CLAUDIA REGINA GONÇALVES GOMES ANTELLO E SILVA
A ARTE CIRCENSE COMO RECURSO TERAPÊUTICO E
EDUCACIONAL
Dissertação de Mestrado em Educação Física e Desporto Especialização em Desenvolvimento da Criança
UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO VILA REAL, 2012
CLAUDIA REGINA GONÇALVES GOMES ANTELLO E SILVA
A ARTE CIRCENSE COMO RECURSO TERAPÊUTICO E
EDUCACIONAL
Dissertação de Mestrado em Educação Física e Desporto Especialização em Desenvolvimento da Criança
Orientadores: Professora Doutora Eduarda Maria R. Teles de Castro Coelho Professora Doutora Alexandra Ayach Anache
UTAD Vila Real – 2012
Dissertação foi expressamente elaborada com vista à obtenção do grau de Mestre em Educação Física e Desporto, especialização em Desenvolvimento da Criança, de acordo com o disposto no Decreto-Lei 107/2008, de 25 de Junho.
DEDICATÓRIA
Um sonho... uma realidade! Fazer desta vida um lição, é tentar corresponder à dádiva Divina que nos é ofertada a cada amanhecer. Obrigada Senhor!
Dedico esta pesquisa aos meus avós maternos Domingos Maesano e Alessandra Portoghesi Maesano (in memoriam), por terem deixado um legado de valores humanos imprescindíveis para que a humanidade possa caminha na direção da igualdade, no amor ao próximo, na solidariedade e respeito.
Obrigada pelos ensinamentos espero fazer jus a eles no decorrer de minha existência.
Dedico também esta pesquisa a Associação Pestalozzi de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, Brasil, essa grande família que com dedicação e boa vontade me auxiliou na construção desta pesquisa.
A todos os participantes, agradeço e peço a Deus que sejam favorecidos com outras pesquisas porvindouras que visem seu bem estar, qualidade de vida e desenvolvimento enquanto cidadãos!
AGRADECIMENTOS
Obrigada aos meus pais pela “vida”, por ter nascido em um berço onde a arte embalou meu sono infantil, alegrou minha adolescência e com o resultado desta escola como adulta, meu coração se abriu para constituir a minha família, minha maior obra!
Ao Paulo Henrique, meu esposo, amor, segurança, respeito e dedicação, harmonia e exemplo como ser humano iluminado, pai e trabalhador incansável! Otimismo e determinação sempre a minha volta pronto a me acolher e acalentar.
À Maria Eugenia, filha primogênita, presente de Deus, que me ensinou o significado “ser mãe”, companheira amorosa e sincera, símbolo de um feminino valioso que veio me completar enquanto mulher! Profissional competente, menina e mulher – um grande coração.
Paulinho, filho querido seu nome proferido no diminutivo não dimensiona nem consegue transformar em palavras a grandiosidade da sua pessoa! Abraço de urso que com, equilíbrio, afeto e palavras sábias tem o dom de acalmar minha alma!
Ao Jeferson meu afilhado (síndrome de Down) que despertou em meu coração um eterno e sincero pacto de amor e amizade!
À Doutora Alexandra Ayach Anache, que me ensinou a dar os primeiros passos no mundo da pesquisa cientifica, agradeço imensamente pela atenção, dedicação e companheirismo, compreensão e exemplo! Em um dicionário se encontram palavras que pudessem ser utilizadas para descrevê-la, mas é com os sentimentos do meu coração repleto de admiração que quero guardar para a minha vida a sua presença!
À Doutora Eduarda, professora que em Portugal tão bem me acolheu, na qual identifico hoje características muito familiares de meu sangue português, orgulho-me por tê-la como orientadora. A fala e as maneiras, o dialogo sintetizado
porem rico. Agradeço a compreensão no momento em que solicitei credito para continuar à distancia durante minha licença de saúde.
Agradeço o incentivo e confiança depositada na realização de um trabalho realizado à distância, mas que espero atenda à excelência de sua pessoa e da universidade que representa.
ÍNDICE GERAL
1. INTRODUÇÃO ... 2
2. REVISÃO DE LITERATURA ... 6
2.1. ÍNDICE DE BARTHEL ... 8
2.2. CAPACIDADE FUNCIONAL – ATIVIDADES DE VIDA DIÁRIA ... 11
2.3. SABERES CIRCENSES – CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS SOBRE A ARTE CIRCENSE E PRIMÓRDIOS NO BRASIL ... 12
2.3.1. Modalidades Circenses Aplicadas ... 14
2.3.1.1 Malabarismo com bolas, argolas, claves e bastões ... 15
2.3.1.2 Acrobacia de solo e aérea ... 16
2.3.1.3 Equilibrismo – perna de pau ... 17
2.4. DESENVOLVIMENTO MOTOR ... 19
2.4.1. Desenvolvimento Motor Padrão ... 20
2.4.2. Desenvolvimento Motor Atípico ... 22
2.4.3. Desenvolvimento Motor com Base no Movimento ... 23
2.5. A DEFICIÊNCIA NO CONTEXTO DA SAÚDE E EDUCAÇÃO INCLUSIVA ... 26
2.5.1. Síndrome de Down ... 27
2.5.2. Deficiência Intelectual e Transtorno de Conduta ... 29
2.5.3. Disfunção Neuromotora ... 30
3. METODOLOGIA ... 32
3.1. DESENHO EXPERIMENTAL ... 32
3.2. TIPO DE PESQUISA ... 33
3.2.1. Tipo de pesquisa quanto ao nível ... 34
3.2.2. Tipo de pesquisa quanto à abordagem ... 34
3.3. PROCEDIMENTOS DA PESQUISA ... 34
3.3.1. Lócus da pesquisa ... 34
3.4. POPULAÇÃO E AMOSTRA ... 35
3.5. A EQUIPE MULTIDISCIPLINAR: IMPORTÂNCIA, FUNÇÃO E RELAÇÃO CONTEXTUAL ... 40
3.6. DEFINIÇÃO DE VARIÁVEIS ... 42
3.7. A ARTE CIRCENSE COMO RECURSO TERAPÊUTICO E EDUCACIONAL ... 42
3.8. PROGRAMA DE INTERVENÇÃO ... 47
3.9. ATIVIDADES APLICADAS POR MODALIDADE ... 49
3.10.PROCEDIMENTOS UTILIZADOS NA RECOLHA DE DADOS ... 53
3.11.INSTRUMENTOS ... 54
3.11.1.Instrumentos para a recolha dos dados ... 55
3.11.2.Instrumentos para o programa de intervenção ... 56
3.12.PROCEDIMENTO DE ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DE DADOS ... 79
3.13.CARACTERIZAÇÃO DA AMOSTRA ... 80
3.13.1.Componentes de desempenho requeridos nas aulas de arte circense ... 80
3.14.ANÁLISE ESTATÍSTICA ... 83
4. RESULTADOS ... 86
5. DISCUSSÃO ... 93
6. CONCLUSÃO ... 96
7. PROPOSTAS PARA INVESTIGAÇÕES FUTURAS ... 98
8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 100
ÍNDICE DE TABELAS
Tabela 1 - Síntese das informações do Grupo B (Síndrome de Down) ... 37 Tabela 2 - Síntese das informações do Grupo C (Deficiência Intelectual e
Transtorno de Conduta) ... 38 Tabela 3 - Síntese das informações do Grupo D (Disfunção
Neuromotora) ... 39 Tabela 4 - Combinação de modalidades por aula, período de agosto
2006 a dezembro de 2008 ... 53 Tabela 5 - Síntese as análise de atividade das modalidades circenses:
Malabares, Equilibrismo e Acrobacias – potencial terapêutico
dos exercícios e movimentos básicos ... 58 Tabela 6 - Potencial terapêutico e educacional da atividade Malabares –
bolas, claves, argolas e bastão ... 64 Tabela 7 - Potencial terapêutico e educacional da atividade Acrobacia de
solo ... 70 Tabela 8 - Potencial terapêutico e educacional da atividade Acrobacia
coletiva e aérea ... 71 Tabela 9 - Potencial terapêutico e educacional da atividade Equilibrismo
– perna de pau ... 76 Tabela 10 - Índice Barthel nas fases pré-teste e pós-teste para os Grupos
B (SD), C (DI/TC) e D (DN) ... 87 Tabela 11 - Pontuação para os domínios do Índice de Barthel do Grupo B
(SD) ... 88 Tabela 12 - Pontuação para os domínios do Índice de Barthel do Grupo C
(DI/TC)... 89 Tabela 13 - Pontuação para os domínios do Índice de Barthel do Grupo D
RESUMO
Para pessoas com deficiência a capacidade funcional, especialmente a dimensão motora, é um do importante marco da independência humana. Assim o objetivo deste estudo foi avaliar a capacidade funcional para realização das atividades de vida diária (AVD) de 45 sujeitos com deficiência, em dois períodos divididos em pré-teste – agosto de 2006 e pós-teste agosto de 2008 após a aplicação do programa de intervenção construído por meio de aulas de arte circense das modalidades: malabarismo; com bolas, argolas, claves e bastões, acrobacias: de solo (individual e coletiva) e aérea e equilibrismo em perna de pau.
Os sujeitos foram divididos em: Grupo B composto de 15 sujeitos com Síndrome de Down (SD), 15 sujeitos com Deficiência Intelectual e Transtorno de Conduta (DI/TC) que formaram o grupo C e outros 15 sujeitos com Disfunção Neuromotora (DN) que constituíram o grupo D. Foram pontuadas como variáveis independentes: gênero, idade, CID-10 (tipo de deficiência). Como variável dependente considerou-se a capacidade funcional para realização das atividades de vida diária dos sujeitos da pesquisa. Entre as variáveis dependentes estão as AVD constantes do Índice de Barthel: alimentação, banho, vestir, arrumar-se, eliminações intestinais, micções, uso do sanitário, transferência da cadeira para cama, deambulação e subir e descer escadas. Inicialmente os dados foram testados quanto sua distribuição. O teste estatístico utilizado foi o teste de Shapiro Wilk com nível de decisão alfa=0,05. Para os valores analisados se aceita a hipótese de distribuição normal p>0,05. Foram testadas as hipóteses de diferença dos valores do Índice de Barthel entre os grupos SD, DI/TC e DN. O teste t de Student com o mesmo nível de decisão. Os valores estão apresentados em média e desvio padrão.
O grupo B (SD) apresentou 60.3±5.8 pré-teste, 73.3±13.2 pós-teste tendo como teste t 0.0015 (valores estatisticamente significativos). O grupo C (DI/TC) pré-teste 57.7±7.0, pós-teste 74.0±13.0 com teste t 0,0013 (valores estatisticamente significativos). O grupo D (DN) pré-teste 51.0±16.6 e pós-teste 59.7±16.3 com teste t 0,0039 (valores estatisticamente significativos). O presente estudo mostrou por meio do Índice de Barthel – Avaliação da capacidade funcional para realização das AVDs; que a grande maioria dos sujeitos da pesquisa apresentou pontuação ≥ 60 que pondera grau leve de dependência para a realização das AVDs. A medição da capacidade funcional dos sujeitos foi realizada em domicilio pelo principal cuidador em dois períodos pré-teste – agosto de 2006 e pós-teste agosto de 2008 após a aplicação do programa de intervenção (por meio das aulas de arte circense).
Conclui-se que as modalidades circenses aplicadas no programa de intervenção por 22 meses, apresentaram potencial terapêutico e educacional para sujeitos com SD (Grupo B), DI/TC (Grupo C), bem como para sujeitos com disfunção neuromotora com quadro de comprometimento neuromotor leve e/ou moderado. Considera-se que nesta pesquisa foram avaliados 45 sujeitos com deficiência o que caracteriza 10% do total de 450 utilizadores da Associação Pestalozzi de Campo Grande, Estado de Mato Grosso do Sul, Brasil.
Palavras-chave: Arte Circense, Deficiência e Educação Inclusiva, Recurso Terapêutico,
ABSTRACT
For those with impaired functional capacity, especially the motor dimension, is one of the milestones of human independence. Thus the objective of this study was to evaluate the functional capacity to perform activities of daily living (AVDs) of 45 individuals with disabilities, divided into two periods in pre-test – August 2006 and post-test in August 2008 after the implementation of the program intervention built through circus art classes of juggling, balls, rings, keys and sticks, acrobatics: solo (individual and collective) and air and balancing on stilts.
The subjects were divided into group B composed by 15 individuals with Down syndrome (DS), 15 individuals with intellectual disability and conduct disorder (DI/TC) who formed the group C and 15 individuals with neuromotor dysfunction (DN) that constituted group D. Were pointed as independent variables: sex, age, ICD-10 (International Classification of disability). As dependent variable we considered the functional capacity to perform activities of daily living of the researched individuals. Among the dependent variables are listed in the AVD Barthel Index: feeding, bathing, dressing, grooming, bowel elimination, urination, using the toilet, transferring from chair to bed, and walking up and going up and down stairs. The data were tested for their distribution. The statistical test used was the Shapiro Wilk with decision level alpha = 0.05. For the analyzed values one accepts the hypothesis of normal distribution, p>0.05. We tested the hypothesis of the difference of the Barthel index between the groups of Down Syndrome (DS), Intellectual Disability and conduct disorder (DITC) and Neuromotor Dysfunction (DN). The test used was Student's t test with the same level of decision. Values are presented as mean and standard deviation.
The group B (SD) showed 60.3±5.8 pretest, 73.3±13.2 post-test and t test with 0.0015. Group C (DI/TC) pre-test 57.7±7.0, post-test 74.0±13.0 * 0.0013 with t test (significant values). Group D (DN) pre-test 51.0±16.6 and post-test 59.7±16.3 to 0,0039 t test (significant values). The present study showed through the Barthel Index – Evaluation of functional capacity to perform activities of daily living (AVD), that the vast majority of the subjects showed score ≥ 60 which considers points to indicates dependency to perform AVD. Measuring the functional capacity of subjects was performed by the primary caregiver at home at two periods: pre-test - August 2006 and post-test in August 2008 after the implementation of the intervention program (through the circus arts classes).
It is concluded that the procedures applied in the circus intervention program for 22 months, showed potential therapeutic and educational subjects with Down syndrome, intellectual disabilities and behavioral disorders, as well as for subjects with neuromotor dysfunction with signs of neuromotor impairment and light / or moderate. It is considered that this study evaluated 45 individuals with disabilities that features 10% of the total of 450 users of Pestalozzi Association in Campo Grande, Mato Grosso do Sul state, Brazil.
Keywords: Circus Arts, Disability and Inclusive Education, Therapeutic Resource, Global
1
I
NTRODUÇÃO“Acreditar em algo e não vivê-lo. É desonesto.” (Mahatma Gandhi, 1869-1948)
1.
INTRODUÇÃO
Há muito tempo a Ciência analisa a relação das experiências motoras dos indivíduos e o desenvolvimento destes. Profissionais das mais diversas áreas de conhecimento discutem teorias e reunindo perspectivas com a finalidade de viabilizar objetivos e tornar eficazes as intervenções. Assim, na tentativa de inovar a abordagem tradicional, tendo em vista a função humana, propõe-se nesta investigação responder a seguinte questão: Pode a arte circense alterar positivamente a capacidade funcional de sujeitos com deficiência?
A investigação A Arte Circense como Recurso Terapêutico e Educacional, apresenta aspectos quantitativos que permitem demonstrar por meio de sua medição características relativas à capacidade funcional dos sujeitos. Este parecer surge de um processo longitudinal caracterizado por pré-teste e pós-teste avaliados pelo Índice de Barthel (IB), preenchido em domicílio pelo responsável direto e/ou principal cuidador do sujeito avaliado.
Esta dissertação constitui o relato de uma experiência vivenciada por meio da atuação e observação direta como Terapeuta Ocupacional no projeto Circo Escola Especial com duração de 30 meses em parceria com a Secretaria de Programas e Projetos Culturais do Ministério da Cultura do Brasil – Programa Cultura Viva – Ponto de Cultura1 que como provedor de recursos orçamentários e financeiros viabilizou sua realização.
Essa investigação transcorreu durante 22 meses, como parte do projeto Circo Escola Especial tendo como lócus a Associação Pestalozzi de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, Brasil (APCG). Teve como objetivo avaliar a capacidade funcional para realização das atividades de vida diária (AVD) dos sujeitos com deficiência, foco desta pesquisa, em três períodos: anteriormente (pré-teste), ao longo do tempo e após (pós-teste) a aplicação do programa de intervenção (por meio das aulas de arte circense). As modalidades aplicadas
1 Ponto de cultura, nome dado aos locais onde foram desenvolvidas atividades culturais cujos
objetivos e propósitos tinham as mesmas características, o mesmo convênio e o mesmo financiador.
foram: malabarismo – com bolas, argolas, claves e bastões; acrobacias – de solo (individual e coletiva) e aérea; e equilibrismo em perna de pau.
Os 45 sujeitos da pesquisa apresentam-se divididos em três grupos: 15 com Síndrome de Down (SD) constituíram o Grupo B, 15 sujeitos com Deficiência Intelectual e Transtorno de Conduta (DI/TC) formaram o Grupo C e outros 15 sujeitos com Disfunção Neuromotora (DN) constituíram o Grupo D. Os grupos foram organizados anteriormente a data da pesquisa e assim permaneceram até sua conclusão.
O IB empregado nesta pesquisa constitui um dos instrumentos mais utilizados para investigações e na prática clínica visando avaliar a capacidade funcional do indivíduo, ou seja; as AVD. Segundo a Organização Mundial da Saúde (2003, citado por Farias & Buchalla, 2005), a funcionalidade deve ser entendida como termo genérico para as funções e estruturas do corpo, atividades e participação, indicando os aspectos positivos entre a interação entre um indivíduo com uma condição de saúde e seus fatores contextuais, sejam eles ambientais ou pessoais.
Durante o percurso investigativo, o IB foi utilizado para mensurar a capacidade de realização de 10 atividades da vida diária para quantificar o grau de (In)dependência funcional dos sujeitos da pesquisa. As escalas foram preenchidas pelo cuidador principal de cada sujeito em dois períodos: pré-teste (inicialmente em agosto/2006) e após a aplicação das modalidades circenses (em agosto de 2008).
As modalidades circenses foram apresentadas com suas definições, metodologia circense, equipamentos específicos e atividades aplicadas. Cada modalidade foi analisada em seu potencial terapêutico e educacional por requisito sensorial e motor que conjuntamente estão condicionados a realização das atividades e ao objetivo desta investigação.
Duprat (2007), sobre a atividade circense como possibilidades e perspectivas para a educação física escolar, demonstra que o enfoque de seu trabalho de pesquisa não esta na formação profissional, mas na compreensão da real possibilidade e dos benefícios estabelecidos na relação da arte circense e educação física por considerá-las manifestações da cultura corporal; pela imensa possibilidade de movimento, desde os mais simples até os mais complexos,
individuais ou em grupos, com ou sem aparelhos, propiciando ao aluno uma grande diversidade de experiências motoras e sensoriais. Uma forma a mais de se compreender o corpo que se movimenta e se expressa.
Segundo Frug (2001), a motricidade humana, além de ser um processo adaptativo, evolutivo e criativo, é uma expressão práxica de um ser “carente” dos outros, que não existe sem o “outro” numa interação.
Fonseca (1999, p. 91-92) assegura que
Operando em termos sistêmicos ao longo do desenvolvimento motor, este processo tende a organizar-se de forma trifásica, desde a imatura que culmina na apropriação da postura, até a matura, que atinge a sua excelência funcional com a praxia, algo que tem a ver não só com a mielinização, como com a sinaptogênese decorrente das importantes interações dinâmicas com o mundo envolvente.
Para Hagedorn (2001), a forma de intervenção parte da análise das atividades, portanto as modalidades circenses aplicadas foram a trilha percorrida para a evolução da motricidade. Assim as modalidades da arte circense propostas nesta investigação foram dirigidas como recurso terapêutico e educacional com base na competência profissional do Terapeuta Ocupacional.
Ao Terapeuta Ocupacional compete entre outras atribuições avaliar a capacidade funcional do ser humano e as mais diversas possibilidades de movimento proporcionadas por meio dos recursos terapêuticos utilizados em sua prática profissional.
Fontes de pesquisa diversas influíram no entrelaçamento dos temas e foi na pedagogia circense que se encontrou os indicativos necessários para a formulação deste conceito construído no decorrer do percurso investigativo.
As modalidades circenses conteúdo do programa de intervenção desempenharam o papel de estimular sensorialmente provocando motoramente a mobilização de estruturas ou descoordenadas ou em desuso por longo tempo. Foi entrevendo conceitos e definições isoladas que passamos a agregar àquelas que aludidas conjuntamente apontariam para o argumento inicial da pesquisa como indicador empírico do caminho a seguir. As alterações positivas na capacidade funcional dos sujeitos foram sendo observamos e sublinhadas acenando como predecessores os aspectos envolvidos no planejamento da ação motora. Preparação biofisiológica para a função humana.
2
2.
REVISÃO DE LITERATURA
Mencionando autores que trabalham em áreas do conhecimento correlatas, pode-se sugerir como pesquisa pré-existente, por exemplo: Costa e Tiaen e Sambugari (2008a, 2008b), nesta pesquisa, afirmam em suas considerações finais que apesar das atividades circenses não fazerem parte da realidade da maioria das escolas, é mais uma importante ferramenta para os profissionais de educação física, uma vez que é uma atividade diferente das outras, o que causa motivação dos alunos, e proporciona o desenvolvimento de capacidades físicas, de lateralidade, concentração, e muitos outros conteúdos explorados nas aulas da mesma.
M. A. C. Bortoleto (2003) apresentou uma breve discussão sobre a legitimidade e relevância das atividades corporais de tipo expressivo, (arte circense) nas aulas de Educação Física, assim como seus possíveis âmbitos de aplicação no contexto extraescolar. Com a atenção focada na modalidade equilibrismo em perna de pau e a importância de conhecimento de fundamentos necessários para a aplicação desta atividade.
Duprat (2007) demonstra que o enfoque de seu trabalho de pesquisa não esta na formação profissional, mas sim na possibilidade de ofertar esses conhecimentos, integrante da cultura corporal universalmente produzida, como conteúdo regular da disciplina de educação física. Enfim, defende a presença das práticas circenses nas aulas de educação física, por diferentes motivos: por compreendermos a real possibilidade e os benefícios estabelecidos na relação da arte circense e educação física; por considerá-las manifestações da cultura corporal; por sua riqueza de possibilidades de movimento, desde as formas mais simples até as mais complexas, individuais ou em grupo, com ou sem aparelhos, propiciando ao aluno uma grande diversidade de experiências motoras e sensíveis; por ser uma das formas de compreender o corpo que se movimenta e se expressa; por acreditarmos no seu cunho educativo, conforme mencionado anteriormente, possibilitando ao aluno relacionar-se com seu próprio corpo e com os demais, permeado por valores estéticos, morais, éticos e culturais; por
proporcionar ao aluno vivências corporais únicas de expressão, perigo, criatividade, magia, encantamento.
Duprat (2007) reafirma que o trabalho produzido pode ser considerado um referencial para muitos outros e que por saber que muitos dos itens abordados podem ser mais explorados, entende que este estudo servirá como base para novas pesquisas e estudos esperando que novas ideias sejam discutidas e reformuladas por outros pesquisadores e estudiosos.
No artigo A Educação Física e os Portadores de Deficiência encontram-se unidos os dois temas, enfatizando a importância da atividade física no cotidiano da pessoa com deficiência, tratando de uma diversidade de esportes e atividades física, não pontuando exatamente associação da arte circense aplicada ao público com deficiência e sim ressaltando a importância do movimento corporal para ampliar as capacidades físicas do sujeito deficiente no âmbito esportivo (Conselho Federal de Educação Física, 2003).
Bertazzo (2010, p. 26), coreógrafo e grande conhecedor da arte da dança, entretanto exímio pesquisador do corpo e do movimento, afirma que:
... o ser humano possui inscrito em suas células um imenso leque de possibilidades de gestos que vão além dos objetivos funcionais e mecânicos. Os movimentos estão sempre atrelados ao universo afetivo e cultural, construindo pontes e representações entre as ações motoras e o mundo imaginário.
Investigando temas que a princípio pareciam desconexos; a funcionalidade, a deficiência e a arte circense, romperam paradigmas e delineados por teorias e pela vivência seguem em uma constante correlação que apronta esta dissertação.
Para alcunhar cientificamente esta pesquisa, fez-se necessário esquadrinhar o universo das avaliações preconizando capacidade funcional e deficiência encontrando no IB em Mahoney e Barthel (1965), a avaliação das AVDs que complementariam com exatidão o objetivo desta investigação. Medir a evolução no desempenho das AVDs em sujeitos com deficiência a partir de um programa de intervenção movido pela arte circense é antes inovador e proporcionou por meio de estimulação sensoriais respostas motoras mais adequadas.
2.1.
ÍNDICE DE BARTHEL
O IB é um instrumento que avalia o nível de independência do sujeito para a realização de 10 AVDs: comer, higiene pessoal, uso de sanitários, tomar banho, vestir e despir, controle de esfíncteres, deambular, transferência da cadeira para cama, subir e descer escadas (Mahoney & Barthel, 1965).
IB é um questionário que contém 10 perguntas que avaliam as atividades da vida diária, e dizem respeito à alimentação, à transferência, à toalete pessoal, ao uso do banheiro, ao banho, ao andar em superfície plana, ao subir e descer escadas, ao vestir-se e ao despir-se, à continência do esfíncter anal e à continência do esfíncter vesical. Um indivíduo é considerado independente se executa todas as atividades sem dificuldade. Executar uma atividade com pouca ou muita dificuldade já consta algum grau de dependência (Carrillo, Garcia, & Blanco, 1994).
É uma escala de fácil aplicação e interpretação e que possibilita avaliações periódicas que monitoram longitudinalmente o desempenho funcional do indivíduo sobre bases empíricas, considerando também os dados no âmbito quantitativo de avaliação do grau de independência nas AVDs. Na aversão original a pontuação da escala varia de 0-100 (com intervalo de 5 pontos) a pontuação mínima de zero corresponde a máxima dependência para todas as AVDs avaliadas, e a máxima de 100 equivale a independência total para as mesmas AVDs avaliadas. Esse índice apresenta valor máximo igual a 100 pontos, em episódio de independência total. Em situação inversa, o IB acusa pontuação zero e os sujeitos classificados com dependência total.
Sulter, Steen e Keyser (1999) consensualmente propõem que o escore 60 corresponda ao “ponto de viragem” entre dependência e independência. O mesmo autor afirma que com um escore acima de 60, pontua independência nos cuidados pessoais essenciais, como deslocar-se sem ajuda, higiene pessoal e controle esfincteriano. Com valores igual ou superior a 85, os indivíduos necessitam de mínima assistência em suas AVDs. Utilizada dessa forma; é considerado o instrumento mais adequado para avaliar a incapacidade para realização das AVDs. A pontuação obtida a partir de informações do cuidador
principal.
Em anexo modelo da avaliação IB.
Considerar as informações obtidas a partir do cuidador principal.
Na avaliação funcional IB considera-se como parâmetro para classificação dos valores os seguintes dados das ADVs:
1) Comer:
− totalmente independente Æ10;
− necessita de ajuda (para cortar a carne, pão, outros) Æ 5; − dependente Æ 0.
2) Banho:
− independente (entra e sai sozinho do banho) Æ 5; − dependente Æ 0.
3) Vestir:
− independente (capaz de colocar e tirar a roupa, abotoar e amarrar os sapatos) Æ 10;
− necessita de ajuda Æ 5; − dependente Æ 0.
4) Arrumar-se:
− independente (para lavar o rosto, as mãos, pentear-se, barbear-se e maquiar-se etc.) Æ 5;
− dependente Æ 0. 5) Eliminações Intestinais:
− normal (continência) Æ 10;
− episódios ocasionais de incontinência, ou precisa de auxilio para aplicar enemas ou supositórios Æ 5;
− incontinência Æ 0. 6) Micção:
− normal (continência) Æ 10;
− no máximo um episódio diário de incontinência urinária Æ 5; − incontinência Æ0.
7) Ir ao banheiro:
− -necessita de ajuda (para chegar ao banheiro, mas se limpa sem ajuda) Æ 5;
− dependente Æ 0.
8) Transferência da cadeira para a cama:
− cadeira independente de ir para a cama Æ 15;
− assistência física mínima ou supervisão de fazer Æ 10; − precisa de ajuda, mas é capaz de sentar-se apenas Æ 5; − dependente Æ 0.
9) Deambular:
− independente (anda 50 metros) Æ 15;
− precisa de ajuda ou supervisão de andar 50 metros Æ 10; − independente (usa cadeira de rodas sem assistência) Æ 5; − dependente Æ 0.
10) Subir e descer escadas:
− independentes (desloca-se para cima e para baixo) Æ 10; − necessita de ajuda ou supervisão para fazê-lo Æ 5;
− dependente Æ 0.
A leitura dos graus de dependência é realizada da seguinte forma: Total < 20 severo, 20/35 considerado grave ou totalmente dependente; total 40/55 classifica-se como moderado, semi-independente ou ainda o termo clássico necessita de ajuda para realizar a atividade; a pontuação ≥ 60 pondera-se grau leve de dependência ou ponto de viração e igual a 100, normal ou independente; (90 para usuário de cadeira de rodas).
Nesta investigação de foram testadas as hipóteses dos valores IB entre os grupos: Grupo B (SD), com idade média de 13,1 a 4,0 anos; Grupo C (DI/TC) com idade média de 11,5 a 3,9 anos; e Grupo D (DN) com idade média de 13,0 a 3,9 anos. Em relação ao gênero, cada grupo distribuiu-se em sete indivíduos do sexo masculino (46,7%) e oito do sexo feminino (53,3%).
2.2.
CAPACIDADE FUNCIONAL – ATIVIDADES DE VIDA DIÁRIA
Concordando com Guimarães et al. (2004), a capacidade funcional surge na atualidade como novo paradigma da saúde. Para operacionalizar esse entendimento compreende-se capacidade funcional em sua relação direta com a medida do grau de preservação da capacidade do indivíduo para realizar AVD.As AVD referidas no IB abordam o autocuidado, ou seja, alimentação, ter controle dos esfíncteres isto é, ser continente em relação às eliminações fisiológicas, locomover-se, tomar banho, vestir-se, usar o sanitário, subir e descer escadas. Fundamentando a relação entre AVD e arte circense, procurou-se entrever exemplos. Observemos a atividade relacionada à alimentação e preparação da refeição, tanto cozinhar alimentos como ingeri-los dependemos da sequência de ações motoras, porém é essencial a atenção também com a sensibilidade tátil.
É necessário o planejamento e a orientação da rotina em seu tempo e espaço quanto à distância dos utensílios como panelas e pratos e à pessoa, distância do talher entre o prato e à boca, tempo hábil para efetuar a atividade (ex.: antes de ir para escola – não estar apressado) a discriminação sensorial para identificação de quente e frio (como proteção e segurança), o tipo de preensão manual empregada para segurar alimentos, talheres, guardanapos, o fato de permanecer em pé ou em outra postura por determinado tempo, estar sozinho ou não enquanto realiza a atividade; entre outras. Nota-se que para esse resultado devem estar ativos os sistemas sensoriais. Sistema vestibular, tátil e proprioceptivo em primeiro plano, antecedendo (input) a ação motora (output).
Como capacidade funcional define-se a habilidade de desempenhar atividades de modo normal e aceito ou ainda a habilidade de exercer competentemente relações, ocupações e papeis requeridos pela vida diária. (Hagedorn, 1999). A incapacidade funcional é definida pela presença de dificuldade no desempenho de certos gestos e de certas atividades da vida cotidiana ou mesmo pela impossibilidade de desempenhá-las (Rosa, Benicio, Latorre, & Ramos, 2003).
desvantagem e incapacidade. Nem sempre esses vários termos foram claramente diferenciados. Em inglês, disability e handicap são quase sempre usados com o mesmo sentido e existe uma tendência de torná-los equivalentes nas mais diferentes condições. Uma sequência lógica seria:
a) Deficiência: uma condição patológica básica. A deficiência pode ser tão pequena que não interfere, materialmente, na capacidade funcional; ou existe a possibilidade de corrigir ou recuperar a função. Se a deficiência é grande e não pode ser corrigida, produz
b) Incapacidade: perda ou redução da capacidade funcional. Seu efeito depende das circunstâncias e necessidade do indivíduo. Pode chegar a c) Desvantagem (Handicap): desvantagem ou restrição da atividade
causada pela incapacidade. (Organização Mundial da Saúde, 2003). Incapacidade é um termo que caracteriza a perda ou lesão de um ou mais órgãos do corpo, com sua correspondente perda funcional. A redução da capacidade funcional de manter uma vida produtiva cotidiana. É resultado não apenas de danos mentais e/ou físicos como os dos ajustamentos do indivíduo a eles.
Incorporando os temas desta investigação passamos a Arte Circense, considerações históricas e primórdios no Brasil.
2.3.
SABERES CIRCENSES – CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS
SOBRE A ARTE CIRCENSE E PRIMÓRDIOS NO BRASIL
As artes circenses são expressões humanas que tem relação com a arte e não apenas o fazer esportivo. O Circo é o lugar que propaga essa arte, lugar onde embaixo de uma simples lona, picadeiro e artistas, nele há o principal... o encantamento, o sonho, a fantasia e a graça personificada pelo palhaço.
A seguir a historicidade da arte circense contextualizando esta atividade que já foi tida como ritualista, atlética, artística e cultural e é aqui apresentada contemporaneamente em contexto institucional e comunitário.
O marco do circo apareceu na Roma Antiga para indicar os locais em cenário circular onde sucediam shows públicos envolvendo corridas de carruagens e cavalos, combates entre homens e animais, duelos entre
gladiadores e desfiles de soldados bem-sucedidos nas batalhas. No formato geométrico dos circos romanos era expressa a compreensão da mencionada civilização ser o centro do mundo na antiguidade. Os espetáculos nobres que ocorriam em tais locais ostentavam riqueza e poder, mostrando ao público presente os povos conquistados convertidos em escravos ou desfiles de generais vencedores nos campos de batalha do império. (Andrade, 2006).
De acordo com Duprat (2007), a acrobacia foi a primeira amostra artística corporal do homem, além de uma forma de treino para os guerreiros de quem se determinava agilidade, flexibilidade e força. Com o tempo, essas qualidades se somaram a graça, a beleza e a harmonia. Além disso, é comum agregar a história do circo com os jogos na Roma Antiga. Os espetáculos do circo romano trouxeram sua procedência na religião, nas festas públicas que ofereciam corridas de carros e outras apresentações atléticas.
No século XVIII, segundo Torres (1998), já existia grupos de ciganos que chegaram fugindo da perseguição na Europa, e que apresentaram consigo a arte circense para o Brasil. Entre suas características incluíam-se a doma de ursos, o ilusionismo, as apresentações com cavalos, entre outras. O autor marca que existe relatos que eles utilizavam tendas e nas festas exposições artísticas, incluindo teatro de bonecos. Eles percorriam de cidade em cidade, e acomodavam seus espetáculos ao gosto da população local.
Foi constituindo-se como sinônimo de entretenimento garantido para as populações dos lugares mais distantes, onde quem sabe, não chegasse nem outro tipo de atividades de diversão, tornando-se um divulgador da cultura.
Não era privilégio de o público circense ser mira das críticas e tentativas de enquadramento em um tipo idealizado de comportamento. Entretanto, por ser “puro entretenimento, diversão sem compromisso e sem caráter educativo”, aquele espetáculo acabava por identificar e tipificar seu público como popular, sem nenhum compromisso com comportamentos civilizados, e anexos a atitudes barulhentas, selvagens e deseducadas.
Os versos de Arthur Azevedo (1855-1908), dramaturgo, poeta, contista e jornalista brasileiro, transpõem a imagem de uma plateia de circo agitada e indômita, com reações próximas das de um público que assistia a uma comédia, isto é, ambos os públicos eram parecidos, ou os próprios, e se divertiam muito.
(Castagnino, 1969).
No intuito de alcançar o encantamento do público, os artistas circenses necessitam desenvolver um processo de preparação específica, ponderadas a propósito de diversas perspectivas. A partir disto, torna-se imperioso entender que estes artistas carecem obter determinada performance para terem êxito em seus objetivos, justificando a admiração e entretenimento do público presente nas apresentações. Ao se encontrar com esses conceitos, tudo o que é arte e envolve os espectadores, pode ser proporcionado num espetáculo de circo. Por este fato, são inúmeras as modalidades proporcionadas que podem e devem ser inventadas e transformadas. Essas desenvolvem ao longo do tempo ao atender a demanda tecnológica e moderna, aderidas e oferecidas à sociedade.
Duprat (2007) assegura que os artistas circenses têm o prazer em presenciar uma emocionante e estável mutação e transformação dos movimentos de características não convencionais e habituais das atividades do circo. Neste significado, as práticas circenses podem ser as mais variadas possíveis, das quais serão destacadas as acrobáticas, malabarísticas e de equilíbrio.
A arte circense, mesmo tendo uma abastança cultural acrescentada ao longo dos tempos e detentora de uma vasta potencialidade pedagógica ainda não faz parte de fato do ensino formal ou oficial. No contexto educativo ainda é bastante restringido o número de experimentos envolvendo essas práticas, predominando, sobretudo as ações filantrópicas desenvolvidas por determinadas instituições que aproveitam o circo como meio para a inclusão social de crianças e adolescentes (Andrade, 2006).
A história da arte circense abriu possibilidades para que a sua utilização avance para além do entretenimento e seja considerada como meio de promoção da saúde, inclusive para pessoas com deficiência, pois sua magia encanta e motiva levando seus espectadores a mergulharem em um encontro com seu corpo, que ao mesmo tempo apresentam os limites e permite ultrapassá-lo.
2.3.1.
Modalidades Circenses Aplicadas
Segundo Lafourcade (1974), o processo de ensino constitui um conjunto de procedimentos estimulantes, orientadores e reguladores dos processos de
aprendizagem de um sujeito, concluindo-se que qualquer processo de ensino aprendizagem ou mesmo de treinamento deve seguir uma sequência ascendente de progressão da dificuldade, seja ela referente ao esforço físico, psíquico, técnico ou estético, além de respeitar a capacidade lógico-racional dos alunos implicados. Dentro de cada “modalidade”, os protagonistas desenvolvem ações motrizes particulares, além de existir a possibilidade de desenvolver uma ou várias técnicas corporais para realizar os movimentos segundo os distintos padrões de eficácia mecânica e estética.
Seguindo neste entendimento apresentar as modalidades circenses aplicadas fundamentará a compreensão sobre a natureza desta pesquisa.
2.3.1.1
Malabarismo com bolas, argolas, claves e bastões
O malabares é um número de origem chinesa, que exige muito reflexo. Nesse número são usados: claves, que são aparelhos em formato de pêra alongada com cabos que lhe servem de apoio, os malabaristas, costumam jogar para o alto sem deixar cair, três, quatro ou ainda mais de uma vez, usam-se também, bolas, argolas, chapéus, tochas acesas. (Militello, 1978, p. 114).
O malabarismo com claves é visto, de acordo com Dancey (2006), como sendo mais difícil do que o malabarismo com bolas. Essa afirmativa vem da prática de diversos malabaristas que afirmam nunca terem conhecido algum que tenha aprendido com claves sem passar pelo treino com bolas. Essa prática consiste em lançar e receber um ou mais objetos sem que o ato de manipulação individual seja interrompido. Isso significa que é preciso um domínio prévio do Malabares individualmente para logo a prática coletiva, seja ela em dupla ou com mais pessoas (Fouchet, 2006).
O posicionamento adequado é sempre manter um pé à frente. Um dos motivos pelos quais esta modalidade foi escolhida para compor o quadro de atividades aplicadas terapeuticamente, pois exige divisão e transferência de peso nos membros inferiores (MMII) (tarefa motora de equilíbrio constante).
2.3.1.2
Acrobacia de solo e aérea
A história da acrobacia se confunde com a história da humanidade, considerando que ela começa possivelmente com a busca pelo homem do domínio da natureza a partir do domínio de seu próprio corpo, uma vez que com o controle de seus movimentos e habilidades permite realizar outras tarefas fundamentais para sua sobrevivência (caçar, escalar e construir) e também para a dinâmica sociocultural (artesanato, música, dança, guerra e entretenimento) (L. C. Bortoleto, 2008).
Pontos comuns notados nas obras referenciadas nesta pesquisa é o fato das aulas de iniciação normalmente serem de acrobacia, que é a disciplina básica do circo. Seja Acrobacia de solo, coletiva ou aérea, acontece sempre sob a supervisão de no mínimo dois professores que dirigem os exercícios e promovem a segurança dos alunos.
Dentre as acrobacias de solo consideradas básicas, relativamente rápidas de serem aprendidas e realizadas com eficiência, está à Acrobacia de solo ou rolamento para frente e para trás, mais conhecido como cambalhotas. O rolamento para frente, ou ainda a “cambalhota”, é uma acrobacia elementar, de baixo impacto por manter o corpo próximo ao corpo e ser executada sem grandes necessidades energéticas ou condições corporais (físicas, emocionais, entre outras). Trata-se de uma rotação completa (360°) ao redor do eixo transversal do corpo, com contato quase permanente do corpo no solo.
Na modalidade Acrobacia de solo, também realizada em grupo, chamada então de acrobacia coletiva, alguns pré-requisitos são importantes: a estatura dos sujeitos deve ser compatível deve-se considerar a responsabilidade e discernimento do professor quanto à posição e à função de cada participante. Os artistas do circo impressionam por desafiar e parecer sempre vencer as leis da gravidade, fazendo, com que os consideremos prodígios fenomenais, ocupam lugares pré-definidos durante cada exercício, de acordo com sua estatura e capacidade física.
Na acrobacia aérea, segundo Desiderio (2003) o tecido acrobático é uma modalidade circense também conhecida como acrobacia aérea ou dança aérea,
são classificadas entre as atividades corporais, de mais fácil aprendizado dentre o grupo das acrobacias e equipamentos aéreos do circo, o tecido se molda ao corpo e se adapta às características físicas do praticante.
Para o aprendizado da acrobacia coletiva e aérea, todo conhecimento já adquirido pelo praticante, especialmente através da prática da Acrobacia de solo, devem ser aproveitados e ampliados facilitando o processo.
Uma boa técnica é aquela que permite executar uma acrobacia com precisão, e que possibilite ainda aprender acrobacias mais complexas como as acrobacias coletivas e aéreas.
2.3.1.3
Equilibrismo – perna de pau
No que se refere à literatura e à cultura circense, a perna de pau é considerada uma modalidade e não uma técnica circense, pois modalidade significa um tipo de prática dentro de um âmbito geral com características distintas em virtude das particularidades dos objetos materiais, do espaço e dos protagonistas.
Nas considerações pedagógicas da modalidade perna de pau, Aguado e Banegas (1989) ponderam que as características estruturais do objeto ou aparelho que garante a existência dessa modalidade circense, na qual se constitui a perna de pau, podemos deduzir que as ações motrizes emergentes nessa prática são essencialmente de equilíbrio. Isso não significa que dentro dessa prática não apareçam ações motrizes de outros tipos, como podem ser as coordenativas, expressivas, outras.
De maneira geral o equilíbrio dinâmico e instável (desequilíbrio constante) exige alternância do apoio dos pés. Deste modo além de desenvolver o equilíbrio e estimular positivamente a cinestesia (propriocepção) do praticante, a atividade regular da perna de pau pode ser uma importante ferramenta para alcançar outros objetivos pedagógicos, como o desenvolvimento de algumas qualidades físicas (força, resistência flexibilidade, habilidades motoras (coordenação, ritmo), afetivas (autoestima, capacidade de superação, confiança), sociais (trabalho em grupo, colaboração, respeito), e conceituais (segurança, progressão técnica e estética e de montagens coreográficas) (M. A. C. Bortoleto, 2008).
De maneira geral, ao praticar a modalidade de perna de pau, os participantes realizam ações motrizes de equilíbrio instável e dinâmico, ou de “desequilíbrio constante”. Ou seja, dada que a base de sustentação da perna de pau é bastante pequena, ocupando normalmente uma décima parte do tamanho de um pé adulto, significa que se manter em equilíbrio estático é praticamente impossível, somente observado em pessoas com muita experiência e em momentos concretos. Por isso, torna-se necessário estar constantemente regulando o equilíbrio. O equilíbrio de uma pessoa sobre uma perna de pau é bastante diferente de quando não está sobre ela, principalmente porque a orientação visual (distância do solo, tamanho e altura dos passos, ângulo de visão) e a falta de informação direta referente ao solo (cinestesia) são drasticamente alteradas em um espaço de tempo muito breve.
Também temos que considerar que, ao não existir contato direto dos pés com o solo (chão), todo o mecanismo proprioceptivo relacionado com o equilíbrio sofre importantes alterações, sem falar dos aspectos afetivos referentes à altura; pode-se afirmar que o equilíbrio tende a ser restabelecido em pouco tempo. Este período pode variar de alguns dias até algumas semanas, pois muitas são as variáveis (físicas, psicológicas, outras) que influenciam neste processo de adaptação. É certo que atualmente já existem modelos de pernas de pau que utilizam superfícies de apoios maiores, iguais ou superiores ao tamanho de um pé adulto, que permitem alcançar ou manter-se em equilíbrio estático (estável) com mais facilidade. No entanto, esta tecnologia ainda representa uma pequena parte da prática desta modalidade, principalmente pelo alto custo.
As primeiras experiências são as mais importantes. Qualquer queda ou trauma (físico ou psicológico) terá repercussões importantes no futuro, podendo inclusive provocar bloqueios ou medos que impeçam o desenvolvimento do aluno. Assim, parece que as primeiras ajudas devem vir diretamente do professor ou dos companheiros para que garantam uma completa segurança e satisfação dos praticantes. (M. A. C. Bortoleto, 2008).
Em reminiscência toda criança tem o circo como fantasia e mito, a criança cresce e essa ideia se expande, podendo tornar-se realidade. É com o intuito de apropriação do fazer humano que embasados no desenvolvimento motor busca-se prover o corpo mesmo diferente de movimento e de funcionalidade.
2.4.
DESENVOLVIMENTO MOTOR
Todo progresso do psiquismo, da criança depende do progresso da sua motricidade, daí a importância do desenvolvimento psicomotor como pré-requisito das aprendizagens simbólicas mais complexas que se irão seguir quando a criança abandona a pré-primária e se integra na escolaridade primaria, onde vai aprender a ler, escrever, contar e a pensar, isto é, vai ter necessidade de adquirir novos sistemas funcionais integrativos dados já não pertence a organização extrínseca (sensorial e motora) do cérebro, mas à sua organização intrínseca (Hebb, 1976, citado por Fonseca, 1999).
O desenvolvimento humano contempla um conjunto de conhecimentos que se consagram à compreensão de fenômenos relacionados com à ontogênese das etapas evolutivas e os ciclos de vida do indivíduo. Considerando o ser em tempo e espaço que se modificam teoricamente estas mudanças são fundamentadas nos aspectos biológicos, temporais, culturais e sociais.
Um aspecto que parece ser relevante para o pesquisador da área do desenvolvimento humano é a funcionalidade do sujeito, para este fim observar as fases iniciais da vida o que permite se detecte precocemente qualquer alteração durante a infância.
Quando se deseja focar no desenvolvimento atípico, o foco de análise provém da avaliação das etapas evolutivas esperadas no desenvolvimento da criança em relação ao quadro padrão da maioria. Esses eventos podem ser provenientes dos fatores genéticos desde os fisiológicos até as interações sociais e culturais mediante influência mútua dos níveis internos e externos ao indivíduo.
O desenvolvimento motor pode ser visto pelo desenvolvimento progressivo das velocidades de movimento, ou seja, a abertura para o desenvolvimento motor é dada por meio do comportamento de movimento observável do sujeito. Os movimentos para Gallahue e Ozmun (2005) podem ser diferenciados com estabilizadores, locomotores ou manipulativos, que se acertam na execução das habilidades motoras ao longo da vida.
2.4.1.
Desenvolvimento Motor Padrão
O desenvolvimento motor é um processo sucessivo e lento e, pelo acontecimento das modificações mais acentuadas acontecerem nos primeiros anos de vida, tem a tendência em se considerar o estudo do desenvolvimento motor como sendo apenas o estudo da criança. É imprescindível enfocar a criança, pois, enquanto são necessários cerca de vinte anos para que o organismo se torne maduro, autoridades em desenvolvimento da criança concordam que os primeiros anos de vida, do nascimento aos seis anos, são anos cruciais para o indivíduo. As experiências que a criança traz durante este momento determinarão, por grande extensão, que tipo de adulto a pessoa se tornará. Entretanto não se pode deixar de lado o fato de que o desenvolvimento é um processo ininterrupto que advém ao longo de toda a vida do ser humano. (Tani, Manoel, Kokubun, & Proença, 1988).
O desenvolvimento é um processo que acompanha o homem através de toda a sua existência. Entretanto entender o desenvolvimento de forma organizada e evolutiva, como um processo interativo e global, sensorial e motor, de sentimento e comunicação, percepção e fazeres, denota um amplo espectro do que poderá vir a ser cada indivíduo do nascimento a morte.
De acordo com Gallahue e Ozmun (2005) que reparte a etapa dos movimentos essenciais em três aprendizados: 1º) Estágio inicial: o importante é a primeira tentativa da criança de realizar um molde de movimento essencial; 2º) Estágio elementar: a criança abrange maior controle e melhor organização rítmica dos movimentos principais; 3º) Estágio maduro: é marcado o mecanicamente hábil classificado de efetivação controlada. Para que isso aconteça como é esperado, em algum tempo da vida, as crianças na maioria das vezes ingressam em uma prática de capacidades motoras transitória. No tempo transitório, o indivíduo começa se ajustar e a justapor agilidades motoras essenciais ao desempenho de habilidades individualizadas no esporte. As habilidades motoras essenciais, que foram desenvolvidas e refinadas para seu próprio benefício no estágio anterior, são aplicadas em brincadeiras, batalhas e em situações da vida habitual. As habilidades transitórias são simplesmente aproveitamentos de padrões de movimentos fundamentais, de algum modo, em formas mais
reservadas e mais complexas. O estágio transitório é um tempo estremecido para os pais e professores, bem como para as crianças.
Uma das características mais intrigantes do desenvolvimento humano, corriqueiro e motor, em particular, é que o desenvolvimento é marcado por extensa similaridade (universalidade) no comportamento motor da população e diversidade (variabilidade intra e interindividual) no seguimento do desenvolvimento. No entanto, a desenvolvimento das habilidades básicas, mesmo que de sua desigualdade devido a fatores culturais, apresenta uma sequência de desenvolvimento relativamente previsível no que diz respeito ao que é possível adquirir e quando. (Connolly, 1986).
A comprovação de que as transformações de desenvolvimento não cessavam no início da idade adulta, fez com que muitos estudiosos compreendessem que o desenvolvimento continuava ao longo de todo o curso de vida do ser humano. Ainda que de aparentemente evidente, essa constatação trouxe uma nova perspectiva para o entendimento do processo de desenvolvimento a partir da década de 1980, visualizando o desenvolvimento, em particular, o desenvolvimento motor, dentro do ciclo de vida como um fenômeno que envolve ganhos e avanços de performances motoras e, também, perdas e diminuições. Isto, no entanto, abrange uma mudança conceitual, de atitudes e, igualmente, de procedimentos metodológicos. (Roberton, 1977). Com base nesse fato acolhemos em nossa pesquisa sujeitos com deficiência já em fase adulta.
Um bom desenvolvimento motor reflete na vida porvindoura da criança nos aspectos sociais, intelectuais e culturais, pois ao apresentar algum problema motor faz com que a criança se refugie do meio o qual não domina, portanto deixando de desempenhar ou realizando com pouca frequência e terminadas atividades. A maior parte das crianças nasce sem problemas de desenvolvimento. As diferenças individuais entre elas são muitas, até mesmo características físicas, temperamento e personalidade; mas a sequência de desenvolvimento é bastante previsível. (Rtliffe, 2000).
Observando fisiologicamente o desenvolvimento motor, conclui-se que é o resultado da maturação e complexidade do sistema nervoso central, crescimento dos ossos e músculos, portanto, é desenvolvimento natural apresentada por crianças que cresçam em condições satisfatórias de estimulo sensório motor. Em
geral crianças em severas condições de privação, doenças e distúrbios não apresentarão condições de desenvolvimento padrão.
Assim expressou-se Amadou-Mahatar M’Bow, na época diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, na Conferencia Intergubernamental sobre Políticas Culturales en Africa, Paris, 1976:
Considerar a dimensão cultural do desenvolvimento equivale a reconhecer, em ultima analise que o desenvolvimento deve ter como objetivo último central o homem em si mesmo, isto é, harmonizá-lo com um espaço que magnifique sua existência em vez de limitá-lo. Com um tempo ajustado às suas necessidades e aos seus desejos, com uma cidade que o integre ao invés de rechaçá-lo, com uma comunidade solidaria e com um trabalho que lhe confira liberdade e dignidade, dando justa cabida à sua criatividade, em cuja virtude cada povo deve assumir sua identidade própria, enriquecendo-a e reiventando-a constantemente mediante atos, palavras e obras. Graças a inovação cultural, a tradição pode recuperar o fôlego, inserir-se na atualidade da vida e, inclusive, coadjuvar o desenvolvimento e o progresso. (Brikman, 1989, p. 106).
Prosseguindo o estudo tratará do desenvolvimento motor atípico, variante desse processo continuo passa por mudanças acentuadas, principalmente no primeiro ano de vida.
2.4.2.
Desenvolvimento Motor Atípico
Em meio às essenciais origens de atraso motor encontram-se: baixo peso ao nascer, distúrbios cardiovasculares, respiratórios e neurológicos, infecções neonatais, desnutrição, baixas condições socioeconômicas, nível educacional precário dos pais e prematuridade. Quanto maior o número de fatores de risco atuantes, maior será a possibilidade do comprometimento do desenvolvimento. (Mancini, Paixão, Silva, Magalhães, & Barbosa, 2000).
Tendo como conceito de “deficiência”: todo comprometimento da mobilidade, conciliação motora geral ou da fala, trazido por lesões neurológicas, neuromusculares e ortopédicas ou ainda por mau desenvolvimento congênito ou contraído, contudo o desenvolvimento motor atípico, não se vincula, obrigatoriamente, à presença de alterações neurológicas ou estruturais
(Associação do Deficiente Físico Vale do Rio Pardo, 2004).
Nesse significado, crianças com desenvolvimento motor atípico, ou que se apresentam com risco de atrasos, merecem atenção e ações específicas, logo que os problemas de coordenação e controle do movimento poderão se prolongar até a fase adulta. Além disso, atrasos motores habitualmente associam-se a prejuízos secundários de ordem psicológica e social, como baixa autoestima, isolamento, hiperatividade, dentre outros, que dificultam a socialização de crianças e o seu desempenho escolar. (Gilberg & Gilberg, 1989).
Em meio às razões que têm levado o interesse crescente pelos conhecimentos acerca do desenvolvimento motor, enfatizam-se: a) os paralelos existentes dentre o desenvolvimento motor e o desenvolvimento neurológico, com decorrências para o diagnóstico do crescimento e desenvolvimento da criança; b) o desempenho dos padrões motores no curso de desenvolvimento humano, com implicações para a educação da criança bem como para reabilitação de indivíduos com atrasos ou desvios de desenvolvimento; c) adaptação e estruturação de ambientes e tarefas motoras aos estágios de desenvolvimento, de forma a facilitar e estimular esse processo. (Connolly, 1986).
Para avançarmos neste estudo, coloca-se como fundamental a afirmativa de que quando se obtiver a identificação de desenvolvimento motor atípico, deve ser organizada uma intervenção ajustada na tentativa de estimular as áreas que apresentam atraso. Desse modo, carecem ser observados fatores como o tipo de intervenção (por terapeutas de diferentes especialidades ou até mesmo pelos pais), o período em que a intervenção será realizada e a duração da mesma. Hoje em dia, sabe-se que a intervenção nos primeiros anos de vida é mais eficaz. As experiências durante a infância são imperativas para alcançar a precisão da maturação cerebral e função neural. A capacidade de transformação do sistema nervoso em função de suas experiências foi reconhecida somente nas últimas décadas. Com isso, conclui-se que o sistema nervoso é passível de alterações induzidas por estímulos naturais. (Eickmann, Lira, & Lima, 2002).
2.4.3.
Desenvolvimento Motor com Base no Movimento
predecessor e complementar da linguagem oral. Quando falamos das necessidades motoras da infância, pensamos em capacidade de movimento, força motriz que faz parte da vida e da condição de seres vivos. Este movimento não é único e estável, evoluirá ao longo do crescimento e desenvolvimento da pessoa, condicionado pelo grau de maturidade e pela própria experiência do movimento. Devemos ter presente, por outro lado que quando a criança é capaz de realizar um novo movimento, ela o faz com base em uma experiência de movimento já adquirida.
O desenvolvimento desses padrões essenciais de movimento é de fundamental estima para o domínio das habilidades motoras. A atividade corporal adquire papel enorme na medida em que ela pode estruturar o ambiente adequado para a criança, oferecendo experiências, derivando numa grande auxiliar e promotora do desenvolvimento humano, em especial ao desenvolvimento motor e avalizar a aprendizagem de habilidades específicas nos jogos, esportes, ginásticas e dança. Para que estas desenvolturas sejam desenvolvidas é imperativo que se dê à criança chances de desempenhá-las. O movimentar-se é de ampla importância biológica, psicológica, social e cultural, pois, é por meio da execução dos movimentos que as pessoas interagem com o meio ambiente, relacionando-se com os outros, apreendendo a respeito de si, seus limites, capacidades e solucionando problemas. (Flinchum, 1982).
Gallahue e Ozmun (2005) proclamam que, para se alcançar ao campo de habilidades desportivas, é necessário um longo procedimento, onde os experimentos com habilidades básicas (movimentos fundamentais) são de vital valor. Na pré-escola, a criança de quatro a seis anos de idade abrange a etapa dos movimentos fundamentais, com o aparecimento de multíplices formas (correr, saltar, arremessar, receber, quicar, chutar) e suas combinações. As mudanças observadas nos estágios serão depositadas em forma de um aprimoramento das habilidades fundamentais e, melhor ação em sua combinação, o que irá marcar a passagem para a etapa seguinte, a dos movimentos catalogados ao desporto, ou especializados. Nessa etapa, os movimentos centrais vão servir de baseamento para os ajustes em destrezas desportivas, de modo que a desenvolvimento dos movimentos principais reveste-se da maior estima no modelo proposto.
probabilidade conceitual desenvolvimentista da Educação Física, os procedimentos que usam a análise do movimento e os paradigmas modernos da Fisioterapia Motora, percebeu-se que em uma equipe multidisciplinar tal relação fica legitimada na proposta comum dessas áreas de ampliar a capacidade do indivíduo de solucionar problemas motores considerando as influências das características individuais, da tarefa e do ambiente a respeito de o seu desenvolvimento motor.
Na técnica de reeducação do movimento, Bertazzo (2010) afirma que o sistema motor apoia-se no conceito da “fraternidade dos músculos”. O sistema motor em seu funcionamento ideal age como uma democracia em que um músculo equilibra e dá suporte à sustentação do outro. Distribuindo e equilibrando as forças, alcança-se a meta da coordenação motora. Se um músculo fica enfraquecido por longo período, os músculos vizinhos modificam seu modo de funcionamento para suprir o trabalho daquele que está enfraquecido, substituindo o movimento por um não natural.
Heymeyer e Ganem (2004) sustentam a proposição de que cada criança traz seu próprio jeito de aprender. Nos primeiros anos de sua vida, é por meio dos seus sentidos e da ação motora sobre o ambiente - ou seja, por meio dos seus esquemas de ação – que ela vai descobrindo o encanto de fazer acontecer.
Flehmig (2005, p. 9) põe em suas ressalvas gerais que:
A melhora estático-motora do neonato ate a idade adulta depende do amadurecimento do sistema nervoso central, sendo verificado por protótipos geneticamente formados (patterns of behaviour) e seus estímulos ambientais. Estes estímulos abrangidos pelos órgãos dos sentidos são replicados pelo cérebro como órgão de explicação e organização, com reações complexas que procedem automaticamente.
O desenvolvimento motor com base no movimento é tema concernente à capacidade funcional para realização das AVD. Nesta investigação em que se trata da arte circense enquanto recurso terapêutico e educacional, o movimento se manifesta e aprimora respectivamente com o estimulo dos sistemas vestibular, tátil e proprioceptivo. Esses sistemas incessantemente trabalhados nas modalidades circenses aplicadas.
holístico ao organismo visto pelo ponto de vista de suas desenvolturas, potencialidades e habilidades por meio do lúdico, da conscientização e sedimentação do aprendizado pela experiência. É por influência da ação corporal que se vive no mundo em relação à vivência real do ser. Para que se conclua o foco desenvolvimento motor na ótica da normalidade e de seus desvios, trataremos a seguir sobre à deficiência no contexto da educação inclusiva.
2.5.
A DEFICIÊNCIA NO CONTEXTO DA SAÚDE E EDUCAÇÃO
INCLUSIVA
Reunir os períodos de instabilidade e estabilidade no comportamento motor e as referentes descontinuidades e continuações de desenvolvimento após a idade adulta estabelecem percorrer por um caminho mais sombrio, pois os longos espaços de tempo entre um determinado comportamento e o aparecimento de outro, envolvem um obstáculo. Adicionalmente, a distância de tempo entre a idade adulta e a morte e as intermináveis possibilidades de interação com o meio ambiente, procedem num aumento da variabilidade interindivíduos, na medida em que o estilo de vida (incluindo o processo regular de atividade física, nutrição balanceada, entre outros) exerce forte influência no desenvolvimento motor dos indivíduos.
É natural observar a insuficiência do desenvolvimento do cérebro motor e sua independência nos indivíduos, que apresentam, ao mesmo tempo, insuficiência no desenvolvimento do cérebro psíquico. Por isso é observado com frequência a associação da debilidade motora com a debilidade mental (Levin, 1995).
A função humana permeada pelo fazer é parte importante e constituinte do dia-a-dia: podemos dizer que então que os indivíduos estabelecem suas habilidades motoras com base em sua ação no mundo.
Silva, Castro e Branco (2006) esclarecem a importância do convívio com a real deficiência e não somente com a deficiência apresentada em livros e artigos, para tanto seguindo nosso percurso, com base nos preceitos da atualidade, a International Classification of Functioning, Disability and Health (ICF) coloca as noções de "saúde" e "incapacidade" em uma nova luz. Reconhece que cada ser humano pode experimentar um decréscimo na saúde e, assim, experimentar algum grau de deficiência.
Deficiência não é algo que só acontece a uma minoria da humanidade. A ICF, assim, anula a experiência da deficiência e a reconhece como uma condição da experiência humana universal. Mudando o foco da causa para o impacto que coloca todas as condições de saúde em pé de igualdade que lhes permite ser comparada usando uma métrica comum – o parâmetro de saúde e incapacidade. A ICF leva em conta os aspectos sociais da deficiência e não vê a deficiência apenas como um fator "médico" ou disfunção "biológica". Através da inclusão de fatores contextuais, em que fatores ambientais estão listados na ICF permite aos registros do impacto do ambiente sobre o funcionamento da pessoa (Silva et al., 2006). Tratar das variadas deficiência, por classificação seria generalizar o ser humano, visto que um mesmo diagnóstico, ou classificação engloba características individuais e potenciais impares. Cada ser é único em capacidades e limitações, motoras e interacionais.
A seguir será apresentada a SD como anomalia cromossômica, seguida da DI e DN que serão apresentadas de acordo com a Classificação Internacional das doenças (CID-10).
2.5.1.
Síndrome de Down
A SD é a forma mais frequente de retardo mental causada por uma aberração cromossômica microscopicamente demonstrável. Apresenta como características clínicas: fenótipo distinto, que inclui retardo mental e uma face típica, é causada pela existência da chamada trissomia do cromossomo 21, uma
das anormalidades cromossômicas mais comuns em nascidos vivos. É sabido, há muito tempo, que o risco de ter uma criança com trissomia do cromossomo 21 aumenta com a idade materna. O Teste do Pezinho2 não faz diagnóstico de SD. (Brunoni, 2003).
O desenvolvimento motor mostra-se atrasado, da mesma forma que as demais áreas do desenvolvimento. A presença de graus importantes de hipotonia muscular seguramente contribui para este atraso motor. Todos os marcos do desenvolvimento motor surgirão mais tarde, com a idade media para sentar sozinho ocorrendo por volta dos 9 meses (6 e 16), andar por volta dos 19 meses. É evidente que um atraso no desenvolvimento motor da criança vai interferir com o desenvolvimento em outras áreas de atuação. O desenvolvimento social e emocional é área em que esta criança apresenta menor comprometimento, desenvolvimento cognitivo demonstra atraso considerável e a área da linguagem é a que apresenta em geral maior atraso. (Schwarttzman, 2003).
As pessoas com SD costumam ser menores e ter um desenvolvimento físico e mental mais lento que as pessoas sem a síndrome. A maior parte dessas pessoas tem retardo mental de leve a moderado; algumas não apresentam retardo e se situam entre as faixas limítrofes e médias baixa, outras ainda podem ter retardo mental severo.
O desenvolvimento motor destas crianças também é mais lento. Enquanto as crianças sem síndrome costumam caminhar com 12 a 14 meses de idade, as crianças afetadas geralmente aprendem a andar com 15 a 36 meses. O desenvolvimento da linguagem também é bastante atrasado.
Algumas das características físicas das crianças com SD são: achatamento da região posterior da cabeça, inclinação das fendas palpebrais, pregas de pele no canto interno dos olhos, ponte nasal aplainada, boca pequena e protrusão da língua, orelhas menores, hipotonia muscular, frouxidão ligamentar, mãos é pés pequeninos. Aproximadamente cinquenta por cento de todas as crianças com a síndrome têm uma linha que cruza a palma das mãos (linha simiesca), e um espaço aumentado entre o primeiro e segundo dedos do pé. (Casarin, 1993).
2 O Teste do Pezinho, obrigatório em território brasileiro, é um exame laboratorial simples que tem o objetivo de detectar precocemente doenças metabólicas, genéticas e ou infecciosas que poderão causar lesões irreversíveis no bebê, como por exemplo retardo mental.