Capítulo I A marcha do desenvolvimento tecnológico, o sofrimento do trabalho e as respostas
1.1 A ascensão do complexo gerencial taylorista-fordista
A primeira grande revolução tecnológica, já sob o imperativo das relações de produção capitalistas, foi profundamente analisada por Marx no séc. XIX, sobretudo no capítulo sobre a maquinaria e a grande indústria na obra O Capital. Marx analisou as características do sistema de máquinas que, dadas relações sob as quais foram subsumidas, guardam traços com as revoluções tecnológicas que aconteceram posteriormente e, por isso, sua compreensão torna-se imprescindível para que possamos fundamentar nossas análises. Diante disso, é importante não só a mera descrição das técnicas que essas revoluções promoveram, mas o contexto sob as quais foram impostas e, principalmente, quais os efeitos que causaram aos trabalhadores.
Desse modo, quando o pensador alemão analisou a revolução industrial percebeu que: 1 – as máquinas dispensavam a força muscular e tornavam possível a utilização de trabalhadores que fossem desprovidos de tais atributos para executarem as tarefas. Consequentemente, verificou-se o aumento da utilização das mulheres e, principalmente, das crianças na produção das grandes fábricas. 2 – Potencialmente capaz de encurtar o tempo de trabalho por aumentar a produtividade, a introdução da maquinaria foi, ao contrário, responsável pelo aumento da jornada de trabalho. Isso porque a construção de máquinas por máquinas, evento que consolida a grande indústria, barateava a produção do maquinário e, enquanto fossem introduzidas melhorias nas novas maquinarias fabricadas, estas passariam a concorrer com as já existentes, tornando-as potencialmente obsoletas tão logo fossem adquiridas. Ora, buscando se adiantar à depreciação do seu bem, o capitalista busca prolongar a jornada de trabalho, intensificando e maximizando muito o seu lucro: primeiramente porque a parte do capital despendida com máquina e construções permanece a mesma, ou seja, diminuem as despesas necessárias à extração da mais-valia; em segundo lugar, porque ela reduz o valor diário da força de trabalho, uma vez que barateia as mercadorias que entram em sua reprodução. Porém, responsável por eliminar parte do
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capital variável, a maquinaria obrigou o capitalista a não só aumentar a componente relativa da extração da mais-valia, como também a sua componente absoluta, uma vez que a extensão da jornada compensaria a ausência do contingente de trabalhadores dispensados1. Além disso, a força de trabalho dispensada pelas máquinas transformada em população operária excedente estaria compelida a aceitar a lei ditada pelo capital. 3 – Uma vez que a classe trabalhadora reage à extensão da jornada de trabalho, os capitalistas, forçados a limitá-la, passam a aperfeiçoar o sistema de máquinas, buscando elevar a componente relativa da mais-valia. Com o ritmo mais acelerado, o aumento da tensão e o preenchimento dos poros da jornada, se opera a “condensação do trabalho a um grau que só é atingível dentro da jornada de trabalho mais curta” (Marx, 1984, p. 32-33).
A introdução do sistema de máquinas foi possível graças a um conjunto de acontecimentos, tais como a utilização da máquina a vapor, responsável por substituir e ampliar consideravelmente a energia antes despendida por trabalhadores ou pela tração animal etc. e, portanto, eliminar barreiras naturais e dotar o homem de controle sobre uma fonte satisfatória de geração de energia, capaz de mover um conjunto de máquinas- ferramenta.
Ainda segundo Marx, a divisão manufatureira do trabalho foi igualmente decisiva, afinal ela forneceu o fundamento natural da divisão e, portanto, da organização do processo de produção. Portanto, antes da introdução da maquinaria, houve um processo de subsunção formal do trabalho ao capital que se operou devido à cooperação simples entre os trabalhadores, uma vez que a configuração daquela organização do processo de trabalho demandou um comando, seja para estabelecer a harmonia entre as atividades individuais, seja para manter o nível de exploração e a disciplina frente à resistência dos trabalhadores2. Ora, o disciplinamento técnico e político-ideológico do trabalho individual combinados
1 Como coloca o autor, a mais-valia é definida por dois fatores: a taxa de mais-valia e o número de trabalhadores simultaneamente ocupados. A aplicação do sistema de máquina é responsável por aumentar a taxa de mais-valia, ou seja, o grau de exploração sobre o trabalhador, porém, ela elimina o número de trabalhadores e, dessa forma, reduz o número global de tempo excedente extraído, obrigando o capitalista a aumentar também a jornada sobre o pessoal ocupado.
2 Tragtenberg (2006, p. 85) diz que “a maquinaria dessa nova divisão do trabalho é o trabalho coletivo, como continuidade dos trabalhos parciais. A especialização impede que o aprendiz passe a ajudante e este a companheiro; o trabalho como elemento de ascensão social implicará a educação permanente”.
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seria a formatação básica das relações de produção capitalistas que permitiria o advento do sistema de máquinas.
Foge da competência deste trabalho ir além dessas constatações de Marx acerca da maquinaria e da grande indústria. De qualquer forma, é importante notar que suas análises feitas desde a primeira grande revolução tecnológica não deixou dúvidas acerca do caráter predatório que as transformações organizacionais e as revoluções tecnológicas submetidas às relações de produção capitalistas potencialmente trariam para o trabalhador. Longe de libertar parte do tempo dos trabalhadores, as máquinas maximizavam a exploração e traziam outros problemas de caráter social, físico e mental. Portanto, o nivelamento das especialidades provocado pelo sistema de máquinas, que condenou o trabalhador por toda a sua vida a servi-lo, além de promover um novo tipo de divisão do trabalho, que provoca a exploração mais intensa (“mais repugnante”) do capital, foi responsável também por agredir “ao máximo” o sistema nervoso do trabalhador, bem como reprimir o “jogo polivalente dos músculos” e “confiscar a livre atividade corpórea e espiritual” (Marx, 1984, p. 43). Tal sistema coroava o percurso até então percorrido pelo capital que buscou, desde a cooperação simples, subsumir a força de trabalho aos seus imperativos.
Tal marcha, no entanto, não se esgotou ali e onde foi necessária tal subsunção o capital forjou as condições que a viabilizassem. O surgimento do taylorismo é um exemplo. Para Tragtenberg (2006), por exemplo, foi o aumento da dimensão da empresa no período da Segunda Revolução Industrial que levou as teorias sociais de caráter totalizador e global, como as de Marx (além de Sant-Simon e Fourier) a cederem lugar às teorias microindustriais de alcance médio, como as de Taylor. Tais teorias de alcance médio, para o autor, surgem da necessidade de organização da produção de grandes monopólios que buscam harmonizar as atividades individuais. Trata-se, portanto, de uma resposta teórica no campo da administração aos problemas colocados pelo advento dos monopólios.
As pesquisas de Taylor buscaram estabelecer padrões de movimentos nas atividades laborais tendo em vista maximizá-las, ou seja, racionalizar os tempos em que eram executadas. Para tanto, buscava limitar a atividade laboral dos trabalhadores a golpes e movimentos simples. A aplicação e a generalização da sua teoria foram responsáveis por operar a assimilação do saber artesanal pela gerência, submetendo-o à sua supervisão. A
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peculiaridade da organização científica pensada por Taylor, portanto, foi a generalização da aplicação de um modelo de organização da produção que se colocasse a altura das necessidades das grandes empresas. Ou seja, Taylor tornou possível generalizar a homogeneização das atividades laborais, tendo por base a divisão entre a concepção e execução do processo de trabalho e a otimização das tarefas parceladas. Desse modo, os princípios de Taylor foram decisivos na medida em que aperfeiçoaram muitos traços da subsunção real do trabalho ao capital e os tornaram cientificamente acessíveis, ou seja, seus esforços tornou universal a busca por padrões ótimos de movimentos. Como diz Dejours (1987, p. 38), por exemplo, Taylor
[...] só se detém na diversidade insólita dos modos operatórios para condenar os mais lentos, sem se interrogar sobre as razões desta variabilidade atribuída implicitamente à burrice ou à má vontade dos menos rápidos (...) Uma vez coligidos os diferentes modos operatórios, Taylor escolhe o mais rápido e, sobre este critério, declara-o “modo operatório cientificamente estabelecido”. Resta, daí para frente, impô-lo a todos os operários sem distinção de altura, idade, sexo ou estrutura mental.
O modelo de Taylor logo seria incorporado em diversos setores da economia norte- americana, cumprindo papel decisivo numa sociedade que, no final do século XIX e começo do XX, passava por profundas transformações econômicas. Afinal a gerência científica carregava enorme potencial para aproveitar as forças sociais do trabalho oriundas do campo que, por serem pouco ou nada qualificadas para exercerem funções complexas, poderiam, no entanto, serem aproveitadas para atividades simples, fosse nas fábricas dos centros urbanos ou nos diversos ramos em expansão na época, como as minas, ferrovias etc. O modelo também guardava potencial para disciplinar aqueles trabalhadores e os adequarem aos ritmos cientificamente estabelecidos.
As profundas transformações científicas, em especial as da engenharia, na segunda metade do século XIX, forneceu ao taylorismo um solo fértil para sua difusão e universalização. De acordo com Katz (1995, p. 17) o taylorismo “se nutre da estandardização da ciência, que acompanha a estandardização industrial. Pretende apresentar a objetivação do trabalho em um ‘fator de produção’, a codificação dos movimentos corporais e a maquinização do homem como aplicações da ciência ao mundo do trabalho”.
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Essa combinação entre uma pretensa gerência científica e a padronização da ciência aperfeiçoou os métodos de controle sobre o tempo do trabalhador, porém, não foi suficiente para obter seu consentimento. Até que a conjuntura política e econômica fosse alterada, a resistência àqueles métodos de gerência, que do ponto de vista do trabalhador não passavam de uma forma de torná-lo peça descartável, além de intensificarem a atividade desempenhada, colocou limites à sua aplicação. Os diversos episódios de conflitos abertos entre, de um lado, movimentos operários e, de outro, forças estatais repressoras e/ou paramilitares nas minas, ferrovias, fábricas nos EUA, demonstram o grau de descontentamento dos trabalhadores e a incapacidade do taylorismo, por si só, de obter seu consentimento.
Nem mesmo a política salarial de cinco dólares/dia adotada por Henry Ford anos depois bastou para operar tamanha mudança de ordem subjetiva que conquistasse a adesão do trabalhador ao seu modelo mecanizado de taylorismo. A capacidade criada pela engenharia, de fato, possibilitou que o fordismo assimilasse e expandisse o taylorismo, mas também incorporasse o descontentamento gerado com o novo modelo. A adoção de fiscais de comportamento e a supervisão militar no interior das fábricas foram claros indícios da vulnerabilidade e insuficiência da sua política salarial diante do modelo de produção adotado (Bernardo, 2008). Tanto nos EUA quanto na Europa, o crescimento dos sindicatos, mesmo dos reformistas, que concorriam com a vertente revolucionária do sindicalismo, era uma expressão da necessidade dos trabalhadores de se protegerem de um modelo explicitamente predatório que acompanhava a maquinização do processo de trabalho.
De qualquer forma, o taylorismo-fordismo mostrava-se altamente produtivo e ainda na década de 1910 já era responsável por alterar significativamente o panorama do mercado mundial, sobretudo o da indústria automobilística. A participação somente indireta dos EUA na I Guerra Mundial contribuiu para que, mesmo às vésperas e durante o conflito, a sua indústria de automóveis, em especial a Ford, concentrasse capital e expandisse seu mercado. Segundo Gounet (1999) a empresa, no período entre 1907 e 1919, elevou seu capital de 2 milhões de dólares para 250 milhões. Mesmo após o término do conflito, a Ford continuou expandindo seu mercado e em 1921 já era responsável por mais da metade de todos os automóveis do mundo. Somente em 1923 ela é superada como a primeira
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empresa automobilística, quando a General Motors a ultrapassa, após adotar o mesmo modelo de produção. Sua concorrente, agora ostentando ser a líder do setor, continuou a expansão de mercado. Ambas foram responsáveis por alterar definitivamente o panorama mundial da indústria automobilística, eliminando centenas de outras automotivas, tanto nos EUA quanto na Europa3.
A alta capacidade produtiva do taylorismo-fordismo, no entanto, iria se chocar com uma conjuntura adversa no período pós-I Guerra Mundial, transformando-o em um dos fatores responsáveis pelo desencadeamento da crise de superprodução dos anos 1920 e 1930. Segundo Bihr (1998, p.41), a conversão da crescente massa de mais-valia em máquinas e instalações, a limitada demanda por bens de consumo em relação à capacidade de produção, aliados à disparidade entre o crescimento da produtividade e o crescimento dos salários foram fatores que desencadearam o “boom especulativo” e o crash de 1929- 1930 que foi a “expressão direta no plano financeiro da crescente distorção entre as capacidades de produção acumuladas e a demanda solvente, que essa primeira tentativa de um regime com característica dominante intensiva não soubera desenvolver proporcionalmente”.
Longe de ser um episódio meramente econômico, no entanto, a crise dos anos 1920- 1930, foi tanto causa como consequência de um cenário geopolítico e político-ideológico instável. Hobsbawm (2003, p.108) a definiu como a “crise do liberalismo” que, segundo ele, provocou o colapso das instituições daquela sociedade, sobretudo por desencadear uma onda revolucionária na Europa que, longe de iniciar uma “rodada de revoluções sociais”, permitiu o fortalecimento da direita radical. A ascensão de movimentos autoritários cumpria uma dupla função, afinal eliminava a possibilidade de uma revolução aos moldes da Revolução Russa de 1917, ao mesmo tempo em que servia de justificativa para que o Estado ampliasse sua participação na economia, tanto através de investimentos públicos quanto através da criação de um pacto junto aos órgãos representativos da classe trabalhadora, buscando, com isso, uma saída conservadora daquele cenário.
3 Tal processo de concentração não foi exclusivo das automobilísticas. Em todos os setores, tanto nos EUA como na Europa, houve a constituição de trustes. Ver Lênin (1986).
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A ampliação do papel político e econômico do Estado estava na pauta da maioria dos governos, em especial na dos EUA, que saíra triunfante política e economicamente após a II Guerra. O rearranjo institucional do New Deal de Roosevelt, inspirado e coexecutado por Keynes, foi apresentado como uma solução pretensamente democrática em meio à forte onda autoritária e que agradou inclusive setores da esquerda. Porém, tratava-se claramente de uma saída para recuperar a economia capitalista de sua crise (liberal), solapada pelas duas guerras e uma longa depressão, além de afastar do horizonte qualquer ameaça comunista (Harvey, 1993; Hobsbawm, 2003).
Na esteira das transformações institucionais e econômicas do pós-guerra esteve o amadurecimento do complexo gerencial fordista4. Segundo Harvey (1992) após esse amadurecimento, o capitalismo criou bases reais para sua expansão/acumulação tendo como um dos pilares a demanda efetiva por carros, navios, aço, borracha, petroquímica etc. além da renovação urbana e infraestrutural levada a cabo pelo Estado empreendedor. No entanto, a derrota dos movimentos radicais que ressurgiram após a Segunda Guerra foi decisiva para a consolidação do modelo fordista-keynesiano, que desde então se difundira para toda Europa, uma vez que, sem o consentimento dos operários, não havia qualquer possibilidade de estabelecer um modelo minimamente estável, onde os trabalhadores pudessem aceitar o exercício de atividades repetitivas e monótonas em longas jornadas. Portanto, para consolidar uma política trabalhista de contrapartida a um modelo de produção altamente hierarquizado, penoso e destituído de qualquer sentido, foi necessário estabelecer as bases institucionais que velassem tais contrapartidas, ou seja, um pacto com os representantes dos trabalhadores, os sindicatos reformistas, que vieram se consolidar como agências de regulação salarial que protocolavam acordos de produtividade. Harvey (1993, p. 128), sobre os sindicatos norte-americanos, por exemplo, diz que estes
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Harvey (1993) define o complexo gerencial fordista como um conjunto de relações que, a partir do modelo de Henry Ford, seriam necessárias para a sua consolidação, sobretudo a partir da perspectiva do seu mentor. Para o autor, Ford tinha um sonho “regulamentacionista” que só se tornou possível quando o New Deal veio à tona e abriu a possibilidade de superar o seu principal obstáculo, a saber, a relação de classes, ou a hostilidade da classe trabalhadora à rotinização e à intensificação do seu trabalho. Para Ford não bastava somente a disciplina do trabalho e o controle sobre ele de modo a produzir mercadorias em massa. Eram necessárias também as condições para o consumo de massas, um sistema de reprodução da força de trabalho, uma nova política de controle e agenciamento do trabalho, uma nova estética, uma nova psicologia, “em suma, um novo tipo de sociedade democrática, racionalizada, modernista e populista” (Harvey, 1993, p. 122).
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[...] preservaram algum controle dentro das fábricas sobre as especificações de tarefas, sobre a segurança e as promoções e conquistaram importante poder político (embora nunca determinante) sobre questões como benefícios da seguridade social, salário mínimo e outras facetas da política social. Mas adquiriram e mantiveram esses direitos em troca da adoção de uma atitude cooperativa no tocante às técnicas fordistas de produção e às estratégias corporativas cognatas para aumentar a produtividade.
Já Bihr (1998, p. 44), ao analisar não só os sindicatos norte-americanos, mas também os europeus, fala em um processo de integração do movimento operário, pelo qual eles, os sindicatos, se tornaram uma “engrenagem do poder capitalista, inclusive em sua capacidade de se opor a ele e de limitá-lo”, conservando alguma autonomia, mas fundamentalmente subordinado ao capital. Tal processo, que o autor entende ter sido necessário para um regime de acumulação intensivo como o fordista, supôs que os órgãos constitutivos do movimento operário (partidos, sindicatos, associações) fossem legitimados como interlocutores de suas bases ante aos capitalistas individuais e ao Estado e, assim, autorizados a estabelecerem negociações coletivas. Dessa forma, essas organizações foram “progressivamente integradas aos aparelhos de dominação do capital sobre o proletariado e sobre toda a sociedade (desde a empresa até o Estado), tornando-se verdadeiros cogestoras do processo global de reprodução do capital” (Bihr, 1998, p. 45). Portanto, o que o autor entende como uma “estrutura mediadora do comando do capital sobre o proletariado” foi parte integrante do modelo gerencial fordista que servia ao propósito de se antecipar e inibir os conflitos que pudessem ameaçar as bases do compromisso.
Desse modo, o que Harvey (1993) denominou fordismo-keynesianismo, e que guarda similitudes com o que Bihr (1998) denominou de compromisso fordista, consiste na acoplagem do complexo gerencial taylorista-fordista com o compromisso selado com as organizações dos trabalhadores, mediado pelo Estado, que não aconteceu sem resistência e que não foi isenta de contradições e limites. Mas que, por outro lado, permitiu a consolidação daquele modelo de produção e a configuração de uma “figura hegemônica no seio do proletariado ocidental: a do operário-massa” (Bihr, 1998, p. 56).
Renunciando ao seu papel histórico, o movimento operário do período pós-II guerra viveu uma etapa de massificação expressa não só nos processos de trabalho, uma vez que o taylorismo-fordismo nivelou suas capacidades e habilidades, mas também expressa nas
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normas de consumo que foram estandardizadas. O aumento dos salários reais, os ganhos de produtividade, as garantias dos acordos coletivos, o acesso ao crédito e as políticas de seguridade social, tornaram possível o acesso do proletariado ao consumo em massa. O surgimento do operário-massa foi responsável por operar uma mudança na configuração não só social, mas ideológica e espacial no seio do operariado. Ainda segundo Bihr (1998), esse operário está concentrado num espaço urbano, que contrasta com a sua dispersão geográfica do período anterior e que expressa uma perda da identidade de ofício, embora revele sua força numérica e social e, com isso, recomponha sua consciência. Porém, esse operário é atomizado e orientado por comportamentos padronizados de consumo; são consumidores anônimos e indivíduos isolados recuados para o convívio familiar e, portanto, subdivididos pela configuração de um modelo de produção que enfraquece as redes de solidariedade. São ainda indivíduos inertes, rígidos, em virtude da perda da autonomia no processo produtivo e pela dependência do salário e do mercado capitalista.
Com o taylorismo-fordismo, a marcha do desenvolvimento gerencial/tecnológico impôs à classe trabalhadora uma nova etapa que consistiu em um trabalho ainda mais penoso, com longas jornadas, atividades ainda mais empobrecidas e, para que conseguisse o mínimo do seu consentimento se apoiou em uma estrutura mediadora limitada a garantir níveis salariais e outros benefícios como contrapartida àquele modelo de produção. Conforme Bihr (1998), isso fez com que parte do movimento sindical e operário renunciasse ao seu dever histórico, em troca do consumo massificado, aceitando, com isso,