6 NO ALTO DO MOURA
6.2 TRANSVERSALIDADES ENTRE TEORIAS E PRÁTICAS
6.2.2 A arte figurativa de Vitalino versus as bonecas
Existe uma diferenciação, separação, entre os que fazem boneca (figuras 91 e 92) e os que fazem arte figurativa. As bonecas têm um papel essencialmente comercial e, embora elas não possuam traços morfológicos específicos da cultura local, atendem uma demanda maior que a arte figurativa, com amplitude também nacional.
Logo no começo de conversa Sr. Cícero fez questão de me explicar que arte figurativa é como eles se referem às peças inspiradas no trabalho do Mestre Vitalino, e confessou que vê uma relação tensa entre os artesãos em barro que não sabem fazer esse tipo de arte, e optam apenas pela produção de bonecas. No entanto, percebi que tanto Terezinha Gonzaga quanto Dona Griceu, que entre outras produções vendem principalmente as bonecas em suas lojas-ateliês, também as chamam de arte figurativa.
Figura 91: Bonecas expostas na loja de Dona Griceu. Fonte: a autora (2017).
Figura 92: Bonecas do Mestre Luiz Galdino. Fonte: Disponível em https://www.pan- horamarte.com.br/2017/07/bonecas-de-luiz-galdino-representam-mulher-brasileira/. Acessado em março de 2019.
A classificação separando os dois tipos de produções artesanais locais proposta por Sr. Cícero parece já demonstrar o respeito e a associação que o termo arte tem, exclusivamente, com as produções de Vitalino. O artesão disse que entende o retorno financeiro que as bonecas trazem, mas insiste que não concorda que um artesão do barro morador do Alto do Moura opte apenas por produzir bonecas e não aprenda a arte figurativa. Ele comenta que já chegaram a serem produzidas 14.000 bonecas por semana, feitas por meio de montagem, como ele chama. Ou seja, com o processo produtivo seriado, cada parte é feita por um artesão em seu ateliê. Segundo Sr. Cícero: “um faz o corpo no torno; outro a cabeça no molde de gesso; outro monta, faz os braços e queima”; e, por fim, outro pinta.
Já a peça de arte figurativa começa e termina pelas mãos do mesmo artesão, no máximo, alguns terceirizam a pintura. Ele explica que, por isso, a arte figurativa é mais cara, uma de suas obras com maior valor, o São Jorge, custa 300 reais, por exemplo. E que nos três meses de abril e junho chega a vender 200 peças por mês. Seus compradores são tanto o cliente direto quanto, o que ele chama de atravessador, ou o revendedor, aquele que compra a mercadoria para revender em outras lojas de artesanato.
Neste âmbito dos processos de fabricação está a preocupação de Seu Luiz Antônio, que a produção mais sistemática das bonecas dissolva a produção artesanal das obras remanescentes do estilo de Vitalino. Já o Sr. Elias Vitalino, diz
que modela seus Lampiões, Marias Bonitas e boizinhos ao lado da sua esposa que trabalha apenas com as bonecas, ele não vê tensão nisso e entende que cada um pode escolher como utilizar o barro.
Geremias Felipe, neto de Zé Caboclo e Dona Celestina, ou seja, neto e sobrinho (da Mestra Marliete) de referências atuantes na arte figurativa, fala com orgulho da história do barro na família e vizinhança e lamenta não ter aprendido a arte figurativa, assume que escolheu produzir bonecas por ter um retorno financeiro mais imediato.
No instante em que o conheci ele estava trabalhando, modelando apenas as cabeças das bonecas, que seriam revendidas para lojistas de diferentes localidades do país. Por isso, tive a oportunidade de conhecer o processo produtivo e comercial delas que, segundo ele, funcionam como um suvenir mais genérico do que a estética de Vitalino. Quando recebe a encomenda geralmente faz as cabeças e a montagem das outras peças. Relatou que embora trabalhe muito e chegue a vender 200 bonecas por semana o lucro é muito baixo. Ele consegue montar 100 bonecas por dia.
Para o torneiro ele costuma pagar 0,30 centavos por corpo, e na pintura 0,80 centavos, fora o seu trabalho de modelagem do rosto, braços e montagem, uma boneca de 12cm deve custar em torno de R$ 1,50 e é vendida no máximo por três reais. Portanto, para cada 100 bonecas Felipe lucra entre 50 e 150 reais. Perguntei porque ele não fazia arte figurativa, e de forma muito respeitosa, ele responde que não é qualquer um que faz, e lamenta não ter aprendido.
Todos me explicaram que a arte figurativa mesmo sendo produzida em grande escala tem apenas um artesão responsável, algum vizinho ou parente pode ajudar em alguma tarefa, como colocar no forno ou pintar. Mas, diferente da produção seriada das partes das bonecas, nenhum artesão faz primeiro as cabeças e depois os corpos de 200 bois que foram encomendados, por exemplo. Eu, com minha visão sistemática e pragmática, perguntei para todos qual o motivo de não tornar a modelagem das peças seriada, e também porque não existia um molde para a cabeça do boi, como existe para a cabeça das bonecas, a resposta foi unânime: porque não é assim que se faz arte figurativa.
Demonstrei curiosidade em saber como a produção das bonecas se desenvolveu no Alto do Moura. Falei que li algo sobre artesãos locais que reproduziram um modelo de boneca a pedido de turistas e continuaram a produção
a seu modo, o que gerou cópias com características diferenciadas93. Eles acreditam
nesse fato, mas disseram que além dessa história falam também que o artesão Luiz Galdino teria criado o tipo de peça e elaborado diversas variações, cuja versão é endossada pelo próprio artesão.
A primeira hipótese demonstra uma contradição à visão de identificação cultural do turismo, Cohen (1988) aponta também o seu potencial “autodestrutivo”: a presença dos turistas “destrói” o nativo. Essa afirmação se refere ao impacto e corrobora a ideia de que os nativos podem ter comportamentos passivos e que não há a possibilidade de negociação entre estes atores. Sobre isso, Noronha (2015) argumenta que:
a busca pelo outro é mútua. Com isso não quero dizer que nesta busca não haja conflito – há relações assimétricas de poder que precisam ser investigadas.
Desta forma, o conceito de autenticidade emergente, construído por Cohen é bastante profícuo para pensar as atualizações e as ressemantizações da produção artesanal, perante a negociação com o outro.
De uma forma menos isolada, a relação entre o turista e o nativo promove o processo de construção da identidade, a partir de referenciais externos, trazidos por atores também envolvidos na construção de um lugar de interesse turístico. Neste sentido, além da ideia de autenticidade encenada (MACCANNELL, 1989), a de autenticidade emergente, apresentada e defendida por Cohen (1988, p. 379) parece ser útil para a reflexão sobre a relação descrita acima.
Figuras 93 e 94: Modelagem das cabeças de bonecas por meio de molde. Fonte: a autora (2017).
Figura 95: Felipe produzindo cabeças de bonecas por meio de molde. Fonte: a autora (2017).