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1.4 5 QUADRO SÍNTESE

3.  AEROPORTOS: Os Desafios para o Desenvolvimento Urbano e Regional 

3.2.  INTEGRAÇÃO URBANA E REGIONAL DE AEROPORTOS 

3.2.1.  A ARTICULAÇÃO DE PLANOS, NORMAS E REGRAS 

 

Tendo  em  vista  os  desafios  impostos  por  projetos  urbanos  de  maior  porte,  torna‐se  relevante  a  harmonização  na  gestão  dos  marcos  regulatórios  aeronáuticos,  com  os  instrumentos legais e operacionais de planejamento e gestão da urbanização regional.  Essa  incontornável  consonância  implica  na  capacidade  de  atores  com  diferentes  responsabilidades  e  poderes  legais  agirem  de  maneira  articulada  com  o  objetivo  de  viabilizar projetos que considerem comuns. Em outras palavras, pode‐se dizer que sem  diálogo  entre  o  Operador  de  um  Aeroporto,  a(s)  Municipalidade(s)  e  os  Entes  Regulatórios Aeronáuticos, não se atende a pré‐condição da infraestrutura cumprir os  requisitos legais necessários para a sua existência e operação. 

 

No  âmbito  da  legislação  aeronáutica,  deve‐se  salientar  que  o  Código  Brasileiro  de  Aeronáutica  ‐  CBA,  responsável  pela  regulação  de  todos  os  aspectos  inerentes  à  atividade  aeronáutica,  enfatiza  em  seus  artigos2 43,  44  e  45,  a  responsabilidade  das  administrações públicas em compatibilizar suas leis de zoneamento e uso do solo, às  áreas  adjacentes  aos  aeródromos  e  às  restrições  impostas  pela  operação  aeroportuária.  As  restrições  estão  devidamente  especificadas  e  relacionadas  ao  uso  das  propriedades  quanto  a  edificações,  instalações,  culturas  agrícolas  e  objetos  de  natureza permanente ou temporária e tudo mais que possa embaraçar as operações  de  aeronaves  ou  causar  interferência  nos  sinais  dos  auxílios  à  radionavegação  ou        

1 Estudo do Setor de Transporte Aéreo do Brasil. Relatório Consolidado, 2010 (p.297) 

2 Disponível em: <http://www.dji.com.br/leis_ordinarias/1986‐007565/007565_1986_cba_043_a_046.htm> Acesso  em março de 2013. 

dificultar a visibilidade de auxílios visuais, podendo ser estas públicas ou privadas. Em  consequência ao não cumprimento: 

 

A Autoridade Aeronáutica poderá embargar a obra ou construção de qualquer  natureza que contrarie os Planos Básicos ou os Específicos de cada aeroporto,  ou  exigir  a  eliminação  dos  obstáculos  levantados  em  desacordo  com  os  referidos  planos,  posteriormente  à  sua  publicação,  por  conta  e  risco  do  infrator, que não poderá reclamar qualquer indenização. (Art. 45.) 

 

Como  exemplo,  sabe‐se  que  a  INFRAERO  desenvolveu,  em  2005,  um  Plano  de  Desenvolvimento  Integrado  dos  Aeroportos,  que  teve  como  objetivos  otimizar  a  utilização  da  infraestrutura  existente  e    potencializar  o  desenvolvimento  de  cada  unidade  aeroportuária  de  forma  sistêmica,  no  qual  cada  Aeroporto  opera  de  forma  integrada com os demais.  

 

Porém, na realidade pode‐se inferir sobre a eventual falta de reciprocidade tanto entre  os  próprios  aeroportos  quanto  entre  os  atores  envolvidos,  fato  que  se  evidencia  também na falta de sintonia entre Planos Diretores Municipais e Aeroviários, situação  que  pode  fomentar  conflitos  e  perdas  de  eficiência  que,  no  limite,  prejudicam  as  populações  locais,  particularmente  àquelas  que  acreditam  que  poder  usufruir  de  Aeroportos nas suas proximidades representa um fator de valorização e dinamização  urbana, econômica e social das suas regiões.  

 

Com  a  finalidade  de  procurar  minimizar  tais  conflitos,  a  INFRAERO  propôs,  segundo  Caldas  "um  instrumento  de  planejamento  para  Integração  Operacional  Urbana  dos  Aeroportos  que  prevê  o  desenvolvimento  de  ações  cooperativas  e  o  fomento  à  implantação  de  medidas  de  controle  de  risco  e  de  conflitos,  dentro  e  fora  do  sítio  aeroportuário, integradas com os Estados e Municípios. O escopo da proposta envolve  ações relacionadas ao controle do uso do solo, acessibilidade e avaliação do potencial  econômico  regional,  promovendo  atividades  técnicas  que  permitam  a  integração  do  planejamento  setorial  com  o  planejamento  urbano  local,  e  prevendo  o  assessoramento  técnico  e  o  gerenciamento  de  ações  necessárias  à  integração  aeroporto‐cidade.  O  plano  prevê  a  adoção  de  critérios  de  acompanhamento  de  resultados,  de  tal  forma  que  seja  possível  a  identificação  e  superação  das 

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inconsistências  entre  o  planejamento  aeroportuário  e  o  planejamento  territorial  municipal e regional, visando, desta forma, à harmonização entre os aeroportos e as  cidades.”  

 

Nessa mesma seara, em seu Relatório de Gestão (2010, p.165), a Infraero definiu como  Objetivo  Estratégico  PI‐11,  promover  a  Integração  e  o  Desenvolvimento  Regional,  Nacional  e  Internacional.  Utilizou  como  indicador,  o  número  de  aeroportos  com  processo de integração da Área de Segurança Aeroportuária ‐ ASA3 , do Plano de Zona  de  Proteção  ‐  PZP4 e  do  Planos  de  Zoneamento  de  Ruído  ‐  PZR5 ao  PDU.  O  resultado  esperado  foi  a  redução  do  número  de  ocorrências  de  colisão  de  pássaros  com  aeronaves  e  assegurar  todas  as  possibilidades  de  expansão  dos  aeroportos,  em  equilíbrio  com  o  desenvolvimento  urbano  de  suas  áreas  de  influência.  Para  tal,  a  Infraero  contou  com  a  implantação  do  Plano  de  Integração  Urbana,  o  PLIU  2010  e  alguns Municípios assinaram os Acordos de Cooperação Técnica (ACT).    É válido frisar que a Infraero considera importante, além da divulgação dos Planos de  Zona de Proteção ‐ PZP, que os mesmos estejam incorporados nas legislações locais e  para isso disponibilizou às administrações municipais todas as bases georreferenciadas  dos aeroportos por ela administrados. Outra colocação válida refere‐se aos derivados  da  proposta  de  cooperação  e  das  ações  integradas,  nesse  caso  entre  a  Infraero  e  as  administrações  municipais,  que  contribuem  para  a  encaminhamento  de  pendências  burocráticas,  como  exemplo,  àquelas  relacionadas  aos  processos  de  licenciamento  ambiental  dos  aeroportos,  geralmente  bastante  morosos,  cumprindo  assim  as  exigências do Ministério Público e outras autoridades fiscalizadoras. 

 

A questão da ausência de um diálogo eficiente entre gestores de aeroportos e gestão  municipal  e  o  descompasso  temporal  se  fizeram  presentes  na  implantação  do  PLIU  2010.  Nesse  caso,  os  resultados  foram  prejudicados,  de  acordo  com  a  Infraero,  pela  variação de tempo de negociação com as diferentes prefeituras envolvidas, as revisões         3 ASA ‐ Área de Segurança Aeroportuária, exige um raio de 13 ou 20 km, dependendo do tipo de operação realizada  no aeroporto (VFR ou IFR) definem‐se restrições à instalação de atividades de potencial de atração de pássaros.  4 PZP ‐ Planos de Zonas de Proteção, responsáveis por preservar condições de realização das operações de pouso,  movimentação e decolagem das aeronaves livres de obstáculos e da interferência de atividades incompatíveis.  5 PZR  ‐  Plano  de  Zoneamento  de  Ruído  considera  a  prevenção  da  instalação  de  atividades  e  usos  sensíveis  ao  incômodo provocado pelo ruído das operações aeronáuticas. 

ocorridas  na  priorização  do  planejamento  da  Empresa  e  as  demandas  externas  dos  órgãos  de  fiscalização,  fatores  que  interferem  diretamente  nos  resultados  e  são  de  difícil  previsão.  Mas  como  veremos  adiante,  muitos  são  os  desafios  da  integração  e  convergência de setores envolvidos. 

 

O  estudo  'Aeroporto‐Cidade‐Metrópole.  Políticas  para  uma  Gestão  Convergente'  realizado  pela  Prefeitura  de  São  Paulo  em  2004,  atenta  para  um  outro  entrave  em  potencial, relacionado a postura dos gestores das infraestruturas aeroportuárias que,  ao  não  discutirem  os  procedimentos  com  a  municipalidade,  tomam  decisões  unilaterais  e  as  executam,  sinalizando  que  podem  estar  prestes  a  cometer  mais  um  equívoco,  pois  ao  se  planejar  equipamentos  aeroportuários  desconectados  dos  sistemas  urbanos,  suas  necessidades  e  suas  demandas,  promove‐se  um  arranjo  estratégico difícil de ser eficiente, exigindo no futuro inevitáveis "remendos". 

 

O  mesmo  estudo  cita  dentre  as  consequências  dos  nomeados  "equívocos",  as  desapropriações  sem  planejamento  coerente,  como  ocorrido  em  Guarulhos,  onde  à  época  da  construção  do  aeroporto  internacional,  definiu‐se  uma  área  de  desapropriação  menor  para  o  sítio,  não  garantindo  espaço  para  uma  futura  terceira  pista. O equívoco porém vai além, de acordo com as Leis de Uso e Ocupação do Solo  do município de Guarulhos, Duarte observa: 

 

[...]  entre  1980  e  1990,  os  instrumentos  de  planejamento  urbano  dessa  cidade  foram  permissivos  em  relação  às  ocupações  urbanas  residenciais clandestinas e irregulares no entorno do aeroporto, e que  mesmo após terem se tornado mais restritivos em relação a esse uso,  a partir de 1990, o poder público municipal não impediu, ou não teve  condições de impedir, o adensamento populacional em zonas de usos  impróprias para ocupações urbanas residenciais e incompatíveis com a  operação  aeroportuária  do  principal  aeroporto  internacional  brasileiro. (DUARTE, 2013, p.9‐10) 

 

Inúmeros  são  os  exemplos  de  ocupações  irregulares  e  desordenadas  em  torno  de  aeródromos  espalhados  pelo  país,  deixando  claros  o  descaso  de  seguidas  administrações municipais e o não diálogo com  os gestores do setor aeroviário. Esse  tipo de ocupação,  além de ser fator limitador do crescimento futuro de aeroportos, ao 

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não  se  cumprir  as  regras  de  segurança  estabelecidas  nas  legislações  aeronáuticas,  expõe a população que lá se instalou aos riscos inerentes a atividade aérea. 

 

É fato que, embora os Aeroportos possam apresentar uma série de benefícios para a  população  residente  em  suas  proximidades,  essa  infraestrutura  também  impõe  uma  série  de  restrições  ao  aproveitamento  das  propriedades  localizadas  no  seu  entorno.  Diante  disso,  o  planejamento  do  transporte  aéreo  em  convergência  com  o  planejamento do solo reveste‐se de importância crucial, destacando‐se a relevância da  atuação dos municípios, via prefeituras, no controle e fiscalização da ocupação do solo  nas regiões próximas ao aeroporto. 

 

Como já exposto, os regulamentos voltados para o controle do uso do solo e as regras  aeronáuticas  existem,  estão  disponíveis  e  devem  ser  seguidos.  Esse  conjunto  de  normas  e  regras    implica  numa  série  de  restrições,  como  exemplo,  a  implantação  de  algumas  atividades  nas  áreas  adjacentes  aos  aeroportos.  Esses  usos  devem  ser  compatíveis  com  o  estabelecido  pelo  Plano  Básico  de  Zoneamento  de  Ruído  ‐  PBZR  pois alguns deles são conflitantes aos níveis de ruídos em determinadas áreas (Área I e  II)  próximas  ao  aeroporto,  como  escolas,  hospitais  e  mesmo  residências,  expondo  a  própria comunidade e comprometendo as condições operacionais do aeroporto.   

Relativo  também  aos  aspectos  legais,  outro  fator  a  ser  mencionado  refere‐se  a  segurança  operacional  dos  aeroportos.  Esse  fator  tem  sido  motivo  de  grande  preocupação  por  parte  da  Organização  Internacional  de  Aviação  Civil  (OACI)  que  implementou  um  Programa  Universal  de  Auditoria  em  Segurança  Operacional,  no  intuito  de  reduzir  riscos.  Nesse  sentido,  uma  questão  curiosa  porém  de  grande  impacto refere‐se ao Controle e Redução do Perigo Aviário. 

 

A  OACI,  em  seu  anexo  14  sobre  Aeródromos,  Volume  I  (Operação  e  Projeto  de  Aeródromos) em sua norma 9.5.4 determina:  

 

“A  autoridade  competente  tomará  medidas  para  eliminar  ou  impedir  que  se  instalem,  nos  aeródromos  ou  em  seus  arredores,  vazadouros  de  lixo  ou  qualquer  outra  fonte  que  atraia  aves,  a  menos  que  um  estudo  aeronáutico 

apropriado  indique  ser  improvável  que  tal  atividade  se  constitua  em  um  problema de perigo aviário.” 

 

Deve‐se  portanto  evitar  implantações  que  possam  se  tornar  focos  de  atração  de  pássaros  nas  áreas  de  aproximação  e  transição  de  aeronaves  nos  aeródromos,  como  matadouros, curtumes, vazadouros de lixo ou quaisquer outras atividades que possam  constituir riscos às operações aéreas e em consequência, à população residente nessas  áreas.     Abordados aqui temas como zoneamento e planos diretores, faz‐se importante antes  de darmos continuidade, terminar esta seção com uma valiosa observação de Villaça:   

Inúmeros  destacados  defensores  do  Plano  Diretor – técnicos e leigos – fazem  questão  de  diferenciá‐lo  do  Zoneamento.  Segundo  seu  pensamento,  o  Plano  Diretor  é  apresentado  como  um  instrumento  muito  mais  poderoso  e  abrangente que o Zoneamento. Este, mesmo que tendo objetivos de natureza  social  e  econômica,  só  se  refere  ao  controle  do  uso  do  solo  e  vem  se  executando  –  no  caso  de  São Paulo – através de leis autoaplicáveis. O Plano  Diretor, ao contrário, abrangeria todos os problemas fundamentais da cidade  inclusive  e  principalmente  os  de  transportes,  saneamento,  enchentes,  educação,  saúde,  habitação,  poluição  do  ar  e  das  águas,  e  etc.  E  até  mesmo  questões ligadas ao desenvolvimento econômico e social do município. Alguns  acreditam  mesmo  que  o  Plano  Diretor,  apesar  de  ser  aprovado  por  uma  lei  municipal, deveria abranger também problemas cujas soluções são das alçadas  dos governos estaduais e federal. (VILLAÇA, 2005, p.8)