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4.2. Dissecando o Red Carpet Project

4.2.1 A antenarrativa

A antenarrativa se refere à condição em que a narrativa ainda se estrutura no back-end do sistema. Nessa fase, muito provavelmente jornalistas, designers e programadores trabalham nas camadas do sistema narrativo a fim de estruturarem as coleções de dados, metadados, linhas de códigos de programação e outros diversos modos e recursos semióticos. Ainda que o Red Carpet não possua exatamente uma narrativa nos moldes tradicionais do Jornalismo, a entrevista realizada com o desenvolvedor do projeto, Erik Hinton (a qual será abordada mais adiante), mostrou que algumas estratégias foram propostas para a criação de narrativas, mas estas foram abortadas. Sendo assim, entendemos que o momento estruturador da antenarrativa é fundamental para a elaboração dos diversos formatos jornalísticos, tanto para os narrativos quanto para as visualizações de dados.

As imagens fotográficas captadas a partir dos eventos do Red Carpet fazem parte do estoque semiótico para a configuração do formato, através do qual é possível criar um inventário sistemático de significantes e significados (VAN LEEUWEN, 2005). As formas observáveis e os sentidos evocados através do vestuário de moda podem ser armazenados nas descrições por metadados. Neste caso, há uma tradução semiótica ou ressemiotização (FERNÁNDEZ-FONTECHA; O'HALLORAN; TAN; WIGNELL, 2018) entre dois modos fundamentais para esta situação comunicativa: a tradução das imagens fotográficas em texto descritivo, que por sua vez, é estruturado em metadados.

Conforme observamos, o conceito de cláusula e as definições do termo em Halliday (2002, 2014) e Jewitt, Bezemer e O’Halloran (2016) ajudam a inferir que o momento da antenarrativa abrange também a combinação entre cláusulas dependentes e cláusulas independentes a fim de construir um conjunto dotado de sentido. Desta forma, as cláusulas dependentes ou os fragmentos, seriam relacionados aos elementos dos metadados e aos elementos da programação, que ao serem combinados com as imagens fotográficas (como cláusulas independentes), formam um conjunto dotado de um sentido maior ou um repositório estruturado e pronto para ser transformado em outros modos e/ou formatos.

Seguimos então em busca dos metadados que acompanham cada imagem fotográfica agenciada para a construção do artefato. Ao inspecionarmos53 uma das imagens, encontramos uma linha de código que nos remeteu para um link54 com acesso à programação realizada em

53 Inspecionar é um recurso presente em navegadores Web.

54 Disponível em: <https://int.nyt.com/applications/red-carpet-project/react-rcp-b54f84152e0219114fd745a6b99 60a4efe9c6a686c5e64ea73a5006f93ede79f.js>. Acesso em: 15 de maio de 2018.

linguagem JavaScript, composta por inúmeras linhas de códigos. A fim de encontrar mais rapidamente as informações que desejávamos, isto é, a existência de metadados disponíveis, usamos o recurso localizar ou Control+F, atalho do teclado para esta função. Pesquisamos pelo termo dress ou vestido, por se tratar de um dos recursos semióticos mais evidentes no formato sobre as tendências do Red Carpet.

A pesquisa então sublinhou os vários termos espalhados pelo código, o que nos fez encontrar as descrições das imagens. Em seguida, identificamos a parte do código onde os metadados estavam descritos. Trata-se de várias linhas de código, estruturadas no seguinte formato: {celeb:"nome da celebridade", guid:número da foto, designer:"nome do estilista", color:"cor do look", credit:"nome do fotógrafo", year:ano, style:["descrição do modelo

1","descrição do modelo 2"]}.

A declaração de metadados acima identificada acompanha cada uma das imagens que compõem o Red Carpet. Aqui extraímos um exemplo para fins de visualização: {celeb:"Tina Fey", guid:109, designer:"Michael Kors", color:"Black", credit:"Josh Haner/The New York Times", year:2010, style:["One shoulder","Asymmetrical"]}.

Através deste fragmento, percebemos que as imagens fotográficas foram descritas apenas a partir de algumas características e formas observáveis, como por exemplo, o nome da celebridade, o número da foto, o nome do estilista responsável, a cor do vestido, o nome do fotógrafo, o ano do evento e algumas descrições pertinentes à modelagem e estilo do vestido.

Percebemos que outras diversas características do vestuário de moda poderiam ter sido usadas para descreverem as tendências nos looks desfilados. Estas características, como elementos do esquema de metadados, podem variar desde características mais simples e objetivas, até subjetivas. Este tipo de trabalho envolve analisar cada imagem de moda e descrevê-la de acordo com o maior número de características relevantes, atribuindo valores a estas características, baseadas em vocabulários controlados. Esta possibilidade permitiria a expansão do formato, no que se refere à criação de outros modos semióticos para a interface/layout ou a incrementação dos já existentes, tornando o Red Carpet semanticamente mais amplo.

Esta observação reforça a ideia de que os metadados se configuram como um modo semiótico capaz de estruturar narrativas e outros formatos a partir dos elementos que constituem a sua organização interna. Como modo semiótico, os metadados constituem um conjunto de recursos semióticos, definido social e culturalmente para a criação de significados e sentidos. Foram construídos através de processos sociais que evoluíram ao longo do tempo

em determinadas comunidades profissionais, a saber, as ciências da informação, a computação, o webdesign, entre outras.

Um conjunto de recursos forma um modo quando as três metafunções sistematizadas por Halliday (2002, 2014) estão presentes: 1) ideacional (experiencial e lógica), 2) interpessoal e 3) textual. Nesse sentido, podemos pensar os metadados a partir de cada metafunção.

Considerando a metafunção ideacional, entendemos que os metadados agenciam a construção da experiência do formato do Red Carpet, no sentido de que suas partes funcionais ou as suas menores partes constituintes, que são seus elementos e valores atribuídos, podem ser relacionados para a construção de declarações descritivas, como representações das imagens de moda em descrições textuais, ou seja, os significados sobre os looks de moda usados pelas celebridades na ocasião do evento.

Como Halliday (Ibidem) observou, a gramática não serve somente para anotar a experiência, mas para construí-la. Sendo assim, pensando essa premissa para um outro tipo de linguagem, as formas observáveis dos looks e os sentidos evocados são anotados e formatados em metadados em prol da construção de uma outra experiência, isto é, uma angulação destinada a informar sobre o evento Red Carpet. Nesse sentido, existe uma lógica para a composição dos metadados ou uma estrutura a ser seguida para a construção de sentido, algo que podemos comparar com a combinação de cláusulas em sentidos maiores na linguagem.

Ao observarmos cada conjunto composto por declarações sobre uma determinada imagem do evento, notamos os pares elemento-valor ou as declarações sobre o recurso em questão (Pomerantz, 2015): celeb:"nome da celebridade", designer:"nome do estilista", color:"cor do look", entre outros. Como os metadados são declarações do tipo assunto- predicado-objeto, o assunto de cada conjunto é a imagem que está sendo representada e os predicados são as categorias escolhidas para as descrições das imagens, tais como, celebridade, designer e cor. Os objetos são os outros elementos que efetivamente possuem uma relação com o assunto/imagem: determinada celebridade que está usando o look, o estilista que desenhou a roupa, a cor usada no traje, etc.

A lógica estabelecida através da relação assunto-predicado-objeto permite reconhecer uma rede de ligações entre as declarações de metadados disponíveis, isto é, relações entre objetos afins, a partir de uma análise na base de dados. Nesse sentido, é possível agrupar todas as descrições/objetos referentes às cores e aos estilos dos looks para a visualização dos padrões de repetição destas características das tendências de moda. Esta possibilidade se torna interessante na descoberta de novos contextos informativos para a expansão da densidade

informativa do Red Carpet, pois os significados que emergem da combinação de metadados podem ser revelados visualmente na interface, através da integração com outros modos e recursos semióticos.

As metafunções estão interligadas e ocorrem simultaneamente, isto é, ao mesmo tempo em que a linguagem constrói a experiência, promove também diálogos e relações institucionalizadas (HALLIDAY, 2002, 2014). Nesse sentido, e considerando a metafunção interpessoal, podemos refletir que além das relações estabelecidas entre as diversas partes que compõem as declarações de metadados, descritas através da relação assunto-predicado-objeto, podemos perceber que os metadados são capazes de proporcionar uma outra camada de significação para aquilo que estão a descrever. Portanto, as escolhas de certos predicados ou categorias de descrições dos metadados agenciam o significado da visualização, no sentido de que se as descrições fossem outras, seria possível estabelecer outros significados para o Red

Carpet, expandindo a ideia de que a moda e as tendências não tratam somente sobre cores e

estilos. Desta forma, o diálogo que se estabelece com o usuário leitor poderia ser igualmente atualizado. A metafunção interpessoal, intitulada significados orientacionais (LEMKE, 2002), pode emergir também através das escolhas dos metadados, pois os elementos ou os recursos semióticos que vão compor o discurso sobre a moda orientam a interpretação do leitor/usuário.

Considerando a metafunção textual ou organizacional (Ibidem), entendemos que os metadados estruturados formam uma unidade/modo organizado, no sentido de algo que resulta de uma prática de representação e produção e que faz uso de uma variedade de recursos semióticos organizados no uso de um meio ou material (KRESS; VAN LEEUWEN, 2005). Portanto, existem regras no ambiente digital para as ligações entre as partes das descrições dos metadados ou entre os seus elementos/recursos específicos. Nesse sentido, os metadados configuram um modo voltado para a organização da informação, em prol da apreensão de unidades informativas, ou seja, das imagens presentes no Red Carpet e de suas características. Sendo assim, organizam as imagens que compõem a experiência e as interações que podem ser estabelecidas.

Os metadados também aproveitam as affordances disponíveis, no sentido do uso da materialidade no ambiente digital. No Red Carpet, os metadados usam as affordances da processualidade e do conhecimento enciclopédico (MURRAY, 2012), pois podem ser armazenados nos bancos de dados e nas linhas de código da programação, ao mesmo tempo em que guardam informações importantes sobre as imagens dos looks.

Ao fazerem uso deste substrato material, os metadados revelam formas específicas que são vistas no modo como são organizados e combinados. As declarações dos metadados devem funcionar, no exemplo do Red Carpet, exatamente da forma encontrada: {celeb:"nome

da celebridade", guid:número da foto, designer:"nome do estilista", color:"cor do look",

credit:"nome do fotógrafo", year:ano, style:["descrição do modelo 1", "descrição do

modelo 2"]}. Este padrão garante o funcionamento dos modos e dos recursos semióticos

utilizados no formato.

Portanto, os metadados do Red Carpet produzem um modo para o entendimento semântico das imagens de moda do evento e também garantem à comunidade de profissionais uma linguagem própria para a construção de possíveis trajetórias narrativas e informativas, quando em associação com outros modos e recursos semióticos na interface.

Através da verificação dos metadados do Red Carpet, vislumbramos a importância da antenarrativa, como momento estruturador do funcionamento de um sistema, estruturado em camadas mais profundas de dados e metadados. A organização e a categorização das imagens dos eventos através dos metadados proporcionam o uso de determinadas lógicas neste conjunto, a fim de compilar os dados e as descrições em um formato multimodal, do qual iremos tratar a partir da transcrição de sua configuração.