3. Desenvolvimento e aprendizagem
3.1 Aspectos gerais
As indagações acima servem para ilustrar as questões que são
abor-dadas pela Psicologia do Desenvolvimento, também chama da pelos
psicólogos europeus de Psicologia Genética ou Evoluti va. Vamos
en-tender o fenômeno do desenvolvimento como as modificações que
ocorrem com o ser humano à medida que o tempo passa, ou seja,
ao longo de sua vida. Elas se iniciam no processo de fecundação e
se encerram na morte do indivíduo, ou seja, ocorrem durante a sua
ontogênese.
E o que vamos entender por aprendizagem? Uma maneira sim ples
de defini-la é dizer que são as mudanças que ocorrem ao longo da
Ontogênese
Gênese significa origem;
ontogênese como resultado de experiências pelas quais o sujeito
passa, resultando assim em novos comportamentos, co nhecimentos,
sentimentos, novas habilidades motoras etc. Para ser considerada
aprendizagem, é preciso haver evidências de que o sujeito passou
por situações e circunstâncias e que essas suas experiências
con-tribuíram de modo determinante para essas mu danças. E também,
ao descrever as experiências a que o sujeito esteve ou está exposto,
estamos descrevendo como foi ou como é o seu meio ambiente e
como este o afetou.
Relacionar as mudanças psicológicas observadas com as
expe-riências vividas pelo sujeito é importante para não confundir a
aprendizagem com fenômenos que afetam a atuação humana, bem
como para excluir outros fenômenos que não estão sendo estuda dos
neste momento, tais como mudanças que ocorrem:
a) quando se está fatigado;
b) quando se está doente;
c) como resultado de maturação biológica;
d) na expressão de características genéticas ou filogenéticas.
É oportuno lembrar que nem sempre é fácil obter informações
se-guras sobre a herança genética, pois ela é um fenômeno comple xo.
Inclusive o estudo sobre o genoma humano ainda não ofere ceu
res-postas para todos os aspectos do comportamento humano.
Algu-mas das características genéticas que têm sido bastante estu dadas
são aquelas que causam problemas graves para o ser huma no tanto
em termos de desenvolvimento como de aprendizagem.
Na Psicologia a aprendizagem é compreendida como um
proces-so geral que ocorre tanto nos animais como no homem e que tem
um papel fundamental na relação com o ambiente – especialmente
com o ambiente social, que é particularmente complexo no caso
humano, pois o homem vive dentro de uma cultura. Um aspecto a
ressaltar de imediato é que a aprendizagem ocorre não só na escola,
mas antes dela, em qualquer lugar, a qualquer momento ao longo
da ontogênese, ou seja, durante a vida do sujeito. O dito “vivendo e
aprendendo” é muito apropriado, pois é difícil (ou im possível) viver
e sobreviver sem aprender. Na visão tradicional de ensino, o
profes-Maturação biológica
Mudanças que são
forte-mente influenciadas pela
he-rança genética e que
ocor-rem à medida que o sujeito
vai tornado-se mais velho
(COLE; COLE, 2004, p. 56).
Filogenética
Filo significa espécie, assim,
filogênese é a história
evo-lucionária da espécie (COLE;
COLE, 2004, p. 30).
sor é visto como o detentor do conhecimento, e o aluno como aquele
que nada sabe. Podemos no mínimo dizer que essa é uma visão
in-gênua da realidade: mesmo se você pensar num aluno de primeira
série (ou de pré-escola), há muitas coisas que ele sabe, e que
inclusi-ve nós não conhecemos, que aprendeu com o seu grupo social, com
a sua família, com as pessoas do seu bairro, dentro de uma cultura.
Isso inclui lin guagem, padrões, valores etc.
A divisão entre desenvolvimento e aprendizagem como áre as de
conhecimento dentro da Psicologia tem várias razões. Uma delas
re-sulta da sua própria história: existindo diferentes concep ções dentro
da Psicologia, as diferentes abordagens e correntes co locaram como
seus objetos de estudo fenômenos diversos, como você viu nas
leitu-ras anteriores sobre as escolas psicológicas. Assim, algumas dessas
es-colas estudaram o desenvolvimento (exclusiva mente ou não), outras
a aprendizagem, ou ainda outros fenôme nos (percepção,
inconscien-te etc.). A outra razão para essa divisão é didática, ou seja, facilitar o
estudo de cada assunto: em função da complexidade desses estudos,
torna-se necessário certo grau de especialização, que leva a essa
se-paração de áreas ou campos de conhecimento. Entretanto, a divisão
exis tente entre desenvolvimento e aprendizagem pode provocar o
es quecimento de que na vida real os dois processos ocorrem juntos
e se autodeterminam reciprocamente. Essa inter-relação ocorre de
modo tão marcante que, às vezes, para um estudo mais
esclarece-dor é preciso sair da vida real e levar os fenômenos para condições
especiais de pesquisa, como aquelas presentes em laboratórios.
Dentro da Psicologia existem várias
teo-rias, tanto sobre desen volvimento como
sobre a aprendizagem, embora nenhuma
de las dê conta sozinha da complexidade
desses fenômenos, nem seja
completa-mente aceita ou capaz de unificar a área.
Vamos conhecer algumas dessas teorias
para termos uma visão mais abrangente
desses fenômenos, e buscaremos
apresen-tar aqui uma síntese sobre aque las teorias
que têm maior repercussão na edu cação
e que podem ser instrumentos para uso
efetivo na nossa atuação cotidiana.
Nossa intenção aqui na disciplina é apresen tar a você os processos
de desenvolvimento e de aprendizagem de maneira diferenciada
da que é empregada usualmente, ou seja, na medida do possível
não os trataremos como fenômenos separados. Trabalhando dentro
da concepção de interação, entende-se que aprendizagem e
desen-volvimento estão juntos durante a vida dos sujeitos, um embasando
o outro, num constante movimento de interdependência. A visão
tradicional sobre desenvolvimento e aprendizagem, além de não
discutir os dois fenômenos e sua rela ção, apresenta mais uma
di-ficuldade, pois não explicita a concep ção de homem e mundo que
cada abordagem desenvolve. Vamos iniciar apresentando alguns
aspectos sobre desenvolvimento para, a seguir, tratar de teorias e
autores que colocam esse tema em destaque e, posteriormente, tratar
daqueles que dão destaque à aprendizagem.
3.2 Fatores e influências no
No documento
Psicologia Educacional: desenvolvimento e aprendizagem. Nicia L. D. da Silveira
(páginas 61-64)