2. A contribuição da Psicologia para a Educação
2.2 A Psicologia Educacional como disciplina-ponte
A introdução da Psicologia na educação se dá com o que se
chama-va Psicologia Aplicada, na qual os conhecimentos disponíveis eram
usados para resolver questões práticas. É importante dizer aqui que
as questões educacionais não eram o ponto de partida para a
pro-dução de conhecimentos psicológicos, nem mesmo o objeto da
bus-ca desses conhecimentos, mas que conhecimentos produzidos em
outras áreas da Psicologia – que se apresentavam como relevantes
para tratar as questões em evidência na área educacional – eram
recuperados e então aplicados. À medida que se desenvolve o uso
da Psicologia na Educação, e que se domina certos conhecimentos
(na medida em que certas correntes lhe prestam força), a Psicologia
Educacional deixa de ser simplesmente a aplicação de uma ou de
outra teoria, e passa a ter competência própria. De acordo com Coll
et al. (1997), ela passa a ser pensada como uma disciplina com
cam-po, métodos, teorias e problemas específicos. Alguns aspectos da
disciplina destacados aqui podem ser acompanhados na Figura 2.1,
inspirada na proposta por Coll et al. (2000, p. 354).
Princípios educativos de desenvolvimento e aprendizagem compatíveis
com o construtivismo, originais de diferentes enfoques e teorias, são de
caráter complementar Concepção construtivista do ensino e da aprendizagem Teorias e práticas educativas • Natureza e funções da educação e da educação escolar
• Características das situações escolares e do ensino e da
aprendizagem
Figura 2.1 − Psicologia Educacional como área de competência própria, ou disciplina-ponte (de acordo com COLL et al., 2000).
A Psicologia Educacional passa a organizar-se como um espaço de
trabalho e atuação profissional que se nutre de todas as áreas da
Psi-cologia, assim como interage com outras disciplinas não
psicológi-cas com a finalidade de contribuir para a construção de uma teoria
educativa de base científica e para melhorar a educação e o ensino.
Tomada esta perspectiva de disciplina-ponte, dois pontos devem
ser destacados desde o início:
• Devido à complexidade dos fenômenos, a Psicologia
Educacio-nal precisa assumir seu caráter multidisciplinar,
articulando-se com outras disciplinas;
• Deve ser pensada como ponte entre o conhecimento
pedagó-gico e as áreas que lidam com o ensino/aprendizagem etc.
Tendo-se em vista essa perspectiva, cabe à Psicologia da Educaç ão
contribuir com a formação do professor para levá-lo a:
• entender o processo de educação e de ensino-aprendizagem;
• identificar como o processo de desenvolvimento cria
diferen-tes condições para a interação social, em especial para o
pro-cesso de ensino/aprendizagem;
• compreender melhor o papel da sociedade no processo
educa-tivo; e
• entender o processo de ajustamento social em todas as suas
inter-relações.
Nas palavras de Wallon, “A orientação do ensino torna-se
psicol-ógica a partir do momento em que pretende adaptar-se ao espírito e
à natureza da criança (estudante)” (1975, p. 356). E também:
Se pode-se adquirir o sentido pedagógico, não é simplesmente
pela rotina, mas pela experiência [...] Mas é ao estudo destes dois
termos que é preciso dar atenção: às disposições que a criança
(estudante) apresenta dependentes de sua idade e do seu
tempe-ramento individual; às aptidões que exige e exerce cada
discipli-na a ensidiscipli-nar (WALLON, 1975, p. 356).
Na mesma obra, o autor enfatiza ainda o papel da observação para
a construção desse conhecimento e como a Psicologia deve intervir
na formação dos professores para levá-los a tirar conclusões de suas
próprias experiências (WALLON, 1975).
Nesta disciplina, vamos lidar com alguns conceitos e princípios
bá-sicos da Psicologia e ler alguns dos clásbá-sicos. Mas, mesmo que as
nossas condições para estudar a Psicologia fossem privilegiadas em
tempo e recursos, ainda assim provavelmente não veríamos tudo
que é importante na sala de aula. Até porque a realidade é dinâmica
e exige a reorganização dos conhecimentos para lidar com ela.
Podemos fazer um exercício para destacar a importância
de estar atento aos fenômenos psicológicos e, portanto, de
sensibilizar para as contribuições da Psicologia na
Educa-ção. Indaguemos a ela como se aprende: como cada pessoa
aprende? E, por consequência, como é possível ensinar
al-guém: que aspectos alteram, atrapalham e/ou contribuem
para que se aprenda? Em relação a ambas as questões,
mui-tos aspecmui-tos estão relacionados às características
intrínse-cas ao sujeito: mudanças em suas estruturas em razão do
momento do seu desenvolvimento – se é uma criança, um
jovem ou um adulto –, seu temperamento, seus interesses,
suas atitudes, seus costumes, grupo social em que se
en-contra, como estabelece suas relações, sua história, etc. Já
outros aspectos se referem às características extrínsecas:
organização do seu entorno, se há ruído/silêncio, lógica do
material a ser aprendido, se é ou não coerente, etc.
Leia com atenção o Quadro 2.2, elaborado a partir de Woolfolk (2000),
para identificar alguns dos fenômenos psicológicos que se
apre-sentam na sala de aula. Tom Shuell (1996 apud WOOLFOLK, 2000)
identificou as funções de aprendizagem, examinando as pesquisas
sobre esse tema em sala de aula. Essas funções são apre sentadas na
coluna da esquerda e podem ser iniciadas tanto pelo professor como
pelo(s) aluno(s). Não importa qual sua origem: o importante é que
elas ocorram, porque sem elas não há apren dizagem! O foco
nes-sas funções articula ensino e aprendizagem, mostrando que muitos
tipos de ensino podem apoiar a aprendiza gem. Os alunos devem
utilizar recursos para aprender, mas tanto eles como o professor
po-dem ativar as funções: se os alunos têm de aprender, os professores
podem criar situações que orientem, apoiem, estimulem e
encora-jem a aprendizagem; se cabe ao profes sor ensinar, os alunos podem
pedir sugestões, indagar e sugerir.
Quadro 2.2 − Funções da aprendizagem
Função Iniciadas pelo Professor Iniciadas pelo Aluno
EXPECTATIVAS
Especificar objetivo/propósito da
lição; fornecer uma visão geral
do material a ser estudado etc.
Identificar o objetivo de
fa-zer um projeto ou dever de
casa, ler um capítulo etc.
MOTIVAÇÃO teração dos alunos; usar ma-Dar oportunidades para
in-terial interessante.
Procurar formas de tornar o
material, a lição ou o
proje-to pessoalmente relevantes.
ATIVAÇÃO DE
CONHE-CIMENTO ANTERIOR
Lembrar os alunos de informações
necessárias; informações
rele-vantes em lições anteriores etc.
Perguntar a si mesmo o que já sabe
sobre o assunto e que informação é
necessária para completar a tarefa.
ATENÇÃO ou características importan-Salientar informações e/
tes; usar ênfase verbal.
Identificar aspectos-chave do
mate-rial que está sendo estudado;
subli-nhar informações-chave, tomar nota.
CODIFICAÇÃO Fornecer diagramas e/ou exemplos; contextos
múltiplos; sugerir mnemônicos.
Gerar mnemônicos,
ima-gens e/ou múltiplos exemplos
em múltiplos contextos.
COMPARAÇÃO Encorajar comparação pelo uso de perguntas; diagramas ou mapas.
Procurar semelhanças, desenhar
diagramas ou mapas para comparar
o material que está sendo estudado.
GERAÇÃO DE
HIPÓTESES
Fazer perguntas “e se?”; encorajar os
alunos a pensar em
cursos de ação alternativos.
Gerar possíveis alternativas e
soluções correspondentes.
REPETIÇÃO
Orientar a prática e/ou
re-flexão; múltiplas
perspec-tivas e/ou exemplos.
Revisar
sistematicamen-te e refletir sobre o masistematicamen-terial
que está sendo estudado.
FEEDBACK vos instrutivamente relevantes.Fornecer feedbacks e correti- Buscar respostas e/ou reações a perguntas feitas a si mesmo.
AVALIAÇÃO Encorajar os alunos a avaliar seu desempenho e ponto de vista à
base do feedback recebido.
Perguntar: “o que sei
atual-mente sobre o que estou
es-tudando? O que preciso fazer
para saber e/ou descobrir?”.
MONITORAÇÃO Verificar o entendimento. nho; testar a si mesmo.Monitorar o
desempe-COMBINAÇÃO,
INTE-GRAÇÃO, SÍNTESE
Sugerir formas de combinar e
inte-grar informações: construindo
diagramas, gráficos, formalização.
Estabelecer categorias; conceitos;
relações; construir tabelas; procurar
2.3 A Psicologia Educacional
No documento
Psicologia Educacional: desenvolvimento e aprendizagem. Nicia L. D. da Silveira
(páginas 44-49)