1.2. O PAPEL DA EDUCAÇÃO NA SOCIEDADE
1.2.4. A ANOMIA E OS DESCOMPASSOS ENTRE OBJETIVOS E MEIOS INSTITUCIONAIS
O conceito de anomia elaborado por Durkheim na sua obra O Suicídio teve relevante contribuição para a sociedade. Ele assinala que:
“o bem-estar ou a felicidade do indivíduo somente é possível se houver um equilíbrio entre suas expectativas, suas exigências e os meios socialmente acordados. Sublinha, a propósito, que esse desencontro entre necessidades e meios verifica-se tanto em situações de crises recessivas, como, também, nas chamadas crises de prosperidade, sendo que “a anomia é, atualmente, um estado crônico no mundo econômico”.50
Para Merton, que recuperou o conceito de anomia na década de trinta e influenciou toda uma relevante linha de pesquisas, “a anomia é concebida especialmente quando houver uma aguda disjunção entre, de um lado, as normas, e, de outro, as capacidades socialmente estruturadas dos membros do grupo em agirem de acordo com essas normas”.51
Já para Dahrendorf a anomia é
“uma condição social onde as normas reguladoras do comportamento das pessoas perderam sua validade. Uma garantia dessa validade consiste na força presente e clara das sanções.
49 Op. cit, pp. 519-522.
50 DURKHEIM, Émile. O suicídio. Prefácio: Carlos Henrique Cardim, XXVII, São Paulo: Martins
Fontes. 2000.
Onde prevalece a impunidade, a eficácia das normas está em perigo. Nesse sentido, a anomia descreve um estado de coisas onde as violações de normas não são punidas. Este é um estado de extrema incerteza, no qual ninguém sabe qual comportamento esperar do outro, em determinadas situações. (...) A anomia seria, então, uma condição na qual tanto a eficácia social como a moralidade cultural das normas tende a zero”.52
As fontes sociais e culturais de comportamento transviado, são estruturas sociais que cada indivíduo carrega em si mesmo, pois ele irá atuar de acordo com a sociedade que o acolhe e o protege. Caso essa mesma sociedade lhe traga formas para ter comportamentos desviantes, este irá se comportar como tal, pois é o meio em que vive que o exige a tomar determinadas atitudes. Se a própria sociedade faz com que tenha uma forma de vida diferente para atingir determinados objetivos que lhe foram incutidos na sua mente que o mesmo jamais pensaria em ter se não fosse por meio dessa socialização que exige o máximo do indivíduo.
Para Merton,
“os procedimentos desabonados incluem algo que seria eficiente para o grupo em si mesmo, por exemplo, os tabus históricos contra a vivissecção, ou a respeito das experiências médicas, ou a análise sociológica das normas “sagradas” - desde que o critério de aceitabilidade não é a eficiência técnica, mas sim os sentimentos carregados de valores (apoiados pela maior parte dos membros do grupo, ou por aqueles capazes de promover tais sentimentos através do uso simultâneo do poder e da propaganda). Em todos os casos, a escolha dos expedientes para se esforçar na obtenção dos objetivos culturais é limitada pelas normas institucionalizadas”.53
Estruturas que se misturam a situações concretas, “consiste em objetivos culturalmente definidos, de propósitos e interesses, mantidos como objetivos legítimos para todos, ou para membros diversamente localizados da sociedade”54. Esses objetivos atingem graus de sentimentos e de significação fazendo com que o indivíduo aspire determinadas coisas que não o faria se não fosse pela sociedade
52 Op. cit.
53 MERTON, Robert K. Sociologia teoria e estrutura. Trad. Miguel Maillet. São Paulo: Mestre Jou. P.
205. 1968.
exigir dele determinados objetivos culturais e sociais.
Outro elemento da estrutura cultural que define modos aceitáveis de alcançar esses objetivos. “Cada grupo social, invariavelmente, liga seus objetivos culturais a regulamentos, enraizados nos costumes ou nas instituições, de procedimentos permissíveis para a procura de tais objetivos. Não permitindo o uso da força, fraude ou do poder.” 55
Os comportamentos permitidos pela sociedade quando alternativos necessitam da aderência à conduta institucionalmente recomendada. Caso o indivíduo não cumpra com o seu papel, a sociedade irá cobrar-lhe meios para que isso se realize. São sociedades relativamente estáveis, embora mutáveis.
Ainda assevera Merton,
“Assim devem derivar satisfações contínuas, da preocupação se transferir exclusivamente para o resultado da competi-eclipsar os competidores, se a própria ordem deve ser sustentada. Se a preocupação se transferir exclusivamente para o resultado da competição, então aqueles que perenemente sofrem derrota podem, de modo bastante compreensível, procurar alterar as regras do jogo. Os sacrifícios ocasionalmente - e não invariavelmente, segundo Freud admitia - acarretados pela conformidade com as normas institucionais devem ser compensados pelas recompensas socializadas. A distribuição de posições sociais através da competição deve ser organizada de modo que se proporcionem incentivos positivos para a adesão às obrigações da situação, e isso, para cada posição dentro da ordem distributiva. Do contrário, surgirá o comportamento aberrante”.56
Na verdade esse comportamento aberrante ou desviante pode ser sociologicamente considerado como “um sintoma de dissociação entre as aspirações culturalmente prescritas e as vias socialmente estruturadas para realizar essas aspirações”.57
55 MERTON, Robert K. Sociologia teoria e estrutura; trad. Miguel Maillet. São Paulo: Mestre Jou,
1968, p. 205.
56 Op. cit, p.206. 57 Op. cit, p.207.
Aspirações essas embutidas pela própria sociedade, que faz da vida do indivíduo um padrão de conduta que deve ser seguido à risca, para fazer parte do grupo socialmente aceito pela mesma.
Porém, “o exagero cultural (ou idiossincrático) que conduz o homem a obter sucesso de qualquer maneira, leva-o a desprezar o apoio emocional das regras.”58
Diversas fontes jorra a pressão contínua a fim de manter altas ambições, o indivíduo deve nunca desistir de seus objetivos introjetados pela sociedade capitalista que o obriga a ser aquilo que ele nunca sonhou.
Os jornais demonstram todos os dias como a crise afeta os indivíduos com maior grau de escolaridade, pois estes acabam por ter salário maior que a maioria da grande população laboral.
Na capa do jornal Folha de São Paulo, estampa-se a seguinte notícia: “Crise deve afetar mais o trabalhador com salário alto” - “profissional que recebe acima de dez mínimos por mês terá dificuldade de manter ou de encontrar emprego, aponta pesquisa do Ipea; ações do governo protegem faixas de menor renda”59
A notícia ainda relata,
“o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) avalia que os empregados com rendimento acima de dez salários mínimos (R$4.650,00) são os que deverão ter mais dificuldades em encontrar e manter o emprego. É nessa faixa salarial que devem se concentrar as demissões e a rotatividade de trabalhadores (troca de salários altos por baixos).”
“A Fundação Getúlio Vargas constatou que trabalhadores com renda mais alta já foram afetados pela crise. Pesquisa sobre rendimento do trabalho mostra que, desde 2004, a cada cem (100)
58 Op. cit, p. 208.
59 Crise deve afetar mais o trabalhador com salário alto. Folha de São Paulo, São Paulo, caderno:
pessoas, oitenta (80) se mantinham na classe AB de um ano para outro. De outubro a dezembro de 2008, no entanto, esse número caiu para setenta e cinco (75).”60
Outra manchete que chama a atenção: “pós-graduação, fluência em inglês, salário alto e... desempregado”. “De acordo com empresas de recrutamento especializado e de “outplacement” (especializadas em mediar demissões), trabalhadores com alta qualificação - como MBA, fluência de idiomas e salários altos - já são afetados pela retração no mercado de trabalho.”61
Outro jornal traz notícia semelhante, O Globo, na cidade do interior paulista, “São José dos Campos - entre os mais de 4.200 funcionários que a Embraer demitiu na semana passada, o equivalente a 20% de sua força de trabalho, muitos exerciam funções que só existem em uma fábrica de aviões. Isso significa que não serão poucos os que terão não apenas de procurar outro emprego, mas uma nova profissão.”62
Não importa qual o jornal, as notícias se assemelham em relação a crise mundial que se vive neste momento.
Há que se observar que a sociedade, que tanto exige dos seus indivíduos que adquiram títulos, neste momento, àqueles que possuem títulos são os primeiros a serem demitidos, trocados por salários bem menores. Realmente vive-se num estado de anomia.
Assim sendo, há que se ressaltar que os descompassos não são os culpados pelo que ocorre na vida dos indivíduos, mas sim, as incoerências entre os objetivos e os meios institucionais impostos.
60 Op. cit, p.B3. 61 Op. cit, p.B3.