São precisamente as categorias possibilidade e realidade que tornaram possível entender porque o aparecimento do dinheiro cria a possibilidade apenas formal de ocorrência do fenômeno crise. Primeiramente é preciso ter em mente que “para descubrir la esencia de las categorías que estamos examinando, hay que responder a la siguiente cuestión: ¿por qué un fenómeno lleva en su seno precisamente tales o cuales posibilidades?” (ROSENTAL e STRAKS, 1958, p. 231). Além disso, “para descubrir la esencia de la posibilidad, hay que esclarecer los nexos que mantiene con la ley, con la sujeción a leyes” (ROSENTAL e STRAKS, 1958, p. 231).
Tanto Mendonça (1990, p. 143) como Ribeiro (2008, p. 40) respondem de forma rigorosa à pergunta apresentada por Rosental e Straks (1958, p. 231). No entanto, pensamos que é possível dar um passo adiante.
Numa sociedade de produtores de mercadorias, tomando tudo em termos de valores, o fato de que as mercadorias se vendam pelo valor de mercado e não pelo valor individual pune os produtores ineficientes e recompensa os eficientes. O baixo nível da produtividade do trabalho e a quantidade reduzida de meios de trabalho requerida em cada atividade em uma sociedade como essas, todavia, faz com que pertencer à faixa de produtores menos eficientes não se torne um terror dos produtores individuais, devido à alta mobilidade existente entre as diversas atividades. Há, portanto, nesta sociedade, uma tendência ao aumento da produção pela especialização dos produtores nas atividades nas quais são mais eficientes e pela descoberta de novas técnicas, que é ainda casual, não intencional. O impulso à produção é, desta forma, limitado.
Além disso, na circulação simples de mercadorias, o objetivo final é a obtenção de valores de uso. Ou seja, qualquer aumento da produção é resultado direto do desejo de expansão do consumo. Soma-se a isso que, quanto mais se desenvolve a produção, mais a mercadoria torna-se a forma principal assumida pelo produto do trabalho, e, consequentemente, mais se vende para comprar. Este dois fatores agem, portanto, no sentido de aumentar o número de consumidores. Esse aumento, pelo que vemos, parece estar em perfeita consonância com o volume da produção.
Em suma, não existe qualquer força em constante operação na circulação simples que aja no sentido de produzir barreiras à realização das mercadorias, pois as mesmas circunstâncias que resultam no aumento da produção resultam também no aumento do número de consumidores. Não é a toa que Marx atenta para o fato de que:
A circulação simples do dinheiro e mesmo a circulação do dinheiro como meio de pagamento – e ambas já existiam muito antes da produção capitalista sem terem sucedido crises – podem realizar-se e realizam-se sem crises (MARX, 1980, p. 947).
Além do mais, a lógica da circulação simples limita a criação das barreiras à realização. Nesta circulação, há apenas duas circunstâncias que podem impedir a
realização das mercadorias: a primeira delas é pura e simplesmente o não reconhecimento do valor de uso do produto do trabalho, o que, de um ponto de vista externo, é puramente randômico, fato que limita sua ocorrência; e a segunda é o entesouramento do dinheiro obtido com a venda, o que é por sua vez limitado pelo fato de o dinheiro jamais poder se tornar o objetivo dos produtores em geral (MENDOÇA, 1990, p. 148). Ou seja, as barreiras passíveis de serem criadas são circunstanciais e limitadas nesta circulação, o que faz com que jamais se possa falar em crise, no sentido de crise geral de superprodução.
Diante disto, ao resgatarmos a definição do conteúdo das crises dada por Ribeiro (2008, pp. 89-106), perceberemos que, por mais que sejam formas das crises, a separação entre compra e venda e a separação dos contrários dinheiro como medida de valores e forma-preço ideal x dinheiro como valor de troca real são formas sem qualquer conteúdo, ou as meras formas são o conteúdo da crise neste estágio de desenvolvimento social. Isso se dá precisamente pelo fato de que tais formas não guardam qualquer relação com uma lei que opera regularmente na geração do fenômeno.
Possibilidade geral e abstrata da crise significa apenas a forma mais abstrata da crise, sem conteúdo, sem o impulso pertinente a esse conteúdo. [...] temos aí meras formas – possibilidades gerais das crises, por isso também formas, formas abstratas da crise real. Nelas aparece a existência das crises em suas formas mais simples e em seu conteúdo mais simples, até onde a própria forma é seu conteúdo mais simples. Mais ainda não é conteúdo com fundamento concretizado (MARX, 1980, pp. 945 e 947)9.
O surgimento do dinheiro, com a consequente separação de compra e venda no tempo e no espaço e com o surgimento da contradição presente na função do dinheiro como meio de pagamento, marca, portanto, o momento de surgimento da possibilidade das crises. Pelos motivos acima apresentados, a lógica da circulação simples impede que esta possibilidade se converta em realidade, constituindo ela apenas possibilidade formal ou abstrata de crise. Aqui, existem apenas as condições mais gerais de ocorrência do fenômeno: a possibilidade de que o produto do trabalho humano não seja reconhecido como trabalho socialmente útil.
Assim, enquanto constituir o meio pelo qual flui o processo produtivo, a circulação simples permanecerá impedindo que esta possibilidade formal
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se em realidade. Esta constitui a razão pela qual Mendonça (1990) e Ribeiro (2008) precisaram passar à análise de uma sociedade de produtores capitalistas de mercadorias para continuarem a acompanhar o processo de desenvolvimento do fenômeno que o transforma em realidade. Um dos saltos deste processo de transformação, no entanto, passa despercebido pelos autores: a transformação da possibilidade formal ou abstrata em possibilidade real.
O momento deste salto se dá quando do aparecimento das condições concretas e necessárias de ocorrência do fenômeno. É preciso identificar, portanto, que condições são necessárias para que seja possível a ocorrência da crise em um tempo dado e em determinada situação concreta (ROSENTAL e STRAKS, 1958, p. 236). Se isto não pode ocorrer na sociedade de produtores de mercadoria, onde predomina a circulação simples, requer-se a passagem para uma sociedade de produtores capitalistas de mercadorias, onde possamos estudar detalhadamente a circulação do capital.
3.3 A TRANSFORMAÇÃO DA POSSIBILIDADE FORMAL EM POSSIBILIDADE