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3 QUADRO TEÓRICO

4. REVELANDO O QUE DIZ O OLHAR, O ESCUTAR, O SENTIR E O VIVER

5.1 A Ancestralidade e sua relação com a Mãe Terra

Foi bastante enriquecedor observar como os Tapeba lidam com o ambiente ao seu redor. Para eles, a natureza fora de seu corpo é tratada como Mãe Terra, comumente chamada de natureza pelos(as) não-índios(as). Cacique Alberto e Pajé Dona Raimunda, com toda a sabedoria que têm, foram peças fundamentais para a compreensão da visão indígena acerca da Ancestralidade Tapeba.

Para o povo Tapeba, os saberes ancestrais, além de serem “fontes históricas” (Graciana), “aprendizado que foi deixado pelos mais velhos” (Margarida), que guardam em si toda sabedoria de um povo, perpetuando-se a cada geração e, assim, “proporcionando o não esquecimento da [...] cultura” (Kelly), conotam, também, ensinamentos para a convivência em grupo composto por todos os elementos constitutivos da natureza.

A relação que os indígenas estabelecem com a Mãe Terra está diretamente ligada ao conhecimento dos saberes ancestrais. Quanto mais presente, envolvido e atuante na comunidade mais próximo está à Ancestralidade e à Mãe Terra, pois se interessa pelas raízes e pela cultura de seu povo. Cacique Alberto fala:

o que é o sofrimento dum índio, dos índio, pela mãe Terra. É só perguntar: vocês gosta da mãe de vocês? Gostamo. O índio também é do mesmo jeito. A mãe do índio é a Terra, é onde ele nasceu. É por isso que eles brigam pela terra. Briga no sentido de ter ela de volta, briga por ela porque mora os lago, onde nós toma banho, nós tira a medicina, onde nós reza, onde nós brinca, onde nós brinca nossos rituais, então isso é a falta que nós tem.

Percebemos que a Mãe Terra é a fonte de vida para este povo. De onde saíram e para onde irão voltar quando Tupã (Deus) mandar buscar. Tal afirmação mostra uma contribuição para a Educação Ambiental Dialógica – o trato com o ambiente.

Segundo Cacique Alberto, “a mãe do índio é a terra”. Com essa afirmação, podemos perceber a forte ligação que os indígenas Tapeba tem com a natureza ao seu derredor. Para eles, o valor que a terra (e todos os elementos) tem é comparável à figura da mãe, doadora da vida. Notamos, portanto, que os saberes indígenas estabelecem relações com o ambiente em uma dinâmica diferente, “entendendo que todos os seres naturais são indivíduos que merecem respeito e afeto” (FIGUEIREDO, 2007, p. 69).

Verificamos, assim, que os saberes ancestrais Tapeba servem de suporte para a construção de práticas em Educação Ambiental Dialógica. A pajé Dona Raimunda afirma que “a natureza [...] é tudo de importância pra minha vida, é a minha vida, é tudo. A terra é a minha mãe, o sol e a lua meus protetor, as estrela é os guia que me protege, e é muito importante pra mim isso”.

Dessa maneira, percebemos que esses saberes têm em sua raiz “o diálogo amoroso como elo essencial de relações mais apropriadas com a natureza em nós e fora de nós” (FIGUEIREDO, 2007, p. 68), ajudando, portanto, na superação das dicotomias inerentes à sociedade moderna e ao sistema capitalista.

Os saberes ancestrais demonstram sua ligação com a Mãe Terra a partir do

respeito, do cuidado e da valorização. Esta ligação possibilita que esses saberes sejam

apreendidos aos que se disponibilizam a isto. O fato de ser indígena, infelizmente, não faz com que haja uma apropriação a priori desses saberes, mas pode contar como uma facilidade para seu acesso e compreensão, já que o convívio comunitário permite uma troca de experiência e vivência de ensino-aprendizagem:

os ancestrais, nossos parentes mais distantes, assim avô, avó, assim.. eles tinham muito respeito com a natureza, entendeu.. só matava pra comer, só cortava uma árvore se fosse realmente necessário, e muitas vezes se tivesse seca pra fazer lenha né, que antes não tinha fogão de gás, cozinhava na lenha, pegava a lenha já seca na mata, não ia cortar pau verde, tem todo uma questão de cuidado com a natureza, questão ambiental(Margarida).

A Ancestralidade Tapeba indica que o respeito, valor a ser disposto em qualquer relação, deve ser primordial no trato com o meio ambiente. Tal respeito é demonstrado, por exemplo, quando ao entrar no rio para pescar, o indígena primeiramente pede permissão para introduzir-se na água, interpretando a resposta positiva ou negativamente. Além disso, os elementos da natureza são tratados com o mesmo respeito que é dispensado aos humanos. Para Margarida:

[...] os mais antigos nos ensinavam a respeitar os mais velhos, as crianças... né... é... o costume, o respeito as plantas, com a natureza.. até aí tirar uma flor, tirar uma casca, tirar um... qualquer coisa de que você fosse precisar, uma raíz você tinha que pedir licença, até se fosse arrancar licença... ah se fosse tirar uma casca... então tudo isso é educação.

Percebemos que todos estão dispostos numa relação horizontal no qual o amor é permeado. Pedir permissão, proteção, ajuda, orientação a plantas, animais, aos encantados (antepassados que se transformaram e se tornaram parte da natureza) e a outros elementos da natureza mostram o poder e a importância que eles possuem, ou seja, eles fazem parte do cotidiano indígena não pela sua utilidade, mas por sua essencialidade. Nesse sentido, notamos que a importância desses ensinamentos reverberam em qualquer prática educativa, valorizando o respeito para com o(a) outro(a).

A Jurema pode ser um símbolo do respeito Tapeba ao ambiente, já que é uma árvore sagrada para todos da aldeia. Em nossa sociedade, elementos naturais, como árvores, plantas e bichos, não costumam ser respeitados, muito menos tido como sagrados. Ao contrário, são os primeiros a serem destruídos, postos a serviço da indústria, do consumo. Para os Tapeba, a Jurema é lugar de meditação e renovação das energias. Além disso, utilizam a Jurema para a feitura de bebidas, suas folhas secas são fumadas no cachimbo, seus galhos e flores são usados em rituais de limpeza do corpo.

Certa vez, conversando com Margarida, esta comentou que não estava se sentindo muito bem, estava tossindo e com o corpo mole. Ela atribuiu tal indisposição ao fato de naquele dia ainda não ter ido pedir forças à Jurema e não ter fumado seu cachimbo com as ervas retiradas desta. Dessa maneira, a Jurema é uma planta espiritual, que afirma e delimita a espiritualidade indígena. Tal fato condiz com o que fala Sousa e Nascimento quando afirma que “a planta da Jurema não se classifica apenas como integrante da flora brasileira, mas como parte constituinte da mitologia e religiosidade dos índios do nordeste. A planta é carregada de uma mística que se materializa em ritual” (2011, p. 6).

O Toré, por sua vez, é um ritual sagrado, ícone da cultura, Ancestralidade e espiritualidade indígena. É um momento de afirmação da identidade indígena, de organização política, de celebração, cura e renovação no qual estão presentes. No Toré:

Cantando, dançando e batendo nosso pé no chão, sentimos a força da mãe terra e a cura do nosso corpo e da alma. [...] cantamos para mostrar e receber força. Falamos com nosso pai Tupã e sentimos a natureza. Na roda de Toré podemos também ouvir e falar com nossos antepassados (POVO TAPEBA, 2007, p. 50).

Já a Pajé Dona Raimunda acrescenta dizendo que:

Toré é a vida, Toré é a força, Toré é tudo na vida da gente, é uma... serve de cura, serve de, de ralaxamento no cérebro se a pessoa tiver com um pensamento ruim, pessoa vai praquele Toré, sai com outro pensamento, né. Porque aqui tem a força de Deus, tem a força dos encantado, né. O índio vai praquele Toré, os encantado tão ali, né, dando protegendo, dando força, dando paz. E, pra mim, o Toré é tudo na minha vida, eu sem o meu Toré eu não sou ninguém.

Assim, percebemos a grande importância que esse ritual tem para os Tapeba, do qual participam homens, mulheres e crianças. No Toré, são utilizadas bebidas como o aluá, mocororó (preparados a partir do milho e do caju, respectivamente), as quais se transformam dentro do ritual. Esse elemento cultural mostra a união do povo, a demarcação de suas raízes e espaço de concentração e disseminação de energias, podendo, assim, servir como um modelo para a construção de práticas educativas no campo da Educação Ambiental Dialógica, no que diz respeito à coesão, organização dos participantes e sua conexão com a espiritualidade.

A afirmativa “a gente não deve tirar o bichinho do mangue ou da lagoa quando é pequeno e deve esperar a época da desova” (POVO TAPEBA, 2007, p.69) demonstra a

preocupação com as gerações futuras, já que o cuidado com o ambiente e com os seres que

nele habitam não se limita apenas a si, aos seus contemporâneos, mas abrange todos que estão e possam vir a estar no mundo.

Tal fato demonstra que os saberes ancestrais Tapeba estão em consonância com o que nos diz Figueiredo (2007), no que diz respeito à ideia que o humano é apenas parcela da natureza, dependendo de relações construídas com ela. Tirar apenas o necessário para a sobrevivência reflete não apenas um modo de vida, mas a essência da sabedoria desse povo. Não estamos sós no mundo. A natureza ao nosso redor precisa ser cuidada. Com ela aprendemos, descobrimos e dela podemos tirar o alimento. Nessa perspectiva, os indígenas nos ensinam a ter o ambiente como parceiro, e não como servente à mercê dos caprichos e vontades do humano.

Outra contribuição que podemos perceber a partir da Ancestralidade Tapeba é a noção

de tempo. O tempo indígena corre de uma forma diferente do que é usual na sociedade

moderna. Além disso, os indígenas acatam o tempo natural do ciclo da vida, sabendo esperar o melhor momento para realizar suas atividades de pesca, caça, plantio. “Saber esperar”, como dito anteriormente, é algo que esquecemos. Não faz parte da nossa sociedade ter calma e paciência para a realização das atividades. Queremos tudo ao nosso tempo e vontade, e não sabemos aguardar o ciclo natural da vida, da natureza. Ao agirmos dessa forma, esquecemos que para nossas ações existem consequências, pois estamos em interação com o meio ambiente através de relações de mútua dependência (FIGUEIREDO, 2007). A Ancestralidade Tapeba ensina que os elementos da natureza fazem parte de suas vidas, assim, os humanos devem buscar viver em harmonia com eles.

Os Tapeba relacionam-se de forma bastante espontânea com o espaço e seus elementos constitutivos. As crianças brincam descalças na areia, sentindo o que os pés emborrachados das crianças da nossa sociedade não conseguem experimentar. Além disso, elas brincam com animais e tintas extraídas de sementes em seus momentos de lazer. As pinturas no corpo, únicas e características em cada etnia, são feitas quase que diariamente, principalmente entre adolescentes e adultos. Apesar de serem realizadas em horários de intervalo das aulas ou, muitas vezes, em momentos de distração, as pinturas corporais são um meio de afirmação e reconhecimento do povo.

Em relação ao cotidiano escolar por mim experienciado, percebi que os professores buscam atrelar suas práticas educativas ao resgate e vivência dos saberes ancestrais, mesmo que de forma inconsciente. Dessa forma, tanto a Educação Ambiental como a educação em geral na escola do Trilho se dão embebidas desses saberes, na tentativa de não deixar apagar pensamento, cultura e história Tapeba.

O corpo docente realiza trabalhos na tentativa de incentivar seus alunos a entrarem em contato com o rico universo da Ancestralidade, escutando os velhos da comunidade, representantes desses saberes. De acordo com Iolanda:

[...] saberes ancestrais [...], ultimamente aqui na escola tem sido bastante explorado, né, os professores têm trabalhado muito essa parte, de os alunos mais jovens, né, pesquisarem esses saberes, né, essas pessoas, tem sido bastante explorado dentro da escola.

Dessa forma, a escola busca uma inserção dos saberes ancestrais no cotidiano do aluno, tornando-os, passo a passo, familiares aos estudantes. Várias atividades interessantes

foram realizadas nesse sentido, deixando registrados depoimentos vividos e movimentos de busca por raízes integradoras da comunidade.

Há uma tentativa de se valorizar o meio ambiente, de buscar uma relação harmoniosa com ele através do exemplo e do diálogo com esses saberes. Para ilustrar essa afirmativa, cito o trabalho realizado pela professora Graciana com as plantas medicinais. Segundo ela:

a gente descobriu que os nossos ancestrais na época não existia remédios, remédios, substâncias químicas, como antibiótico, anti-inflamatórios. E os ancestrais, a questão ambiental era bem mais sadio do que hoje e a gente fez essa relação (Graciana).

Com o exemplo do uso de plantas medicinais pelos antepassados, houve um resgate de traços da cultura indígena que é a feitura de remédios por meio de plantas, gerando, assim, uma discussão acerca da crise ambiental, da exploração do meio ambiente por parte dos humanos. Dessa forma, os alunos tiveram a oportunidade de descobrir aspectos de sua cultura e problematizá-los juntamente com outras questões decorrentes da opressão capitalista.

Segundo Iolanda, iniciativas como esta apontada acima são parte da rotina da escola, fazendo com que os alunos estejam em constante contato com sua cultura e possibilitando que questionem de forma crítica a atual conjuntura. Além disso, Iolanda falou que a realização de rituais como o Toré e a feitura de artesanatos ajuda a deixar viva a prática indígena dentro do contexto escolar. Sendo assim, ela afirma que:

a confecção do artesanato trabalhado dentro da escola, a questão do ritual, que a gente todo dia faz a acolhida dos alunos, toda a nossa acolhida de manhã, a gente tem aquele momento... fica em círculo todo mundo se olhando e vendo com quem a gente trabalha naquele dia... (Iolanda).