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Como podemos ver pela figura 7, a partir de 2002.T3, o crescimento do nível de atividade econômica assume, a despeito de algumas quedas temporárias, uma trajetória claramente ascendente. Isso indica, por sua vez, que a crise de fato cumpriu o seu papel e as condições para a retomada do processo de acumulação foram satisfeitas. Contudo, é interessante notar que, inicialmente, a retomada da acumulação parece não causar nenhum impacto no consumo, visto que a taxa de crescimento anual acumulado do consumo das famílias começa a seguir uma trajetória ascendente mais robusta apenas no segundo trimestre de 2004 (figura 14).

Para explicar esse processo é necessário lembrar o que é apontado por Carcanholo (1996):

Ao contrário do que assume a teoria do subconsumo, embora exista reciprocidade causal (acumulação e consumo formam uma unidade), a predominância se dá na acumulação determinando o consumo, ainda que o último condicione o primeiro. O que ocorre é que para que as pessoas consumam, elas devem obter rendimentos, que são, por sua vez, frutos de decisões anteriores de acumulação (CARCANHOLO, 1996, p. 107).

Essa característica da reanimação do quinto ciclo da economia brasileira, por sua vez, não foge a essa regra. Ela é um produto direito das características específicas da acumulação durante esse ciclo.

Apresentamos, nas figuras 16 e 1723, a evolução do exército industrial de reserva da economia brasileira em porcentagem da População em Idade Ativa. Como vemos, o EIR mantêm-se mais ou menos estável durante o período, caindo levemente a partir de 2005, o que é um indício de que 1) a criação de uma população supérflua é de fato um subproduto do processo de acumulação capitalista e 2) essa população oscila de acordo com as necessidades impostas pela acumulação. Entretanto, isso já era teoricamente esperado.

Figura 16: Camadas Flutuante e Estagnada do Exército Industrial de Reserva da Economia Brasileira (% da PIA):

Fonte: Elaborado pelo autor com base em Granato Neto (2013a, pp.84-85). Dados disponíveis na tabela 15 do Anexo E.

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Apresentamos os indicadores em gráficos distintos para que as diferentes escalas de cada um deles nos permitisse visualizar melhor sua evolução;

0,00% 2,00% 4,00% 6,00% 8,00% 10,00% 12,00% 14,00% 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 EIR Flutuante EIR Estagnado

Figura 17: Camada Latente do Exército Industrial de Reserva, Exército Ativo e Exército Industrial de Reserva Total da Economia Brasileira (% da PIA):

Fonte: Elaborado pelo autor com base em Granato Neto (2013a, pp.84-85). Dados disponíveis na tabela 15 do Anexo E.

A primeira informação que é realmente importante para este ponto da análise é o fato de que a participação do exército ativo na PIA tenha ficando mais ou menos estável até 2003 (ver também figura 11). Dado que a retomada do crescimento já se inicia em 2002, somar a referida estabilidade ao pequeno aumento relativo das horas trabalhadas em relação ao pessoal ocupado na indústria que ocorre neste ano de 2002 (figura 11) só pode implicar uma coisa: obtenção de mais-valor absoluto com base no aumento da jornada de trabalho.

Em segundo lugar, observando a figura 16, percebe-se que, do início da fase de animação média até 2006, há um crescimento da participação da camada estagnada do EIR na PIA, que, dada a estabilidade do exército ativo em 2002 e 2003, implica necessariamente aumento da participação da camada estagnada neste exército ativo. Isso pode ter se dado através redução do salário de indivíduos já empregados, ou através da substituição destes por outros que faziam parte de outras camadas do EIR. Por mais que a evolução das camadas latente e estagnada nas figuras 16 e 17 deem margem à aceitação da segunda possibilidade, uma análise mais profunda desvenda o que há por trás dessa aparência.

Ocorre que, dada a degradação das condições de vida da camada estagnada, uma migração advinda da camada latente só seria possível se fosse constatada uma redução dos indivíduos que pertencessem à porção mais degradada desta última. Entretanto, ao analisarmos a tabela 3, vemos que isto não ocorre. 30,00% 35,00% 40,00% 45,00% 50,00% 55,00% 60,00% 65,00% 70,00% 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 Exército Ativo EIR Latente EIR Total

Tabela 3: Divisão da Camada Latente do Exército Industrial de Reserva por Faixas de Rendimento (em % do total da camada):

Anos [0,1] ]1, 2] ]2, 5] ]5, ∞] 2001 47,28% 26,48% 18,06% 8,18% 2002 52,78% 25,14% 15,90% 6,18% 2003 53,28% 24,38% 16,77% 5,57% 2004 54,11% 26,61% 13,78% 5,50% 2005 59,35% 24,22% 12,16% 4,27% 2006 58,85% 24,48% 11,69% 4,97% 2007 53,76% 26,62% 13,62% 5,62% 2008 56,15% 25,63% 13,78% 3,80% 2009 55,81% 26,00% 13,76% 3,80%

Fonte: Elaborado pelo autor a partir de Granato Neto (2013a, pp.84-85).

Assim, ou observamos nos anos de 2002 e 2003 um processo de degradação dos padrões de vida do exército ativo, aumentando a camada estagnada, ou a parte desta camada que não pode ser captada pelos dados em função de sua desocupação tornou-se menor em função de uma maior utilização sua por parte do capital.

Seja como for, como já vimos no capítulo metodológico, por sua condição de degradação, a camada estagnada constitui fonte inesgotável de força de trabalho disponível. Ou seja, tal camada está muito mais propensa a se sujeitar a intensa exploração de sua força de trabalho do que as demais. Assim, além de implicar a redução do preço de mercado da força de trabalho e, em consequência disso, aumento da porção do valor novo criado apropriada pela classe capitalista, ou seja, aumento do mais-valor apropriado, o aumento da participação da camada estagnada no exército ativo é um forte indício de aumento da produção com base no aumento da intensidade do trabalho.

Todos esses fatores apontam para as seguintes conclusões: 1) o aumento da produção no início da reanimação do quinto ciclo econômico brasileiro se deu

com base no aumento da jornada de trabalho24 e com base no aumento da

intensidade do trabalho e 2) toda a fase de reanimação do quinto ciclo foi caracterizada pelo aumento da exploração da força de trabalho na forma de obtenção de mais-valor absoluto. Essas características particulares desta fase do ciclo, portanto, explicam o comportamento do consumo das famílias, dado que, do

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ponto de vista do processo de realização, o aumento da exploração da força de trabalho se traduz no aumento de exigência sobre o consumo da classe capitalista.

Entretanto, para que o nível de atividade econômica aumente progressivamente, a unidade entre condições de extração e realização de mais-valor já deve estar reestabelecida, pois, se o valor produzido não estivesse sendo realizado, não haveria incentivo para que se produzisse mais do que no período anterior. Isso nos leva à questão: como a produção do início desta fase do ciclo está sendo realizada?

É preciso frisar primeiramente que não é necessário que o consumo retome a sua trajetória de crescimento para que seja inferido o reestabelecimento da unidade condições de extração x condições de realização de mais-valor. Basta que a demanda solvente existente seja suficiente para que o capital que sobreviveu à crise produza com lucro. Com as informações disponibilizadas pelos órgãos oficiais de estatística, entretanto, essa condição pode ser apenas pressuposta ou, no máximo, inferida. É neste sentido que variação negativa de estoques (tabela 8 do Anexo B) que observamos em 2002 pode ser tomada como um indício de que, já neste ano, a unidade entre o referido par de contrários foi minimamente reestabelecida.

Além disso, há mais dois indícios de ampliação das condições de realização do mais-valor produzido. Primeiramente, analisando os dados da figura 14, observamos a elevação das taxas de crescimento do consumo da administração pública já a partir de 2001.T4. Em segundo lugar, como podemos ver na figura 18, apresentada adiante, a partir de 2003, a economia brasileira começa a ter saldos positivos na conta de transações correntes, fazendo da renda internacional um dos componentes que trabalharam na ampliação supracitada.

Desta forma, o capital deu continuidade ao seu processo de acumulação até o segundo trimestre de 2004 com base no aumento da exploração da força de trabalho, mais especificamente pela obtenção de mais-valor absoluto, e contando com a elevação do consumo da administração pública e com a entrada de renda no país para ampliarem as condições de realização do mais-valor extraído. O aumento de lucratividade que, por suposto, foi provocado por esse cenário cria, portanto, o incentivo necessário para o aumento do vigor dessa acumulação. Diante do fato de que, como pode ser visto na figura 15, durante todo o período que vai de 2002.T3 até 2004.T2 observa-se um decrescimento dos índices de inadimplência da

economia brasileira, vislumbra-se também a possibilidade crescimento de atividade dentro do setor financeiro da economia, cujo comportamento é suposto como regrado pela mesma lógica de acumulação do capital industrial.

Figura 18: Saldo das Transações Correntes da Economia Brasileira (FOB, em US$ milhões):

Fonte: BCB Not. Imp./Set. Ext. (dados disponíveis na tabela 10 do anexo C).

Nessa conjuntura, a partir de 2004, como pode ser visto nas figuras 9 e 11, os capitalistas passam a expandir a produção com base também na ampliação da utilização da capacidade instalada. Entretanto, tendo a trajetória da camada

estagnada do EIR como proxy, observa-se que persiste a elevação do aumento da

taxa de exploração. O fato é que, independente disto, a própria acumulação começa a gerar condições para que ela mesma se dê de forma mais acelerada, com o aumento dos postos de trabalho. Os estímulos gerados pela acumulação e pela melhora da confiança dos agentes convergem, portanto, numa ação conjunta sobre a esfera de realização que, como aponta Carcanholo (1996, p. 107), condiciona novamente a acumulação. É notável, por sua vez, a capacidade que o capital nacional teve de perceber esse rumo da conjuntura econômica. Veja, pela comparação das figuras 10 e 14, que a taxa de crescimento anual acumulado do consumo das famílias e da FBCF começam a aumentar conjuntamente. Logo em seguida, em resposta ao aquecimento da economia, inicia-se o processo de crescimento das operações de crédito (figura 12), possibilitando, por sua vez, uma acumulação mais acelerada.

-35.000,00 -30.000,00 -25.000,00 -20.000,00 -15.000,00 -10.000,00 -5.000,00 0,00 5.000,00 10.000,00 15.000,00 20.000,00 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009

A partir daí, a economia caminha para o auge do ciclo econômico. Cabe, entretanto, estabelecer os limites de demarcação dessa transição. Ou seja, o ponto onde o salto qualitativo de transformação de uma fase em outra ocorre.