A VIAGEM DA ESCRITA
O RITUAL DA ESCRITA
Auxiliado pela rememoração, o enteado constrói sua narrativa de forma fragmentária, consciente de que suas lembranças são duvidosas e incertas. Essa instabilidade perante um conteúdo lembrado, metaforicamente, acena para o período do dia em que ele se ocupava com a escrita: a noite. A essa imagem podem-se associar elementos como a ausência de luminosidade, a dúvida, a sensação incompreendida, a fantasmagoria, a expectativa da imagem por vir.
Durante o transcurso da escrita nem sempre o protagonista lida com lembranças agradáveis e na medida em que as marcas e sombras se insinuam, alterando-lhe o estado íntimo, ele busca contorná-las, ou melhor, interrompê-las com um procedimento similar ao efetivado pelos índios, quando necessário: a celebração do ritual. Para eles, sua ocorrência se dá em função da necessidade de mudança de estado ou condição e, também, de inserção em nova etapa da vida. Porém, antes de se pontuar o motivo que levou o narrador a se espelhar no ritual dos índios para elaborar sua escrita, faz-se necessário defini-lo na concepção dos índios. Buscando delimitá-lo de maneira sucinta, diríamos que o ritual é uma celebração que tem por finalidade repetir um gesto primordial, inaugurado por um deus indígena ou por um dos antepassados, no tempo da origem, assegurando-lhes, assim, a tradição. Através dos rituais, os índios não apenas imitam os gestos exemplares, mas recontam os mitos que são histórias da tradição.184 O interessante é que durante o momento em que eles se ocupam com atos importantes como o da alimentação, da geração, da caça, da pesca, da guerra, do trabalho e o da passagem para novas etapas da vida, ocorridas no interregno do nascimento à morte, se dá a abolição do tempo profano e a projeção deles no tempo mítico.
Outro aspecto, a ser ressaltado, é que o rito funciona como uma salvaguarda às situações de perigo. Assim, quando o índio depara com contingências que ameaçam o equilíbrio da vida social como a seca, o gado dizimado pela doença, o filho doente, ele próprio com febre ou malsucedido na caça, etc., ele se convence de que todas essas situações não dependem do acaso, mas de certas influências mágicas ou demoníacas. Logo, ele busca as celebrações para resgatar a ordem primeira. E é, justamente, nesse aspecto de salvaguarda que o enteado recorreu ao procedimento ritualístico. Em decorrência da tensão, proveniente de
184 Sobre o assunto é de fundamental importância a recorrência a Exumação da memória (tese de doutorado) de
Haydée Ribeiro Coelho e a outros dos seus ensaios que contemplam o universo indígena, constantes da bibliografia desta.
lembranças amargas, o narrador investe em repetições não de um gesto exemplar ou fundador como faziam os índios, mas de informações do seu estado presente, as quais se sobrepõem às cicatrizes, que se lhe apresentam “como estremecimentos, como nós semeados no corpo, como palpitações, como rumores inaudíveis, como tremores”.185
As frases, que se repetem de maneira diferenciada, demonstram um movimento intermitente temporal do narrador que ora se situa no passado, ora no presente, numa atitude de proximidade com a dos índios. Outra particularidade do procedimento ritual indígena, que se acentua no seu texto, é a busca da compensação de um acontecimento por outro. No seu caso, a inserção do momento presente se imprime em detrimento do da memória, que lhe devolve a lembrança ruim.
Como se não desse conta de estar reproduzindo um dos comportamentos do índio por meio da escrita, o enteado menciona a singularidade do gesto:
Toda mudança deveria ter compensação; toda perda, substituto. O conjunto deveria ser, em forma e quantidade, mais ou menos igual em todo o momento. Por isso, quando alguém morria, esperavam, ansiosos, o próximo nascimento, uma desgraça tinha que ser compensada por alguma satisfação e se, ao contrário, lhes sucedia algo agradável, até que não lhes acontecesse algum mal tolerável, que restituísse a situação a seu estado original, não ficavam tranqüilos. 186
Ao fazer esse tipo de demarcação no seu relato, o protagonista e narrador deixa implícito o quanto essa prática dos índios tem relevância para ele. Ele a utiliza como uma estratégia instauradora do equilíbrio, buscando, assim, compensar a imagem constrangedora que se irrompe no processo da rememoração. Nessa tentativa, ele deixa transparecer que retomar o passado significa buscar o entendimento de questões, ainda, não compreendidas. E é, justamente, no momento da sua maturidade que o enteado quer captar as vozes dos marinheiros, dos índios, do padre Quesada e, talvez, desfazer os hiatos como aquele deixado na sua mente pelo capitão, quando sua voz fora interrompida por uma flecha, enquanto expressava algo sobre aquela terra.
À procura de aproximações de cenas, tendo em vista a impossibilidade de recuperar os sentidos dos acontecimentos e dos espaços da experiência, uma vez que os mesmos já se encontram alterados na sua lembrança, o protagonista e narrador, ainda assim, retoma o passado com a finalidade de repensar sobre atitudes e intenções. Nessa direção, ele pontua:
185 SAER, 2002, p. 164. 186 SAER, 2002, p. 149.
“Se o que manda, periódica, a memória, consegue rachar esta espessura, uma vez que o que se filtrou vai se depositar, ressecado, como escória, na folha, a persistência espessa do presente se recompõe e se torna outra vez muda e lisa [...]”187 Portanto, ao realizar o ritual da escrita, o
narrador não repete o passado, apenas, apropria de seus vestígios para refletir sobre a tomada de novas direções e valores para o presente, tendo em vista a persistência desse passado na atualidade.
Relativamente à compensação de acontecimentos por outros, praticada pelos índios, Lévi-Strauss faz uma analogia interessante, na sua obra,188 entre duas atividades, a do jogo e a do ritual, alargando os horizontes da questão. Partindo do pressuposto que no ritual também se joga, ele evidencia em que condições ambas as práticas diferem. Segundo ele, o jogo tem suas regras estipuladas e, praticamente, um número indefinido de partidas que requer resultados diversos, o que não se dá com o ritual. Este se efetiva como “uma partida privilegiada, retida entre todas as possíveis”,189 em virtude de resultar do equilíbrio das duas
partes oponentes, no caso, o bem e o mal, o sagrado e o profano, morte e nascimento, etc. Com o intento de ilustrar sua argumentação, o etnólogo se vale do rito funerário dos índios norte-americanos fox, para retratar a jogada do ritual. A morte, como elemento perturbador da ordem vigente, leva-os a tomarem algumas medidas, para que possam se livrar da alma do defunto e, ao mesmo tempo, impedi-la de fazer vingança por não querer deixá-los. Para tanto, durante a celebração, os participantes fazem com ela um jogo. Convencem-na de que ela nada perderá com a morte, pois receberá tabaco e comida e, em compensação, eles passarão a contar com sua proteção. Dessa forma, os ganhadores desse jogo passam a ser os vivos.190 Livram-se do morto, agradando o seu espírito e assegurando-lhe uma situação privilegiada de ente protetor.
No que diz respeito ao jogo, Lévi-Strauss lança mão do exemplo dos gahuku-gamas, da Nova Guiné, pelo fato de ter sido adotado o futebol no seu país, para demonstrar como o concebem. Conforme salienta, eles jogam durante vários dias, tentando compensar a discrepância entre as partidas ganhas e perdidas. Pelo disposto, observa-se que estes jogadores buscam dar ao jogo o mesmo tratamento que dão ao ritual, apelando para o equilíbrio entre as partidas. 187 SAER, 2002, p. 69. 188 LÉVI-STRAUSS, 2004. 189 LÉVI-STRAUSS, 2004, p. 46. 190 LÉVI-STRAUSS, 2004, p. 46.
Nesse sentido, o etnólogo consente que o ritual caracteriza-se “de forma simétrica e inversa ao jogo”191 e é de caráter “conjuntivo”, pois promove a integração de duas séries
dissociadas como: “profano e sagrado, fiéis e oficiante, mortos e vivos, iniciados e não- iniciados etc.,192 levando-os a se colocarem do lado vencedor, o único. Já o jogo se afigura com caráter “disjuntivo”, pelo que resulta na “divisão diferencial entre os jogadores”,193 distinguindo-os entre ganhadores e perdedores.
Pelo que foi constatado, verifica-se que as duas práticas diferem no âmbito das coordenadas. Para o jogo estabelecem-se dispositivos a serem cumpridos de igual modo por ambas as partes, cujo resultado correrá ao sabor das contingências. Já o ritual se afigura como um jogo de cartas marcadas.