3. METODOLOGIA
3.7. A ARTE CIRCENSE COMO RECURSO TERAPÊUTICO E
EDUCACIONAL
Para ensinar a linguagem corporal devemos ter claro que a alfabetização desse tipo de linguagem aconteceu durante a filogênese do homem. Assim, quando ele nasce já possui todas as capacidades e habilidades para se comunicar corporalmente, apropriando-se do mundo das ações por um método filogenético natural que é a imitação. O primeiro que aprendemos são as ações
dos que estão a nossa volta, dentro do grupo familiar. São aprendizagens de grande relevância, já que são as formas de comunicação e convívio dos progenitores, que passam a ser registradas em nossa memória com um alto grau de afetividade e, por essa razão impregnam-se no inconsciente de cada pessoa.
Para ir ao encontro da linguagem do corpo é preciso desenvolver todas as possibilidades do movimento corporal, o que exige a descoberta do próprio corpo pela via da sua sensibilização, ou seja, perceber os aspectos físicos e psíquicos do corpo e suas inter-relações (Brikman, 1989).
Nesta perspectiva, o indicado é saber o que sabe a criança daquilo que queremos que ela vivencie e assim utilizar esse conhecimento para aproxima-la do novo ou não vivenciado, pois na maioria das vezes o novo, não é mais do que uma variação do conhecido. Saber o que a criança sabe é o ponto chave da metodologia da apropriação e do ponto de partida da ação pedagógica, já que ponto de chegada, nesta concepção não existe.
Deste modo, as ações preventivas ou corretivas a propósito de os desvios do desenvolvimento dependem do conhecimento acerca da continuação normal e regular das aquisições motoras, que incidirá na base para a elaboração de propostas adequadamente ajustadas à situação de cada criança. O período em que a intervenção é proposta também necessita ser considerado. Nos primeiros anos de vida (primeiros 12 a 18 meses) existe uma maior plasticidade cerebral, o que consente a otimização de ganhos no desenvolvimento motor. Nessa expectativa, diferentes observações confirmaram haver melhora do desenvolvimento de habilidades motoras em crianças que receberam estimulação precoce. (Blauw & Hadders, 2005).
Para Hagedorn (1992, citado por Neistadt & Crepeau, 2002, p. 42), a Organização Mundial de Saúde define reabilitação como “... o uso combinado e coordenado de medidas médicas, sociais, educacionais e vocacionais para treinar o indivíduo até os níveis mais altos de sua habilidade funcional...”.
Análise de atividade é o desmembramento de uma atividade em suas tarefas componentes e avaliação do potencial terapêutico e relevância para o plano de tratamento; investigação dos componentes objetivos e subjetivos do desempenho.
Destacamos como foco da analise de atividade itens fundamentais presentes nas modalidades circenses aplicadas. Como princípio do programa de intervenção o planejamento motor e a praxia denotam o ponto de partida compreensão da função e da evolução dos sujeitos.
Para tratar da capacidade funcional do indivíduo, é fundamental compreender seu significado e relacionar os componentes nela envolvidos. Habilidade de desempenhar atividades de modo normal e aceito. Habilidade de exercer competentemente relações, ocupações e papeis requeridos pela vida diária.
Entre os itens que compõe as modalidades circenses aplicadas, estão os seguintes componentes: os sistemas sensoriais – vestibular, proprioceptivo e tátil; planejamento motor, controle postural, amplitude de movimento e alongamento, coordenação global – coordenação fina e destreza, motivação.
Sistemas sensoriais. A sensibilidade supre o sistema nervoso com informações que nos permitem desenvolver mapas exatos e confiáveis de nos mesmos e do ambiente. Os problemas com o sistema nervoso periférico diminuem a transmissão para o cérebro. A lesão do cérebro interfere na percepção, interpretação ou integração das informações sensoriais. (Neistadt & Crepeau, 2002). As avaliações sensoriais podem detectar déficits que podem interferir na segurança, controle motor, retreinamento motor, velocidade de desempenho e de forma mais importante, na função.
Segundo Perez, Casas e Bengoechea (1967, citado por Sanvito, 1996), a motricidade e a sensibilidade são duas funções essenciais do sistema nervoso e tão intimamente relacionadas entre si que constituem uma estreita unidade biológica, sendo meramente artificial a separação entre sensibilidade ou inervação aferente e motricidade ou inervação eferente. A sensibilidade geral não é patrimônio de órgãos nitidamente localizados e se encontra disseminada por todas as partes do organismo. Considera-se a sensibilidade proprioceptiva como aquela que se ocupa da posição do corpo no espaço e de mudanças, através dos movimentos.
Controle postural. O controle postural ou equilíbrio refere-se à capacidade de manter o centro da massa corporal ou uma parte do corpo sobre uma base estável ou móvel de sustentação (Crutchfield, Shumway-Cook, & Horak, 1989). A
postura é uma composição das posições de todas as posições do corpo em um determinado momento. É a posição estática assumida por qualquer parte do corpo, ou pelo corpo, em geral, que exige esforço muscular (Brooks, 1986, Fauber, 1991a, 1991b, Kendall, McCreary, & Provance, 1993).
O termo praxia designa a capacidade para usar os membros e o corpo em tarefas que exigem habilidade. A capacidade prática (o planejamento motor normal) compõe três fases: ideação: consiste em formar o conceito e em saber o que fazer; planejamento motor: consiste em organizar a sequência dos movimentos que compõe a tarefa; execução: refere-se à realização do planejamento do movimento em sequência e fluente. (Edmans et al., 2004).
A execução de determinado movimento exige um conjunto de comandos motores o que determina a força a direção e o momento oportuno para o movimento. Por exemplo, o planejamento motor para estender o braço e pegar um objeto pode ser usado para: alcançar e segurar um copo; uma lata ou ainda a mão de uma criança.
Recentemente, Norman (1981) ampliou o conceito do programa motor isolado para o esquema de ação; este abrange todos os componentes sensitivos e motores de uma atividade sequencial. O esquema de ação baseia-se na prática e na experiência. Ele é desencadeado pelos estímulos ambientais ou pela vontade do indivíduo.
A repetição do padrão motor de todas as atividades que o compõe leva à consolidação do esquema motor.
Mobilidade articular e amplitude de movimento. Mobilidade articular é a capacidade de realizar movimentos em certas articulações com apropriada amplitude de movimento (Barbanti, 2003). É a qualidade física que condiciona a capacidade funcional das articulações a movimentarem-se dentro dos limites ideais de determinadas ações (Tubino, 1984). A amplitude de movimento é o arco de movimento através do qual passa uma articulação.
A amplitude de movimento é o arco de movimento através do qual passa uma articulação. A estrutura articular e a integridade dos tecidos circunvizinhos determinam as direções e limites de movimento para uma determinada articulação (Pedretti, 1996, Trombly, 1995). É a amplitude máxima passiva fisiológica de um dado movimento articular (Araújo, 1999). Amplitude de
movimento é a dimensão do deslocamento do corpo ou de seus segmentos entre certos pontos, de orientação convencionalmente escolhida, expressada em graus e unidades lineares (Fanali, 1981).
Alongamento. O principal objetivo de um alongamento é conservar ou recuperar uma capacidade da amplitude de movimento. Pode ser muito diferente de uma pessoa para outra, segundo, por exemplo: idade, o modo de vida, e eventuais patologias (traumatismos ou reumatismos), entre outros. Ele pode também variar muito em uma mesma pessoa, de uma articulação à outra, ou simetricamente. (Calais-Germain, 1991).
Coordenação global. Coordenação fina e destreza: uma atividade motora útil, adequada e harmônica (coordenação muscular) exige a intervenção de mecanismos reguladores de alta complexidade. A coordenação muscular depende de um sistema funcional cujo embasamento é proporcionado pela sensibilidade profunda e cerebelo. Por intermédio da sensibilidade profunda, o indivíduo é constantemente informado da posição exata de cada segmento do corpo e de suas mudanças. (Sanvito, 1996).
A coordenação é a atividade combinada de muitos músculos dentro de padrões suaves e sequencias de movimento. O movimento coordenado caracteriza-se por ritmo, tensão muscular apropriada, tônus postural, refinamento ao número mínimo de grupos musculares necessários para produzir o movimento desejado, e o equilíbrio. A coordenação constitui uma resposta automática que é monitorada principalmente através do feedback sensorial proprioceptivo. O feedback sensorial visual e tátil, o esquema corporal e a capacidade de avaliar e movimentar o corpo através do espaço também afetam a coordenação global. (Mathiowetz & Haugen, 1995, Undziz, Zoltan, & Pedretti, 1996).
A destreza é um tipo de coordenação fina, geralmente demonstrada nos membros superiores (MMSS). As tarefas funcionais como abotoar, usar tesoura, manusear moedas e escrever, devem ser observadas quanto a facilidade, exatidão e regulação temporal do desempenho.
Motivação. A ocupação tem como alicerce a necessidade do homem em exercer suas capacidades e atingir certo grau de desenvoltura pessoal e desembaraço no seu ambiente (Reilly, 1962). A ocupação é intrinsecamente motivante; as pessoas se ocupam por elas mesmas – isto é, pela recompensa do
aprendizado, do controle e do domínio de uma técnica (Florey, 1969). A motivação intrínseca, que leva, à ocupação. Muda ao longo da vida; começa com a curiosidade, continua com a exploração, e prossegue com a capacidade de aprender e a motivação adulta para as conquistas pessoais (Florey, 1969, Reilly, 1962). Como resultado de uma ocupação sadia, temos a satisfação que experimentamos de nos descobrirmos capazes de atingir metas desejadas; isto é a base que nos motiva a engajar na ocupação (Burke, 1977). Quando a ocupação não é permitida ou prejudicada, este sentimento de competência é ameaçado. O interesse também serve de motivação para a ocupação. O conhecimento dos interesses de uma pessoa é a chave para saber como ela é individualmente motivada (Borys, 1974, Matsutsuyu, 1969).