A VIAGEM DA ESCRITA
A ARTE DE DIZER O OUTRO E A DE RECONFIGURAR CONTEXTOS
O narrador,194 ao instituir o ritual da escrita na sua narrativa, deu mostras de ter incorporado uma das práticas dos índios como experiência pessoal. Esse procedimento que atesta uma natureza performática, tendo em vista a recuperação de um comportamento do passado, me remete ao ensaio de Graciela Ravetti, denominado Narrativas performáticas.195
A ensaísta, em sua abordagem, se vale dessa expressão para designar determinados tipos de textos escritos, nos quais se insinuam traços literários que compartilham da natureza da performance, quer seja no âmbito cênico, quer seja no político-social. Segundo ela, os aspectos que ambas as noções compartilham implicam:
191 LÉVI-STRAUSS, 2004, p. 48. 192 LÉVI-STRAUSS, 2004, p. 48. 193 LÉVI-STRAUSS, 2004, p. 48.
194 A figura do narrador, entendida como categoria textual no universo da ficção, é a que se incumbe da
enunciação do discurso. Gérard Genette define o narrador segundo sua relação com a diegese (história narrada), classificando três tipos básicos de narradores: heterodiegético, autodiegético e homodiegético. O narrador heterodiegético é onisciente, sabe tudo sobre as personagens e exprime-se em terceira pessoa. Portanto, possui autoridade em relação à história que narra; o autodiegético é aquele que se exprime em primeira pessoa, confirmando sua presença como narrador-personagem. Este conhece ou finge conhecer tanto quanto as personagens. Utilizando-se do monólogo, ele narra a sua própria experiência como personagem central da história. O homodiegético é o narrador que finge saber menos que as personagens. Participando como personagem de uma história, dela retira as informações de que precisa para construir seu relato. Figura- se como testemunha ou como personagem solidária com a personagem principal. (GENETTE, 1995).
A exposição radical do si-mesmo do sujeito enunciador assim como do local da enunciação; a recuperação de comportamentos renunciados ou recalcados, a exibição de rituais íntimos; a encenação de situações da autobiografia; a representação das identidades como um trabalho de constante restauração, sempre inacabado, entre outros.196
A partir desse quadro, é possível constatar, pelo que veio sendo assinalado, até aqui, sobre o processo da escrita do enteado, que ele transita com flexibilidade por estes pressupostos. Pelo investimento no ritual da escrita é dado perceber o quanto ele está transmutado pela cultura indígena. Através desta manifestação, ele traz o outro, deixando entrever traços culturais já incorporados. De igual modo, a rememoração, que culmina com a escrita, promove a irrupção de marcas, de intenções, de medos que lhe sulcaram o íntimo, os quais acabaram por se condensar na narração.
Assim, quando o narrador transporta o conteúdo experienciado para a instância do ficcional, dada sua impossibilidade de retomar esse passado no seu sentido primeiro, os fatos e lugares por ele mencionados resultaram “dotados de novos significados políticos e culturais”.197 Na verdade, ele lida com fragmentos do passado que lhe sobrevêm em forma de
lembranças de gestos, vozes, costumes etc., pertinentes àqueles que fizeram parte do seu ontem. Essa sua maneira de atuar remete-me ao que está sendo pontuado por Graciela, no que diz respeito ao procedimento de escritores latino-americanos e outros, oriundos de territórios que ostentam memória do passado colonial. Segundo a ensaísta, esses escritores apresentam um “comportamento performático, procedente da obrigação de se reafirmar e se solidificar em uma língua particular, ainda que de maneira plural e provisória, entre as cinzas de uma tradição que, mesmo que mal se conheça, pretende-se conhecer [...]”198
Analisar as propriedades que os fatos adquirem, quando transportados para o âmbito ficcional e ao público, condensados de marcas pessoais, pois delineados a partir de uma perspectiva subjetiva, é o que intenta a ensaísta, para determinar uma perspectiva performático-performativa.
Interessante é que essa atuação vem demarcando espaço em toda a América Latina desde os primórdios da colonização, conforme salienta a autora, ao pronunciar-se sobre algumas produções artísticas. Dentre estas, ela destaca um texto performático, a carta de
196 RAVETTI, 2002, p. 47. 197 RAVETTI, 2002, p. 47. 198 RAVETTI, 2002, p. 54.
Guamán Poma de Ayala,199 escrita por um ameríndio, andino, a qual constituía-se de desenhos e escritos, deixando transparecer posturas e reflexão por parte da cristandade que demarcou seu espaço na sedimentação da nova cultura. A ensaísta cita, também, outros escritos performáticos que denotam a interseção das duas culturas, o olhar do indígena sobre esse contexto, pelas vias da oralidade, que evoca o repertório de suas práticas como o canto, a dança, a pintura, a recitação de histórias dos antepassados e mitos, etc. Nessa composição de produções, ela inclui os livros Chilam Balam e Comentarios Reales e Historia General del
Peru, de Inca Garcilaso de la Vega.
Esse tipo de resgate da tradição e de traços culturais das sociedades latino-americanas tem-se intensificado, mais especificamente, nos planos socioculturais com a criação artística, através da narrativa, do teatro, da dança, da música, das artes plásticas, do cinema, viabilizando, assim, a reflexão desse passado e sua relação com o presente.
No que diz respeito à “performance escrita”, a ensaísta ressalta que esta atua “como um limite às elaborações ficcionais, como resposta aos mandatos identitários oficiais e é escutada / lida como convite a ir além do estipulado”.200 Nessa direção, uma de suas indagações gira em torno de saber o que sucede aos principais mandatos sociais, quando são devolvidos à circulação e submetidos a interpretações, sofrendo, assim, toda sorte de mudanças.
Dentro dessa configuração, ela destaca obras que são narradas em primeira pessoa e compostas a partir de uma perspectiva subjetiva que se evidencia na forma de crônicas de viagem, de relatos autobiográficos, demarcando, assim, a experiência pessoal, ou a de outros sujeitos, que tenha sido testemunhada. Nesse rol de produções, Graciela Ravetti situa a obra O
enteado, cuja narrativa fragmentada, lacunar, oriunda da rememoração de um passado impossível de restituir, se imprime a partir “de lugares e escritos “reais”: o lugar de origem do autor, o litoral santafecino na Argentina, e a imagem que se presta a uma leitura alegorizada do homem que [...] escreve memórias latino-americanas, como na época da Conquista”.201
199
A carta do andino Felipe Guamán Poma de Ayala, datada em Cuzco em 1613, fora escrita numa mistura de quíchua e espanhol rude, não-gramatical, e endereçada ao rei Felipe III da Espanha. Este manuscrito compunha-se de mil e duzentas páginas, das quais oitocentas eram de textos escritos e quatrocentas de desenhos de bico de pena legendados, com chamadas explicativas. Intitulada A nova crônica e bom governo e
justiça, no título já vinha entretecido seu objetivo: esta propunha uma nova forma de governo por meio da colaboração das sociedades andina e espanhola. No seu formato, ela iniciava com a reescrita da história da cristandade, para a inclusão dos povos indígenas, em seguida trazia a história e os modos de vida dos peruanos; incluía uma abordagem da conquista espanhola, na qual denunciava os desmandos dos espanhóis. Para finalizá-la, Poma de Ayala inseriu uma entrevista imaginária, convocando o rei a um bom governo. (PRATT,1999, p. 25.).
200 RAVETTI, 2002, p. 48. 201 RAVETTI, 2002, p. 55.
Assim, o autor traz uma visão do contexto das viagens e, mais especificamente, do desencadeamento do encontro/confronto das duas culturas.
O interessante é que o autor mirou esse passado, guardando a distância espaciotemporal, em virtude de ter procedido a essa leitura da Europa para o litoral argentino. Este gesto é consoante ao do narrador, uma vez que ele, também, depois de um bom tempo do seu retorno das Índias e de uma cidade do sul europeu, volta-se para o passado. Comumente vai-se encontrar na praia amarela, onde os colastiné despediam de seus companheiros e os aguardavam; contemplavam o firmamento, tentando identificar sinais; tomavam seus banhos; acendiam as fogueiras para suas celebrações e do enteado se apartaram.