8. Aprendizagem nas Abordagens Cognitivistas e
8.4 A aprendizagem na Teoria do Processamento
Um modelo usado para entender a aprendizagem é o de um
com-putador, em que se leva em conta a informação, com suas en tradas
(input) e saídas (output). Para alguns autores, isto é apenas uma
me-táfora, para outros é mais que meme-táfora, como é o caso daqueles
que trabalham com a inteligência artificial. A Teoria ou Modelo do
Processamento de Informação é bastante adequada para explicar
os fatos conhecidos relacionados à memória – fenô meno que está
imbricado com o da aprendizagem.
Como ponto de partida, podemos lembrar que o organismo está
imerso num mar de estímulos, por isto é preciso selecionar aqueles
estímulos aos quais se deva prestar atenção: alguns deles podem
entrar, outros não, de modo que podemos responder de forma
di-ferente aos diversos estímulos presentes no ambiente. Selecionar
os estímulos relevantes implica em conferir esse turbilhão de
im-pulsos que atingem nossos receptores sensoriais – olhos, ouvidos,
tato, etc. – em relação a nossos conhecimentos anteriores (alguns
conhecimentos da espécie, outros de ordem pessoal; identificar as
circunstâncias nas quais estamos envolvidos; o que sabemos sobre
elas, em que estado está nosso corpo, etc.). Assim, a percepção
(in-terna e ex(in-terna) e a atenção são dois fenômenos importantes com
os quais se inicia o processamento das informações, que pode,
in-clusive, levar à aprendizagem. Aproveitando para recuperar alguns
fatos e questões da Psicologia, podemos lembrar que:
• vários conhecimentos e leis sobre percepção foram
desenvolvi-dos pelos teóricos da Gestalt; e
• ao colocarmos percepção e atenção como início de um ciclo de
aprendizagem e de seu registro (ou memória), podemos nos
perguntar sobre o papel desses processos na sala de aula: será
importante ganhar a atenção dos alunos? Garantir alguma
for-ma de interesse pelo assunto tratado? Relacionar os assuntos
tratados às experiências anteriores? Essas questões nos
auxi-liam a examinar a relação entre ensino-aprendizagem e esses
outros fenômenos psicológicos.
Percepção
É o processo pelo qual
asso-ciamos significado à
infor-mação bruta recebida pelos
órgãos dos sentidos.
Atenção
É o processo pelo qual o
cé-rebro seleciona os estímulos
sensoriais que vai ignorar e
os que vai transmitir para
níveis superiores de
proces-samento. O aspecto a
desta-car é o de seleção: até certo
ponto, pode-se escolher ao
que prestar atenção.
Os estímulos que entram são registrados em uma memória muito
frágil/lábil em relação à sua duração, e, por outro lado, em relação
à quantidade de informação com grande capacidade de absorver/
processar. Sua duração é muito breve – em torno de 1 (um) a 3 (três)
segundos! Para alguns pesquisadores este registro é chamado de
memória sensorial (MS). Na sequência, as informações aí presentes
passam para um sistema algo mais duradouro, chamado de memó
ria de curto prazo (MCP). Essa memória, ao contrário da anterior,
tem uma duração maior - dura em torno de 5 a 20 segundos - e
um forte limite na quantidade de informação processada: apenas
até sete itens concomitantes. A memória de curto prazo funcionaria
como início de um processo que poderia levar à formação de uma
memória mais duradoura, a de Longo Prazo (MLP).
Processos de controle executivo
Memória sensorial Memória de trabalho Memória de longo prazo (salvar) (ativar) ENTRADA APRENDER RECUPERAR
Figura 8.4: A informação percebida é codificada na memória sensorial (breve), de onde pode ir à memória de trabalho para uso posterior. Pode ser processada até a memória permanente e, sendo ativada, retornará à memória de trabalho. Esses processos de controle executivo
guiam o fluxo de informação.
Uma informação é relevante? Sim, quando ela envolve sua
seguran-ça física ou emocional, sua aprovação escolar, as coisas que você ama
de paixão, etc. As informações relevantes podem passar da
memó-ria de registro breve (como a memómemó-ria de curto prazo ou MCP), para
um sistema mais protegido. Este é chamado de memória perma
nente, de longo prazo (MLP) ou referencial. Ele pode ter capacidade
e duração em termos de tempo parecem ser ilimitadas, ao contrário
bem menos limitadas do que o sistema anterior (MCP), cuja
capa-cidade e duração são muito limitadas. A memória de longo prazo
pode perdurar de minutos a horas ou de meses a décadas (neste
caso são memórias remotas, como as lembranças da infância de uma
pessoa de terceira idade).
Sete itens quaisquer, sem
nexo entre eles: se for
acrescentado à lista um
novo, o primeiro da lista
é “apagado”, e assim por
diante ao se acrescentarem
novos itens. Ao estabelecer
nexo entre os itens, há uma
mudança de qualidade –
não mais “decoreba” – e a
capacidade de armazenar
informação muda e se
amplia. Por exemplo,
durante quanto tempo
você retém um número de
telefone que usou agora
para perguntar um preço
na farmácia?
Apesar da proposta das informações serem escalonadas por tempo
(da MS para a MCP, da MCP para a MLP) ser interessante para
en-tender o que se passa com nossos registros dos eventos, a maioria
dos resultados obtidos nas pesquisas sobre o assunto tem mostrado
que ela não é totalmente adequada: as pesquisas indicam que estes
dois mecanismos atuam de modo distinto e de forma independente
(mesmo quando agem dentro de uma mesma estrutura do cérebro).
Mais urgente do que se certificar exatamente de que tipos de
memó-ria devemos falar – além de duração e amplitude, sua função e
con-teúdo podem ser diferentes –, o que é urgente entender é como se
processam a aquisição, o armazenamento e a evocação dos
diver-sos tipos de memória. Para ter uma ideia geral deste processo, veja a
figura 8.4. Ao buscar este entendimento partimos da constatação de
que não existe uma memória, mas sim vários tipos de memória que
se relacionam para formar “a memória” que usamos no dia a dia.
Em geral se pensa que o processo de memória acontece no momento
em que apreendemos algo novo – isto na verdade é o processo de ar
quivamento; ou então, quando lembramos de algo – isto na verdade
é o processo de recuperação. Na verdade, existe a memória de tra
balho (ou seria a memória de curto prazo?): alguns pesquisadores
preferem chamá-la não de memória, mas sim de central de gerencia
mento, pois ela é responsável por gerenciar nossa realidade – é a que
está ativada e em ação. É ela quem determina se a informação é útil
para o organismo - e, assim, que deve ser armazenada -, se existem
outras informações semelhantes em nossos arquivos de memória ou
se ela deve ser descartada – como quando é redundante ou é inútil.
Para que o material seja passado de registro breve para outro mais
permanente e protegido, é necessário algum tempo e certo trabalho.
Um exemplo de situação para conferir como funcionam as me mórias
pode ser uma conversação. Num diálogo, você fala (ouve, interpreta,
responde) e está usando a memória de trabalho; quan do você ouve
uma palavra pouco usual, cujo significado não está muito claro, há
uma pesquisa na memória permanente que pos sibilita recuperar o
significado e atualizar isso para você. As estru turas do Sistema
Ner-voso Central que trabalham nos processos de memória incluem o
sistema límbico e, dentro desse, é o hipocam po quem trabalha como
A consolidação da memória
implica síntese protéica
e ocorre especialmente
durante o período de sono.
Sistema Límbico
Conjunto de estruturas
mui-to importante para as
emo-ções e reaemo-ções emocionais.
Entre elas, o hipocampo é
particularmente importante
para a memória e o
apren-dizado.
“mediador”, transferindo material entre a memória de trabalho e a
permanente. Sobre esse processamento, veja a Figura 8.5. O estudo
da memória vem de longa data: Ebbin ghaus, em 1885, já
formula-ra princípios de seu funcionamento. Antes dele, Aristóteles já deu
também contribuições para o seu entendimento. Atualmente muitos
pesquisadores continuam de senvolvendo pesquisas sobre o tema.
Esse é um assunto que tem implicações diretas com:
• a sala de aula, o assunto tratado, a maneira de lidar com o
conteúdo, etc. Como podemos facilitar a (aprendizagem e a)
retenção?
• outros aspectos psicológicos relacionados à nossa identidade
– quem somos – e ao nosso autoconceito, entre outros. Vamos
nos ater aqui aos aspectos mais básicos e ligados à
aprendiza-gem em sala de aula.
Costuma-se classificar a memória de longo prazo em três ca tegorias:
a declarativa semântica, a declarativa episódica e a processual. O
que caracteriza a memória semântica é que ela é estruturada sobre
significados. Por exemplo, você precisava saber de memória a tabela
periódica ou os planetas do sistema solar. Para reter as informações,
pode-se in ventar uma “história”, dando sentido ao conteúdo. Com
esse nexo entre cada nome, é possível reter as informações mais
facilmen te. A memória semântica pode ser armazenada como uma
pro posição (ou afirmação), uma rede de proposições, uma imagem
ou ainda como esquemas que combinam imagens e proposições.
Proponha outros exemplos de atuação da memória semântica com
situações da sala de aula e fora dela.
Em relação à memória episódica, ela registra cada evento ou
fe-nômeno com seus detalhes. Lembrando-se do seu aniversário de
12 anos: quem estava lá, a cara de cada um, o que ocorreu naquele
dia passo a passo... você está recorrendo à memória episódica. Aqui
você pode comparar entre si esses dois tipos de memória: 1) em
rela-ção à facilidade de armazenamento e, depois, de recuperarela-ção, qual das
duas apresenta melhor desempenho? 2) em termos de “energia” e
recursos, qual delas é mais exigente?
Enquanto isto, a memória processual refere-se ao que se faz, às
ações e habilidades: escovar os dentes; pegar o lápis para es crever;
O nexo ou sentido facilita
armazenar e também
recordar/lembrar; quando
guardamos o sentido ou
aspecto geral dos fatos,
poupamo-nos de registrar
cada um dos pequenos
detalhes, “economizando”
recursos.
Herman Ebbinghaus (1850
– 1909) nasceu em Bremen,
Alemanha. Ele recebeu sua
educação, incluindo o Ph. D.
na Universidade de Bonn. Em
1880 ele publicou os
primei-ros textos sobre memória e
começou seus aproximados
30 anos de ensino e
publica-ções no campo da memória
humana. Embora tenha sido
o primeiro a aplicar métodos
experimentais à memória,
ele é mais conhecido por sua
introdução de sílabas sem
sentido. Ele morreu de
pneu-monia em 1909, em Breslau,
Alemanha. Seu livro Über
das Gedächtnis (1885) só foi
traduzido para o inglês em
1913 com o título Memory:
A Contribution to
escrever; fatorar uma equação, andar de bicicleta, etc. Essa
memó-ria representa regras de condição–ação, que são chamadas produ
ções. Em geral, no caso dessas habilidades não temos cons ciência
de como as realizamos: muitas vezes realizamos uma série de
ativi-dades, sabemos realizá-las, mas teríamos dificuldade em descrever
como o fazemos, e só ao agir e fazer algo é que podemos descobrir
ou demonstrar isto.
É possível que a maior parte das informações seja armazenada como
proposição (WOOLFOLK, 2000). O armazenamento e a re cuperação
da informação são processos que interessam em espe cial à sala de
aula. Como explorar melhor a capacidade de aprender e de guardar?
Já se sabe que a forma como se aprende afeta esses dois
fenôme-nos. De modo geral, pode-se dizer que, quanto mais ativo o processo de
aprendizagem, quanto mais ativa a participação do aprendiz, maior e
melhor a recuperação das informações.
Três estratégias, entre outras, que interferem na aprendizagem para
ampliá-la, aumentando a retenção do conteúdo, podem ser: contexto;
elaboração; e organização. O contexto refere-se a aspec tos do
ambien-te físico e emocional que “contaminam” o maambien-terial, facilitando (ou
não) o seu registro. A elaboração do material im plica em atribuir
significado a ele, conferindo sua relevância em relação aos
conheci-mentos anteriores; a organização implica em lidar com o material de
modo a apontar relações, prioridades etc.
Existem problemas sérios relacionados à incapacidade de reali zar
o armazenamento das informações, ou seja, à falta de memó ria ou
amnésia. Ela pode ser resultante de acidentes, doenças ou ainda de
“traumas” psicológicos; e também pode ser passageira ou
perma-nente, relacionada aos fatos do passado (amnésia retrógra da) ou aos
fatos que acontecem após o evento causador (amnésia anterógrada).
A aprendizagem não é um fenômeno simples, como você já pode
ver. Além disto, ela se embrica com outros fenômenos que a
antece-dem (como a atenção) e que a seguem (como a me mória), o que nem
sempre é identificado por quem se coloca no papel de professor. Por
outro lado, a memória é importante não só para que a aprendizagem
chegue a bom termo. A memória é vital à nossa percepção de
iden-tidade, à noção de quem somos, logo, para saber de onde viemos e
para onde vamos...
8.5 A importância dos conhecimentos
No documento
Psicologia Educacional: desenvolvimento e aprendizagem. Nicia L. D. da Silveira
(páginas 180-185)