1. O AEROPORTO E A CIDADE E A CIDADE‐AEROPORTO: Novos Modelos na Atualidade
1.3. AEROPORTOS NA ATUALIDADE
1.3.1.4. CORREDOR‐AEROPORTO
Outro modelo atualmente debatido é o Corredor‐Aeroporto, que segundo Mathis Güller6 (2012) o define como o desenvolvimento de áreas entre as cidades e os aeroportos. Para o autor, hoje em dia, essas regiões são peças chave para o desenvolvimento econômico de regiões metropolitanas, tais como Kuala Lumpur, Hong Kong, Berlin, Osaka e Amsterdam. Num ambiente de competição global, a capacidade de oferecer as condições certas para que empresas multinacionais sejam atraídas e se instalem se tornou uma competência fundamental para as cidades. Para além disso, os planejadores urbanos também tem que pensar em outros fatores importantes, por exemplo, no desenvolvimento de áreas residenciais que possam ser úteis para quem trabalha nessas empresas e regiões. Grandes cidades devem então começar a considerar os aeroportos como motores de desenvolvimento urbano.
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Entrevista de Mathis Guller, outubro de 2012, EPA Plaine de France. Airports corridors: a new era in the
development of our cities.
O Corredor‐Aeroporto é o lugar certo para empresas que atendem outras companhias muito dependentes de comércio e transporte aéreo, tais como sedes de multinacionais de grande porte, seus centros de pesquisa e desenvolvimento, assim como atividades logísticas de alto valor agregado, sem esquecer de centros de convenção e feiras comerciais.
Conforme Güller, são três os pré‐requisitos para o sucesso econômico de um Corredor‐ Aeroporto:
I. Acessibilidade: deve‐se criar e manter infraestrutura de transporte necessária para dar suporte ao desenvolvimento para a região;
II. O Corredor deve oferecer áreas para desenvolvimento imobiliário misto, combinando locais para escritórios, centros de alta tecnologia, hotelaria e estadia temporária, atividades agrícolas e instalações públicas e;
III. Os Corredores‐Aeroporto dependem de uma gestão integrada de todos esses espaços urbanos e econômicos.
Localizados entre a Cidade e o Aeroporto, os Corredores‐Aeroporto estão direcionando forças de desenvolvimento urbano, o que acaba representando um desafio para gestores públicos eleitos e operadores.
Tal como defendido pelo Schiphol Group7, é frequentemente caracterizado como uma espinha dorsal planejada estrategicamente pelo Poder Público, que liga o aeroporto ao centro da cidade, atendida por toda infraestrutura de trens ou rodovias e empreendimentos imobiliários. Esse tipo de desenvolvimento normalmente ocorre como produto de ações conjuntas entre empresas públicas e privadas, autoridades aeroportuárias, incorporadores privados e instituições públicas. (SCHAAFSMA apud SCHLAACK, 2009, p.116).
7 Operador da infraestrutura da Aerotrópolis de Amsterdã, na Holanda. Vide item 1.4.1 desta Dissertação, com todos os detalhes.
O Corredor‐Aeroporto tem seu foco voltado para o desenvolvimento imobiliário planejado e integrado entre a cidade e o aeroporto e se manifesta através do desenvolvimento urbano linear entre os aeroportos e as cidades que servem.
Deve‐se ter em vista que o modelo de Corredor‐Aeroporto não pode ser considerado uma solução consagrada e totalmente positiva pois, como lembra Shlaack (2009, p.117), "De um lado, o conceito de Corredor‐Aeroporto oferece o potencial de integrar sustentavelmente a área do aeroporto como um centro de desenvolvimento em regiões metropolitanas policêntricas e permite equilibrar os benefícios econômicos para as outras cidades, comunidades e atores envolvidos. Por outro lado, a conexão de infraestrutura central longitudinal para a cidade também pode se transformar numa barreira para uma estratégia de desenvolvimento urbano cruzado"[...]"Certamente o Corredor Aeroporto pode ser observado na realidade, mas uma vez implantado, ele fica limitado na sua atual forma espacial o que no caso de alguns aeroportos pode não oferecer uma solução flexível o suficiente para facilitar a análise de outras formas e padrões de desenvolvimento urbano ao redor de aeroportos".
Nesse mesmo raciocínio, Schaafsma (2005) lembra que Corredores‐Aeroporto são dependentes de três fatores indispensáveis para o seu adequado planejamento e implantação:
I. "Sinergia: deve‐se sempre atuar buscando criar sinergias entre os interesses da região da cidade, das linhas aéreas e do Aeroporto. Um dos objetivos é melhorar a posição da cidade no que se refere a sua capacidade de competir com outras pelo planeta mas ao mesmo tempo fazendo com que tanto o aeroporto quanto o Corredor Aeroporto sejam projetos sustentáveis ao longo do tempo;
II. Integração Espacial: Aeroportos Cidade e Corredores Aeroportos frequentemente se tornam enclaves espaciais. Para faze‐los mais do que áreas de trafego e para que se mantenha o apoio publico a projetos como esse os Corredores Aeroportos devem estar conectados física e socialmente
ao ambiente onde estão diretamente inseridos o que por si só já e uma forma de torna‐los mais sustentáveis e;
III. Governança: Para obter resultados, todos os atores diretamente alcançados por projetos dessa natureza precisam estar envolvidos no empreendimento. Desse modo, o poder do projeto e o apoio publico podem ser organizados. Corredores Aeroporto, que não são nem uma cidade nem uma região, são projetos de tem sua governação dificultada. É indispensável que todos os envolvidos, tanto no governo quanto no mercado e na região compartilhem o objetivo e possam participar do desenvolvimento." 1.3.2. REFLEXÕES A RESPEITO DOS MODELOS ANALISADOS Deve‐se esperar que tais modelos sofram modificações ao longo do tempo na medida em que se adaptem melhor às demandas de cada região, cabendo aqui ressaltar que o objeto principal dessa Dissertação não é defender ou atacar tais modelos, mas inicialmente buscar expor suas características principais e exemplos concretos que estejam aplicados em algumas regiões. Também tem‐se a intenção de que os modelos aqui tratados possam vir a ser abordados e incorporados aos planos diretores aeroportuários e municipais de modo a colaborar na organização, projetos, planejamento e nas interações entre a infraestrutura e a cidade.
Schaafsma (2005, p.4) colabora ao resumir os modelos da seguinte forma:
AEROPORTO‐CIDADE: desenvolvimento integrado de um aeroporto com empreendimentos imobiliários, ocorrendo dentro do sítio aeroportuário, tendo a sua administração exercida e planejada pela autoridade aeroportuária.
AEROTRÓPOLIS: empreendimento imobiliário privado, localizado próximo a um Aeroporto. Não integrado, próximo a ele, de grandes proporções, com usos mistos (trabalho, moradia, lazer e segurança) e incorporadores privados.
CORREDOR‐AEROPORTO: desenvolvimento imobiliário e de infraestrutura localizado entre o aeroporto e a cidade, com planejamento público e privado. Implica um maior envolvimento dos atores políticos e autoridades territoriais.
Pode‐se concluir então, que os modelos espaciais (ou modelos de gestão territorial) de aeroportos apresentados, de alguma forma representam evoluções ou variáveis sobre um mesmo tema: o aeroporto como infraestrutura articulada ao desenvolvimento urbano regional, beneficiando seus usuários diretos mas também aqueles que vivem ao seu redor.
Não importa qual dos modelos, observa‐se algumas características presentes em todos eles, que merecem ser destacadas. Dentre elas, o planejamento urbano de longo prazo parece ser o mais importante, pois se esta falando de uma infraestrutura relativamente grande para a região onde está localizada. Sem planejamento que integre e potencialize a infraestrutura, conciliando‐a com seus vizinhos e com os interesses públicos da região, o potencial de sucesso fica comprometido.
Não menos importante do que isso, é fazer com que esse planejamento prepare a região para, ao longo do tempo, ser suprida por infraestrutura de acessibilidade e conectividade de e para o Aeroporto, pois sem isso, quanto maior e mais rápido o sucesso do Aeroporto, mais rapidamente aquilo que poderia se transformar num benefício para a região, pode se tornar um nó logístico ou um problema de mobilidade grave.
Outra característica relevante, que precisa ser desenvolvida tanto nos atores privados quanto públicos envolvidos em projetos dessa natureza, são os instrumentos de permanente diálogo e correção de projetos, pois sem que se tenha a predisposição de fazer com que os impactos negativos sejam administrados continuamente, os riscos de geração de inconvenientes para atores atingidos pelos projetos aumenta na medida em que a infraestrutura se expande, podendo ser representados tanto como fatores limitadores para os Aeroportos, quanto por efeitos colaterais inconvenientes para a organização espacial e urbana da região, seus moradores ou usuários.
Não se pode deixar de mencionar que estamos falando de modelos, que funcionam bem isolados, quando tratados em âmbito teórico. Mesmo os mais renomados pioneiros, técnicos e defensores dessa temática são claros ao dizer que se tratam de modelos em andamento ou implantação, totalmente sujeitos a adaptações e a melhorias que ocorrerão e se comprovarão ou não 'legítimos' na medida em que as infraestruturas se tornarem realidade, tendo sido incorporadas ao debate urbano e ao funcionamento das cidades. Tais modelos, sugerem arranjos funcionais, ora concêntricos, ora lineares, etc. e cujos desdobramentos são temporais e condicionados à uma série de fatores locacionais.
Não resta dúvida que os Aeroportos mudaram junto com a sua importância para a economia e as regiões onde estão localizados. Também é certo que eles acabaram por ter que incorporar novos serviços até para que pudessem se tornar mais atrativos aos seus usuários, ampliando o escopo dos seus programas arquitetônicos e urbanísticos ao incorporar uma série de novas funcionalidades que até alguns anos atrás não eram consideradas.
Nesse contexto, tais modelos aqui apresentados nada mais são do que as primeiras respostas urbanísticas à essa reconfiguração do papel dos aeroportos no contexto das cidades, manifestadas espacialmente e fisicamente e que certamente ainda terão que passar pela comprovação prática da sua viabilidade operacional e de integração com as cidades, talvez o mais complexo desafio a ser superado tanto pelos operadores aeroportuários e usuários, quanto pelos gestores públicos envolvidos.