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Como vimos, a partir de 2006.T1, inicia-se, mais uma vez, o processo de aumento de tensão entre os contrários que formam a contradição fundamental do capitalismo. A realização total do valor anualmente produzido, que está em constante aumento e se materializando em uma quantidade cada vez maior de valores de uso, torna-se, assim, cada vez mais difícil. Em 2008.T3, por fim, como pode ser visto na figura 7, o nível de atividade econômica alcança seu grau máximo, e, no quarto trimestre de 2008, evidencia-se a queda nos investimentos (ver figura 10) e no nível de atividade econômica de um modo geral.

A reversão acentuada das trajetórias das taxas reais de crescimento anual acumulado do PIB e da Formação Bruta de Capital Fixo não deixam dúvidas: no quarto trimestre de 2008 inicia-se um processo de destruição de capital real na economia brasileira. Como vimos, em 2007, a variação de estoques da economia já alcançava um valor considerável (10,76 bilhões) e quase dobra no ano seguinte. Isso indica que, de fato, em 2008.T4, a quantidade de valores de uso cujo mais-valor não se conseguia realizar era enorme. Analisando a figura 18, percebemos que já em maio de 2008 se processa uma reversão do processo de valorização do capital fictício.

Contudo, a redução das receitas esperadas, calculadas por antecipação, responsável pela queda do preço de mercado do capital fictício, não foi provocada apenas pela constatação da superprodução latente por parte dos agentes

econômicos. O aparecimento de rumores sobre as perdas de dois hedge funds

geridos pelo Bear Sterns, quinto maior banco de investimentos estadunidense, em junho de 2007, marcou o início de uma das maiores perturbações financeiras da história do capitalismo, a qual ficou conhecida como Crise do Subprime (Farhi e Cintra, 2009, pp. 275 e 276). Ocorre que tais fundos tinham ativos garantidos por hipotecas subprime, que eram hipotecas classificadas como de alto risco em função da capacidade de pagamento dos devedores. A elevação dos preços dos imóveis neste país, consequência da bolha imobiliária que se formava desde 2000, no

entanto, minimizava este risco, visto que a garantia destes empréstimos eram precisamente os imóveis.

Figura 19: Índice de Ações da Ibovespa (fechamento):

Fonte: BM&FBovespa.

Contudo, o inevitável ocorreu. Os agentes que realizaram tais hipotecas não conseguiram honrar com seus compromissos e quebrou-se a unidade entre dinheiro como medida de valor e forma-preço ideal e dinheiro como valor de troca real, o que deu início a uma série de rompimentos na cadeia de pagamentos. Nessa conjuntura, a demanda por imóveis arrefeceu, e os preços destes começaram a cair, agravando a situação. Esse efeito dominó culminou na falência de uma série de instituições financeiras nos Estados Unidos ao longo de 2008.

A interligação entre instituições financeiras, entretanto, não se dá apenas em nível nacional, mas em nível global. Um exemplo claro é o das companhias Federal National Mortgage Association e Federal Home Loan Mortgage Association, apelidadas respectivamente de Fannie Mae e Freddie Mac. Quando, em julho de 2008, a combinação entre o pequeno patrimônio dessas empresas (apenas US$71 bilhões) e a queda dos preços dos imóveis colocou-as diante da possibilidade de insolvência (Farhi e Cintra, 2009, pp. 277 e 278), o pânico alastrou-se não só pelos Estados Unidos, mas pelo mundo. Ocorre que:

A Fannie Mae tinha dívida total em torno de US$ 800 bilhões, enquanto a da Freddie Mac alcançava US$740 bilhões. Ademais, as duas companhias carregavam ou tinham dado garantias a títulos hipotecários no valor de US$ 4,6 trilhões [...]. Complicando ainda mais a situação, parte significativa desses títulos tinha sido adquirida por bancos centrais estrangeiros. Em

0 10.000 20.000 30.000 40.000 50.000 60.000 70.000 80.000

junho de 2008, a dívida total das agências federais americanas detida por estrangeiros somava US$ 1,66 trilhão, sendo US$ 1,1 trilhão em portfólios de credores oficiais e US$ 557 bilhões em credores privados. Em outras palavras, os títulos emitidos pela Fannie Mae e pelo Freddie Mac foram considerados para a aplicação das reservas internacionais como tão “sem riscos” quanto os títulos do Tesouro americano, com a vantagem de oferecer rendimentos um pouco mais elevados (FARHI e CINTRA, 2009, p. 278).

Ou seja, dado o tamanho da economia americana e, em consequência disso, dado o volume das transações financeiras realizadas pelas instituições deste país, fica claro que, mais cedo ou mais tarde, esta situação provocaria impactos financeiros nos demais países do globo, incluso nestes, o Brasil.

Com o estouro da bolha imobiliária estadunidense, portanto, o pânico era geral no mercado financeiro internacional. Em momentos como esses, por sua vez, a atratividade não está nos altos rendimentos, mas sim na segurança da aplicação. Os mercados emergentes, de partida, já não são tidos por esses agentes econômicos como aplicações seguras. Somando-se a isso o fato de que, como já demonstramos, a economia brasileira já apresentava dificuldades de realização do mais-valor produzido, ao final de maio/começo de junho de 2008, tem início um devastador processo de destruição de capital fictício no mercado de capitais desta economia. Em setembro, quando da falência do banco de investimentos estadunidense Lehman Brothers, a queda torna-se vertical (ver figura 19).

De uma maneira mais geral, a pura e simples destruição do capital fictício, sob a forma de queda do preço dos ativos negociados na bolsa, implica considerável destruição de capital real, dado que boa parte do capital dinheiro latente das grandes empresas estava imobilizada sob a forma de capital fictício. Entretanto, essa situação afetou o lado real da economia de outras formas. Um exemplo marcante foi o prejuízo bilionário amargado pela Sadia e pela Aracruz. Com a baixa cotação do dólar no país, enquanto o mercado financeiro brasileiro estava em efervescência, tais empresas optaram pela obtenção de recursos através de operações com derivativos cambiais, dado que geravam menores despesas. A brusca elevação do preço da moeda americana provocada pela massiva fuga de capital especulativo a partir de junho, entretanto, fez com que a dívida dessas empresas aumentasse significativamente, dificultando o processo de circulação de seu capital.

Assim, como previsto teoricamente, mais uma vez a esfera financeira funciona como agente deflagrador, ou causa secundária, das crises cíclicas de superprodução.

7.7 O PERÍODO DE CRISE DO SEXTO CICLO E A ESTRANHA RECUPERAÇÃO