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A INTERCULTURALIDADE NA SALA DE AULA

No documento danielaugustodeoliveira (páginas 50-53)

1 INTRODUÇÃO

3.5 A INTERCULTURALIDADE NA SALA DE AULA

Uma sala de aula de Português como língua estrangeira é um contexto multicultural. Em se falando desse ambiente, é imperativo compreender a interação entre um conjunto de participantes cujas práticas discursivas denunciam posicionamentos distintos em relação à sua comunidade de origem e à sua comunidade no país em que estão estudando. A partir disso, trata-se da noção de cultura adotada neste trabalho.

Street (1993) percebe a noção de cultura como um processo dinâmico, que favorece a apreensão de significados das interações. A proposta do autor não é considerar o termo “cultura” a partir de um ponto de vista de sua essência, mas, sim, como algo que seja desencadeador de outros processos, a partir da indagação “O que a cultura faz?”. A partir das discussões do autor, nos estudos de Luk e Lin (2007, p. 34, tradução nossa), representa “[...] um processo de significação relacionado à construção ativa do significado”44

, em que ideias são definidas, com possibilidades para se questionarem as circunstâncias em que essas instanciações aparecem e o motivo de elas ocorrerem em determinados momentos. Essa visão

permite uma ideia dinâmica de significado na medida em que a cultura é considerada um processo ativo de emergência de sentidos, considerando-se as práticas interacionais e as interpretações dos participantes dessas práticas. No caso de uma sala de aula, o professor e os alunos são ativos. Nas palavras de Luk e Lin (2007, p. 35, tradução nossa):

[...] a construção conjunta de práticas interacionais pelos professores e pelos alunos, e sua interpretação mútua das práticas interacionais de um e de outro não são processos estáticos e consistentes, mas dependentes do contexto, e potencialmente específicas em relação a gênero e classe social.45

Essa afirmação pode ser considerada um caminho para se analisar o contexto como resultado da coconstrução de significados, portanto, instâncias não estáticas de que emergem as interpretações dos interactantes. A análise do significado está na coconstrução das práticas interacionais, que permitem a apreensão das orientações dos participantes aos significados pela análise de suas produções e, por conseguinte, reveladoras, a partir da análise turno a turno, da cultura dos interactantes.

Luk e Lin (2007) assinalam que há debates no tocante a esse significado, afirmando que as discussões acerca do termo dizem respeito à possibilidade de se considerar também o termo “transcultural” como um item lexical que poderia substituir a primeira expressão. Porém, como as estudiosas expõem, a distinção proposta por Thereza Austin (1998), no que tange ao uso do termo “transcultural” ou intercultural, está relacionada à ideia de que este reflete a realização de mútuo entendimento e aquele o movimento entre duas culturas.

Observa-se a necessidade de se considerarem as diferentes perspectivas culturais de uma sala de aula. Com isso, nesta pesquisa, adotam-se as ideias discutidas por Luk e Lin (2007) acerca dos termos intercultural e transcultural, a partir das quais se tem a noção de relação e contato entre falantes de culturas distintas que buscam interpretações de suas ações comunicativas. A instância de existência ou não de entendimento entre os interactantes é englobada pelo termo “transcultural” e, como as autoras afirmam, o emprego do termo intercultural está vinculado ao desempenho comunicativo por meio de culturas. Não há mais sentido

45 “[...] the joint construction of interactional practices by the teachers and the students, and their

mutual interpretation of each other‟s interaction practices are not static and consistente processes, but are contexto dependente, and potentially gender and social class specific” (LUK; LIN, 2007, p. 35).

em se referir à cultura de maneira singular (LUK; LIN, 2007). O que se deve levar em consideração são os movimentos de povos no mundo globalizado e o estabelecimento de relações mais complexas entre os seres humanos. A partir disso, a diversidade cultural denuncia a necessidade de se fazer referência a culturas.

No que diz respeito ao universo educativo, por exemplo, uma instituição pode ser reconhecida a partir de alguma denominação, como, por exemplo, liberal, conservadora, social-democrata, mas possui salas de aula com estudantes com diferentes bagagens culturais: “[...] com o aumento global de atividades diaspóricas, até mesmo leigos estão cientes de que a equação „uma nação-uma-cultura-uma língua‟, em que a definição de „transcultural‟ é baseada, raramente permanece”46

(LUK; LIN, 2007, p. 35, tradução nossa). Isso sustenta a necessidade de se tratar a cultura com uma definição que revele a riqueza e a diversidade de perspectivas do mundo contemporâneo. Em uma sala de aula, por exemplo, os interactantes possuem diferentes bagagens culturais, reagindo de maneiras distintas a partir das variadas perspectivas em relação ao tópico discutido.

Com os estudos da relação de cultura e discurso, estabeleceu-se que há uma conexão que permite a afirmação de que a linguagem é uma via pela qual as práticas culturais são exprimidas por meio das ações linguísticas dos indivíduos, sendo que, a partir delas, pode-se interpretar os significados envolvidos nos jogos interacionais. Vale lembrar, o que ilumina a natureza socialmente construída das práticas culturais é o situar de interpretações culturais em momentos discursivos. Kramsch (1991 apud LUK; LIN, 2007, p. 36, tradução nossa), em uma proposta de abordagem ao ensino de língua e cultura, afirma que o discurso é o locus da cultura na medida em que esta pode ser analisada momento a momento e aquele como o “[...] momento de integração em que a cultura é vista, não meramente como comportamentos a serem adquiridos ou fatos a serem aprendidos, mas como uma visão de mundo a ser descoberta na língua em si e na interação de interlocutores que usam essa língua”47

. Sugere-se, com isso, que o discurso seja analisado como a base para as interações dos indivíduos em ambientes interculturais, como

46 “[...] With global increase of diasporic activities, even lay people are aware that the „one nation-one

culture-one language‟ equation on which the definition of „cross-cultural‟ predicates, rarely stands” (LUK; LIN, 2007, p. 35).

47 “[...] integrating moment where culture is viewed, not merely as behaviours to be acquired or facts to

be learned, but as a world view to be discovered in the language itself and in the interaction of interlocutors that use that language” (KRAMSCH, 1991 apud LUK; LIN, 2007, p. 36).

revelador das práticas sociais no ambiente estudado, sendo “[...] mais que simplesmente um alinhamento gramatical de palavras sobre os níveis da sentença ou oração, mas a língua em uso que reflete as práticas sociais”48

(LUK; LIN, 2007, p. 37, tradução nossa).

A nossa visão de interação reflete a noção do discurso intercultural. A análise do discurso intercultural, como informado anteriormente, desvela as interpretações de mundo daqueles envolvidos em um determinado jogo interacional. A partir disso, tem-se que a interação adotada nesta pesquisa é uma perspectiva de interação intercultural, tendo como base o discurso intercultural. Uma vez que o nosso foco de estudo é a sala de aula, e, em uma sala de aula, há o envolvimento de diversas realidades culturais, lançar mão de uma visão intercultural de interação significa reconhecer essa diversidade, mesmo em um ambiente considerado como um construto institucional (LUK; LIN, 2007), tem-se, como Kumaravadivelu (1999) expõe, um contexto regrado e regulado, exibindo ações rotineiras e ritualísticas.

No documento danielaugustodeoliveira (páginas 50-53)