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Andrónico II e o legado do seu pai (1282-1321)

das reconquistas na Europa e consequente desintegração das pro-víncias da Anatólia (à qual se seguiu uma migração de gentes para o continente europeu).

o império (que desde João Vatatzès tinha iniciado novas políticas expansionistas) entra num novo período de retração, do qual não mais viria a ressurgir.

Perante os crescentes encargos financeiros, Andrónico II foi, como dissemos, obrigado a reduzir a armada construída pelo seu pai, através de uma série de políticas cujos efeitos nos gasmoûloi, nos tzakónes e nos prosaléntai foram bastante variados. Os menos afetados com a redução da armada imperial foram os prosaléntai, visto que estes remadores não dependiam do pagamento em di-nheiro, sendo antes recompensados pela concessão de terras sob a posse do imperador (a maior parte desses terrenos localizava-se em regiões costeiras); assim, pelo menos até 1296, ainda atuaram na região de Constantinopla, tendo-se mantido como uma insti-tuição militar até à segunda metade do século xiv98. Por sua vez, à exceção da descrição que Jorge Codino99 faz do papel dos tzakónes como guardas imperiais, todas as menções a este grupo de sol-dados desaparece depois da década de 1280; deste modo, o facto de receberem como recompensa não só terras (à semelhança dos prosaléntai), mas também pagamentos em dinheiro, leva-nos a crer que estariam entre os prejudicados pelas reformas de Andrónico II.

Por conseguinte, a ausência de abonações sugere que estes solda-dos perderam, ao longo do tempo, as suas características étnicas distintivas, acabando por ser incorporados no grupo dos gasmoûloi.

De todas as divisões navais criadas por Miguel VIII, a mais afetada pela crise que assolou o Estado bizantino durante o go-verno do seu sucessor foi, sem dúvida nenhuma, a dos gasmoûloi.

98 Indiretamente, tanto Cantacuzeno como Nicéforo Gregoras fazem referência a remadores que atuam na frota imperial do século XIV (referindo-se, certamente, aos descendentes dos Prosaléntai criados por Miguel VIII). Cf. Bartusis 1992 68.

99 Também conhecido como Pseudo-Codino, as obras deste Kouropalátēs (alto dignitário responsável pelas construções e organização do palácio imperial) são fontes fundamentais para o estudo do exército bizantino tardio, sobretudo nos séculos XIV e XV. Cf. Kazhdan (1991 1157).

Não nos chegando nenhuma prova de que estes soldados rece-bessem terras como recompensa pelos serviços prestados, com a extinção dos pagamentos em soldo perderam a sua única fonte de subsistência: foi assim que muitos deles foram servir nas em-barcações turcas e latinas, enquanto outros deixaram de comba-ter dedicando-se, segundo Paquimeres e Gregoras, à agricultura.

Contudo, nem todos estes soldados debandaram em 1285, tendo alguns deles permanecido na armada imperial100, de tal forma que no século x v encontramos muitos camponeses a servirem como gasmoûloi, recebendo como compensação uma redução nos seus impostos (gasmoulikḕ douleía); segundo as fontes, podemos concluir que, por volta do século xiv, os serviços prestados por eles perderam a sua exclusividade étnica (podendo ser assegura-dos por indivíduos de outras regiões do império) e tornaram-se mais abrangentes (eram tropas ligeiras nas campanhas terrestes, para além de serem soldados das embarcações). Apesar da conti-nuação destas divisões militares, a dependência de Bizâncio do apoio naval genovês voltou a aumentar101, o que trouxe ao império consequências bastante negativas, visto que este apoio pressupunha o auxílio do imperador nas guerras sistémicas que esta república mercantil travava com Veneza102.

100 Aliás, os Gasmoûloi que continuaram a servir na armada imperial terão tido um papel fulcral nas guerras civis da década de 1340. Por sua vez, após a con-quista de Constantinopla, em 1453, muitos destes soldados entrariam ao serviço dos sultões otomanos.

101 Por exemplo, a expedição que Andrónico fez no Epiro, em 1292 (contra a co-ligação de Carlos II de Nápoles, filho de Carlos de Anjou, e do déspota do Epiro), já voltou a ter a participação de embarcações genovesas, que transportaram as tropas bizantinas até Arta, com o objetivo de assediar a capital do despotado.

102 Foi o caso da guerra de 1296 a 1302, da qual o império saiu bastante de-bilitado economicamente, sem ter usufruído de qualquer tipo de compensação relevante aquando da assinatura da paz. Vejam-se pormenores na obra de M.

Bartusis (1992 71).

Desta maneira, o envolvimento dos exércitos imperiais em guerras com pouco interesse geopolítico levou a uma escassez de recursos financeiros, cuja mobilização para as zonas fronteiriças do império (especialmente na Ásia Menor) era essencial. A progressiva migra-ção de ortodoxos da Ásia Menor para os territórios europeus tentou ser compensada pelos esforços de Andrónico para levantar o moral das populações locais (indo em pessoa a estas regiões periféricas e reconstruindo as suas fortalezas), no entanto estas medidas não surtiram os efeitos desejados. Será nesta linha que o imperador, antes de regressar a Constantinopla, nomeia o pinkérnēs103 Aleixo Filantropeno como governador e comandante do exército de toda a Ásia Menor (com exceção da região costeira da Jónia), provando ser um general competente e arrecadando, nos anos de 1294/95, uma série de vitórias sobre os Turcos do vale do Meandro; o seu exército era composto por Turcos (os que se iam rendendo) e por divisões de cavalaria mercenária oriundas de Creta104. Por sua vez, podemos encontrar uma série de semelhanças entre estes merce-nários montados e os montanheses da Anatólia após as reformas de Miguel VIII, visto que os cretenses que Andrónico trouxe para a Ásia Menor também receberiam um salário como parte da sua remuneração e possuiriam, igualmente, propriedades, mas é impro-vável que o imperador estivesse a tentar reconstituir um sistema defensivo que tinha entrado em decadência ainda no principado do seu pai. O certo é que a popularidade que Filantropeno adquiriu foi tão grande – fruto não só dos seus sucessos militares, mas tam-bém dos impostos elevados e da ineficácia do governo central em

103 Dignitário bastante prestigiado na corte bizantina, que cumpria funções equi-valentes à dos copeiros nas cortes medievais do Ocidente (Kazhdan 1991 1679).

104 Estes cretenses eram refugiados que chegaram a Bizâncio (com as suas fa-mílias) após a ocupação veneziana da ilha. Andrónico II fixou-os na Anaia e em Éfeso (ambos na costa ocidental da Ásia Menor), concedendo-lhes salários em troca do serviço militar.

resolver a ameaça dos Turcos – que a população local considerou-o o único salvador da Ásia Menor, criando bastantes tensões entre o general e o governo105.

Depois de Aleixo Filantropeno, Andrónico II decide enviar para a Anatólia o general João Tarcaniotes (seu primo) com o intuito de efetuar uma reforma fiscal e militar na região. A corrupção abundava, tendo muitos soldados perdido as suas terras (que lhe tinham sido entregues sob o regime de prónoia), enquanto outros aumentaram as suas propriedades através do suborno dos seus oficiais (chegando mesmo alguns a deixar de cumprir o serviço militar). As reformas de Tarcaniotes procuravam, portanto, acabar com estas irregularida-des (através de uma revisão fiscal das terras) e revitalizar o exército local; apesar de ter sido inicialmente bem-sucedido (conseguin-do mesmo construir uma pequena frota), a oposição que teve de enfrentar, protagonizada pelos grandes proprietários (que não queriam perder a sua posição económica) e pela própria Igreja106, obrigou-o a abandonar o cargo e a fugir para Tessalónica.

Após o fracasso das medidas de Filantropeno e de Tarcaniotes, Andrónico II optou por uma solução exclusivamente militar, apro-veitando a chegada de um número considerável de Alanos107 (que tinham fugido dos Mongóis) ao império, dispostos a servir como mercenários108. O imperador divide-os assim em dois grupos, que

105 Os cavaleiros mercenários cretenses consideravam-no mesmo o único go-vernador de Bizâncio, desafiando constantemente Aleixo Filantropeno a iniciar uma guerra civil contra o imperador (ao que ele acedeu nos finais de 1295).

A situação só se resolveria após Andrónico II oferecer o título de Kaîsar a Aleixo Filantropeno, em troca da sua obediência.

106 Tarcaniotes criara muitas inimizades com alguns membros do alto clero da Ásia Menor (caso do bispo de Filadélfia, que o acusara de traição), pois apoiara o patriarca Arsénio, que excomungara o imperador Miguel VIII após este ter cegado João Lascaris, em 1261.

107 Gregoras aponta cerca de 10 000 pessoas, enquanto Paquimeres fala em 16 000 indivíduos. Cf. Paquimeres II 307-308; e Bartusis 1992 76.

108 Os Alanos (um povo turco mas cristianizado) já haviam lutado nos exércitos imperiais como mercenários, nos séculos xi e xii.

seguem para a Ásia Menor: o primeiro seria comandado pelo general Mouzalon e deveria combater os Turcos na região da Nicomédia; o segundo, liderado pelo filho do imperador (Miguel IX), marcharia para a região de Magnésia (ao pé do vale do Meandro). Quanto à hoste chefiada por Mouzalon (que se encontrava a defender Nicomédia), sabemos que sofreu derrotas muito pesadas diante do exército de Osman, que de seguida pilhou todo o norte da Ásia Menor ainda sob o controlo bizantino; por sua vez, a hoste de Miguel IX manteve-se intacta até chegar à região de Magnésia, onde os mercenários alanos, assim como os contingentes bizantinos, começaram a desertar. Devido à sua ineficácia como mercenários, os Alanos acabariam por negociar com o imperador a devolução das armas e dos cavalos que este lhes havia concedido, tendo de seguida saído dos territórios imperiais.

A situação crítica na Ásia Menor obrigou Andrónico II a contratar a Companhia Catalã (composta por aproximadamente 6500 solda-dos, liderados por Rogério de Flor), que, apesar de inicialmente ter arrecadado um conjunto de vitórias contra os Turcos (as quais não trouxeram qualquer ganho territorial a Bizâncio), depressa entrou em desavenças com o imperador, devido ao atraso nos pagamentos e às atrocidades que estes mercenários cometeram na região, onde roubaram e assassinaram muitos gregos que lá permaneciam109. Estes conflitos culminaram no assassinato de Rogério de Flor, o que, por sua vez, levou os Catalães a enfrentarem os Bizantinos na batalha de Apros (em julho de 1305), a qual resultou numa derrota esmagadora de Miguel IX110. Após a resolução do “desastre catalão” (1313) e até ao início da guerra civil entre Andrónico II

109 Para uma leitura mais pormenorizada relativa à campanha dos Catalães na Ásia Menor (que se iniciou na primavera de 1304) e, posteriormente, aos conflitos que opuseram o imperador e estes mercenários, veja-se M. Bartusis (1992 78-82).

110 Devemos recordar que os Catalães acabariam por conquistar o ducado franco de Atenas (1311), formando um principado catalão que permaneceria intacto até aos finais do século xiv!

e o seu neto Andrónico III (1321/22), assistiu-se a um período de estabilização do território imperial e de redefinição das fronteiras111, com poucas iniciativas militares, tanto por parte de Bizâncio como dos seus vizinhos mais agressivos (caso dos Otomanos).

Assim sendo, se fizermos um apanhado do reinado de Andrónico II, podemos concluir que este imperador conduziu po-líticas militares constantes, mas que resultaram, em grande parte dos casos, do aparecimento de situações críticas (sobretudo na Ásia Menor). Por outro lado, as estratégias por ele implementadas não surtiram os efeitos desejados, culminando na progressiva perda dos territórios da Ásia Menor (cujas causas já poderão ser encon-tradas nas políticas de Miguel VIII, muito mal recebidas na região).

4. O período das guerras civis e o descalabro