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PERO VAZ DE CAMINHA E A ARTE DE PERSUADIR

REVISITANDO A VIAGEM E OS TEXTOS DO SÉCULO

PERO VAZ DE CAMINHA E A ARTE DE PERSUADIR

As lentes dos cronistas foram o filtro pelo qual a Península Ibérica imaginou as novas terras. Nos prólogos das cartas, eles já iam delineando o modo de recepção pela própria forma de argumentar. Assim procedeu Pero Vaz de Caminha, ao transmitir as boas-novas ao rei D. Manuel, pela relação de coisas vistas e experimentadas, dando-lhe a entender que, embora não se utilizasse de belas expressões para relatá-las, contudo, da sua parte, ele lhe garantiria toda a verdade.

Por esse argumento, verifica-se que Caminha fala de uma maneira que supõe alicerçar a fidelidade da sua palavra. A prova disto se constata na solicitação que ele propõe ao monarca, para que fosse levada em conta sua boa vontade no lugar da ignorância e, o retratado, por verdade. Assim, igualmente como Colombo, que permaneceu reticente por um bom tempo quanto à questão de Cuba ser ou não uma ilha e da terra “achada” ser ou não a Ásia, os cronistas concorriam com seus pontos de vista, tomando-os por verdades.

Caminha descreve os índios, cuidando de trazer sua impressão, marcada por uma mescla de sentimentos: o de admiração, pelos rostos e corpos bem feitos; e o de espanto, por vê-los despidos e destituídos da vergonha, da qual os portugueses se julgavam investidos.

Sob o crivo da ideologia religiosa, Caminha representa os índios, revelando-se na forma como os relata: eles andam nus sem nenhuma cobertura, nem gostam de cobrir suas vergonhas. E ressalta que sobre esta questão, eles guardam tanta inocência como a que têm em mostrar o rosto.67 No entanto, se à primeira vista, a nudez foi tomada pelos europeus como fruto da inocência e esta foi percebida, também, na facilidade que os índios tinham em lhes creditar confiança, posteriormente, esse aspecto se alterou.

Caminha deixa transparecer que a nudez passou a ser interpretada pelos portugueses não como um aspecto cultural, mas antes como ausência de valores que, por meio do próprio traje, se retratam. Embora os portugueses manifestassem seu encantamento diante da nudez dos corpos, eles julgaram-na como descompostura, atentando, com essa posição, para a urgência de catequizá-los. Nesse caso, se os portugueses falavam de ingenuidade era, também, para evidenciar outros aspectos como o relatado pelo cronista, que se queixa do petitório insistente dos índios. Ele se apropria da palavra “encarna”, para designar o desassossego que estes causavam, mediante a oferta de bugigangas.68

67 CAMINHA, 2001, p. 35. 68 CAMINHA, 2001, p. 41.

De igual modo, ele comenta que os índios, atraídos pelo diferente, promoviam a aproximação de outros que se aconchegavam aos portugueses na ânsia de conseguirem algo. Chegavam ao ponto de se envolverem nas atividades de abastecimento da nau com água, lenha ou da descarga de mantimentos sem serem convidados pelos portugueses.69 Estas informações delineavam a imagem de seres bem distantes do europeu.

Portador da civilização e oriundo da sociedade da escrita, o explorador não conseguia ler nas marcas e inscrições, trazidas nos corpos dos índios, como também nos adereços, nas máscaras e nas práticas performáticas entre cantos, danças e lutas, o registro de um saber e de uma tradição, porque essa realidade não lhes condizia.

Pelas cenas descritas, Caminha revela o outro, definindo o seu lugar de enunciação. Observador atento, guardava a distância do observado, pondo-se a registrar tudo de mais exótico ao olhar do ocidental. À medida que desvelava o outro, o cronista, o sujeito da escrita, se lia e se concebia diferente do objeto analisado. Essa dimensão pode-se constatar a partir de um dos primeiros momentos vividos pelos portugueses e os índios, ocorridos na nau capitânia, quando para ela dois foram atraídos. Nela se deu uma cena durante a qual evidenciou-se a tensão entre as duas culturas, cujas diferenças puderam ser divisadas.

Caminha comenta como os portugueses estranharam o comportamento de ambos, ao passarem por Cabral, uma vez que não lhe endereçaram qualquer cumprimento. Descreve sua passagem por eles com certa indiferença: assim, eles acenderam tochas, entraram e não fizeram nenhuma menção de cortesia, nem ao capitão, nem a ninguém. E um deles, ao observar o colar de ouro do capitão, começou a apontar para a terra e para o colar, dando a entender que nela havia ouro.70

Os portugueses, reunidos na nau, esperaram pela reverência dos índios e esta não veio. O apelo surdo ao comportamento idealizado, do qual Caminha é porta-voz, se evidencia quando os portugueses lhes ofertam alguns alimentos e estes, ao serem provados, são rejeitados pelos índios; quando aqueles mostram-lhes animais domesticados como carneiros e galinhas, e, destas, sentem medo. Ambos causaram mais surpresa, quando se estiraram ao chão sem anteparo e cobertura para dormir.71

Nessa instância, na qual se entrecruzaram as duas tradições e sistemas simbólicos, delineou-se tanto o limiar das duas culturas quanto a tentativa, da parte dos portugueses, de domesticar as diferenças em prol da unidade. E será num outro momento da carta que o

69 CAMINHA, 2001, p. 69. 70 CAMINHA, 2001, p. 36. 71 CAMINHA, 2001, p. 37.

cronista retorna a esse mesmo fato para cimentar sua opinião de que os índios eram desleixados. Ao comentar sobre o paradeiro dos dois índios, os quais foram recepcionados por Cabral na nau e sequer lá voltaram, o cronista interpreta tal comportamento como falta de consideração. Em contrapartida, é o mesmo cronista que quer dar conta ao rei de alguma habilidade deles, e ressalta como se estivesse atento a tudo: “[...] eu creo Senhor que nõ dey ajnda aquy conta avosa alteza da feiçam de seus arcos e seetas.”72

Com essa postura, ele tenciona passar à recepção a imagem de um observador lúcido que registra o quadro fiel da realidade, então destituído dos resíduos do seu olhar. Porém, quanto à suposta imparcialidade, sabe-se impossível.