1. O AEROPORTO E A CIDADE E A CIDADE‐AEROPORTO: Novos Modelos na Atualidade
1.3. AEROPORTOS NA ATUALIDADE
1.3.1.2. AEROPORTO‐CIDADE
Como apontado anteriormente, a necessidade de uma nova orientação frente as mais novas dinâmicas mundiais, implicou na busca por diversificação de novas fontes de receitas aeroportuárias. Os gestores de aeroportos passaram a contar com receitas provenientes do lado terra (landside) e não mais somente das atividades diretamente relacionadas à aviação. Essa nova realidade fez com que novas atividades de comércio, serviço, negócios e lazer passassem a acontecer dentro e fora dos sítios aeroportuários.
O modelo de Aeroporto‐Cidade está fundamentado no fato de que, além do da sua infraestrutura e serviços aeronáuticos, os grandes aeroportos vêm desenvolvendo importantes instalações com atividades, serviços e fluxos de receita não‐aeronáuticos. 4 Mais informações em: "A Global Transpark in Brazil: Logistical Infrastructure for Competitive Advantage." Disponível em: <http://rae.fgv.br/sites/rae.fgv.br/files/artigos/10.1590_S0034‐75901998000200009.pdf> Acesso em março de 2013.
Ao mesmo tempo, eles estão expandindo seu alcance comercial e impactos territoriais e socioeconômicos muito além dos limites do aeroporto.
Para definí‐lo territorialmente, pode‐se dizer que o aeroporto‐cidade é um conjunto mais ou menos denso de atividades relacionadas ao aeroporto e seu funcionamento, assim como outras atividades comerciais e empresariais situadas na plataforma aeroportuária e seu entorno. Porém, este conjunto só receberá o nome de aeroporto‐cidade se tiver as características qualitativas de uma cidade, como densidade, acessibilidade, entorno e serviços. (GÜLLER e GÜLLER, 2002, p. 70)
Segundo Kasarda (apud Vasconcelos, 2007, p. 49), o nascimento da Cidade‐Aeroporto ou Aeroporto‐Cidade se deve basicamente a três fenômenos associados ao próprio crescimento do aeroporto e do tráfego aéreo:
I. Os principais aeroportos agora obtêm uma maior porcentagem dos seus lucros de fontes "não‐aeronáuticas" do que daquelas diretamente relacionadas à aviação;
II. A área do aeroporto desenvolve uma "marca" devido à qualidade urbanística e visual, próprias a esse equipamento de infraestrutura, atraindo inclusive empreendimentos não ligados à atividade aeroportuária;
III. O rápido desenvolvimento comercial dentro e nos arredores desses aeroportos torna‐os grande geradores de crescimento urbano, visto que as áreas aeroportuárias são grandes empregadoras de mão‐de‐obra, de compras e de negócios per si.
Os irmãos Güller (2002, p.70‐72) complementam ao considerar que o "conceito de aeroporto‐cidade também está relacionado com o desenvolvimento regional. Uma cidade aeroporto não se mantém isolada nos limites do aeroporto, mas forma parte de uma estratégia regional mais ampla, que se orienta em realizar a função que exerce o aeroporto nas redes de tráfego terrestres e pretende se beneficiar das atividades derivadas do aeroporto.” Comentam também que os aeroportos‐cidades mais
satisfatórios serão aqueles que conseguirem ser desenvolvidos de modo conjunto entre os gestores de aeroportos e as autoridades locais/regionais.
Com a expansão do papel convencional dos aeroportos, antes somente vistos como local de transbordo de passageiros e cargas, para locais com diversidade de atividades, oferta de serviços e geração de novas receitas, esse ambiente passa a atrair cada vez mais para o seu entorno diversos setores da economia em busca de locais acessíveis nas proximidades dos terminais. A essa nova forma urbana, resultante dessa dinâmica de atividades centradas no aeroporto e interligada com diferentes modais, pode‐se atribuir o termo Aeroporto‐Cidade.
Vale aqui comentar que, os diversos atores de alguma forma envolvidos nessa dinâmica, possuem perspectivas e ambições diferentes em relação ao significado conceitual de um Aeroporto‐Cidade (e isso também deve ocorrer nos outros modelos apresentados).
Para os planejadores urbanos e arquitetos, essa é uma manifestação espacial que oferece diversidade de possibilidades para projetos relacionados a requalificação de áreas, planos de zoneamento e uso do solo, acessibilidade, desenho urbano, etc. De acordo com os irmãos Güller (2002, p.143), os gestores do aeroporto compreendem a cidade‐aeroporto como uma estratégia de negócios e uma 'ferramenta' de marketing e procuram atrair atividades que complementem as suas operações, tanto funcional, quanto econômica. Sendo assim, buscam estratégias de grande alcance, que incluem o funcionamento do aeroporto e o desenvolvimento empresarial. As autoridades locais, por sua vez, têm as suas preocupações voltadas ao planejamento do uso do solo urbano seguro, principalmente em relação aos impactos negativos que o aumento do tráfego de veículos pode gerar. Porém podem estar dispostos a também tirar partido do desenvolvimento que se deriva do aeroporto, passando a compreendê‐lo como fator estratégico no planejamento regional. Às autoridades regionais/nacionais, cabe a garantia do bom funcionamento da operação do aeroporto e também a promover acessibilidade, preferencialmente, intermodal. Para os investidores e incorporadores, incluindo as subsidiárias do aeroporto, eles possuem uma visão pragmática, buscam clareza e segurança para seus investimentos e contam com a garantia de boas
condições do terreno, isto é, a sua acessibilidade geral e o acesso ao Aeroporto. Os
futuros inquilinos exigem cada vez mais entornos com melhor qualidade
(acessibilidade, infraestrutura, etc.). A proximidade com o aeroporto já não é um argumento suficientemente convincente. Por fim, os provedores de transporte (tanto as companhias aéreas como os operadores de transportes terrestres), tratam de otimizar seus serviços, inclusive criando empresas conjuntas para aproveitar as sinergias e promover a intermodalidade (na Europa por exemplo, isso se dá, entre empresas de transporte aéreo e ferroviário). Em contrapartida aos seus investimentos em infraestrutura, as empresas exigem uma parte nas atividades de desenvolvimento que foram possibilitadas através de seus serviços, como a exploração de locais comerciais dentro da estação do aeroporto.
Deve‐se atentar que uma visão apenas econômica e voltada às relações imobiliárias, tende a ignorar a dimensão urbana das áreas do entorno e a definir o Aeroporto‐ Cidade apenas como um agrupamento de funções econômicas ao redor do aeroporto.