais séria ameaça ao império, durante o longo reinado de Aleixo I (37 anos). De facto, o perigo normando já se vislumbrava desde 1071, aquando da conquista de Bari, o último grande bastião bizantino na Península Itálica, e os seus desígnios estendiam-se até aos domínios gregos nas regiões dos Balcãs.

Dez anos volvidos e em maio de 1081, o normando Roberto Guiscard inicia uma nova campanha, na parte ocidental dos Balcãs;

por alturas de junho, sem ter encontrado oposição de relevo na sua marcha, cerca a capital da região – a cidade-fortaleza de Dirráquio (Haldon 2001 133), que estava então bem protegida, situada numa longa e estreita península (na costa oriental do mar Adriático), com poderosas defesas, que remontavam ao século VI e haviam sido bem mantidas e preservadas, e dispondo de reservas que lhe permitiriam aguentar um cerco, por muito demorado que este se pudesse tornar.

O plano inicial de Roberto Guiscard era atacar Dirráquio por terra e por mar, simultaneamente. No decorrer dos eventos, va-leu aos Bizantinos o envio de uma esquadra veneziana – fruto de uma aliança forjada entre Aleixo I e o doge de Veneza –, que se antecipara à chegada dos Normandos e que consegue infligir grandes perdas, materiais e humanas, às suas forças navais. Em virtude deste auxílio, o basileús irá recompensar ricamente o doge e a cidade semi-independente de Veneza, o que, no futuro, acar-retará consequências do maior relevo para o império. Contudo, enquanto Bizantinos e Venezianos mantinham à distância a armada normanda, Roberto Guiscard deparava-se com sérios problemas no seio do seu acampamento, onde as febres grassavam e ceifavam as vidas aos seus soldados, desde as tropas ordinárias aos mais nobres dos cavaleiros.

Apesar de todos estes constrangimentos, Guiscard insiste em manter o cerco, o que compele o basileús Aleixo I Comneno a marchar na sua direção, com o intuito de expulsar a amea-ça normanda, a qual comprometia seriamente a seguranamea-ça das províncias bizantinas nos Balcãs, que tinham adquirido uma importância crucial para a sobrevivência do império após a perda virtual da Anatólia.

Aquando da marcha das forças imperiais para socorrer Dirráquio, os defensores da cidade viam-se confrontados com o bombardea-mento das suas muralhas, pois, atestada a inexpugnabilidade destas perante um vulgar assalto, os Normandos recorreram à construção de engenhos de cerco, de forma a poderem enfraquecer os meca-nismos defensivos bizantinos.

A melhor fonte de que dispomos para a análise da batalha de Dirráquio é a Alexíada, de Ana Comneno. Porém, o relato deste episódio é algo tendencioso, na medida em que a principal preocu-pação da autora foi evidenciar o comando descuidado de Roberto Guiscard, nomeadamente quando descreve o recrutamento e o treino dos efetivos normandos; apesar desta posição parcial, não se encontram razões para duvidar dos dados que nos são apresentados sobre a composição do seu exército: segundo este relato, seria com-posto por cerca de 30 000 homens, entre forças de infantaria e de cavalaria; na vertente marítima, disporia de cerca de 150 embarca-ções (isto antes do confronto com a coligação bizantina-veneziana).

Ao contrário dos restantes inimigos de Bizâncio – Seljúcidas, Petchénègues, Cumani –, que combatiam com o propósito de pi-lhar, envergando apenas um armamento ligeiro (ofensivo e defen-sivo), e que, sempre que possível, evitavam o confronto direto, os Normandos apresentavam-se como uma força bem equipada, com um grande nível de organização e, por isso, configuravam uma hoste temível. Foi precisamente a ameaça protagonizada pelas forças normandas que levou Aleixo I a, nos primeiros anos do seu reinado,

descurar as defesas da parte oriental do império e a desvalorizar a importância dada às forças turcas, a oriente (Birkenmeier 2002 61).

Pelo seu lado, Aleixo I contaria com os tágmata da Trácia e da Macedónia (5000 homens), os exkoúbita, um corpo de guar-da (1000) e ainguar-da um número semelhante composto pelos seus bestiárioi, e com o auxílio de cavaleiros francos, sob a liderança de Constantino Humbertopoulos. Encontram-se também unidades oriundas de Machaens, compostas por dois corpos de cerca de 2800 homens cada um; registe-se igualmente a presença de um corpo de alguns milhares de soldados da Arménia e, para finali-zar, da poderosa Guarda Varangiana, que se apresentava com um corpo de, aproximadamente, 1200 efetivos: no total, as forças do basileús bizantino eram compostas por um número de soldados que rondaria os 18 000 a 20 000 homens.

Procurando auxílio estratégico, o imperador reúne e consulta o seu conselho de guerra sobre a viabilidade de uma possível ofen-siva bizantina. Enquanto isso, a guarnição de Dirráquio consegue destruir um dos engenhos de cerco construídos pelos Normandos.

Argumentando que o tempo corria a favor dos Bizantinos, alguns dos oficiais mais experientes aconselharam precaução a Aleixo I, enquanto outros insistiam na ideia de um ataque imediato, ao que o basileús anuiu.

Contudo, a possibilidade de apanhar os Normandos de surpre-sa veio a ser frustrada, pois Roberto Guiscard, sendo um grande tático, posicionara batedores nas imediações, que prontamente o informaram do avanço da coluna de marcha bizantina. Assim, tendo perdido o efeito surpresa, Aleixo I estaciona as suas tropas em colinas situadas frente a frente com o acampamento normando e inicia os preparativos para um ataque no dia seguinte.

O acampamento imperial havia sido entrincheirado ao longo das posições mais elevadas, tendo o mar e uma lagoa a proteger o seu flanco esquerdo e uma zona de escarpas montanhosas do

seu lado direito (Haldon 2001 134). O plano de Aleixo seria ata-car os Normandos em duas frentes, utilizando simultaneamente forças da cidade e um contingente armado (que avançariam pelas zonas mais pantanosas), enquanto o corpo principal do exército bizantino contornaria a península e acometeria os Normandos pela retaguarda. Mas Guiscard (que significa “astuto”) nunca se deixaria apanhar em tal armadilha e, antecipando os movimentos bizantinos, durante a noite de 17 para 18 de outubro reposiciona as suas tropas, de forma a enfrentar Aleixo fora da península.

Apesar de já ter enviado um contingente pelas zonas pantanosas, Aleixo I reformula a sua estratégia e dispõe as suas forças em três corpos, opostos às forças normandas, encabeçando ele próprio o corpo central (no qual se encontrava incluída a Guarda Varangiana) e dando o comando das alas esquerda e direita a Gregório Pacuriano e a Nicéforo Melisseno, respetivamente. Do outro lado, Guiscard comandava o corpo central do seu exército, dando o comando da ala esquerda ao seu filho, Boemundo; por sua vez, o conde de Giovinazzo ficava a liderar a ala direita.

Aquando das manobras para pôr em prática a nova estraté-gia de Aleixo I, os contingentes de Dirráquio e uma força de infantaria ligeira que haviam sido enviados para atacar o acam-pamento normando alcançam-no e encontram-no abandonado, ao mesmo tempo que o imperador dá a ordem para o avanço geral do seu exército.

À Guarda Varangiana tinha sido ordenado que avançasse uns metros, enquanto grupos de arqueiros ultrapassavam a sua linha, de forma coordenada e organizada, e disparavam volleys sobre os corpos do exército normando, recuando em seguida para se prepararem os disparos seguintes. Esta foi a estratégia adotada por Aleixo I, e foi usada enquanto a batalha o permitiu, até ao momento do choque direto entre os dois exércitos; servia tam-bém como um meio para neutralizar (ou, pelo menos, debilitar)

a poderosa cavalaria pesada normanda, que constituía uma séria ameaça à infantaria bizantina.

De facto, assim que os exércitos estavam prestes a enfrentar-se, Guiscard ordena uma carga de cavalaria sobre as tropas varangia-nas. Contudo, não foi obtido o efeito pretendido, na medida em que os volleys continuamente disparados pelos arqueiros de Aleixo I provocaram perdas significativas na formação dos cavaleiros nor-mandos. Quase de seguida, as unidades da ala direita normanda efetuaram uma carga sobre o ponto onde os corpos esquerdo e central bizantinos se iriam unir: este movimento tinha o intuito de devastar o flanco esquerdo da Guarda Varangiana; porém, uma vez mais, as expectativas normandas foram goradas, pois aquele corpo de elite bizantino conseguira aguentar a sua posição, enquanto a ala direita carregava, desintegrando as forças normandas, que acabam por se pôr em fuga e por abandonar o campo de batalha.

Foi neste momento que a vitória pareceu certa aos Bizantinos.

A força inimiga batera em retirada e a elite do exército de Aleixo I mostrara-se à altura das cargas normandas… Contudo, às tropas varangianas pareceu impossível resistir à perseguição das forças inimigas em debandada e, no seu ímpeto, separaram-se do corpo principal do exército. Cansada pela perseguição e pelo esforço fí-sico a que a batalha (e o peso das armaduras) obrigara, esta força de elite não se mostrou capaz de repelir um ataque de piqueiros normandos enviados por Roberto Guiscard, que os apanha pelo flanco e que, em pouco tempo, os põe em fuga. Alguns refugiaram--se numa capela que se encontrava nas imediações, mas viramrefugiaram--se aí encurralados e encerrados pelos Normandos, que não perderam tempo em incendiar o templo; todo o destacamento bizantino pe-receu devido ao fogo que então grassou.

Privado da sua ala direita (que ainda perseguia os normandos fugitivos) e com o seu centro exposto, Aleixo encontrava-se agora vulnerável às cargas da cavalaria pesada normanda, protagonizadas

por um contingente que havia sido mantido em reserva e que, dividido em pequenos grupos, embate com violência contra as linhas mais avançadas da infantaria imperial. É de mencionar que as forças normandas já não se encontravam sob a ameaça dos volleys de arqueiros bizantinos (nem na Alexíada volta a haver qualquer menção a esta componente do exército). O basileús e a sua guarda aguentaram as sucessivas cargas, mas acabaram por ser obrigados a recuar e a fugir do campo de batalha, enquanto os Normandos massacravam as restantes forças e pilhavam o seu acampamento, rico em despojos.

Não se pode atribuir, na sua totalidade, a derrota em Dirráquio a Aleixo I Comneno. Tratava-se de um excelente estratego, mas não conseguira contrariar a tentação que assolou os seus soldados: per-seguir os normandos em fuga, o que resultou no aniquilamento de um dos principais trunfos bizantinos. Esta derrota tornou-se especial-mente pesada para Bizâncio, numa altura em que o poder imperial se encontrava despojado de recursos económicos e humanos. É, pois, de assinalar o seu mérito ao conseguir, nos anos que se seguiram, recuperar o poderio militar bizantino e ser capaz de enfrentar e de derrotar as várias ameaças que se lhe apresentaram pela frente.

O confronto seguinte contra os Normandos ocorreu nas imedia-ções do rio Vardar. Uma vez mais, Aleixo I optou por um estratagema semelhante ao utilizado em Dirráquio, mas os Normandos, repetindo a experiência, antecipam-se aos seus movimentos, e o resultado final é a derrota do imperador e, consequentemente, a sua fuga…

Em 1084, Roberto Guiscard inicia uma nova campanha, mas esta será de curta duração, na medida em que a morte do seu líder (acometido por uma febre violenta em Cefalónia, em 1085) conduziu ao seu fim prematuro, assumindo o comando das forças normandas Boemundo de Tarento, seu filho. Entretanto, aprovei-tando este período de relativa paz com os Normandos, Aleixo I entra em negociações com Suleiman, que irá garantir-lhe o apoio

de uns quantos milhares de soldados turcos e vai permitindo al-gumas pequenas vitórias aos Bizantinos.

Entre 1107-1108, dá-se início a uma campanha conduzida por Boemundo, que ilustra o lado mais brilhante de Aleixo I Comneno enquanto tático militar e cujo desenrolar chegou até nós, em gran-de parte, graças ao relato gran-de Ana Comnena. Evitando sempre o confronto direto com as tropas normandas, o imperador manobra as suas forças de modo a que todos os combates ocorridos sejam a uma escala reduzida, envolvendo um número relativamente baixo de unidades. De resto, utilizando sempre uma tática de autêntica guerrilha, consegue, com grande sucesso, privar as forças nor-mandas de receberem quaisquer apoios, impossibilitando ainda os adversários de adquirirem forragens para os seus exércitos; tal bloqueio aconteceu também por via marítima, com os Bizantinos a impedirem as embarcações normandas de receberem qualquer tipo de auxílio. Aleixo I aproveitou a oportunidade para lançar uma autêntica política de contrainformação e de burlas, ludibriando desta forma os planos de Boemundo de Tarento. Assim, foi possível semear a discórdia no seio do alto-comando inimigo…

Por fim, as doenças e a desmoralização das tropas obtiveram aquilo que três grandes confrontos (Dirráquio, rio Vardar, Ioannina) e cinco a seis anos de conflitos não tinham logrado produzir:

Boemundo é forçado a assinar um tratado de paz, cujas cláusulas foram humilhantes, sendo obrigado a retirar-se dos Balcãs. Estava, finalmente, controlada a ameaça normanda em terras bizantinas.