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A ANÁLISE DA CONVERSA E A ETNOMETODOLOGIA

No documento danielaugustodeoliveira (páginas 56-59)

1 INTRODUÇÃO

4.1 A ANÁLISE DA CONVERSA E A ETNOMETODOLOGIA

A ferramenta utilizada na análise dos registros foi baseada nos princípios da abordagem discursiva denominada Análise da Conversa. A abordagem relaciona as ideias discutidas por Goffman acerca da ordem da interação à possibilidade de realização de ações sociais, da interação, da apreensão mútua de significados e da construção da realidade social. Nesse sentido, nota-se que há envolvimento de uma ordem interacional discutida nos estudos de Goffman (1955, 1983) e, na ótica de Heritage (1997, p. 161): “[...] compreende um conjunto de direitos e obrigações interacionais que estão ligados à face e à identidade, bem como a instituições macrossociais”. A partir dessa relação, é possível acessar os universos das ordens social e institucional por meio da análise das interações. Na ordem interacional, focalizam-se “as ações sociais particulares que ocorrem em algum contexto, a organização social subjacente delas, e os meios alternativos pelos quais essas ações e a atividade que elas compõem podem ser realizadas” (DREW; HERITAGE, 1992, p. 42). A Análise da Conversa lida com o significado e o contexto sendo evocados pelos jogos interacionais, não como algo previamente especificado.

Observa-se, então, a dinamicidade do contexto nesse modelo, já que é compreendido não só como um projeto, mas também como resultado das práticas daqueles envolvidos no evento, sendo ações realizadas em uma perspectiva local e que podem ser transformadas (DREW; HERITAGE, 1992). Com isso, a ideia de contexto – e a de significado – está intimamente relacionada à organização sequencial da fala. No caso do ambiente de uma sala de aula, a ação de inquirir os alunos com o objetivo de checar a apreensão de conhecimento e a obtenção de uma resposta estaria relacionada, assim, a essa organização sequencial. Desse modo, essas são constitutivas do contexto e do significado accional, sendo este ancorado, majoritariamente, às sequências de ações anteriores.

Heritage (1997) expõe três afirmações relacionadas à maneira como os participantes de um evento se orientam em relação à interação:

1. os interactantes orientam sua fala ao que foi proferido anteriormente e, comumente, ao que foi esboçado no momento exatamente anterior à sua fala;

2. o participante de um determinado evento projeta ações futuras em sua fala, que possam ou devam ser realizadas pelo falante subsequente, criando, mantendo, ou renovando um contexto para a próxima fala; 3. os participantes demonstram a compreensão de algo que foi

anteriormente dito de maneiras múltiplas por produzirem suas ações futuras.

Por exemplo, no caso de uma sala de aula, quando um aluno responde ao que o responsável pela aula o indaga, demonstra que um turno anterior foi completado, que aquele turno foi direcionado a ele ou não – podendo o aluno ser ratificado ou não – e que o professor praticou uma ação de um tipo específico (indagar). Essas características são tomadas pela Análise da Conversa como desdobramentos procedimentais socialmente compartilhados e estruturados.

Heritage (1997) esclarece que “o estudo analítico da fala está preocupado com a maneira como essas realidades institucionais são evocadas, manipuladas e até mesmo transformadas na interação”. Com isso, abre-se o campo do estudo a respeito da institucionalidade da fala, pois o que interessa ao debate nessa seara é a interação. O contexto, que é dinâmico, emerge do nível micro da análise. Isso significa que, pela análise dos turnos e sequências da fala-em-interação, é possível avaliar em que medida os participantes das cenas se orientam para o aprendizado da língua-alvo, no caso dos alunos, e em que medida há uma verificação dos níveis de assimetria, bem como sua redução, e, nesse caso, o envolvimento do condutor da aula é imperativo. Abre-se caminho para uma busca pelas interpretações dos estudantes e do mestre no que tange à língua e ao comportamento para o estabelecimento da ordem social na interação. Na atividade de coconstrução de significados e interpretações, emerge uma ordem social e um processamento de um espaço linguístico-cultural compartilhado.

Assim, sendo as orientações as regras interacionais e as regras propriamente ditas existentes na interação, revela-se um caminho para o estudo do aprendizado de línguas e questões institucionais relacionadas a esse aprendizado

por meio da linguagem. Com isso, o foco nas sequências de fala e outros aspectos da fala-em-interação revelados pelas trancrições se justificam, uma vez que as sequências e os turnos de fala trazem consigo a possibilidade para se observar a relação entre a linguagem e seu uso.

Tendo isso exposto, esta pesquisa possui um caráter qualitativo, porquanto focaliza o processo interacional e o contexto, emergindo a partir das relações turno a turno. Nesse sentido, buscam-se acontecimentos linguísticos a partir dos quais o contexto surge. Por conseguinte, esses acontecimentos linguísticos mencionados estão relacionados às singularidades da interação, momentos particulares que captam a atenção do analista interacional. Isso significa que se destacam, em princípio, os dados e aquilo que neles se considera relevante para uma discussão.

A Análise da Conversa é abordada por Greg Myers (2002) como uma técnica proveniente da etnometodologia, que focaliza a observação e o exame dos momentos reais de fala, das interações específicas nos momentos reais de fala e nas interações específicas em momentos particulares. O estudioso apresenta a relevância da interação entre o pesquisador e o pesquisado e, de maneira semelhante, as circunstâncias da interação.

Destarte, a maneira como “os participantes organizam a interação momento a momento” (MYERS, 2002, p. 272) é a base da AC. O autor enfatiza, ainda, que os dados a serem selecionados pelo pesquisador nas contribuições dos sujeitos são considerados os dados focais, que são analisados a partir dos turnos de fala da interação e da maneira como esses são gerenciados pelos participantes. Ademais, destaca o valor da transcrição da conversa, a partir de um planejamento (existência de um tópico orientador), do registro (gravação clara e em local adequado), da transcrição detalhada dos eventos de fala, das atribuições (identificação dos participantes), da análise (escuta e leitura da transcrição) e do relatório (o pesquisador irá relacionar os dados de acordo com a teoria adotada e os elementos observados), sendo esta a estratégia assumida nesta pesquisa, qual seja: utilizar-se- á o recurso de áudio. Vale lembrar que é de longa data a utilização de recursos de áudio para se registrarem dados de fala, além de serem ferramentas orientadoras do pesquisador em diversas áreas do conhecimento na análise das maneiras como os indivíduos (se) orientam (n) a interação.

Na perspectiva qualitativa, é ímpar a própria interpretação do leitor de seus dados, a fim de que adquira um entendimento experimental dos fenômenos, o que será realizado a partir das transcrições. Trata-se, então, de uma pesquisa com um caráter não intervencionista, em que as informações emergem de um olhar aos registros. Não se buscam causas gerais, mas uma explicação acerca do motivo de algo, nos princípios discutidos, ter sido dito naquele momento, remetendo-se a uma realidade anterior e se projetando a uma outra realidade futura.

No documento danielaugustodeoliveira (páginas 56-59)